sábado, dezembro 28, 2024

Minha Querida Helena (24)

Minha Querida Helena,

Estive hoje em Gaia, num hospital que conheces bem. Fiquei contente por saber que não estavas lá internada, se bem que tivesse gostado de te ver. Face ao teu desaparecimento repentino e sem rasto, já admiti tudo. Esta era só  uma hipótese que quis confirmar.

Uma outra possibilidade que me ocorre é que a minha preocupação com o teu bem-estar e o meu desespero te inspirem um gozo imenso, que queiras prolongar ao limite. Como te digo, já me ocorreu tudo; já admito tudo.

Esta carta significa, por outro lado,  que sobrevivi ao cansaço de que falei na carta que não te escrevi por me faltarem as energias. Não te sei dizer como, mas sobrevivi. Ponho a possibilidade de ter ido buscar forças ao meu desalento sem fim.. Se assim tiver sido, ironicamente, terei assegurada vida eterna.

Enquanto as respostas para as minhas dúvidas não chegam, vou-me arrastando  nesta rotina. Nesta altura, em concreto, estou numa espécie de estágio de preparação para a conferência anual da ERSA (European Regional Science Association), que decorrerá este ano em Portugal, na FEP,. de hoje até domingo.

No próximo ano será seguramente mais interessante, pelo menos assim se me sugere. Basta dizer, para tanto, que será em Amsterdão, uma cidade que nunca visitei, de uma Holanda que me cativa. Para mais, Amsterdão têm um apelo que lhe vem de um atributo turístico especial: o seu bairro vermelho (cuja designação imediatamente denuncia os seus antecedentes proletários que, ao que me dizem, preserva).

Enquanto Amsterdão não chega – se é que virá a chegar para mim – mantenho-me, conforme deixei dito, nesta espécie de retiro de estágio antes do grande acontecimento. Isolado do mundo, para atingir uma melhor concentração. Retirado do mundo, para que não me choque a festa do reencontro anual e não se torne mais presente a minha solidão.

Que te posso dizer que tu não saibas? Talvez possa falar-te do carinho que me inspiras; da angustia, do vazio que me traz a tua ausência. Procurarei fazê-lo em próxima ocasião.


José Cadima

sexta-feira, dezembro 27, 2024

Minha Querida Helena (23)

Minha Querida Helena,

Hoje não te escrevo. Estou tão cansado que me falta a energia para te exprimir o que sinto e para te gritar quanta falta me fases. No presente estado de alma, recolheria até energia de palavras desagradáveis que me dirigisses - à semelhança de tantas outras no passado, algumas vezes injustas. Daí haveria de retirar a força para dar o próximo passo e, quiçá, contributo para tornar menos doloroso este sentimento de perda que me assiste.

Há ocasiões em que o trabalho, pouco que seja, me esgota. Lembro-me de outras em que o trabalho se esgotava sem que lhe sentisse o peso. Não é, sei-o bem, apenas uma questão de esforço. É, muito mais, um problema de motivação, de crença que valha a pena enfrentar o dia seguinte, estado de espírito que me escapa nesta altura e de que não estou certo de ser capaz de libertar-me. A não ser... A não ser que...

Estou sem esperança. Estou sem ânimo. Sinto-me profundamente cansado, a ponto de me falhar a energia sequer para te gritar a falta que me fases. Por isso, hoje não te escrevo.

Não te farão falta, no entanto, as minhas palavras escritas. Porque se fizessem não te seria indiferente o meu cansaço. Porque se te faltassem, não me deixarias a agonizar. Por contrapartida, eu não tenho dúvida em dizer-te quanta falta me fases. Gritá-lo-ia, até, se tivesse energia para tal. 

Hoje não te escrevo. Se recobrar forças para esse empreendimento, escrever-te-ei noutra ocasião, para te dizer quanta falta me fases e quão tamanho é este amor que te devoto. Se recobrar forças para tanto, gritar-te-ei até a falta que me fases, mesmo duvidando que venhas a escutar o meu grito.


José Cadima

quinta-feira, dezembro 26, 2024

Minha Querida Helena (22)

Minha Querida Helena,

Não tendo cedido perante o cansaço, estou a morrer de saudades tuas. Faltam-me as tuas palavras de conforto, falha-me o sossego da tua presença, falta-me o descanso do teu corpo, falta-me a alegria do teu sorriso, falha-me a esperança do teu amor. Poderá alguém sobreviver em condições tão extremas de carência? Não creio.

Responder-me-ás: culpa tua! Contrapor-te-ei: culpa minha que nunca soube lidar com o amor e, querendo conciliar o que hoje sei inconciliável (valores básicos de respeito pessoal, de dignidade humana, de tolerância ante expectativas de um projecto de vida mais feliz), perdi o direito a ser amado. Aprendi-o de experiência própria. Aprendi-o tardiamente por me recusar a acreditar que um sentimento como o amor não inspirava tolerância e respeito pela nobreza desse sentimento.

Aprendi-o em vésperas de me esgotar de saudades: saudades de uma pequerrucha plena de energia e a transbordar carinhos; saudades de uma poetisa que cantava o rio, os pássaros, as flores e a paixão que a embalava. Percebi-o quando o meu amor deixou que se instalasse no seu olhar uma sombra cinzenta, a poesia deu lugar a um discurso arrastado, de desapontamento, e nem o rio, nem as flores, nem o chilrear dos pássaros foram capazes de voltar a levar-lhe inspiração e sonho. Nessa altura, perdi-te. Desde essa altura, fiquei também eu condenado a esvair-me, senão em desencanto e desesperança, em saudades.

Chegados a este termo, imagino-me a recomeçar tudo de novo, desde o primeiro olhar, o primeiro beijo, e culpo-me por não ter sabido guiar-te por trilhos mais seguros e mais portadores de futuro; culpo-me por não ter sabido preservar-te a energia que usavas transportar e os carinhos de que transbordavas. Pensando em tudo isso, e muitas coisas mais, enquanto me culpo de não ter sabido  preservar o teu sorriso, vou morrendo de saudades  tuas.


José Cadima

 

quarta-feira, dezembro 25, 2024

Minha Querida Helena (21)

Minha Querida Helena,

Hoje vi-te! Ou terei sonhado que te vi. Se não estou seguro se te vi ou apenas terei sonhado que te vi, estou seguro que deambulei pela tua cidade, se assim posso designá-la. A segurança de que te falo vem-me da circunstância de me ter cruzado com um teu antigo amor – não sei se também o mais recente. Se não era ele, era alguém que tomei como sendo ele, socorrendo-me da imagem que dele retenho de fotografias vistas em jornais e em painéis de rua. 

A dita personagem também me olhou mas, porque simplesmente não era quem eu pensei que fosse ou porque não me reconheceu – o que é muito verosímil, já que não guardo memória de alguma vez nos termos cruzado, em pessoa, digo – não me terá reconhecido. Se era quem eu penso que fosse, como dizia, está efectivamente um pouco mais gasto e com menos cabelo, como vai para algum tempo tu comentavas. Mas quem o não está? Com menos cabelo, quero eu dizer.

No meio de tanto azar, fiquei contente de não te ver com ele (ou atrás dele). Ser-me-ia muito penoso, confesso. Mais penoso seria, claro está, ver-te no passeio público com ele de mão dada ou com o braço pelo ombro, num assumir explícito de um amor reencontrado. Nesta fase – a teres retornado a esse teu grande amor de juventude – talvez seja aconselhável que reserves esses gestos de carinho para o recato de espaços menos públicos. Não te parece também? Repara, não o digo só por mim, pelo choque que isso me provocaria – de que provavelmente não mais recuperaria -, mas também por ti, para não te tomarem por uma troca tintas, quer dizer, uma troca amores; assim de um dia para o outro.

É bem verdade que o povo usa dizer que amor há só um: o primeiro e mais nenhum. Não é, no entanto, válida esta afirmação. E eu sei-o bem já que, não tendo sido tu o meu primeiro amor, a verdade é que te amei e amo como se tivesses sido a primeira, embora sem a esperança de ver o meu sentimento retribuído.

Não tendo sido tu a minha primeira Helena, tenho porém seguro que serás a derradeira. Nisso, só me custa mesmo a ausência de esperança de ver o meu amor correspondido; um pouco que fosse.

 

José Cadima

 

segunda-feira, dezembro 23, 2024

Minha Querida Helena (20)

Minha Querida Helena,

É irónico, não é, como um amor tão intenso e tão sofrido desagua assim, de repente, num vazio absoluto? Nem uma palavra, nem uma letra, nem um aceno. Confrontado com tamanho vazio, questiono-me: mas esse amor existiu? O objecto desse amor foi um ser de carne e osso, com sentimentos? Ou tudo não passou de um sonho? Ou, se não um sonho ( para ficar a par da pós-modernidade), uma elaboração mental de um espírito já incapaz de diferenciar o real do virtual.

Não queres tu, num gesto piedoso (se disso és capaz), trazer-me a luz em relação a esta dúvida que ameaça instalar-se definitivamente na minha mente?

 Repara: lendo Camões ou Bocage (naquilo que deles me recordo) retirava-se a ilação que na génese de cada verso estavam grandes paixões, fossem elas a pátria ou sereias encantadas, também chamadas musas. Mas eu, na minha ingenuidade de então, atrevia-me a pôr sempre uma Helena  de carne e osso, a transpirar sensualidade, no corpo de cada uma dessas musas. Vejo agora quão ingénuo era: eram mesmo sereias encantadas que, transportadas para os dias de hoje, não passariam de seres virtuais; perfeitas, sim, mas desprovidas de sentidos e, logo, de sentimentos  e de qualquer arremedo de sensualidade.

 Pobres deles. Pobres de tantos depois deles que julgaram descobrir sereias encantadas em “simples” criações digitais. Pobre de mim que, seguindo-lhes os passos - a distancia considerável - sorvendo-lhes os versos, me deixei ludibriar pelas lucubrações de uma mente carente de afecto, desgastada pela luta da sobrevivência quotidiana, tal qual a deles, porventura.

Daqui, podes tu, criatura real ou virtual, inferir sobre o nível de debilidade em que estou. Se real, um aceno teu, uma letra, uma palavra poderá ainda ajudar a devolver-me ao mundo dos que são capazes de destrinçar o que é verdadeiro do que não passa de imaginário. Se não o és, não me assiste qualquer esperança: parecendo-o embora, já não sou deste mundo; não tendo talvez alcançado ainda o outro. Estarei no caminho.

Ao que chegamos, minha deusa!

 

José Cadima

domingo, dezembro 22, 2024

Minha Querida Helena (19)

Minha Querida Helena,

Cansado, repouso com as tuas cartas. Angustiado, tento convencer-me que esta separação que tu forçaste te vai proporcionar, pelo menos, a tranquilidade de espírito que tanto procuravas e mereces. Resta saber se este cansaço que me tolhe é expressão de um esforço que, nalguma dimensão, se pode afigurar portador. Resta confirmar se a tranquilidade que procuravas e mereces fica garantida com esta ruptura tão penosa e, mais do que isso, te vai permitir alcançar uma vida emocionalmente mais preenchida, quer dizer, mais feliz.

Desfilando memórias, recordo as vezes que me disseste quanto desejaste um beijo meu, há uma vintena de anos atrás, quando tal era para mim insondável e para ti uma infracção imperdoável. Deambulando pelas minhas memórias, recordo o encanto, o enlevo do nosso reencontro à pouco menos de uma dezena de anos. Não me julgava já capaz de viver uma paixão. Não acreditava já estar ao meu alcance encontrar a outra metade de mim com que todos sonhamos – assim o julgo. Afinal foi possível.

Finalmente, não quero crer que tudo não tenha passado de um sonho; se bem que um sonho que não me arrependo de ter tido. Afinal, a vida é constituída também por sonhos: nuns somos capazes de voar; noutros acabamos esmagados. É curioso, não é, como o nosso ânimo balança entre dois extremos como o são a euforia e o absoluto desalento? É intrigante, não é, como os nossos sonhos alternam o terror absoluto com a leveza suprema?

Cansado, volto-me para ti – quisera, antes, voltar para ti. Angustiada, cansada, fragilizada foges de mim, procuras com tão penosa rejeição recuperar a dimensão do sonho que nos permite voar ou, pelo menos, prescutas reganhar a tranquilidade de espirito que mereces.

Quisera, antes, voltar para ti, meu amor!


José Cadima 

sábado, dezembro 21, 2024

Minha Querida Helena (18)

Minha Querida Helena,

Ter-te-ás dado conta que as duas mais recentes cartas que te dirigi iam com as datas gralhadas: em vez do que aparece, deveria estar 17 e 18 de Agosto, respectivamente. Vais ter que me perdoar isso, que outra coisa não é que a expressão de uma mente cansada e baralhada. A gravidade da falta deverá ser compatível com o nível de tolerância que tu manténs em relação aos meus erros – assim o creio.

Na verdade, escrevi-te quase só para te transmitir isso e deixar este apelo. Não fora este pretexto, não querendo, por outro lado, repetir-me nos meus lamentos, não teria assunto para esta mensagem. Como bem sabes, não é assunto com que se mace quem quer que seja, muito menos alguém de que muito se gosta, dar notícia de um dia de trabalho cinzento após outro de idêntico tom, de um arrastar de pés dia após dia sem alegria nem esperança.

Assim sucedendo, dando corpo ao pensamento que me assiste, e também como forma de preencher esta página, ouso citar o meu filho num dos seus versos tão forte nos sentimentos que transmite quanto impressionante nos termos de que se socorre; a saber:

Demónio da minha paixão

Rio de sangue,

que transportas
o meu demónio,
permite que eu aceda

ao favor de um beijo

que me faça sorrir.

Demónio de sangue,
demónio esbanjador,
faz-me um favor:

espeta-me um beijo e sorri.

Demónio de escolta,
meu segurança
dos demónios à solta,

espeta-me um beijo e sorri.

Demónio da sorte,
transportador da minha felicidade
ou morte,

espeta-me um beijo e sorri.

Demónio alimentador
da minha paixão
grande e assombrosa,
espeta-me um beijo e sorri.

Demónio sugador
de toda a minha atenção;
demónio que me arrebata o coração;
espeta-me um beijo e sorri.

Demónio do amor,
rainha da beleza,
só tu fazes a minha dor.
Por assim ser, espeta-me um beijo e sorri.

Demónio da minha vida
e da minha glória,
nem tu sabes o quanto
te quero arrancar um sorriso;

pois, meu amor,
tu és o meu demónio
e eu não sei viver sem ti.  (Cadima, José Pedro; 2004)

Sem mais palavras, quase sem palavras, despeço-me de ti, “demónio da minha vida”.

 

José Cadima

sexta-feira, dezembro 20, 2024

Minha Querida Helena (17)

Minha Querida Helena,

Recuperada alguma energia, retorno à tua companhia e à expectativa de que me faças chegar sinais de vida. Sinais de vida, meu amor. É só isso que te peço para trazer algum descanso ao meu coração. Nem juras de amor, nem promessas de eterna fidelidade, nem sequer um aceno de esperança. Apenas um sinal de vida, mesmo que esboçado.

Sei-te capaz de crueldade, particularmente contigo própria; sei-te magoada comigo, fruto de muitos desencontros e visões distintas de várias coisas da vida; se isso te der conforto, podes falar-me do(s) amor(es) reencontrado(s) e de quanto ele(s) te dá(dão) que eu não fui alguma vez capaz de te oferecer; fala-me de como foi bom voltares a sentir um frémito no corpo e uma ânsia de prazer sem limites. Faz-me chegar, entretanto, um sinal de vida, mesmo que só esboçado.

Sem ti, nestes tempos de retiro e desencanto, ultimei a revisão dos versos do José Pedro; uma revisão derradeira. Fico razoavelmente satisfeito com o trabalho concretizado, sendo certo que a qualidade do trabalho do miúdo merece bem esta minha pequena ajuda. Fiz o que sabia. Fico tranquilo, aproximada a questão a partir da minha condição de pai e tutor, que cumpro sem jeito e com sacrifício.

E tu, meu amor não retribuído? Retomaste a escrita do teu romance? Retornaste aos teus poemas, cantando amores perdidos e reencontrados? Escrevestes poemas de saudade? Foste à caça ou, tão só, observar os pássaros? E terás, por mero acaso, picado o rabo numa dessas saídas? Cruel, como nalgumas ocasiões só tu sabes ser, grita-me que sim  e liberta nesse gesto toda a raiva que te move. Liberta a tua raiva e, com ela, faz-me chegar um sinal de vida, mesmo que apenas esboçado.

 

José Cadima

quinta-feira, dezembro 19, 2024

Minha Querida Helena (16)

Minha Querida Helena,

Espero que te encontres bem.

Após alguns poucos dias de silêncio, retomo o contacto na expectativa de não te maçar excessivamente. Aliás, com esta ausência quis evitar que as minhas cartas te cansassem como te cansou o meu amor. Infelizmente, não estou seguro de ser bem sucedido. Não me privarás dessa esperança!

Sem as tuas cartas a minha solidão foi (ainda) mais completa. Não te digo, todavia, nada que tu não saibas; não digo nada que a minha pequerrucha não conheça bem. Falo, no entanto, da minha pequerrucha e de ninguém mais... envolto num mar de saudades tão grande quanto o oceano que algumas vezes mirámos aconchegados um no outro. Por onde andará a pequerrucha que me enche de saudades?

Privar-me das tuas cartas foi também o modo que encontrei de testar a minha resistência à dor ou, se quiseres, um modo de auto-flagelação. Sigo-te nisso, de alguma forma: disse-te vezes sem conta que não entendia o gozo que parecias retirar do sofrimento que, por vezes – vezes demasiadas -  te aparecia espelhado no rosto e que tanto me afligia. Pois bem, resolvi experimentar a tua receita. Dessa experiência não retirei, entretanto, mais que amargura e dor, pelo que mantenho a afirmação da falta de sentido dessa auto-penalização.

Volto ao teu contacto, meu amor, mas sinto-me muito debilitado. Daí que as minhas palavras não possam deixar de te soar arrastadas e eu seja incapaz de te assegurar por quanto tempo mais o alento me assistirá. Dá-me energia a expectativa de que as leias, mas é quase só isso que me assiste, e, concordarás, é parco para alimentar uma alma sequiosa da sua alma gémea.

Minha querida  Helena, ... am...


José Cadima

quarta-feira, dezembro 18, 2024

Minha Querida Helena (15)

Minha Querida Helena,

Ignoro como encaras as minhas mudanças de humor, bem marcadas nalgumas passagens das mensagens que te vou fazendo chegar. Do que te conheço de tempos recentes, não me pareces uma pessoa com um sentido de humor muito apurado. Mas, quem sabe, o meu desaparecimento visível do teu contacto e a oportunidade de novos encontros de tenham trazido outro fulgor. Questiono-me, aliás, como vai a observação dos pássaros, actividade que tu tanto prezavas e de que eu, de alguma forma, te privei durante tanto tempo.

Espero que as entendas – as mudanças de humor, digo – como a expressão explícita dos altos e baixos que me atravessam a alma, por assim dizer. Forte de ânimo, ao contrário do que alguns pretendem crer (talvez mais, um lutador), sou um ser carente de afecto e só, como tu bem sabes. Daí que a força de que falo me falte, ocasionalmente, e pouco mais me reste que ironizar com a vida que tenho e com as peripécias do meu dia-à-dia. É um mecanismo de auto-defesa, tal qual tu és, ou foste – talvez, devesse dizer –, o meu refúgio; um refúgio que se apresenta já como o abraço de uma multidão onde nos perdemos.

Ser-me-ia mais fácil conviver com esta multidão anónima se o trabalho fosse uma actividade permanente, sem ocasião para pausas, sem tempos para dormir. Custam-me os espaços que antecedem e se sucedem ao sono e custam-me os sonhos. Felizmente que, destes, pouco recordo alguns instantes após o despertar. Pese isso embora, preferira não sonhar.

Como deixo dito, espero que entendas o meu refúgio na ironia, e espero que não me acompanhes neste discurso sem esperança. Tu mereces todas as coisas boas com que sonhaste. Precisas, porventura, ser mais positiva nessa procura esperançada e necessitas, creio eu, de fazer por adquirir um maior sentido de humor. Essa é, no meu entender, uma dimensão essencial da nossa relação com o mundo, que nos faz mais fortes ou, pelo menos, que podemos usar como escudo em momentos de maior fragilidade.

Falo-te a partir de uma experiência vivida, minha querida.

Já agora: haverá forma de eu ter notícias tuas sem que quebres o teu voto de silêncio? Gostaria de te saber bem. Só isso.


José Cadima

terça-feira, dezembro 17, 2024

Minha Querida Helena (14)

 Minha Querida Helena,

Tenho que pedir-te desculpa por ter feito uso de um parágrafo de uma das tuas cartas sem o ter devidamente referenciado. A verdade é que o prefácio que, a pedido do meu filho, me comprometi a escrever para o seu livro me parecia cocho da referência ao seu conteúdo e aquele texto ofereceu-se-me ali à mão de semear,  reunindo, a meu modesto ver, todos os requisitos para o efeito: tratava explicitamente o assunto; era tão espontâneo quanto o são todas as tuas cartas.

Tinha-te disso dado conhecimento mas, concordo contigo, de facto, não é a mesma coisa, e este pedido de desculpas, senão me assegura o teu perdão, pelo menos descansa-me o espírito.

Com esse toque no prefácio encerrei, a bem dizer, o trabalho de edição dos textos do José Pedro. A faltar ficam agora: a arrumação dos textos por capítulos, que designei por desesperança, esperança, deslumbramento e sobressaltos; uma derradeira verificação gramatical; e o trabalho de produção gráfica, que, em todo o caso, devido a férias, vai ter que esperar por Setembro. Tenho até já a capa. Curiosamente, também da autoria do poeta (descobri-a entre os seus desenhos do jardim de infância, e creio que mesmo tu a vás achar uma gracinha).

Se me permites, confesso-te que,  a esta distancia, estou satisfeito com o resultado global do projecto (salvaguardado o tal tom sombrio e sofrido de que falo no texto que te roubei). Foi pena que não pudesses ter-me dado uma colaboração maior. O trabalho do José Pedro enriquecer-se-ia com isso e eu ficar-te-ia ainda mais grato, se isso fosse possível. Fica para a próxima, não é minha querida? Fica, talvez, para quando se trate de similar projecto do João Miguel.

E, por hoje, creio que é tudo o que queria dizer-te. Recebe um beijo e um chicoração apertado deste que tanto te quer (mesmo não beneficiando das graças do teu coração).

 

José Cadima

segunda-feira, dezembro 16, 2024

Minha Querida Helena (13)

 Minha Querida Helena,

Olá! Espero que estejas bem. Espero, inclusive, que tenhas tido ocasião para ires ao cabeleireiro e te cuidares, de um modo geral, agora que não me tens a tomar o teu tempo. Nota que, se comigo não precisavas ter essas atenções, doravante é diferente.

Escolhi esta manhã de Domingo para este instante de intimidade contigo. Imagino-te em casa, atarefada nas tuas arrumações e desarrumações mas, porventura, estarei bem errado. Talvez seja esta chuva que se faz sentir em Braga que me traz a melancolia que pressentirás nas minhas palavras escritas. Daí, talvez, digo, a fuga para a intimidade a que aludo antes. Como seria se estivesse calor, não te sei dizer.

Sabes: tenho usado parte do meu tempo para dar substância ao projecto de produção do livro do meu filho mais velho, de que te falei. Definitivamente, resolvi assumir o trabalho de editor dos seus textos. Aguardava que me pudesses ajudar mas, circunstâncias que tu bem conheces, inviabilizaram contribuição que eu tinha por preciosa. Assim são as coisas, e momentos há em que não nos resta senão admitir a nossa impotência.

É um trabalho que ora se me sugere gratificante ora me é penoso. A penosidade não releva do esforço, em si, mas dos conteúdos com que vou deparando, demasiado sofridos, denunciando uma violência de sentimentos que me surpreende. Sobretudo, na dimensão desesperança da mensagem. Repara: são só catorze anos; catorze anos de uma vida a que eu fui sempre dando o amparo que fui capaz .Podia ter sido mais, consinto, mas eu, que o não tive maior, não me recordo de ter escrito mensagens de tamanha mágoa e desapontamento, nessa idade. Os tempos são outros, sem dúvida, e talvez daí venha a diferença entre duas personalidades intimas que eu pressinto tão próximas. É bem certo que, nessa idade, eu não tinha ainda uma namorada, no sentido comum do termo, pese embora as Helenas que se foram cruzando na minha vida. Teria sido mais feliz se a tivesse, especulo eu, agora. Mas as Helenas, tu bem o sabes, sempre me foram esquivas. E quanto eu as amei! Nem tu nem ninguém é capaz de avaliar.

As Helenas, meu amor não retribuído, têm sido a minha razão de vida e a fonte dos meus maiores desencantos. É o meu fado!

 

José Cadima

domingo, dezembro 15, 2024

Minha Querida Helena (12)

Minha Querida Helena,

Já percebi a tua mensagem! Não precisas mais manter-te incomunicável com o mundo para não correres o risco de ouvir a minha voz do outro lado da linha. Não o queres, não o farei! Para mais, sei-te acompanhada por quem gostas muito, o qual, seguramente, te saberá dar o conforto que sei que te é necessário.

A esta distância, ganhou toda uma outra clareza a insistência que punhas na pergunta que me dirigiste na última ocasião em que estivemos juntos, em fim de jornada. O “agora, para onde é que me levas?”, que eu não percebi, não queria significar outra coisa senão a despedida que tinhas planeado e que imaginaste à medida da derradeira refeição de um condenado. Daí a tua recusa em acompanhar-me no jantar. Por isso, a tua tristeza, mesmo quando, acompanhando as pombas e as gaivotas, por alguns instantes, esvoaçaste ao longo da margem do rio.

Confesso-te que não sinto mágoa por não ter entendido o alcance do teu aceno de naufrago. Nunca gostei de despedidas. Evito-as sempre que posso. Se noutras ocasiões fui cúmplice de outros rituais de despedida, fui-o na ânsia de eternizar esses momentos de comunhão e porque, no fundo, sempre me recusei a creditar que fossem os últimos de uma entrega intima que, embora tu o recuses, foi muito profunda. Falo no passado, para invocar esses instantes, embora se apresente mais adequado usar o presente, querendo reportar-me ao amor que te tenho e que é agora alvo de expressão de recusa tão violenta da tua parte.

Com esse íntimo, questiono-me por quanto tempo mais aceitarás receber estas minhas cartas; quanto tempo passará até que, simplesmente, te recuses recebê-las ou lê-las. Aí, tens sempre a solução simples das rasgares antes de as abrires. Porventura, se isso te dá maior sossego exterior, toma as minhas cartas como correspondência de duas pessoas que cultivam o hábito e o gosto da escrita; dois velhos amigos de saudosas lides literárias.

Para mim, desde que as não tenha de volta, fica-me sempre a esperança que as tenhas lido e o conforto resultante de pensar que continuo a ter alguém com quem posso comunicar e a quem posso transmitir emoções e sensações provindas do fundo do coração.

De mim, meu amor não correspondido, terás todo o carinho e incentivo para que percorras um caminho mais feliz do que o que trilhaste comigo, e a certeza, que gostaria que désseis por certa, de um ombro onde sempre podes repousar.


José Cadima

sábado, dezembro 14, 2024

Minha Querida Helena (11)

Minha Querida Helena,

Tantos dias passados, rendo-me à evidência: não é simples acaso esta ausência de comunicação; definitivamente, devo concluir que já não gostas de mim (concedo que, em algum momento passado, possas ter gostado). Digo-te, no entanto, que não és a primeira que rejeita o meu amor. A minha história afectiva é, aliás, fortemente marcada por rejeições amorosas. Julgo, até, que de algumas nunca cheguei a recompor-me completamente.

Porventura, sou eu que não serei merecedor do amor daquelas a quem, em expressão de desígnios insondáveis, em momentos sucessivos da vida, resolvi confiar o meu coração. Porventura, a minha sina reservou-me uma vida esforçada, de pequenas vitórias quotidianas, mas fundamentalmente de desesperança. Talvez daí o tom amargo que carrego, como que alguns me atiram, qual pedra se atira ao vulgar ladrão.

Ficas a saber, amor meu não correspondido, que não há nada que eu desejasse mais – salvaguardado o benefício do teu amor – que assumir um dia-à-dia descontraído, de sorriso permanente nos lábios, sem que de uma máscara se tratasse. Será, quiçá, o meu fado, tal e qual o é estar-me reservada o número 13 ou ser o último a ser contemplado num qualquer sorteio.

Daqui talvez possas entender quanto é importante para mim perceber os que me rodeiam felizes. É uma forma de transferência como outra qualquer, isto é, das suas realizações recolho o conforto que sei me estar vedado. Nalgum momento de intimidade passada havias vislumbrado em isto de que te falo? Admito que sim, por ser tão óbvio. É, no entanto, algo de que me inibo de falar, porventura porque é penoso (para mim e para os demais) confessar-me infeliz. Quem gosta de conviver com gente infeliz? Para infelicidade já basta a que carrega cada um.

Desculpa-me este instante de particular fragilidade. Em atenção a algum momento bom passado, desculpa-me por esta infeliz partilha, e esquece! Esquece,  para que de mim te reste apenas a memória deste amor que te dedico.


José Cadima 

sexta-feira, dezembro 13, 2024

Minha Querida Helena (10)

 Minha Querida Helena,

Embora de licença sabática, esgotei-me em trabalho no pretérito fim-de-semana. Almejava recuperar atrasos acumulados, ganhar espaço e concentração para tarefas que tenho há muito agendadas e, last but not least, não criar ansiedade pela inviabilidade de te contactar. Recorrentemente, acudia-me à memória o envelope com os exames médicos que realizastes no Porto, que, justamente, acabaste de levantar, e era-me impossível desligar esse facto da ausência de um telefonema teu na passada 6ª feira. Imaginação fértil a minha, não deixarás tu de intuir.

Como uma desgraça nunca vem só – como bem diria a voz do povo – eis que, chegados a 2ª feira, deparo-me com a completa falha de ligações telefónicas no campus universitário. Por via desse infausto evento, fiquei pois impossibilitado de concluir se a nossa ruptura de contacto seria apenas fruto de uma conjugação infeliz de circunstâncias ou resultado de vontade assumida, tua.

Que fazer? Como já questionava Lenine, vai para uma centena de anos. Sinceramente, minha querida, já não sei. Não sei que fazer; não sei que concluir; e, o que é mais, não sei como dar-te ânimo, até porque, sem o teu conforto, o ânimo me vai faltando.

Se me permites o desabafo, acredito que a resposta às fragilidades que enuncio – as tuas e as minhas -, se quiseres, a resposta ao que fazer de Lenine, está mesmo só em ti. Sem o teu grito de Ipiranga, o teu estado de alma não pode senão deteriorar-se (a tua débil condição de saúde já te fragiliza quanto baste); sem o teu sorriso não saberei sorrir.

Minha querida, nem que seja apenas em memória do nosso amor, ensaia de novo a tua corrida, tal qual o fizeste, há dias, em Ponte de Lima! Repara que, se tu tivesse perguntado antes, ter-me-ias dito não ter forças para tanto e, afinal, foste capaz ... e foi bonito ver-te, qual pomba solta...

 

José Cadima

quinta-feira, dezembro 12, 2024

Minha Querida Helena (9)

Minha Querida Helena,

“Olá menina ... Faz-me rir e eu prometo que não te farei chorar”, clamava eu há um par de dias, e zás: perdi, uma vez mais, o contacto contigo. E o pior é que, se eu não tenho forma de te contactar, contigo a situação é ainda mais extrema em razão da ausência de cabinas telefónicas nas tuas redondezas, próximas ou longínquas. Não fora essa realidade infeliz e, seguramente, teria tido o telefonema que prometeste fazer-me na 6ª feira p.p.

À mingua das tuas palavras – em hora em que já descreio que desejes presentear-me com o teu sorriso – vou sonhando que, numa das minhas deambulações sem destino certo, o acaso me atravesse no teu caminho, em ocasião não cruelmente distante. Terá, obviamente, que ser um acaso mais piedoso que aquele que provocou a recente avaria do teu telemóvel. Digo-o, pois sei que, nesta matéria de acasos, há-os de diferente índole.

Ensaiando um método razoavelmente seguro de olvidar este infortúnio que nos mantém incomunicáveis, refugio-me no trabalho: na tese cuja leitura já devia ter concluído; no artigo de homenagem ao orientador da minha tese de doutoramento e inspirador do académico que tento ser; na resenha de notícias de  fim-de-semana com que procuro manter-me a par do que vai no mundo; nos poemas de adolescência do meu filho cujo trabalho de editor ensaio, interrogando-me sobre quão longe devo levar o embelezamento formal em detrimento da inocência que esteve na sua génese.

Congratulo-me por me não falhar o trabalho, mesmo quando, em cedência embaraçosa ao sentimento, retorno a estas cartas que, sendo de amor, se sugerem igualmente um refúgio. Parco substituto do sorriso porque desespero; minguada compensação do beijo de que sinto falta.

Quererás tu constituir-te em  etérea musa inspiradora? Ou, recuperando o mote de um dos versos do meu filho, tomas essa distância apenas porque és má?


José  Cadima

quarta-feira, dezembro 11, 2024

Minha Querida Helena (8)

 Minha Querida Helena, 

Decorreram entretanto muitos dias desde a derradeira ocasião em que os meus olhos repousaram nos teus; correram muitos mais desde a última vez em senti o teu peito apertado contra o meu; passou ainda mais desde o dia em  que ... Tanto tempo, meu amor! Quantas saudades.

Neste penar, questiono-me se as tuas saudades serão tão grandes quanto as que eu levo de ti  e duvido. Duvido porque, se o fossem, não estarias tanto tempo sem mim ou, porventura, essa é a forma que encontras de me fazer sentir quão escravo eu estou deste amor, quer dizer, de ti. Liberta-me, querida, dessas amarras. Deixa-me fluir para os teus braços.

Nesta distância, questiono-me por onde andarás, que razões te movem, que novo amor te prenderá. Ou será um velho amor a quem retornas? Sei de quanto valor simbólico está rodeado um primeiro amor; sei que o tempo passado lhe renova o encanto e as virtudes; sei que foi com ele que viste pela primeira vez um certo mundo. Sei, todavia, que há um tempo que se esgota e, daí, a esperança que me anima: o ânimo de, a breve trecho, poder repousar os meus nos teus olhos, de envolver-te num abraço longo, longo ... Quem me dera ter sido esse teu primeiro amor; quem me dera tê-lo sido e sê-lo ainda e sempre.

“Olá menina, quero tratar de ti ... Acredita que nunca me senti assim ...Chega só um pouco perto de mim. Faz-me rir e eu prometo que não te farei chorar”

 

José Cadima

terça-feira, dezembro 10, 2024

Minha Querida Helena (7)

Repetido que já foi por ti várias vezes, tenho mesmo que conceder que não gostas do nome que te chamo. Lamento-o, minha querida, já pelo carinho que esse teu nome transporta, já por, da tua sensibilidade literária e poeta, ter inferido o contrário. Porventura, não te agradou a adaptação cinematográfica de “Tróia” que esteve em cena até há poucas semanas . Em boa verdade, podendo escolher, eu também teria preferido um desenlace diferente para a guerra entre cidades que o título invoca.

Infelizmente, não parece ser só disso que não gostas. A meu ver, não gostas igualmente o bastante dos que gostam de ti e, pior que tudo, deixaste de gostar de ti. Estamos, portanto, perante aquele enredo muito glosado em peças dramáticas de diversa natureza em que alguém reclama o seu amor por outrém sem ser correspondido. Pese embora essa amarga realidade, ouso reafirmar-te o meu amor e ouso suplicar-te que voltes a gostar de ti ou, pelo menos, aceites tornar a pensar nisso.

Minha querida Helena: cansa-me a tua amargura; ferem-me as sombras que atravessam o teu olhar e fazem empalidecer o teu rosto. Bonita? Perguntas tu. Bonita, sim, quando o teu rosto desanuvia, quando os teus olhos e os teus lábios consentem uma réstia de ternura. Bonita, fresca quando retornas ao teu corpo de adolescente e te espraias no meu colo ou me apertas para um “chi-coração” cúmplice. Como eu adoro os teus “chi-corações”!

Não me peças, minha querida, que eu desista de te amar. Podes pedir-me, se assim o entenderes, como noutras ocasiões já to disse, que desista de ti, mas, nesse caso, tens de me fazer prova, primeiro, que te reencontraste com a tua auto-estima. 

Helena querida: bonita? Sempre que tu queiras!


José Cadima

domingo, dezembro 08, 2024

Minha Querida Helena (6)

 Minha Querida Helena,

Em tempo de confidências, quero falar-te hoje do sentimento que tive na passada semana quando, por feliz acaso, passei a noite em tu casa. O acaso a que me refiro releva dos nossos desencontros recentes, que verbalizei em mensagens anteriores.

Não me deterei sobre a tua receptividade em relação a gestos de carinho matinal; não me alongarei sobre a estranheza que para mim é a gestão que fazes das tuas horas nocturnas, onde parece não haver tempo para o sono – presumo que aches que outro tanto seja válido para os demais ou, pelo menos, para mim; não comentarei a quantidade de comida que sempre pões à minha frente, nem tão pouco a surpresa que sempre enuncias pelo pouco que – dizes tu – eu como. Tal qual digo, pretendo apenas dar-te notícia do sentimento que me invadiu, em tua casa, enquanto aguardava que acabasses de fazer o jantar, primeiro, ou te libertasses das arrumações da cozinha, depois.

Concretizando, digo-te, minha querida, que me vi na condição de um objecto que preenche a casa. Não digo um objecto mais, porque poderia parecer-te ofensivo, mas, em todo o caso uma peça que ocupa um espaço, porventura preenche um vazio. Curiosamente, no teu dizer, alguém que se move sem ruído e que, por isso, ocasionalmente te surpreende e te assusta. Repara, o meu objectivo era estar contigo – sublinho:  estar contigo – mas a ti satisfez-te ter-me no sofá da tua sala, enquanto tu te movimentavas pela cozinha, pela casa; satisfez-te saber-me deitado na tua cama, a perdido de sono, enquanto te ocupavas da cozinha, da casa de banho, e do mais que julgaste ajustado para aquela hora tardia.

Em abono da verdade, devo dizer-te que não foi a primeira vez que pensei isto que agora te enuncio. Foi, no entanto, a primeira vez que o senti na sua expressão vivida, na exacta hora. Não to disse na ocasião porque não sabia como reagirias ou, melhor, receei que reagisses mal, e isso era a derradeira coisa que eu desejaria. Digo-to agora, num apelo à sinceridade, na expectativa de que entendas a bondade do que te transmito e me perdoes, nessa mesma medida

Seguramente, te surpreenderei com esta minha confissão. Tu sabes, no entanto, que és o meu único refúgio, pelo que não havia outrém a quem segredar este pensamento íntimo. É  também isso que faz a diferença entre ter ou não ter  alguém ... meu amor.

 

 José Cadima

sábado, dezembro 07, 2024

Minha Querida Helena (5)

 Minha Querida Helena,

Por vezes, é tão difícil falar contigo. Há ocasiões em que tenho a sensação que só te escutas a ti. Digo-o não no sentido figurado - de que o teu pensamento prevaleça sobre o de outrém (o meu) - mas no exacto sentido em que, pura e simplesmente, ignoras o que te procuro transmitir, e fico a repetir palavras, a exprimir emoções crescentemente irritado e tentando controlar a vontade de bater com o telefone. Nessas ocasiões, concluo sempre, e algumas vezes digo-to, que não devia ter telefonado. O problema é que não sou capaz de antecipar quando não te devo ligar e, uma vez entrados nessa conversa de surdos, é tarde de mais para recuar, se bem que o devêssemos fazer. Cortando, estabelecendo a ligação a partir do início, a possibilidade de sucesso da comunicação é inquestionavelmente outra.

Curiosamente, isso acontece mais em ocasiões em que procuro exprimir-te a preocupação que tenho com a tua saúde ou com a tua estética, o que configura a ideia, que já te tenho repetido, de que essas são peças da tua estratégia de auto-flagelação, sendo certo que, magoando-te, me magoas também, embora as consequências desse  gesto sejam bem mais gravosas para ti.

Quando finalmente consigo que me ouças, dizes-me amiúde que sou eu que sou incapaz de julgar a ordem das prioridades: a prioridade de alguém que chega e que espera atenção sobre a prioridade de agendar uma consulta médica; a prioridade de arrumar a sala sobre a prioridade de realizar um tratamento no hospital; a antecedência absoluta de uma visita ao café da D. Felizmina, de um cigarro sobre a visita ao cabeleireiro.

Não entendes tu que essa tua ordem de prioridades me confunda e me contrarie? Porque não aceitas tu, minha querida, que eu queira ver-te fresca e bonita? Onde está a irrazoabilidade deste meu querer?

Helena querida, fico a ansiar o teu sorriso.


José Cadima

sexta-feira, dezembro 06, 2024

Minha Querida Helena (4)

Minha Querida Helena,

Temerosamente, digitei o teu número. Respondeste-me questionando porque não te tinha ligado antes. O meu coração estremeceu de alegria, embora, crendo não te ter ouvido bem, a tenha silenciado. Fiquei na expectativa doutros sinais. Perguntaste-me porque não toquei à tua companhia, quando, deambulando, acabei por me achar ontem em Barcelos, visitando a feira do livro. Acreditei então ter-te entendido bem.

Disseste-me, também, que tinhas estado a arrumar os teus papéis e a casa. Pretendi ver nisso um sinal de retorno à vida, um indício de que posso ter esperança de ver novamente balouçar-te nos lábios um sorriso. Desejaria antes uma gargalhada mas um sorriso é sempre um sorriso ... meu amor.

Envolvido nos meus pensamentos, de coração aliviado, interrogo-me sobre se o que percebi em ti será um momento de acalmia ou o emergir de um novo ciclo. Desejaria  que as nuvens tivessem descarregado tudo quanto houvessem que largar e o azul do céu se afirmasse com todo o brilho próprio desta Europa do sul. Assiste-me a esperança de que retomes a rua, os livros, os teus poemas, a força que ousavas pôr nas tuas atitudes e convicções. Se, nesse frémito de vida, quiseres buscar repouso nos meus braços tanto melhor para mim mas importante, importante mesmo é ter-te de regresso à luta.

Li no jornal de hoje as desventuras de um país à espera de ter Governo e as acrimónias dos que, na sua segurança, não perdoam a insegurança do Presidente da República e, mais do que a insegurança, a generosidade posta por ele na sua decisão de entregar a formação do governo a um macaqueador da política. Não tenho a este propósito a segurança dos que aqui invoco e, tenho, por contrapartida, grande consideração pelos que conseguem pôr bondade onde a maioria põe interesses, hipocrisia, mesquinhez. Vou ficar a aguardar. Vou esperar pelo que dá este macaquear da política americana no melhor estilo reaganiano. A necessidade de eleições parece-me também a mim certa, mas lá para a primavera do próximo ano. Até lá, vou ficar na expectativa (desejara que fora a expectativa de termos um governo e um projecto  económico para Portugal mas,  por esses, vamos ter que aguardar muito mais).

Li o jornal embora o meu pensamento estivesse centrado em ti, nesta esperança de um sorriso teu, meu amor.


José  Cadima 

quinta-feira, dezembro 05, 2024

Minha Querida Helena (3)

Minha Querida Helena,

Depois de muita ansiedade, cedendo a um impulso, resolvi ligar-te. Procurava o conforto da tua voz, na dúvida sobre o desconforto das palavras que me dirigisses. Sinto-me reconfortado por esse gesto, pese embora as notícias de abandono que me veiculaste.

Permaneço na dúvida sobre se a tua desistência reiterada é fruto de um momento menos bom da vida (que todos temos, de quando em quando) ou a forma que encontraste de me penalizar. Nota porém que, a ser esta última a tua motivação, estás a admitir a força do laço afectivo que me prende a ti.

Gostei que tivesses admitido que me ligaste – para escutar a minha voz- disseste – se bem que pareça estranho que, querendo ouvir-me, tenhas desligado logo que atendi. Se me permites que o diga, acho isso mais auto-flagelação que qualquer outra coisa, mas talvez seja isso mesmo que pretendas. A tua recusa em cuidares da tua saúde, a tua insistência em descuidares o arranjo dos teus cabelos, o teu fecho para o mundo – que procuras activamente, embora depois, do nefasto que isso te é, reclames -   vão nesse sentido.

Não precisavas ter-te posto incomunicável depois disso. Não precisas, aliás, recear denunciar a tua insegurança. Eu não receio fazê-lo. Antes, junto de ti a minha insegurança esvai-se. Tu és a minha segurança e a minha insegurança!

Amor meu, que posso eu fazer para te arrancar de novo um sorriso? Amor meu, que podemos nós fazer para que o sonho volte a ser possível?

Fala comigo, meu amor! Faz de mim o teu confidente, o teu refúgio, tanto quanto tu és o meu – quero dizer,  tanto quanto eu preciso que voltes a ser o meu ... amor...


José Cadima

quarta-feira, dezembro 04, 2024

Minha Querida Helena (2)

 Minha Querida Helena,

Passaram entretanto quatro dias desde que falámos ao telefone e me pediste para que não voltasse a ligar-te. Foram quatro longos dias, apenas suavizados pela evasão que o trabalho me proporcionou e pela escape que procurei em salas de cinema ou deambulando com o João Miguel, assumindo o papel de pai que tanto me custa vestir. Ainda para mais, nalguns filmes, reencontro o mesmo vazio que a tua ausência me inspira. Foi o que se passou ontem, na série filmes de culto, em que a personagem aparecia perdida de um amor que persistia em recusar que a vida lhe roubara.

De quando em quando sobressalta-me o telefone que toca, na esperança secreta que sejas tu. Depois, volto aos meus pensamentos e procuro arduamente uma nova rotina.

Deixa-me algo perplexo,  minha querida, a forma como recebeste a minha carta: ao invés de uma carta de amor, leste nela uma confissão de desistência e tomaste-a como carta de despedida. Meu amor, a despedida que aí podias ver era só até amanhã. Pergunto-me, por isso, se foi a minha carta que leste ou, tão só, os teus próprios pensamentos.

Sei bem  as mágoas que carregas. Sei bem quanto a insegurança com que lido com as coisas do amor e da vida te desgosta e te gasta. Entendo bem a necessidade de descansares a cabeça e a alma que sentes. O teu ombro, o teu regaço não me é menos necessário que porventura te sejam os meus. O caminho é, todavia, bem mais curto se formos os dois a fazê-lo, caminhando um ao encontro do outro. Importaria, nesse sentido, que eu sentisse que as palavras que te dirijo respeitantes aos cuidados que devias tomar com a tua saúde, aos cuidados a que te devias dar com a forma como te apresentas,  ao empenho que devias colocar no reganhar de um projecto de realização intelectual eram escutadas. Esgotar-te em mim é algo que recuso, e recusaria mesmo que o nosso encontro não se sugerisse mais um mar de desencontros.

Minha amada Helena, se tu descreste, eu quero continuar a acreditar. A minha entrega a ti força-me a sonhar. É a energia que me permite continuar.

José Cadima

terça-feira, dezembro 03, 2024

Minha Querida Helena (1)

Minha Querida Helena,

Não encontrando outra forma de comunicar contigo, virei-me para a escrita desta carta. No desespero da tua ausência, a possibilidade de te ter ao telefone converteu-se para mim num refúgio seguro, por mais efémero e etéreo que se ofereça. Quando mesmo isso me escapa, resta-me esta pobre consolação do desabafo, na incerteza de alguma vez ser lido.

Dirás tu que tudo podia ser diferente. Digo eu que sim, se soubéramos conviver na sociabilidade quotidiana da mesma forma que convivem os nossos olhos, as nossas mãos entrelaçadas... Se soubéramos estar, digo, para além das amarras que a vida nos tece, chamem-se elas filhos, parentes, colegas ou conveniências e convenções.

E o amor? Questionarás tu. Minha querida, o amor é a componente mais frágil da relação humana dos nossos tempos. Tão frágil que nos faz definhar em cada dia que não estamos juntos – e cada vez são mais dias -  mas não sensibiliza os que assistem ao nosso esgotamento.

Quisera estar contigo. Quisera alcançar a paz que a tua voz me trás. Quisera... Meu amor! Meu amor.


José Cadima