Minha Querida Helena,
A agitação da
última dezena de dias retirou-me o tempo, a concentração e a sensibilidade
necessários para te escrever e para que o que te quisesse transmitir fizesse
sentido. Estive nesse investimento de corpo inteiro e se, por um lado, me senti
vivo, por outro lado, esgotei-me num projecto em que sempre achei deverem estar
outros. A intriga, a cumplicidade de medíocres, a falta de coragem e a
incompetência convergiram para me tirar de cena, o que, se me traz alívio,
traz-me, no mesmo passo, uma raiva enorme. Sempre me custou ver triunfar os
medíocres e os incompetentes!
Depois de,
durante uns poucos dias, ter-me sentido vivo, receio agora retornar à minha agonia.
Até porque viver custa e as energias que nesse esforço são gastas dificilmente
são repostas. A ver vamos.
Ao jeito de
compensação, tive a alegria de te ver jovem outra vez, nesse teu arranjo de
cabelo que demorou tanto que me pareceu uma eternidade. Ainda bem que
abandonaste a tua obsessão de te apresentar infeliz para fazer bem presente aos
outros - especialmente a mim - a tua insatisfação. Minha querida: a
infelicidade não precisa de ser cultivada; nasce espontaneamente de qualquer
solo. O que necessita de ser cuidado é o gosto de viver. Jovem outra vez, minha
querida!
Esse corpo e
alma rejuvenescidos não são, entretanto, é bom que tenhas isso presente, fato
que se use e se pendure no guarda-roupa a aguardar a estação homóloga seguinte.
São fato de todo o ano. Só assim me reconheço na minha Helena. Só assim
reconheço o meu amor.
Pese embora o
episódico retorno à vida de que te falo a abrir esta mensagem. Não tenho a
capacidade de me renovar que tu possuis. Gostava da ter, digo-te. Gostava da
ter por quanto a mereces. Não sendo assim, fico a desejar colher de ti a força
que sinto que me escapa.
José Cadima
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