terça-feira, fevereiro 24, 2009

“O gato e o sapato”

“Devo confessar a perplexidade que me assiste ao constatar a facilidade com que algumas pessoas, de um momento para o outro, abdicam de metas por que lutaram durante décadas ou aceitam que se chame sapato ao gato.
Talvez seja ingenuidade minha mas continuo a acreditar que há coisas e princípios de que não se abre mão por dinheiro nenhum, isto é, não têm preço. Dantes, ia-se mesmo mais longe e era usual dizer-se que havia «coisas» que não se emprestavam: por exemplo, a mulher e o carro. Temos no entanto que consentir que os tempos são outros.
Vem tudo isto a propósito, como certamente já terão alcançado, do abuso de linguagem que por aí vai, que tem expressão acabada no chamado Plano de Desenvolvimento Regional 1994/99.
Então não é que alguém, não sei se ministro ou secretário de estado, resolveu chamar «Plano de Desenvolvimento Regional» a um documento de planeamento que: primeiro, de quatro objectivos específicos que consagra, só um comporta intervenções territorializadas; segundo, e decorrente dos muitos milhões de ECUs que consigna, reserva uma percentagem de cerca de 20% para a correcção dos desequilíbrios existentes no território nacional; terceiro e último, tem na Expo 98 lisboeta um dos seus projectos estruturantes (e, obviamente, um soberbo sorvedor de recursos financeiros).
Incrível, não acham?! Diria mais: quase tão incrível quanto a falta de interesse ou percepção com que isso passou junto da opinião pública, e dos próprios actores sociais e políticos. Que eu saiba, com a honrosa excepção de um professor universitário de Évora (mal intencionado?) e de meia dúzia de presidentes de Câmara, ninguém mais reparou nisso ou lhe concedeu qualquer atenção.
Para sossegar os leitores, devo informar que o professor universitário em questão teve o destino que merecia em razão da ousadia: a comunicação em que cometia a heresia foi ignorada, por um lado; além disso, de seguida foi designado vice-reitor da referida universidade, como único meio de expiar o pecado. Relativamente aos autarcas não vale a pena falar; no final, eles são também participantes do mesmo jogo político e, portanto, não lhes faltará oportunidade para se pagarem na mesma moeda.
E sabem que mais? Tenho para mim como mais incrível ainda que ministros, secretários de estado e o próprio primeiro-ministro consigam referir-se ao «PDR» nas suas deambulações pelo Alto Minho, Trás-os-Montes, Beira Interior e Alentejo, enaltecendo as virtualidades redentoras dos meios financeiros que consagra, sem que, a meio do discurso, desatem a rir a “bandeiras despregadas”.
Parolos! Que bem nos achamos na figura de parolos.”

J.C.
(reprodução integral de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 94/12/17, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)

1 comentário:

Anónimo disse...

Caro J.C.

Devo reconhecer que o título que seleccionou desta vez foi dos mais apelativos e motivadores de leitura.
A actualidade de algumas passagens continua a fazer-me concluir que já vão longe os tempos em que acreditava que o ser humano iria mudar. Só posso conluir que fomos uma obra do acaso.
O que sinto, passados cerca de 14 anos, é que há mais pessoas que abdicam de metas por que lutaram durante décadas (o medo está instalado) e aumentaram exponencialmente as que aceitam que se chame sapato ao gato. Eu até diria que cresceram os que chamam trampa ao gato. É que um sapato até pode ser elegante, sexy e bonito como um gato. Mas trampa é trampa, não há que enganar e não é comparável a um gato.
Tem razão ao afirmar que há coisas e princípios de que não se abre mão por dinheiro nenhum, isto é, não têm preço. Espero que, embora desanimado, continue a pensar desta forma. É que os outros precisam que existam pessoas como o J.C., para darem luta e para "acordar" quem anda a "dormir" ou tem "medo". E deve saber tão bem constatar o nervosismo que se cria pelas afirmações que tece!...
Quanto à "mulher e ao carro", não vou tecer considerações, pois não tenho a certeza de que continue a ser assim...