sexta-feira, janeiro 31, 2025

Minha Querida Helena (53)

Minha Querida Helena,

Escrevo-te estas linhas acabado de chegar da rua, onde fui para te telefonar. Não foi uma experiência traumática como muitas vezes tem sido, se bem que não deixasses de me falar da coincidência dos teus sonhos com aquilo que tu leras em carta minha acabada de receber (com significativo atraso, convenhamos). A coincidência está na tua vontade de ver intuições nos sonhos que tens e em nada mais, digo-te.

Contrariando o que vem sendo comum neste enredo – sublinho – gostei de ouvir a tua voz, como já tinha gostado ontem. Num e noutro caso, julguei reconhecer a voz (e a expressão) da mulher com quem passei a tarde de 5ª feira pp. e, particularmente, pareceu-me vislumbrar a voz que associo à emoção de um abraço no meio do areal de uma praia que era só nossa. Foi um abraço que já não cria possível. Foi um abraço que não se esquece, pelo que diz.

Julgavas tu, admitia eu que a nossa relação se alimentava de encontros e desencontros; talvez mesmo de rotinas. Aquele abraço na praia veio dizer que a nossa afectividade se funda numa identidade subjectiva que as palavras e as rotinas só podem perturbar. Se assim não fosse, como poderia tamanha identificação exprimir-se do mesmo modo que a senti há tantos anos, pese embora todos os encontros e desencontros porque passámos desde então? Não há forma de fugirmos de nós mesmos! Também, porque o haveríamos de fazer?

Escrevo-te esta carta depois de uma tarde calma, passada entre o jornal e o texto cuja revisão da tradução estou a fazer. É uma tarefa morosa e desgastante que preciso intercalar com a leitura do jornal ou com uma simples deslocação à casa de banho. De facto, vezes há em que a ida à casa de banho se sugere em razão de uma necessidade psicológica mais que de necessidade fisiológica. Neste caso, a deslocação é curta. Noutros é mais longa, mas a casa de banho sugere-se-me um bom destino para uma deslocação breve, num caso e noutro. A ir à rua, correria o risco de experimentar frio e o incómodo de não saber que destino tomar. Sendo deste jeito, o destino é seguro e o desconforto oferece-se bastante limitado.

Daqui passarei directamente para a cama, onde também nem sempre fico confortável. Hoje, porém, fico na expectativa de sonhar contigo. Se isso vier a acontecer, sei que será um sonho agradável, bem diferente daquele a que te referiste na nossa breve comunicação telefónica.

Recebe um beijo grande e um chicoração deste que tanto te quer.

 

José Cadima

quinta-feira, janeiro 30, 2025

Minha Querida Helena (52)

Minha Querida Helena,

Sinto-te de novo longe. Não que procures tomar distância face a este teu admirador mas, simplesmente, no sentido em me falta a tua presença e o teu carinho. Coisas de alguém carente que passa o comum dos dias correndo entre lugares e/ou entre coisas e gostaria, antes, de ter ocasião para tomar o sabor de uma leitura descontraída, de uma conversa com um amigo ou de um olhar do mar, esquecido de que existe outro ritmo que não o das ondas num dia de acalmia.

Para piorar as coisas, tenho a sensação de que gasto o tempo a fazer coisa nenhuma, isto é, avaliando os resultados de um dia, após outro, sugere-se-me ter produzido coisa nenhuma. Pelo menos, a revisão da tradução para inglês do texto que encetei na 2ª feira não progrediu ainda, e é já o termo de 4ª feira. Entretanto, tarefas planeadas para lhe sucederem aguardam, sendo que tarefas há que se mantêm em agenda desde o meio do Verão, não sendo certo ainda o momento em que terão a sua vez.

Nalguma dimensão, conjugar-se-ão para este efeito uma ineficiente gestão do tempo, uma deplorável perda de energia, quando confrontado com melhores dias, e uma manifesta incapacidade de dizer não a solicitações externas que encaixam nas prioridades de outros mas não nas que eu deveria ser capaz de definir para mim. Pelo menos estas razões, digo. Falta-me tempo para mim (que gostaria de partilhar contigo) e sobra-me tempo usado a responder a prioridades alheias ou, nalgumas situações, a reagir a coisa nenhuma.

Pelo que digo, não estranharás que te sinta longe, como não te surpreenderá a saudade que sinto dos teus braços. Não falo do repouso do guerreiro já que, se o fui nalguma ocasião passada, não me reconheço nessa figura na actualidade. Refiro-me, tão só, ao homem fatigado e descrente de hoje que reclama a urgência de um porto de abrigo.


José Cadima

quarta-feira, janeiro 29, 2025

Minha Querida Helena (51)

Minha Querida Helena,

Volvidas que são as conferências e outras urgências, tento voltar para ti. Tento, digo, porque retomar o “romance” não é apenas uma questão de querer; é muito mais uma coisa que releva do ser.

Nessa busca do íntimo, recordo primeiro a troca de palavras sem sentido que ontem mantivemos. Odeio falar contigo ao telefone e, sabendo-o, tu pareces querer que eu odeie cada dia mais: explica-me lá porque misteriosa razão, conhecendo eu alguém, não posso deixar de conhecer a tia desse alguém, a sobrinha e, ainda, o enteado? Não fazendo sentido que essa ideia releve de qualquer encadeado razoável de circunstâncias, quando me atiras com esse arrazoado só poderás estar a querer gozar comigo ou, o que vai dar no mesmo, a pretender irritar-me - sabendo-me ao telefone. É mais um incentivo para que não te ligue. De tanto insistires, acabarás por ser sucedida no teu intento de pôr termo a esse tipo comunicação entre nós.

Do telefone, volto para os meus pensamentos e deles para a sede que me ficou de soltar a raiva resultante. Nessas alturas pode-se fazer qualquer coisa: até achar que não há mais espaço para o romance. Ganhar distância, remeter para o domínio do ficcional palavras trocadas que nunca deveriam tê-lo sido é a outra opção. Não é nunca fácil, não obstante. Só dando tempo ao tempo se viabiliza que o romance se sobreponha à raiva e a saudade emirja, leve, primeiro, com intensidade maior, depois.

Nessa altura, nesta altura já te sinto o rosto pousado sobre o meu colo, já sinto a tua pele sedosa nos meus dedos enquanto a minha mão percorre as tuas costas, encalhando nas costuras das tuas roupas. Estou de volta para ti, mas nem por isso deixo de me questionar se não será hora de partir para sempre de cada vez que a minha mão encalha nas costuras das roupas (ou as minhas palavras trocadas contigo ao telefone na tua obsessão de transformar cada telefonema que te faço num abismo sem fundo). A mão vai fazendo caminho pela pele sedosa; para lá das costuras insinua-se um estremeção de excitação e a resistência quebra-se. Estou de volta ao romance, estou de novo contigo, aconchegando-me no teu peito.

Porque não dura sempre este nosso romance, meu amor?


José Cadima

terça-feira, janeiro 28, 2025

Minha Querida Helena (50)

Minha Querida Helena,

Ontem não te telefonei. Resta-me esperar o pior quando te falar hoje. Não me direi preparado para o que me dirás, ou talvez não digas, embora devesse estar. Fiquei-me pela condição de explicador/tutor e ousei quebrar uma rotina que uns dias me faz bem e outros muito mal.

Anseio, entretanto, reencontrar-te. Reencontrar mesmo, digo, minha querida: reencontrar-te nos meus braços; apertar-te contra o meu peito. Anseio o calor dos teus beijos e o aconchego do teu corpo.

Neste intermeso, entretenho-me com as conferências que modero (hoje, na ACB) ou em que sou palestrante (amanhã, em Galegos, iniciativa da ACIB). Em relação a esta última, mantenho a expectativa sobre que assistência vou encontrar e, nesta hora, assiste-me ainda a incerteza sobre o que direi. Não é que me falte assunto. Pelo contrário, é a vastidão das opções que me tolhe; isso e a conveniência ou inconveniência de ser politicamente correcto, sabido o desconforto com que lido com a incompetência, técnica e política, e a acomodação e falta de arrojo.

Agora que reparo nas horas, incomoda-me igualmente o pouco tempo que tenho para fechar esta carta. Fechá-la, quer dizer, interromper o romance que são estes momentos de abandono, de confidência em que só tu e eu contamos, juntinhos como não é possível estar mais. Se bem que a quebra seja sempre penosa, anima-me a certeza de poder a qualquer momento retomá-lo.

Até lá, meu amor!


José Cadima

segunda-feira, janeiro 27, 2025

Minha Querida Helena (49)

Minha Querida Helena,

A correria em que tenho andado não me tem dado tempo para um momento de intimidade contigo, aqui ao computador. Não se poderá dizer que tenha usado o meu tempo de forma muito produtiva, de trabalho que se veja, mas o que é seguro é que o tempo me tem escorrido por entre os dedos. Quando aqui chego, o dia vai já demasiado adiantado ou eu estou saturado demais para que as palavras fluam e o raciocínio se ofereça escorreito. Aliás, nalgumas das linhas que te dirigi em ocasiões passadas isso é perceptível nas gralhas que restam ou nas palavras que se perdem.

Lutando contra este andar dos dias, estou agora à procura da serenidade que me falta, recordando as palavras que esta tarde me dirigiste, pelo telefone, e o apelo que nelas se percebia. Recordo isso e lembro a tarde absurda que passei em tua casa no domingo, depois de quase teres recusado abrir-me a porta. O absurdo resulta do estado psicológico em que fui encontrar-te, que só não me apanhou de todo desprevenido porque me deparei antes com algo próximo. Entretanto, o inesperado do sucedido deixou-me tão desamparado quanto outras situações que atravessei.

Dizes tu, minha querida, que me adoras. Mas, pergunto eu: se me adoras, não tens aí uma razão forte para lutares contra as tuas fraquezas físicas e psicológicas, ao invés de soçobrares logo que a porta se fecha nas minhas costas? Se me adoras, porque te sinto eu tão distante, conforte te tenho dito nas minhas cartas (não querendo sequer invocar o que sucedeu em Agosto)?

Eu também te adoro e disso te vou dando notícia em todas e em cada uma das cartas que te escrevo, e na vontade de que te dou notícia de te ver assumir o teu dia-à-dia com vontade e esperança. Preciso dessa tua garra e esperança para que eu possa, igualmente, agarrar a vida com algum entusiasmo. Se me falhas, como me faltaste no domingo pp., falha-me a alegria que me resta e sobra-me o sentido de não deixar que mais ninguém (especialmente, os meus filhos) me acuse de não ter alcançado o que podia alcançar porque eu lhe faltei. Não é justificação para uma vida, no entanto. Assim o entendo!

Vêm até mim, meu amor. Abraça-me, forte!


José Cadima 

domingo, janeiro 26, 2025

Minha Querida Helena (48)

Minha Querida Helena,

Se há dias em que não devemos sair de casa, este foi para mim um deles. Só que tudo começou por correr mal em casa, do “periférico” do computador que avaria e que não parece ser possível adquirir em lado algum ao correio electrónico que se revela difícil de visualizar. Para terminar em desgraça completa, até o presente acabado de adquirir veio com defeito. Como saldo do dia, ficou cansaço e irritação e uma mão cheia de nada, se se considerar o trabalho que estava por fazer e o que efectivamente foi feito.

Em consonância com o demais, pelo telefone soube que te sentias doente, o que não se tratando de novidade, infelizmente, também em nada ajudou ao meu dia. Vou ficar a aguardar com ansiedade o dia em que me digas exactamente o oposto, isto é, que te sentes em boa forma e nada te apetece mais que sair à rua e deixar passar para quantos se cruzem contigo a alegria que se te estampa nos olhos e se percebe na leveza dos teus gestos.

Dentro do expectável, a deslocação a Lisboa até nem correu mal: uma noite calma no hotel, quer dizer, razoavelmente dormida; uma reunião com alguns pontos de interesse, sublinhada por duas intervenções na discussão dos dossiês em agenda que não deslustraram; uma viagem de combóio serena e no horário, na ida e no regresso; a comodidade dos novos comboios que circulam na linha renovada Braga-Lisboa (mais renovada em Braga que em Lisboa). Para ser melhor, bem melhor, teria que se ter concretizado a tua “promessa” de me acompanhares. Mas a “promessa”, desgraçadamente, não passou disso, de promessa. Fica para a próxima, não é minha querida?

Pela minha parte, não me esquecerei de te dirigir novamente o convite na vizinha oportunidade, e na oportunidade vizinha da vizinha e nas ocasiões seguintes, até que te canses de recusar os meus convites e decidas aceitar um.


José Cadima

sábado, janeiro 25, 2025

Minha Querida Helena (47)

Minha Querida Helena,

No contexto intimo proporcionado por estas cartas, tenho que te exprimir a minha perplexidade por algo que se vem passando ultimamente, que não sei interpretar na sua plenitude. Vamos aos factos:

i)               primeira situação – convido-te para saíres comigo: a tua reacção é, na aparência, de agrado para, logo depois, comentares que há muito não te dirigia semelhante convite; curioso é que, mesmo após insistência dois dias depois, continuo sem resposta;

ii)             segunda situação – passar a noite em tua casa: na semana passada convidaste-me para jantar contigo num dos dias, planeando eu permanecer essa noite contigo; tudo corria com normalidade até à véspera do dia aprazado; nessa altura dás-me notícia de não te sentires bem, fazendo-me sentir a inconveniência de manteres o convite para o jantar; não falamos na conveniência ou não de eu pernoitar em tua casa, retirando eu do que disseras a ilação da falta de oportunidade; dois ou três dias depois, quando o assunto é ventilado, exprimes surpresa por eu ter considerado dormir em tua casa pese o teu mal-estar;

iii)           terceira e derradeira situação – a porta que se abre ou não abre: chegado ao teu prédio, toco a campainha e o mecanismo de abertura automática não funciona; embora noutra porta, este incidente repete-se pela terceira vez, pelo menos; comentário teu posterior: “Como não queres ser visto à minha porta, não a accionas em devida altura razão porque ela não abre. Ainda há minutos a abri ao A.”; salvaguardada a riqueza de detalhes, este já havia sido o comentário produzido em ocasião precedente (pelo menos, os sujeitos invocados foram os mesmos).

Querendo entrar em situações mais intimas, outros desencontros podiam aqui ser enunciados para induzir a mesma conclusão: qualquer coisa se passa contigo que não tens querido ou sabido explicitar mas que, bem vistas as coisas, dá notícia do teu desconforto ou desinteresse na continuidade da nossa ligação afectiva. Se não é o caso, então és tu que estás a atravessar uma fase profundamente desastrosa na forma como comunicas comigo, o que, para além de lamentável,  precisa de ser corrigido de pronto.

Talvez se passe contigo, minha querida, algo idêntico ao que sucede comigo, isto é, tenhas perdido o jeito de falar. Resta-te então a solução que eu encontrei e de que esta carta é expressão plena. Quero eu dizer: escreve-me ou comunica comigo por gestos ou por qualquer via alternativa que se te ofereça mas, Helena querida, não deixes de me dizer o que te vai no coração ou na alma. Por mais que isso me possa ser penoso, sobretudo não permitas que o nosso amor (ou a sua memória, quiçá) naufrague nesta maré de ambiguidades e sentimentos mal expressos.

Faz-me isso, minha querida Helena, mesmo que seja o último desejo que me satisfaças!


José Cadima 

sexta-feira, janeiro 24, 2025

Minha Querida Helena (46)

Minha Querida Helena,

Retomo hoje o tema da carta que era para te ter escrito há dois ou três dias e que a conjugação do cansaço, primeiro, com a urgência de finalizar um relatório, depois, impediram que te tivesse escrito na devida altura, isto é, a quente. O tema é, nem mais nem menos, quanto eu detesto conversar contigo ao telefone; especialmente contigo.

Explico: uma coisa é poder comunicar contigo via telefone, poder questionar-te sobre o teu estado de saúde e/ou o teu humor, ou acertar contigo a que horas te vou ou não ver, outra é conversar; sendo certo que tu pareces tomar como substitutos uma conversa frente a frente ou através do telefone. Assim me parece a atender quer ao tempo que usualmente tomam as tuas ligações telefónicas quer à facilidade com que tu assumes tratar nessa instância qualquer tema. Cumpre que te diga que nunca fui grande amante do telefone. Todavia, a minha vivência contigo levou-me a odiar as conversas ao telefone. Terás presente que essa foi a via que preferiste sempre que me quiseste maltratar; e fizeste-o algumas vezes.

As conversas ao telefone parecem ter a conveniência de te permitirem abstrair que do outro lado da linha está alguém igualmente com emoções, e a vantagem de viabilizar que interpretes o que te dizem como te apetecer na ocasião, sem o risco da verificação da legitimidade da leitura feita do que disse o outro. Curiosamente, em conversa pessoal directa és muito menos levada a tomar essa atitude, embora as circunstâncias não pareçam claramente distintas, se descontarmos a presença física do interlocutor e a suposta maior liberdade em termos do tempo da conversa. Admito que a força da presença do interlocutor (neste caso, eu) faça toda a diferença.

Diferentemente, eu prefiro as palavras escritas. Também são passíveis de ser interpretadas mas a liberdade de leitura que viabilizam é muito menor, além da existência do próprio registo. Dizer que te amo, desse modo, só pode querer dizer isso mesmo. Dizer que detesto conversar contigo ao telefone quer dizer que me causa desconforto, me suscita as piores apreensões, e quer dizer que guardo recordações sombrias de outras conversas telefónicas. Tu podes pretender o contrário, podes até prometer que não voltas a repetir situações infelizes passadas, mas eu desconfiarei e terei sempre para te mostrar as letras com que, adiante do teu nome, escrevi a palavra amor.

 

José Cadima

quinta-feira, janeiro 23, 2025

Minha Querida Helena (45)

Minha Querida Helena,

Ensaio estas primeiras letras acabado de chegar de tua casa. Encontrei-te doente e tristonha, como seria razoável de esperar de alguém que se encontre com a saúde abalada. Em abono da verdade, devo dizer que já te encontrei em pior estado, mesmo menos doente.

Da parte da tarde e da noite que passei em tua casa, retenho um sentimento ambíguo, de um encontro sem sal nem pimenta, talvez por isso calmo. Custa-me, no entanto, admitir que vi numa tarde mais televisão que a que vejo habitualmente em vários meses. Nota que não considero neste cômputo o futebol, que não é televisão no sentido próprio do termo. Sentado no sofá, frente à televisão, senti alguma tranquilidade mas, também, desconforto: o desconforto de um uso desqualificado do tempo; o incómodo de uma espécie de esposo que para ali está à espera que lhe sirvam o jantar. Tu sabes quão desconcertado eu fico nesses papéis. Como quer que seja, foi tudo mais ou menos, se pusermos de lado o teu mal-estar físico.

Este dia poderá ter sido o pronuncio de uma semana que antecipo ou desejo pouco agitada, porque as semanas agitadas, se nos trazem vida, trazem-nos, de idêntico modo, desgaste. E desgaste já tenho quanto baste. Não é que eu, a poder escolher, escolhesse a tarde sensaborona que tive mas, tratando-se da semana, talvez seja mesmo a que me convém nesta altura. A ver vamos se me sobra espaço e concentração para dar seguimento ao trabalho que venho adiando, há semanas.

O trabalho, como tu sabes, é uma componente essencial do meu equilíbrio. Algumas vezes, é mesmo todo o suporte do meu equilíbrio psicossomático, o que, contraditoriamente, não deixa de ser uma circunstância infeliz. Nesta ocasião, queria no entanto retornar ao trabalho sereno e, serenamente, construir o texto e a reflexão teórica que o texto esboçado precisa. A ver vamos se lá vou chegar. Pelo menos, o dia que agora tem termo afigurou-se sereno, se bem que sensaborão.

Pena que a minha Helena se encontre adoentada e tristonha. Amanhã hás de sentir-te melhor!


José Cadima

quarta-feira, janeiro 22, 2025

Minha Querida Helena (44)

Minha Querida Helena,

A agitação da última dezena de dias retirou-me o tempo, a concentração e a sensibilidade necessários para te escrever e para que o que te quisesse transmitir fizesse sentido. Estive nesse investimento de corpo inteiro e se, por um lado, me senti vivo, por outro lado, esgotei-me num projecto em que sempre achei deverem estar outros. A intriga, a cumplicidade de medíocres, a falta de coragem e a incompetência convergiram para me tirar de cena, o que, se me traz alívio, traz-me, no mesmo passo, uma raiva enorme. Sempre me custou ver triunfar os medíocres e os incompetentes!

Depois de, durante uns poucos dias, ter-me sentido vivo, receio agora retornar à minha agonia. Até porque viver custa e as energias que nesse esforço são gastas dificilmente são repostas. A ver vamos.

Ao jeito de compensação, tive a alegria de te ver jovem outra vez, nesse teu arranjo de cabelo que demorou tanto que me pareceu uma eternidade. Ainda bem que abandonaste a tua obsessão de te apresentar infeliz para fazer bem presente aos outros - especialmente a mim - a tua insatisfação. Minha querida: a infelicidade não precisa de ser cultivada; nasce espontaneamente de qualquer solo. O que necessita de ser cuidado é o gosto de viver. Jovem outra vez, minha querida!

Esse corpo e alma rejuvenescidos não são, entretanto, é bom que tenhas isso presente, fato que se use e se pendure no guarda-roupa a aguardar a estação homóloga seguinte. São fato de todo o ano. Só assim me reconheço na minha Helena. Só assim reconheço o meu amor.

Pese embora o episódico retorno à vida de que te falo a abrir esta mensagem. Não tenho a capacidade de me renovar que tu possuis. Gostava da ter, digo-te. Gostava da ter por quanto a mereces. Não sendo assim, fico a desejar colher de ti a força que sinto que me escapa.


José Cadima

terça-feira, janeiro 21, 2025

Minha Querida Helena (43)

Minha Querida Helena, 

Depois de ter tido este fim de tarde uma visita que me incomodou, chegou a ocorrer-me a ideia de ir procurar nos teus braços o conforto de que me sinto carente. Desisti depois de me lembrar que tinha jantado ontem contigo e nem por isso me tinha sentido especialmente confortado. Como não fazia sentido fugir daqui à procura de refúgio e, de seguida, retornar na busca de refúgio aqui, abandonei a ideia e optei por me recolher na escrita. Conforme tive de oportunidade de te dizer, as tuas cartas trazem-me alguma acalmia e, na hora que corre, preparam-me para o sono.

Não digo que tenha havido ontem algum incidente. Simplesmente, atravessara um dia com algum mal-estar físico, a juntar a alguma tensão sobrante dos dias anteriores, e não fui capaz de me mostrar insensível à falta de acerto com que lidaste comigo: insististe tu em preparar-me um jantar cuidado, quando eu apenas o queria prático e, sobretudo, rápido; fizeste tu questão de me tratar como aprendeste a tratar os teus irmãos e anteriores relações, quando eu queria que te relacionasses comigo a partir dos meus próprios parâmetros; fizeste, outra vez, questão de me excluir de questões do teu quotidiano onde eu, sem hesitação, poderia apoiar-te.

Nesta última vertente, dá-se ainda a agravante de mas omitires ou, o que é pior, me passares inverdades quando a elas te tens que referir. Disso tens exemplo bem recente na deslocação que terás feito à Povoa, de que me falaste à posteriori; deslocação que se revelou inútil por o médico não te ter permitido fazer o exame em razão dos resultados das tuas análises ao sangue – como tu me dizias – ao invés de ter resultado inútil por te teres deslocado só – como finalmente fiquei a saber ouvindo a conversa que a esse propósito mantiveste com o teu filho, perante mim. Descuido teu, talvez. Deslize voluntário, é possível. Como quer que seja, mau princípio para quem quer fazer as coisas certas, desta vez.

Situação bizarra esta, convirá, sabendo que questionas o meu empenho na nossa relação pelo pouco acompanhamento pessoal que te dou. E mais estranha se se atentar nas tuas reclamações frequentes - justas, de um modo geral - sobre o grau de solidão em que te encontras.

Pois é, querida. É como te digo: cheguei a equacionar bater-te à porta esta noite. Na dúvida sobre se te iria incomodar e, também, se, aí chegado, me apeteceria ficar, acabei por me refugiar nas tuas cartas. É um fraco substituto de ti mas, pelo menos, não me traz surpresas (a não ser quando o computador decide boicotar-me o trabalho) e acalma-me.

A bem dizer, não sei porque me acalma: se é a escrita ou és tu. O que interessa, neste caso, é mesmo que me acalme. Vou acreditar que és tu, Helena querida.


José Cadima

segunda-feira, janeiro 20, 2025

Minha Querida Helena (42)

Minha Querida Helena, 

Depois de um dia interessante, tive o desapontamento de nem o telefone recentemente adquirido ter viabilizado que conversássemos sobre coisas tão simples como a vontade que terias ou não terias que eu jantasse contigo. Na primeira vez que te falei estavas a caminho do supermercado e não era conveniente falarmos. Que te ligasse quinze minutos depois, disseste-me. Pressupunha-se que estivesses despachada. Vinte minutos depois não tinhas resolvido nada e estavas numa fila. Aliás, essa foi uma das poucas coisas que me foi possível descortinar da comunicação falhada que mantivemos.

Fui jantar. Tinha em perspectiva ligar-te depois. Nessa altura seria expectável que te encontrasses em casa (teriam passada muitos quinze minutos) e talvez a conversa fosse possível, breve e eficaz, e não enrolada e inconclusiva como tu cultivas. Ainda saí para te ligar da cabina telefónica. Apercebi-me então que o novo número telefónico ficara esquecido na memória da agenda. Cansado, voltei para o estúdio e decidi viver a tranquilidade de um fim-de-dia que se revelara frustrante, depois de um dia interessante.

A expectativa sobre o decorrer do dia vinha da noite do dia anterior, quando a presidente cessante da Escola me convidou para uma conversa pela manhã. Não muito cedo, que os anos e as pernas já pesam e é conveniente começar devagarinho. O convite tinha o aliciante de não ter agenda anunciada.

A agenda deduzi-a do decorrer da conversa. Nada menos que um rol de justificações para incapacidades objectivadas  e para desistências humilhantes. Porventura, igualmente uma tentativa de fazer passar uma imagem de independência a que faltava a credibilidade de um histórico e de uma prática recente: “até pode bem parecer, mas nunca houve essa  intenção...”; a evidência é uma batata arredondada; demos-lhe uns retoques e a batata ficará esquinuda...

A acrescentar a uma conversa de absurdos, juntou-se um clima de nervosismo entre as hostes opositoras. O nervosismo agrada-me porque ajuda a toldar a lucidez a quem ela já escasseia e é sinal de insegurança. Cria eu que quem estava numa posição muito difícil era exactamente eu, e fiquei a saber que as favas contadas não dão segurança. Que as contem novamente! Enquanto contam e não contam, eu vou-me rindo e retornando a tranquilidade que tanta falta me faz. Neste ponto, o dia corria-me bem. Corria, digo, porque depois sobreveio a desgraça do telefone que só toca quando não é conveniente e dos minutos que nunca são mais que quinze mas se eternizam.

Jantei sozinho, rememorando o correr de um dia em que me senti vivo e que, para terminar bem, reclamava uma companhia para o jantar e o aconchego de um abraço quente (agora que as noites vão ficando mais frescas). Foi pena, meu amor. Fica para a próxima!


José Cadima

domingo, janeiro 19, 2025

Minha Querida Helena (41)

Minha Querida Helena,

Como tudo parecia correr-me bem, desde o amor ao estado de saúde dos meus dentes, recuperada plenamente a minha frescura ao ponto de me sentir com 15 anos outra vez, parti à aventura, quer dizer, candidatei-me de novo à Presidência da EEG.

Entretanto, dado que há uns meses, por ocasião do cessar de funções do meu terceiro mandato, tinha apresentado publicamente a minha despedida daquele tipo de funções aos meus colegas e amigos, senti-me agora na obrigação de lhes dar uma justificação (e, convenhamos, tentar justificar perante mim mesmo, em voz alta, porque cometi semelhante burrice). Ocupei ontem parte da noite a redigir a mensagem electrónica que corporiza essa justificação. Também essa forma de ocupar a noite se me ofereceu despropositada; mas já passou.

O que lhes disse não foi retórica, se bem que descreia que alguns deles cheguem a percebê-lo. Naturalmente, omiti os detalhes; nomeadamente, os que se prendem com o asco que me provoca a incompetência e a incapacidade de alguns, o desprezo que tenho pelos que se apresentam sempre em bicos dos pés, e a pena que me suscita a falta de coragem de outros de darem a cara pelos projectos em que acreditam.

Ficou uma coisa comovente, como era adequado que ficasse. Fui todo coração e nada razão, até porque os destinatários tinham todos, ao longo de muitos anos – uns mais que outros, obviamente – dado sinal de grande consideração por mim e feito prova de inquestionável amizade múltiplas vezes. Chato foi estarmos em período de campanha eleitoral, mas disso não tenho culpa alguma já que não fui eu que me demiti das funções assumidas  (o que é uma forma de falar) vai para meia dezena de meses, em nome de consensos em que nunca acreditei e prometendo dedicação só própria de sacerdotes (estou a referir-me às intenções da candidatura e não às razões da demissão, está bom de ver).

Como quer que seja, certo, certo é que estou metido numa alhada, das grandes, e, nestas circunstâncias, dava-me imenso jeito uma intervenção divina que me libertasse dessas atribulações. Se a intervenção divina não se der entretanto, pelo menos que me valha o velho princípio de vida que me acompanhou em muitas situações passadas, que se exprime na ideia que o dia seguinte não pode ser pior que o que o antecedeu ou, se se quiser dizer de forma alternativa, para pior já basta assim.

Confessa lá, minha querida: deixei-te comovida, não é verdade? Eu estou. E estou, também, na expectativa dos passos seguintes que a inércia me forçará a dar.

Dava-me jeito, nesta altura, poder abraçar-te forte, forte, até me confundir plenamente contigo e, desse jeito, desaparecer.

Um beijo grande!


José Cadima

sábado, janeiro 18, 2025

Minha Querida Helena (40)

Minha Querida Helena,

A propósito da forma como se vai para a fonte, se se vai formosa, se se vai descalça, se se vai formosa mas não segura,  gostava de te dizer que poucas coisas há que me irritem mais que bater-te à porta e não vires abrir-ma, mesmo quando toco uma meia dúzia de vezes. Uma coisa que me irrita ainda um pouco mais é esperar meias horas, horas inteiras e ninguém me aparecer, mesmo nas ocasiões em que me recordo bem de ter acertado uma hora e um minuto para esse efeito (que não foi o caso de hoje).

Vê agora tu o estado em que fico quando toco à campainha, e toco e insisto de novo e nada, e espero, e espero e toco à campainha, e toco e é como se não tivesse feito muitos kms e gasto muito tempo para poder bater-te à porta e ver-te, e tenho como retribuição uma mão cheia de rigorosamente nada.

Ter-te-ei já dito tudo isto mas, depois de uma deslocação de mais de duas horas, com chegada e partida no local onde agora me encontro, e na hora imediata ao regresso, isto tem outro significado e outra força e, deste modo, talvez eu consiga descarregar parte da raiva que me assiste em razão dos tristes eventos de que te falo. Até porque sei que amanhã ou depois de amanhã, quando te lembrares de me fazer um telefonema, não vais deixar de me cobrar a promessa que te tinha feito de me encontrar contigo neste domingo de deus.

Não tenho dúvidas que terás as tuas razões, que serão muito válidas. Mas isso pouco adiante perante um desastre, acabado de dar-se, desta dimensão. Evidentemente, há aqui um problemazito que é o da reiterada repetição do incidente, o que, para quem detesta que o façam secar, acaba por constituir-se num verdadeiro problemazito. Não te deverá, assim, surpreender que numa próxima ocasião que me telefones (infelizmente, esqueceste-te de comprar no sábado o telefone que me anunciaste que ias comprar no sábado pp.) eu te dê notícia da minha irritação por não me ter sido possível cumprir o que te havia prometido cumprir hoje, neste domingo de deus. A não ser que tenha descarregado já, nesta carta, toda a raiva que o incidente me trouxe.

É pouco provável, no entanto. É irritação em demasia para uma carta tão singela como a presente. É pouco provável, digo-te, Helena do meu desespêro. Em tais circunstâncias, nem o ires descalça para a fonte é desculpa bastante.

 

José Cadima

sexta-feira, janeiro 17, 2025

Minha Querida Helena (39)

Minha Querida Helena, 

Quando já não o esperava, eis que dás um sinal de boa-vontade; pequeno, tardio, mas nem por isso deixou de ser um passo um frente. Como interpretá-lo então?  Como o primeiro de um percurso que tem que ter um primeiro passo? Como uma breve hesitação ou desequilíbrio que ocorreu nesse sentido, podendo tê-lo sido para trás ou para qualquer um dos lados? Como um gesto de quem procura um caminho e está inseguro de ser aquele o trilho que o vai levar á meta perseguida?

Mesmo surpreso, fico contente; pouquinho, para não ser surpreendido por uns próximos dois passos atrás. Para mim, alguém que se move é um ser que está vivo e, estando-o, só pode esperar que o dia seguinte corra melhor que o dia que o antecedeu. Sabes: podendo não parecê-lo, sou eu que te digo isto, provavelmente não por força da realidade que me assiste no presente mas, antes, por tê-lo assumido como filosofia de vida no passado e, tendo como rotina o trabalho com jovens, tê-lo usado para lhes transmitir o entusiasmo, o arrojo e a iniciativa que amiúde não descortinei neles.

Vou ficar na expectativa. Vou tentar reconhecer em ti a aluna que foste, esforçada, decidida, mas insegura (Descalça vai para a fonte, Helena pela verdura; vai descalça mas não segura. Recordas-te?). Com o carinho do professor que segue os gestos hesitantes da aluna por quem desenvolveu uma empatia que nasceu de um ror de pequenos nadas, vou ficar a aguardar que passo darás depois deste primeiro; não sendo, no entanto, já capaz de dar-te lições, por me faltar convicção.

Falo disto com óbvio embaraço pois que sempre fiz por ensinar o que conheço e aquilo em que acredito. Isso levou-me a percorrer caminhos mil, ensaiar percursos que quem me dera nunca tivesse usado percorrer, tentar aprender outra vez o que soube e esqueci ou o que julgava ter aprendido mas, lá chegado, verifiquei ser uma caixa negra sem porta de entrada evidente. Falo disto com o óbvio embaraço de quem, porventura, quis mostrar-te um mundo novo e só conseguiu pôr diante de ti um território de ilusão, que se esvaneceu logo que os primeiros ventos arrastaram os fumos que davam forma às imagens que configuravam o meu mundo imaginário.

Que frustração imensa, minha querida, esta do professor que julgava saber e nada compreendia. Que calamidade esta, meu amor, de me encontrar a mirar que passos darás não tendo modo de te dizer que vais segura se seguires caminho comigo.


José Cadima

quinta-feira, janeiro 16, 2025

Minha Querida Helena (38)

Minha Querida Helena,

O que é evidente, evidente é: decidiste desinvestir do nosso amor. Só assim se compreende a tua falta de empenho em me cativares. Apenas a essa luz tem leitura o teu desinteresse em fazeres-me um telefonema, que seja. Nestes dias mais recentes, não podes nem argumentar que não tinhas para onde me ligar.

Cai assim por terra o argumento que desfilaste durante muito tempo que querias ver-me a viver só. Só, já estava. A viver só, estou desde Agosto e nem por isso a tua receptividade aos meus apelos se alterou de modo expressivo. Nota: eu posso até aceitar que assim seja e não te faltarão razões passadas; tens é que deixar de fazer que fazes; tens é que dar notícia de receptividade ao desafio que te lancei ou recusá-lo, sem mais.

Não te pedirei explicações; elas estão dadas. Não te reclamarei um amor que, lendo as coisas como as evidências sugerem, se esgotou. Não me pedirás tu, por sua vez, que esqueça o passado, e que faça de conta que tu tens o mesmo significado para mim que qualquer outra, mesmo que com um rabo tão bem feito quanto o teu. Devias, até, cuidar mais dele.

A diferença entre ti e uma outra é que, queiras ou não queiras, és a minha Helena, e isso faz toda a diferença. Também te disse que não procurarei mais Helena alguma e, desse modo, estás condenada a ser a última que me encantou e se foi, deixando atrás de si um imenso vazio. É que, sabes, as Helenas sempre me foram esquivas, talvez por tê-las amado tanto.

 

           José Cadima 

quarta-feira, janeiro 15, 2025

Minha Querida Helena (37)

Minha Querida Helena,

Depois de um dia completo de trabalho em Famalicão, no regresso a Braga, aventurei-me a passar por tua casa. Queria saber o que se passava contigo e que gestos de boa-vontade (e também de bom-senso, se me permites enunciá-lo assim) é que tinhas para mostrar.

Encontrei-te melhor que há uma dezena de dias, mas gestos de boa-vontade (eu prefiro chamar-lhe gestos de bom-senso) nem um só, se não contarmos com a arrumação feita da casa, que me custa tomar àquele título por algumas vezes me parecer antes uma paranóia. Por contrapartida, na despedida, insististe nas despedidas que não chegam a sê-lo, e insististes no discurso entre o recriminatório e o auto-penalizante que, por vezes( vezes demais, para o meu gosto), usas a título de despedida. Para completar, reclamas das horas a que te procuro, das horas em que consigo encontrar-te, do tempo que tenho ou não tenho para conversar contigo, desejavelmente com serenidade e tempo.

 Dos cuidados estéticos que deverias ter tomado, pese o agendamento firme de que me falaras na passada 6ª feira, disseste-me nada, para além de escusas que começam a estar gastas. Da retoma da tua comunicação com o mundo escusastes-te de falar, se bem que fique patente que a tua incomunicabilidade com o mundo comece, desde logo, por ser inviabilidade de comunicar comigo. Acresce que, tendo-nos encontrado na noite de 6ª, esperavas rever-me no sábado (assim mo disseste hoje), se bem que não mo dissesses na 6ª feira.

Perante este rol de sub-entendidos, mal-entendidos e desencontros, pergunto-te, minha querida Helena, se alguma vez te ocorreu que eu queira ver-te bonita e cuidada exactamente porque gosto muito de ti, e também porque quero que retomes o gosto por ti própria. E questiono-te, adicionalmente, se tens presente que o amor e o carinho vivem e alimentam-se de pequenos gestos, alguns deles puramente simbólicos. Simbólico é, por exemplo, viabilizares que eu posso inteirar-me do teu conforto e ânimo quando as circunstâncias não permitem que me desloque até ti, para mais em contexto sempre inserto sobre se reages ao toque da campainha. Esta é, acrescento, incidência que me desconforta consideravelmente.

Minha querida: começar é abalançar-se a dar os primeiros passos e, sucedidos estes, avançar para os segundos e assim por diante. Amor meu: o amor não é apenas uma emoção nascida de razões que estão para além de racionalidades circunstanciais. O amor cultiva-se como te cultivam as roseiras, os pessegueiros que dão pêssegos grossos (quando dão poucos) ou os dióspireiros: nenhum deles dispensa ser regado; nenhum deles gera flores e/ou frutos bonitos e grossos se deixarmos que as ervas e as silvas as/os minem e envolvam.

Minha querida Helena: como poderia ser-me indiferente se estás ou não estás bonita? Como poderia eu manter-me desinteressado sobre se te sentes ou não sentes bem? Repara: eu fui ao ponto de te dizer que se o teu conforto e bem-estar físico e psíquico dependessem de te veres livre de mim, aceitá-lo-ia. Sofridamente, mas aceitá-lo-ia. De outro modo, dar-te-ia espaço para duvidares de quanto importantes és para mim.


José Cadima

terça-feira, janeiro 14, 2025

Minha Querida Helena (36)

Minha Querida Helena,

Falava-te eu, na minha última carta, dos beijos que gostava de receber. Finalmente, concedeste-me o especial favor de uns, poucos, beijos. Não foi fácil nem podes alimentar ilusão que tenham saciado, de perto que seja, a minha sede de beijos. Não esqueças a mingua a que me votaste semanas a fio. Ultrapassados os receios de não saborear mais os teus carinhos, questionava-me, aliás, que sensação me provocariam o enfrentamento dos nossos olhos e o contacto com o teu corpo: levantaria eu as defesas que ergui em semanas de abandono?

Não te adiantarei nada sobre esta matéria nesta data. Nem saberia dizer-te já que, resultado das caricias com que me presenteaste ou, mais verosivelmente, consequência do abandono a que estive votado, tudo conjugado com trabalho e esforço, não me sinto ainda menos confuso e cansado que antes. Talvez, antes pelo contrário. É caso para me perguntar se a morte virá mais depressa do mal ou da cura. Em todo o caso, a cura configurar-se-á sempre mais doce.

Depois de um dia quase inteiro a tentar ganhar energia e coragem, voltei ao trabalho. Descrente, primeiro, preso de movimentos, depois, lá fui avançando no texto e na análise. À medida que fui progredindo, a confiança foi-me acompanhando e quando parei quase me havia esquecido das dificuldades do arranque. Uma vez mais, o trabalho conseguira transportar-me para fora da minha essência. O problema é que, de quando em quando, é preciso parar e, nessa hora, tudo volta a ser como antes, isto é, cansaço, insegurança, desalento. Logo após, retomar o trabalho volta a ser tão penoso quanto fora na ocasião precedente. Passo a passo, há que percorrer o mesmo caminho: descrente, primeiro; preso de movimentos, se conseguir lá chegar. Talvez amanhã seja diferente, quiçá?

Sonhando com esse amanhã que cantará, decido-me mesmo a tomar o rumo do meu quarto, interrogando-me sobre que insónias a noite me trará. Preferia que me trouxesse sonhos; preferia que me levasse até ti e, enlaçados, ganhássemos asas e, ao sabor de vento ameno, esvoaçássemos, esvoaçássemos...


José Cadima

segunda-feira, janeiro 13, 2025

Minha Querida Helena (35)

Minha Querida Helena,

Nestes altos e baixos de ânimo, por razões próximas que não sou capaz de descortinar, retorno ao ponto mais baixo do ciclo. É o ânimo e é o cansaço, que em mim se apresentam associados. Se a semana decorresse mais intensa em matéria de solicitações de trabalho, não haveria espaço para estes sinais exteriores de debilidade, isto é, teriam que aguardar oportunidade. As coisas são entretanto como são e, por assim ser, volto ao estado de agonia na sua dimensão mais embaraçosa.

Não ligo esta ressaca aos telefonemas (dois) recentes que me fizeste, nem à visita que te fiz. Não digo que não me tenham afectado mas, se concorrem para este meu momento psicológico, fá-lo-ão em adição de razões mais profundas. Aliás, hoje não me telefonaste, embora eu mantivesse a expectativa que o fizesses. Porventura o questionário com que me brindaste ontem ficou então preenchido, pelo que não permanecia justificação para contacto posterior. Tens que conceder, no entanto, que a interrupção abrupta da ligação (por força do esgotamento das moedas) não permitiu que me desses conta do sucesso ou insucesso das respostas.

Neste interregno de comunicação, fui processando os dados que me havias feito chegar. Desses, talvez te surpreenda que o que me mereceu maior ponderação tenha sido o que se exprime na circunstância de me teres visto movimentar em Braga, sendo seguro que eu não te vi. Não mereceria atenção particular não fora a coincidência de tal se ter passado de modo idêntico em diversas outras ocasiões, a crer nas tuas alegações. E, confesso-te: gostaria de te ter visto desta e das outras vezes, particularmente desta vez.

Não te vi - disso não me resta dúvida – e não entendo como pudeste tu ver-me sem que eu te visse. A verdade é que, se a minha vista não é o que já foi, a tua não me parece em melhor estado. Tu mesma o dizes. Resulta então, daqui, um mistério. O mistério adensa-se quando eu sou visto por “A” ou por “B”, acompanhado, neste e naquele sítio, mesmo que não o tenha frequentado em período recente ou lá tenha estado sozinho. Tens que admitir que estes são dados fortes o bastante para me prenderem a atenção. Tanto mais quanto me sabes um cultor da ficção científica e um adepto confesso dos efeitos especiais. Aliás, como costumo afirmar, para ensaio sobre as misérias do quotidiano basta o próprio quotidiano. Disso fazem espectáculo diário os media.

Eis, Helena querida, um retrato do meu estar psicológico. Será bastante fidedigno já que o que está escrito antes foi-o ao sabor do pensamento livre (outros diriam, ao sabor da pena), não antecipando este final de divã de psiquiatra. É bom que assim seja para que o retrato surja bem autêntico, sem maquilhagem e sem acerto de cabelo. Perante ti posso expor-me despido, segundo creio.

Não tenho conselhos para dar ao psiquiatra. Também não lhos peço. De ti também não os pretendo receber. Se fossem beijos...

 

José Cadima

Ps: correndo o risco de ser acusado de uma súbita simpatia pelo Ps. (com um pontinho em vez de dois pontos – o “s” pequeno é para simbolizar o estado em que está o socialismo), que declaro não ter qualquer fundamento, sou obrigado a recorrer outra vez a esta figura para reparar os efeitos de uma gralha que pousou sobre a data da carta de ontem, fazendo aparecer um seis onde, em verdade, estava um oito. Embora a culpa seja toda da gralha, por uma questão de afinidade com aquela, venho assumir a responsabilidade do erro.

domingo, janeiro 12, 2025

Minha Querida Helena (34)

 Minha Querida Helena,

Depois do teu inesperado telefonema, depois da tua afirmação critica “...mas não tocaste à campainha !” - como se tu tivesses tocado à minha ou, mais simplesmente, me tivesses feito chegar uma linha ou um aceno – vencendo resistências internas, fui visitar-te. Até ao momento em que respondeste à porta, não dei por seguro que a deslocação valesse a pena. Consegui ver-te, falar-te, e daí que tenha dado por útil o meu esforço.

Pela manhã tinha lido as três cartas acabadas de receber, de onde não tirei muito mais que a tua insistência nalgumas obsessões, e mesmo leituras de factos que só tu podias fazer (indo buscar razões descortináveis apenas por ti e elaborando sobre dados da tua cabeça). O que achei nelas de novo eram as preocupações que exprimias com o momento psicológico do João Miguel. Daí, e de pouco mais, se podia deduzir que tinhas lido as minhas cartas. Aliás, outro tanto retirei da conversa que mantivemos depois: dados cruciais em matéria de evolução do meu equilíbrio emocional e de opção de vida que te fui transmitindo passaram-te ao lado, conforme te sublinhei, incrédulo. Admiras-te tu depois que eu receie as interpretações que dás ao que oralmente te digo. Contesta tu que eu recuse ser questionado por actos e compromissos que tu tomaste de uma maneira e eu de outra.

E depois, minha querida, onde pretendes tu chegar ou aonde queres que te levem a tua teimosia em descuidares o arranjo dos teus cabelos e o desarranjo da tua casa? Que afirmação de vontade é essa? Para mim, Helena querida, isso não passa de uma forma de chamares à atenção ou um sinal de protesto que queres dar. O pior é que, com esses sinais e essas atitudes, hostilizas aqueles que queres cativar e te hostilizas a ti, porque essa também é peça do teu bem-estar físico e psíquico. É o princípio de um circulo vicioso que só tu podes quebrar, e que, não obstante, magoa todos.

Pois claro que estás doente e isso justifica muita coisa. O problema é que essa é razão fraca quando estão em causa uma pintura e um corte de cabelo. Como te disse, a importância desse particular facto não está nele mas no simbolismo que ele acarreta.  Atrás deste facto vêm outros e outros mais e, finalmente, temos uma mulher desmotivada, doente, cansada, confusa, mais doente, mais fragilizada, agonizante. É uma forma de chamar a atenção, de protestar injustiças e desatenções mas é a que magoa mais e, em primeiro lugar, ao “grevista”.

É nesse sentido que não há lugar para outra coisa que não seja começar tudo de novo. O amor – mesmo protestado - não chega. O amor levou-nos onde? O amor, Tróia da minha desesperança, levou-te onde? A Tróia que vale a pena reconstruir há-de ser sólida, fresca, apetecível como a maça que condenou Adão.

 

José Cadima

Ps: por causa das dúvidas, aqui deixo o meu endereço electrónico institucional; a saber: jcadimaribeiro0@gmail.com. Através dele mantenho-me em contacto com o mundo 24 horas por dia, todos os dias da semana. A sociedade pós-moderna também nos trouxe coisas que valem a pena.

sábado, janeiro 11, 2025

Minha Querida Helena (33)

Minha Querida Helena,

O telefone toca. Era a segunda vez que tocava neste dia, agora que toca muito menos que há uns meses. Atendo. És tu. Inesperadamente, do outro lado da linha ouço a tua voz sem ter imediatamente percebido que eras  tu ou, talvez melhor dito, sem ter querido acreditar que eras tu que me falava.

Não soube reagir. Fiquei a escutar o que me dizias. Também, que poderia dizer-te que não te tivesse escrito nestes 40 dias de ausência? Ocorreu-me primeiro perguntar-te se tinhas estado doente, onde e que resultados tinham revelado os exames médicos que fui levantar contigo. Fiquei contente que me dissesses que os exames não tinham revelado nada de grave. Fiquei contente, sim, embora talvez não o tivesses entendido do tom da minha voz. Tenho agora a sensação de nunca te ter falado com uma voz tão inexpressiva. Surpreendido pelo telefonema, fiquei sem palavras e quase sem emoções ou, pelo menos, incapaz de as expressar.

Dizes que me escreveste. Mencionas três cartas e aludes ao João Miguel e à atenção que as notícias que dele te dei te mereceram. Quis dizer-te quanto sensível estou para o momento que atravessa o João Miguel, de modo idêntico ao que procurei estar para a fase de maior fragilidade que o José Pedro atravessou há uns meses. Do que interpretei do que me disseste, não terás pensado assim. Felizmente, digo-te, não têm ciclos emocionais concertados porque, se os tivessem, não saberia como acudir-lhes em simultâneo. Ocasiões há em que nem as minhas próprias emoções sou capaz de gerir, quanto mais as dos miúdos, de ambos, a par das minhas. Sei hoje quanto os miúdos se me assemelham emocionalmente; de forma diferente, mas com idêntica sensibilidade emocional. Tanto pior para eles. Tanto pior para mim.

Confessas-te magoada com o que te escrevi na última carta que recebeste, datada de 1 de Setembro, conforme explicitas. Uma vez mais não sei que te dizer nem entendo a que te queiras referir. Escrevi-te tantas cartas. Como poderia eu lembrar-me de uma, em particular? Para mais não havia sido a última. Tinha bem presente que eram cartas de amor, todas. Deduzi que tinhas tomado essa pela derradeira e te tinha incomodado a crueza de sentimentos que expunha. Mas tinha bem presente ter-te escrito outras após aquela. Uma, pelo menos, tinha colocado no marco do correio há pouco mais de duas horas. Recordava-me disso muito bem. Eram todas cartas de amor, estava seguro. Como poderiam então ter-te magoado?

Descobri mais tarde, antes de te escrever esta, que a diferença daquela é que se tratava de uma carta de despedida. De despedida, digo, não a última. Não deixava, por isso, de ser uma carta de amor. Era talvez mesmo a mais intensamente vivida carta de amor das que te escrevi. Era essa a diferença. Percebi, relendo-a, porque a destacaste.

Falaste doutras coisas. De algumas não entendi a oportunidade, doutras ficou-me uma ideia muito ténue. Procurei escutar-te ou, se calhar, só ouvir a tua voz e, escutando-te, convencer-me que eras tu, a minha Helena que ousara partir. Não soube que dizer-te. No meu intimo, não estou certo ainda agora se cheguei a crer que eras mesmo tu. Seguro, seguro só sei que regressei confuso e cansado. Não te sei dizer se o cansaço me vem da jornada de trabalho, se da emoção da tua inesperada chamada, se de ambas. Achar-me confuso isso só pode ser resultado do turbilhão de pensamentos que me acodem.

Minha querida Helena: ainda bem que telefonaste! Gostei de ouvir-te. As cartas eram todas cartas de amor.


José Cadima 

sexta-feira, janeiro 10, 2025

Minha Querida Helena (32)

 Minha Querida Helena,

Da minha janela, por entre uma fresta da cortina, espreito o horizonte. Lá fora, descortino o casario e o cinzento de chumbo do céu. A chuva regressou esta tarde, forte, convicta, embora nesta hora já tenha partido. Senti a sua chegada como sinal de viragem de estação, e com o seu chegar ficaram mais próximos o tom dos dias e o meu estado de alma. Foi como se tivesse ganho uma inesperada companhia.

Do rádio chega-me o relato floreado do jogo entre a Letónia e Portugal. O jornal já lá vai e espera-me uma noite presumivelmente longa, à semelhança de tantas outras, recentes.

Enquanto avançava no texto Portugal marcou por duas ocasiões, de supetão, uma a seguir à outra. Antes, alguns segundos antes, apenas, uma jovem tinha surgido no relvado de maminhas ao léu. Provavelmente, dizia o relator, os jogadores portugueses tinham  ido retirar àquele “incidente” a inspiração para mudarem o ritmo e o rumo do jogo, até aí igualmente acizentado. Ainda bem – digo eu - que os nossos jovens permanecem sensíveis às coisas bonitas. Sobre a motivação subjacente à ousadia que levou a menina aos écrans da televisão não sei que dizer. Se se tratasse da minha Helena, preferia que ela preservasse exclusivamente para os meus olhos a sua graciosidade. Outros gostarão de forma diferente.

Mirando o horizonte, enquanto oiço o evoluir do jogo, vou-me questionando sobre o que estaria a fazer nesse mesmo instante a minha esquiva Helena. Acaso escutaria as mesmas palavras que me chegavam? Ocupar-se-ia, ao invés disso, de tarefas domésticas no seio de uma família reencontrada ou recuperada? E o seu estado de espírito revelar-se-ia tão sombrio quanto o meu?

Divagações de uma mente carente; especulações de quem procura um caminho mas nem por isso lembra menos amores tão sentidos, tão vividos; pensamentos de quem lembra a sua Helena inseguro de saber trilhar caminho sem ela.


José Cadima

quinta-feira, janeiro 09, 2025

Minha Querida Helena (31)

Minha Querida Helena,

Vagueio pela minha memória, revejo imagens e sensações arquivadas e não compreendo: não entendo como foi possível desaguarmos neste mar de ninguém; escapa-me o sentido de um abandono à beira da praia. Acredito que haja uma explicação. Sou consciente que nadar em mar revolto é desgastante e que muitos não lhe resistem. Mas soçobrar à vista da praia?! Não o compreendo, mas o certo é que aconteceu.

Neste entretanto, questiono-me: e se por acaso, por mero acaso, um destes dias eu me cruzar numa qualquer rua com a minha Helena de Tróia, como vou eu ser capaz de conter as emoções, especialmente aquelas que não sei antecipar hoje? Serei porventura capaz de aguentar firme mesmo sabendo Tróia condenada e com ela tantos sonhos que alimentei. E como será Tróia sem a minha Helena, acaso a fortaleza possa algum dia ser reconstruída? Para já, recuso-me a admitir que Tróia possa existir sem a minha Helena. Se num hipotético futuro poderá ser diferente, não sei dizer. Permito-me duvidar, no entanto.

As Helenas são uma dimensão vital de mim. Sem elas caminho sem destino. O tamanho do amor que dediquei a cada uma que o destino, o vento ou qualquer força que não sei entender colocou no meu trajecto só é comparável ao vazio imenso que a sua perda me traz. E uma após outra desaparecem como emergiram: subitamente, levadas pelo vento, pelo destino ou por qualquer força obscura de que só sei que mas rouba para deixar no seu lugar um imenso vazio. Como eu as amei!

Numa certa acepção, descansa-me sentir o aproximar do fim do trajecto. Pelo menos sei que não haverá mais Helena alguma a dar-me num dia o que me vai tirar no dia seguinte, deixando ao meu redor e, sobretudo, dentro de mim um enorme vazio. Nessa medida, sinto maior tranquilidade que a que experimentei em situações transatas, mesmo sendo tão grande quanto qualquer outro que já experimentei este vazio que deixaste em mim.

 

José Cadima 

quarta-feira, janeiro 08, 2025

Minha Querida Helena (30)

Minha Querida Helena,

As horas passam,
o tempo voa,
e eu continuo aqui
sem amor,
sem ti.

Só no meu coração
te vejo,
te beijo
e te abraço.” (Cadima, José Pedro; 2004).

Leio este versos, releio-os e pergunto-me: do que dizem, referido a um tempo que é passado mas ainda presente, o que sobrou para o dia de hoje? Transfigurando-me na pessoa do autor – e tal não se me afigura nada complicado - quero eu dizer: 

As horas passam,

nalgumas ocasiões mais céleres que noutras,

e eu continuo aqui

sem amor,

e sem ti.

O meu coração

ainda te pressente,

os teus beijos são doces recordações

e a lembrança do teu xicoração sugere-se-me uma expressão de afecto

que resistirá a todas as desventuras deste romance.

 

Entretanto, começo a descrer

da força que parecia alimentar esse amor.

E descreio mais ainda

que os beijos que me davas

tivessem génese inteira no teu coração

porque, se assim fora, não te teria sido possível ignorar

durante todas estas semanas o meu lancinante grito de dor.

Duvido, bem assim, que o nosso xicoração tivesse o mesmo significado de entrega para ti que para mim porque, se assim fosse, ter-me-ias estendido o braço quando pressentiste que começava a afogar-me em desespero e em solidão. Não o fizeste e nada disso pode ser lido como expressão de acaso. Não o quiseste fazer. É tudo!

Repara: poderia ter-me afogado do mesmo modo. Mas terias tentado; terias dado sinal de humanidade e terias afirmado uma memória de afectividade, de entrega que estaria para além dos desencontros de percursos cruzados que não foram capazes de fazer do lugar do encontro o lugar de uma vida plenamente preenchida.

Posso estar a ser injusto contigo como, noutras alturas, tu terás sido injusta comigo. A verdade, porém, é que, nesta altura, descreio que tudo não tivesse passado de uma desatenção ou deficiência de percepção da tua parte do apelo de socorro que te dirigi repetidamente. Face à gritante evidência dos dados que estão à vista, manda a razoabilidade que conclua que, simplesmente, me ignoraste.

Minha querida Helena: a minha ferida é profunda; talvez não tão profunda, todavia, quanto o meu desapontamento.

Um beijo para ti ou, talvez, um até sempre.


José Cadima

terça-feira, janeiro 07, 2025

Minha Querida Helena (29)

Minha Querida Helena,

Espero que te encontres bem, na companhia dos teus. Eu cá vou indo como posso, umas horas mais fresco outras carregando com esforço óbvio o meu cansaço. Os fins de tarde, de um modo geral, têm-se revelado bastante penosos. O pior é quando ao dia se junta uma noite de sobressalto. Tirando  isso – como te dizia – cá vou andando.

Sobre os meninos, dir-te-ei que lá vão indo, também. Tenho andado um pouco preocupado com o José Pedro em razão da indicação que tenho de que algo não vai bem com os seus amores (tal qual se passa com o pai). Na verdade, fiquei algo alvoroçado quando há dias me mandou uma mensagem electrónica (vulgo, e-mail) dando-me indicação que retirasse a dedicatória à Maria do seu livro em projecto. Imaginei-o logo de volta aos seus poemas de desesperança, de que te falei vai para uns tempos, e que tanto desconforto me provocaram. Surpreendentemente, contudo - tanto quanto me apercebi – isso não terá acontecido. Em vez disso, partiu com o avô rumo a Leiria, primeiro, e a Lisboa, depois, de onde me deu notícias razoavelmente descontraídas de Sintra e de Queluz. Faço grande força para que assim continue.

Todavia, a serem válidos os sinais de que te falo no parágrafo precedente, tanta ou mais preocupação que o José Pedro dá-me o João Miguel. Imagina que criou um espécie de pânico em relação ao regresso à Escola, ao ponto de uma destas madrugadas ter aparecido no quarto da mãe em choro aberto questionando se não podia ter antes aulas em casa. Confirmo assim a ideia com que tinha ficado de que o ano académico passado foi para ele um enorme pesadelo. E até nem me custa entender que como tal o tenha sentido a aquilatar pela impreparação que constatei nos professores que, em má hora, tive que contactar. Mas daí até este vale de lágrimas de um miúdo como aquele vai certa distância. Lá tenho procurado sossegá-lo o melhor que sei, mas a apreensão, essa, ninguém ma tira.

Como uso dizer – e sou inteiramente sincero nisso – só pensa ter filhos hoje em dia quem não tem nada mais com que se ocupar ou, o que é radicalmente pior, quem é muito ingénuo ou um grande irresponsável. Como sabes, eu encácho-me na categoria dos ingénuos. Feito o erro, vou ter que viver com ele, mesmo que isso me custe para além do que tenho e posso dar. É uma de entre várias fatalidades com que estou confrontado. Daí a expressão cá vou indo com que iniciei esta mensagem que decidi endereçar-te.

Ciente, no entanto, que a carta vai longa e que te macei já para além do razoável, mantendo embora presente a tua benevolência, despeço-me até à próxima.

Dá cumprimentos da minha parte ao teu filho, e não te esqueças de lhe dizer que não me julgue mal pela forma como não soube lidar com a sua mãe. Recebe um beijo deste que tanto te quer.


José Cadima

segunda-feira, janeiro 06, 2025

Minha Querida Helena (28)

Minha Querida Helena, 

Embora exausto, não me sinto tão ansioso e desencantado quanto me senti em diversas outras ocasiões ao longo da minha vida. Com surpresa relativamente ao que podia antecipar, sinto uma razoável tranquilidade. Se me questionassem a esse respeito, talvez dissesse viver um certo sentimento de paz íntima.

Poderá, porventura, ser a calmaria que antecede a tempestade. Será, porventura, expressão de um despojamento de que não me  imaginava capaz. Ou, então, sinal de um cansaço e de uma saturação que iam para além das forças que me sustêm. Tanta luta. Tanto desencontro. Tanta ânsia de atenção e carinho. Tamanha carência de amor.

A ânsia de carinho não se esvaneceu, é claro. A tranquilidade pode não ser senão uma face que ignorava do desencanto: para quem era acusado de querer ter duas mulheres, não deixa de ser irónico encontrar-se sem nenhuma ou, melhor, não ser certo que a sua necessidade de ser amado venha a ser reconhecida por alguma.

Onde pára a minha pequerrucha? Onde pára a minha alma gémea? Será que o seu sexto sentido não lhe dá já notícia dos sobressaltas de alma do seu amado? Eventualmente, interferências radioeléctricas mais fortes que o usual toldam-lhe a recepção dos sinais. Ou será a distância (a afectiva incluída)? Onde pára a minha Helena?

Olhando os sinais, pelo meu lado, tenho o sentimento que as Helenas me voltam a ser esquivas, e interrogo-me porquê. A única resposta que encontro parece remeter para o amor que lhes dediquei (dedico). Quanto eu as(a) amei (amo)! Esse parece ser o meu fado e a razão profunda do meu desencanto. Quem me dera que o amor que senti e sinto tivesse sido/fosse antes algo que se assemelhasse a uma brisa do mar, numa noite serena de Verão!


José Cadima

domingo, janeiro 05, 2025

Minha Querida Helena (27)

Minha Querida Helena,

Já está: o congresso chegou ao fim e com ele encerrou-se mais um ciclo anual. No meu íntimo é, de facto, assim, quer dizer, o congresso da ERSA, realizado a cada última semana de Agosto, constitui o momento simbólico de fecho de um ano de trabalho e o anúncio do início da nova época. Senti-o assim também este Agosto, pese a sua realização em Portugal e o meu afastamento das celebrações sociais que o evento integrou.  Percebi-o assim  mesmo que me ache demasiado desgastado, em termos físicos e de ânimo, para enfrentar o novo ciclo que se anuncia.

Em boa verdade, o congresso encerrou para mim ontem; um dia antes da subida em barco do rio. Não me achei com forças para enfrentar aquele desafio e, receando soçobrar perante o olhar público, retirei-me. Sou dos que prefiro chorar em silêncio a expor a minha desgraça ao mundo. Provavelmente, estarei ultrapassado neste jeito de ser mas é desse modo que sei exprimir-me.

A ti, conto-te isto por te tomar como um complemento de mim, um espelho em que posso observar a minha imagem; se bem que receie cada vez mais que, à mingua de luz, mesmo o espelho se recuse a refletir-me a figura, especialmente, o rosto e os olhos entristecidos.

Falo-te disto neste dia, e talvez te devesse falar, antes, do mês que é  decorrido desde a derradeira ocasião em que pude ter-te sentada a meu lado, por acaso num banco de jardim, perscrutando o correr das águas de um outro rio, mais dado à contemplação e à celebração da vida (tal qual o sinto, pelo menos). Digo isto sabendo que não há data simbólica que te escape, pelo que ouso pensar que nos reencontremos nessa invocação. Melhor para ti se assim não for: quererá significar que vencestes a distância que separa um abraço esboçado de um aceno de despedida. Eu, por contrapartida, recordo ainda como se fora à bocadinho o teu calor transmitido nesse encosto de corpos.

Melhor fora que não lembrasse e, daí, não sentisse a vontade de repetir esse aconchego. Melhor fora...

 

José Cadima

sábado, janeiro 04, 2025

Minha Querida Helena (26)

Minha Querida Helena,

A noite passada sonhei contigo. Sonhei que tinhas recusado outros amores e tinhas voltado para mim. A ironia que encontro neste sonho (de que me lembro, ao contrário do que é comum) é que teve lugar numa altura em que não preservo quase gota de esperança que o sonho venha a antecipar a realidade. Eu, vê lá tu, que me tinha por um lutador! Eu que me arrastei até aqui cruzando selvas, transformando dor em raiva e raiva em forças para prosseguir caminho.

Por coincidência ou talvez não, essa foi igualmente a noite em que, pela primeira vez desde que me lembro, pude conversar, sem gritos, sem manifestações de histeria, com a mãe dos meus filhos sobre a infelicidade que se me espelha nos olhos e a solidão que me rodeia. Ainda por cima, por sua iniciativa, já que eu havia desistido de acreditar que essa conversa pudesse resultar noutra coisa que não em gritos, histeria, ameaças de chantagem emocional e material e mais gritos e mais gestos de histeria. Também ela se dera conta da infelicidade que me aparecia espelhado nos olhos e, finalmente, admitia que não se resumia tudo a má-vontade em relação a si e às suas expectativas e aspirações ou espírito endémico de traição.

Saí dessa conversa mais sereno, mais capaz de enfrentar o dia seguinte, embora incapaz de antecipar o que esperar do dia seguinte. Gostaria que o retomar da conversa (se/quando o houver) fosse tão sóbrio e franco quanto o foi a conversa finalmente mantida. Não sei se o será. Custar-me-á que o não seja.

Obviamente, os projectos constróem-se com ambições, expectativas, suor, respeito pela ambição e expectativas dos demais parceiros de empreendimento, e cortesia. Dou tudo isso por válido e custa-me tremendamente o sofrimento e frustração dos que são atingidos pelo insucesso; para mais quando sou parte do problema. Mas, e eu? Sou suposto não falhar? Sou suposto não ter os meus próprios projectos? Sou suposto ser apenas um ser animado, sem espaço para frustações, impermeável a emoções?

Porventura, devia sê-lo: sofreria muito menos; não transportaria a infelicidade que carrego. Para desgraça minha, não o sou!

Querida Helena: desculpa-me o tom de confidência que esta mensagem transporta, e desculpa-me o que te penalizo com o sofrimento que dela transborda.

Um beijo grande, grande para ti.


José Cadima