Sábado, Junho 02, 2012

Ao longe

“Ao longe os barcos de flores”.
Ao longe os barcos do amor.
Ao longe, por dois largos pares de dias,
num lugar remoto,
o meu ponto de encontro,
o meu espaço de fuga.
É irónico que, na mesma data em que te ausentas,
eu parta também, em direção oposta,
como se o nosso espaço de convívio quotidiano
não fizesse sentido
quando não o habitamos juntos.
Coincidência? Destino? Acaso?
Talvez isso seja sinal
de que, doravante, partir só ganha sentido
quando possamos partir ambos.
Juntos pelo acaso?
Juntos pelo destino?
Juntos, contemplando extensos campos de morangos,
para sempre,
ou, algumas vezes, de malmequeres
de diferente coloração,
ora amarelos, ora brancos,
ora verdes, como deviam ser todos.
Deveriam ser todos, sublinho,
ou, pelo menos, os que são carregados
pelos barcos de flores
que, de quando em quando, da costa
enlaçados, perscrutamos  no mar,  ao longe.

José Cadima

Quinta-feira, Maio 31, 2012

Notícias acabadas de chegar de um outro Continente, e de um lugar remoto

"Conseguimos, finalmente, um computador, que ao fim de várias horas se ligou à net. Adicionalmente, estou sem rede no telemóvel.  Estamos tão isolados que não dá para nada, mas somos 200 pessoas."

K

Quinta-feira, Maio 24, 2012

De volta a ´Sonhos a Um Espelho`: "Mais um grito"

É noite e está frio.
Sinto mais um arrepio.
Faltam-me palavras para expressar
sentimentos que alguém ousou roubar.

De olhos quase vidrados,
olho lá para fora,
guardo minha alma aos bocados,
que tenta ir-se embora.

De verdade, tenho medo,
não encontro consistência nas palavras,
enquanto perco proximidade a um qualquer conto de fadas.

Então grito
até sair tudo de mim:
frio, medo e pozinhos de perlimpimpim.


José Pedro Cadima (2009), Papiro Editora, Lisboa, p. 38