Imagina só poderes ver os meus sonhos no meu reflexo. "Jornal de Parede" de José Pedro Cadima e de José Cadima
domingo, dezembro 21, 2025
Festas Felizes!
segunda-feira, fevereiro 10, 2025
Minha Querida Helena (63)
Minha Querida Helena,
Retomo o contacto contigo
depois de ausência longa, muito longa, motivada por razões de força maior. Foi
um afastamento penoso mas necessário, forçado por razões próprias de quem fez
caminho cruzando terreno bravio, sempre à beira de soçobrar.
Regresso cansado, de um
cansaço diferente daquele com que parti, mas, ainda assim, cansado. Embora às
vezes nos recusemos a admiti-lo, as viagens são quase sempre fatigantes, sendo
certo que ficar pode ser pior. Ensaio retomar algumas rotinas e, também,
algumas das referências que informaram a minha vida de sempre. Nem todas, já
que algumas me dizem pouco agora e outras receio não ter energia para as
agarrar de novo. Regressei, se bem que não esteja certo de que devesse ter
regressado ou, então, que seja este o momento certo para retornar a este lugar.
É verdade que muitas vezes -
porventura, demasiadas vezes – falta-nos a resposta para as questões que
colocamos, sendo bem melhores aqueles momentos em que não temos questões a
inquietar-nos. Sinto-me cansado, digo, mas, mais do que isso, sinto que me
falta ânimo e energia para enfrentar esta onda que tudo enreda e tudo arrasta,
deixando atrás de si desolação e destroços. Se destroço ainda não sou,
provavelmente pouco mais serei que desolação.
Custa-me a incerteza do que
farei amanhã ou, melhor, do que serei capaz de fazer amanhã, embora no meu
refúgio me sinta tranquilo, relativamente apaziguado com os meus espíritos e
seguro da sua inviolabilidade pelos espíritos alheios. O problema é quando abro
a porta e, desgraçadamente, abro-a vezes excessivas. Não o deveria fazer, eu
sei, mas há referências passadas de que nunca somos capazes de nos libertar por
inteiro (assim me parece).
Estou de regresso, embora não
esteja certo que seja avisado regressar e tenha por seguro que uma dimensão
fundamental de mim terá ficado nas paragens longínquas por onde deambulei
durante este tempo de ausência. Quem chega nunca é o mesmo sujeito que partiu.
No meu caso, chego mesmo a questionar-me quem sou já que dificilmente me
reconheço nesta desolação quase destroço em que me converti.
Gostava de te trazer boas
novas, meu amor de sempre. Gostava mesmo!
José Cadima
domingo, fevereiro 09, 2025
Minha Querida Helena (62)
Minha Querida Helena,
Estou naquela hora em que só a revolta e o desespero me assistem. Atravesso aquela hora do dia em que à minha volta só sinto tristeza e raiva; tristeza, por sentir que já não sou capaz de dar alma ao mundo que me rodeia; vazio por parecer ineficaz tudo quanto faço para que o dia seguinte não me apareça transformado num vale de lágrimas igual ao que foi o de hoje.
Falava eu há um par de dias de ciclos de esperança e desesperança, que se alternam. Pobre de mim que no meu desespero já confundo sonho e realidade. A esperança vive apenas na minha ansiedade; porventura, também nas minhas memórias longínquas. Não é parte da realidade que é o meu quotidiano. Aí, a alternância faz-se com acalmia, bonança, não com excitação, nunca com tempos de alegria aberta, sustentável.
Como aqui cheguei não to sei dizer. Questiono-me sobre se foram os meus olhos que foram pintando tudo mais sombrio ou foi o sombrio da minha envolvente que se foi impondo aos espasmos de conforto que ocupavam as minhas memórias. Questiono-me também como saberei percorrer caminho, descrente de alcançar um retiro que me permita recuperar energia, alcançar descanso.
Sobra-me o sonho fugaz de que voltes a ser o meu porto de abrigo, o meu lugar de evasão. Quer dizer, descrente de poder aceder à paz na terra, já só sonho com a tranquilidade que o céu me possa trazer. Atormenta-me entretanto o receio de que o meu céu não passe de ilusão de moribundo perdido em terra inóspita.
Atravesso aquela hora em que
todos os pensamentos me assaltam, menos aqueles que podiam dar-me força para
rumar contra uma maré que parece sempre prenhe de desgraças, pequenas e
grandes, e de incidentes que nos desgastam e nos esvaem as forças que restam.
Nesta hora nefasta, sonho com horas preenchidas por encontros, reencontros, retornos, alegrias de vidas simples, preenchidas por encontros, reencontros, retorno a lugares onde subsista espaço para o romance, para a simplicidade de vidas simples. Sonho...
Sobram-me tempos de desapontamento enquanto me
escasseia ocasião para o sonho das coisas simples, das pequenas realizações que
são pequenas alegrias que nos aquecem a alma e rejuvenescem o corpo. Sobra-me o
sonho fugaz de que voltes a ser o meu porto de abrigo, que queria que se
tornasse realidade desta hora. Seria um começo.
José Cadima
sábado, fevereiro 08, 2025
Minha Querida Helena (61)
Minha Querida Helena,
Tal como a economia, também a
minha vida parece desenvolver-se em ciclos, isto é, há ocasiões em que uma
desgraça só anuncia a desgraça que lhe sucede. No próprio dia de anos, apesar
de me ter refugiado no estúdio logo a seguir ao almoço, não me libertei de
receber a notícia que o João Miguel tinha tido negativa a História, atirada
assim como quem só quer dar uma prenda a alguém; neste caso, eu, que fazia anos
e, na boa tradição nacional, merecia uma prenda. Em Portugal, não se faz anos
em vão: há sempre uma prenda para receber, mesmo que nos refugiemos longe de
todos o dia de anos inteiro.
Do dia anterior, e de outros
antes desse, sobrava-me a memória das tuas palavras magoadas, comigo e com os
outros (nalguma medida, o mundo inteiro), e a tua atitude de desistência, que a
mim me soa a condenação por culpas que tenho mas que, conscientemente, recuso
que sejam só minhas e não minhas e tuas. A mágoa que daí me vem assistiu-me o
dia todo e, presumivelmente, acompanhar-me-á por muitos mais. Pior é, no
entanto, sentir que não está ao meu alcance provocar o abanão que te agite, te
desperte e afaste para sempre esse torpor que te colhe e te arrasta para um território de ninguém e,
desse jeito, me arrasta contigo para o desencanto, o território em que uma
desgraça só pode anunciar que uma outra desgraça se anuncia.
Escrevo estas letras enquanto
me interrogo como me vais responder quando, daqui a alguns minutos, te
telefonar: surpreender-me-ás com a prenda de uma palavra(um gesto) positiva(o)
ou, pelo contrário, limitar-te-ás a confirmar que, em fase negativa de ciclo,
uma má notícia que me chega só anuncia que outra está a caminho? Ou, simplesmente, não chegarás a atender,
confirmando com esse gesto toda a apreensão que me acompanhou ao longo do dia,
qual amarga prenda de anos?
Talvez não. Talvez, num gesto
de carinho, decidas pôr um sorriso e presentear-me com ele neste dia de anos
que não fiz questão de lembrar a ninguém e, por isso, me refugiei aqui tão cedo
quanto as obrigações de agenda mo permitiram. Daqui a pouco o saberei.
José Cadima
sexta-feira, fevereiro 07, 2025
Minha Querida Helena (60)
Minha Querida Helena,
Há momentos em que nos
sentimos esmagados. Para mim, acabado de regressar de tua casa, este é um
desses momentos. A tua desistência, a tua doença e a tua atitude deixaram-me
num tal estado. Não é a primeira vez que sou atingido deste modo tão
fulminante. Não é, por isso, que me encontro melhor preparado. Em boa verdade,
há factos ou situações para as quais não parecemos jamais preparados. Diria,
entretanto, que me sinto mais impreparado do que alguma vez me encontrei;
talvez por estar mais velho, mais desgastado; talvez por ter deixado de olhar
para diante com o optimismo doutros tempos.
Sempre lidei com grande
desconforto com o que não era capaz de entender ou com dificuldades que
escapavam à minha capacidade de dar contributo para a sua superação. Os
problemas só existem quando nos escapam os instrumentos para a sua resolução.
Doutro modo, não são problemas; são desafios.
Esmagado, digo; confesso-me
esmagado e dolorido: não é em vão que vimos escapar-nos por entre os dedos um
amor sofrido de muitos anos; não é em vão que se assiste ao assumir de uma
atitude de desistência de qualquer esperança por parte da mulher que dá calor à
nossa vida – desistência que raia a própria sobrevivência física. Esmagado,
confuso, desesperado olho em redor e não vejo senão desolação, desesperança,
vazio quando, em vez disso, precisaria sentir o teu calor, o teu estímulo, o
teu entusiasmo para seguir caminho contigo, meu amor de ontem, de hoje, do
resto da minha vida.
Volta para mim minha querida!
Não deixes que o vazio se apodere de nós! Não deixes que eu desista porque tu
desististe. Lembra-te que a desistência não era palavra que constasse do nosso
dicionário. Não desistas, meu amor: volta para mim!
quinta-feira, fevereiro 06, 2025
Minha Querida Helena (59)
Minha Querida Helena,
Acordei hoje com uma violenta
dor de cabeça de que não me libertei até esta hora em que te escrevo, e são
17,00. Não dormi de mais nem de menos. Deitei-me ontem pelas 23,00 horas,
porque me sentia um pouco cansado e com sono, e levantei-me hoje cerca das oito
e meia da manhã. Acordei três vezes durante a noite, algo que é comum, e, com
mais ou menos dificuldade, adormeci algum tempo
depois.
Ontem, trabalhei até à hora de
me deitar mas parei quando senti que precisava terminar. A tarde passei-a a ler
o jornal, aguardando a ocasião de encontrar concentração para o trabalho que
tinha por realizar. Nos dias precedentes senti-me cansado mas não tive dores de
cabeça. Estranhei apenas o cansaço que me assolava, sem razão aparente, mas
mais estranho esta maldita dor de cabeça. Admito que as coisas estejam ligadas
mas, assim sendo, ou se trata do afloramento de um cansaço de que não cheguei a
recuperar de todo ou as razões são de outra índole, não sabendo eu precisar a
causa próxima. Num e noutro caso, isto incomoda-me e não apenas a dor de cabeça
que me atormenta nesta precisa hora.
Durante a manhã conclui a
tarefa em que peguei ontem ao fim da tarde. Outras ficaram a aguardar vez. Já
durante a tarde assumi funções de tutor e ocupei-me das dificuldades de domínio
da língua portuguesa com que se confronta o José Pedro – refiro-me à pontuação
e à acentuação das palavras. Percebo-lhe as dificuldades, porque também passei,
mas incomoda-me que me faça refém delas constituindo-me no único agente a quem
cumpre fornecer-lhe ajuda. Tentei ser criativo, pelo menos, propondo-lhe o
exercício de um diário ficcional, que me proponho corrigir com ele
regularmente. A primeira peça do “diário de bordo” construímo-la os dois.
Pareceu-me motivado para o exercício – também é verdade que a proposta levava
em linha de conta a sua motivação para a escrita, que mantém embora lhe faltem
instrumentos básicos, conforme se pode daqui concluir.
Gostava de acreditar que vai
funcionar e mais gostava que funcionasse mesmo. Libertava-me de uma
preocupação, pelo menos. O alívio não sei se seria muito grande, atendendo a
que sobrariam pelo menos mil, mas seria grande, ainda assim: uma a menos.
Talvez fosse bastante para que a dor de cabeça que sinto me passasse e ficasse
só cansaço igual ao que senti ontem e antes de ontem, cuja razão de ser não
alcancei, ainda.
Não como dor de cabeça mas
como memória grata, fui sempre recordando os fugazes instantes do nosso
encontro de 6ª feira pp. Instantes fugazes de mais para me transmitirem a
energia que bastasse para afastar o cansaço que entretanto voltei a sentir
desde há um par de dias. Vou ansiar por nova dose, desejavelmente reforçada. Se
ela me achegar em tempo e quantidade bastantes, talvez este mal-estar seja
superável. Doutro modo, receio que não sóbre tutor, nem investigador, nem
companheiro, nem ser carente de ti, meu amor.
Fica registado, para que
conste.
Recebe um abraço apertado e um
beijo deste que padece de muitos males mas, especialmente, da tua ausência,
José Cadima
quarta-feira, fevereiro 05, 2025
Minha Querida Helena (58)
Minha Querida Helena,
Pronto, estou de volta. Estou
de volta às rotinas, que nem sempre são rotinas. Estou de volta à minha
pacatez, que não o é nada à medida dos meus anseios. Desafortunadamente, não
estou de volta para ti, pois parecemos irreparavelmente desencontrados. Pelo
menos assim se me oferece. Desencontrados, quer dizer, sem tempo nem espaço
para um abraço sem tempo, sem ocasião nem lugar para um beijo do tamanho do
mundo.
Pronto, estou de regresso ao
trabalho, que é esforço e é evasão e, desse jeito, faz com que os meus dias se
ofereçam menos penosos, na falta de ti. Anima-me a esperança de que amanhã seja
diferente, de que amanhã encontremos o tempo e o espaço para um momento de
reencontro, quer dizer, de comunhão íntima. Move-me a esperança, digo, até à
prova do dia seguinte, de um reencontro adiado. Háde ser no dia que se
sucederá! Será depois de amanhã, será!
Pronto, estou de regresso ao
meu lugar de confidência, à minha companhia segura de horas de solidão e de
desânimo, e de outras menos desafortunadas onde se tece a esperança de um
amanhã que sorri ou que, de algum modo, nos deixa espaço para sorrirmos. É
também um lugar de encontro: permite que me encontro comigo, com as minhas
ânsias e desesperos, mas não me deixa lugar para o reencontro com a paz
tranquila que só tu és capaz de dar-me.
Pronto, estou de volta à
música que me faz companhia e às notícias que me forçam a lembrar que existe
mais mundo que aquele que descortino da minha janela ou que pressinto nas
pessoas com que me cruzo, e me fazem sentir mais desconfortável, mais infeliz
por darem conta de vidas mais tristes que a triste vida que levo. Conforta-me
alguma música que ouço e conforta-me pensar que nem tudo é tão triste, tão
medíocre como o que me chega nas notícias que ouço. Conforta-me pensar que
amanhã, porventura, vou encontrar refúgio nos teus braços.
Pronto, estou de volta aos
meus pensamentos, às minhas frustrações e esperanças. Frustração por ficar nas
minhas acções muito aquém do que me daria alegria realizar. Esperança de poder
correr para os teus braços amanhã, já que hoje não pôde ser.
José Cadima
terça-feira, fevereiro 04, 2025
Minha Querida Helena (57)
Minha Querida Helena,
Longe, sinto-te longe, isto é, fazes-me falta acrescida. Longe, precisava-te perto, queria-te comigo mais ainda do que te necessito no quotidiano. Imagina, meu amor, a felicidade que podíamos desfrutar juntos, bem longe das rotinas e da mesquinhez do dia-a-dia.
Nestes poucos dias aqui em Barcelona, circunstâncias diversas mantiveram-me afastado de quase tudo. Surpreender-te-á, talvez, a pacatez da vida que aqui levei e a distância que mantive em relação a quase tudo. Não fiquei frustrado por isso. Lamentar, lamentarei tão só não te ter tido junto de mim, comungando dessa pacatez e tornando os meus dias mais aconchegados e, sobretudo, preenchidos por ti.
Já lá vai o tempo em que esta cidade me entusiasmava, no seu movimento, no seu colorido. Permanece uma cidade aberta, ainda é mais colorida que o comum das cidades mas já não se me sugere tão alegre: há nas ruas demasiados pedintes para que nos inspire contentamento; mesmo os prédios, a arquitectura se me oferece crescentemente cinzenta. Quiçá a cidade não esteja assim tão diferente e quem o esteja seja eu? Quiçá?! Talvez tudo me parecesse diferente se estivesses comigo. Talvez a sentisse mais fulgurosa, mais alegre.
Nesta hora, estou de regresso.
Não lamento o tempo que aqui passei nem lamento ter estado ausente. Lamento
apenas não te ter tido comigo, preenchendo os meus dias deste retiro e fazendo
deles um pouco mais alegres, um pouco mais cheios, muito mais aconchegados.
Sabes (sei que sabes – já te o repeti tantas vezes): tu és componente
incontornável das minhas alegrias e frustrações. Quisera que fossem só
alegrias! Longe, quisera ter-te comigo!
José Cadima
segunda-feira, fevereiro 03, 2025
Minha Querida Helena (56)
Minha Querida Helena,
Venho agora mesmo de te ligar. Tinha uma razoável expectativa de poder estar contigo esta tarde e matar saudades de um beijo mais demorado. Tinhas-me dito ontem para te telefonar pelo fim da manhã. Foi essa circunstância que alimentou a esperança de que te falo. Infelizmente, tinhas-te esquecido do telefonema e, presumo, da oportunidade de, num horizonte de 10 dias a contar de hoje, trocarmos um abraço apertado e, porventura, um beijo mais demorado...
Foi pena, meu amor. Foi pena porque esse beijo faz-me uma falta imensa: aquece-me o corpo e dá-me energia para os dias que se sucedem ... até ao próximo beijo. Privado desse beijo, desfalecem-me a alma e o corpo, e o frio toma conta dele. Ficar sem ti significa ficar sem defesas.
Perdido, acantono-me no meu estúdio, fecho-me na minha concha tendo por companhia a música que me chega do rádio ou do CD que roda, os ruídos abafados provenientes da rua ou dos apartamentos vizinhos, o computador com que desabafo ... e uma imensa saudade de ti.
Nesta familiaridade com o meu computador – que herdei do meu filho mais velho por já lhe ser inútil de desactualizado nas funcionalidades e memória – nem parece termos travado contacto há tão pouco tempo: num quadro de absoluta urgência, comecei por digitar umas mensagens de correio electrónico há cerca de 23 meses. Não é que fossemos de todo desconhecidos até então: cruzámo-nos amiúde antes, desde há quase vinte anos, mas as circunstâncias não nos tinham ditado uma relação táctil até esse momento que refiro. A verdade é que não foi necessário muito tempo para que nos identificássemos como se nos houvéssemos conhecido desde o berço, tal como tu e eu, minha querida. Assim, quando me faltas, o computador converteu-se no meu único confidente, para o qual não guardo segredos.
Nesta intimidade, tenho apenas
atravessado o desconforto de saber que o meu computador não me confia os seus
segredos de modo idêntico ao que eu faço com ele. Isso tem já sido motivo de
desencontro entre nós mas, em razão do meu nível de carência e/ou, talvez, em
expressão da benevolência que me é própria, sempre temos sido capazes de
superar os desentendimentos de ocasião; diria mesmo, Helena querida, que com
maior facilidade com que, algumas vezes, temos superado os nossos.
José Cadima
domingo, fevereiro 02, 2025
Minha Querida Helena (55)
Minha Querida Helena,
Lá fora, pressinto o frio da
noite. Cá dentro, sinto o frio percorrer-me o corpo: primeiro, toma-me conta
dos pés; depois, progressivamente, vai-se-me apoderando das pernas. Sinto-o já
na vizinhança dos joelhos. Sacudo-o, de quando em quando, passando as mãos pelas
pernas ou esfregando os pés um contra o outro. Olho o aquecedor, colocado a
três metros, mas este não parece querer vir em meu socorro. Agito-me de novo na
cadeira. O conforto que obtenho configura-se passageiro; demasiado breve para
ser conforto.
Também ontem o dia estava
fresco. Porém, não o senti tão fresco como o de hoje, nem mesmo enquanto
permanecemos à beira-mar assistindo ao esgotar da luz do dia. Aliás, quando
beneficiei da protecção do teu corpo a brisa fresca que me chegava acabou por
esfumar-se. Admito, no entanto, que o calor que me transmitias te faltasse a
ti. Já no carro, a brisa converteu-se num rumor à solta num lugar vazio; um
simples cenário de um encontro de namorados. O aconchego só não foi pleno
porque a inquietação interior não o permitiu.
Maldito frio que ousa
intrometer-se entre nós. Não vejo forma de contrariar este desconforto que não
seja aconchegar os nossos corpos um contra o outro até que o frio não possa
mais encontrar nesga por onde penetrar. Repara: quando pressiono as pernas com
as minhas mãos, o frio desaparece. O mal está em que, logo que tiro as mãos,
ele volta. Precisamos converter-nos em muralha para permanecer protegidos.
Necessitamos ser duna para que o vento não nos arraste. Se formos vulcão, não
precisaremos de lume para nos conversarmos quentes.
Enquanto não somos, quer
dizer, enquanto não sou, não tenho outro remédio que não seja operar uma
retirada estratégica e procurar refúgio
na cama, embrulhado nos cobertores. Se sobreviver a esta noite, a este frio que
me assalta, digo, a esperança de sermos vulcão háde dar-me a energia para atravessar o dia de
amanhã, mesmo que seja só para, chegado o entardecer, sentir uma vez mais o
frio apoderar-se de mim, começando pelos pés e progredindo, de seguida, pelo
corpo todo.
sábado, fevereiro 01, 2025
Minha Querida Helena (54)
Minha Querida Helena,
Aqui estou de volta à nossa intimidade. Depois de um dia sossegado mas de muito trabalho sabe bem este instante de descontracção e de encontro: reencontro comigo, encontro contigo.
O dia foi cheio, digo. Começou com uma entrevista de trabalho ao início da manhã - fui aí buscar mais um pequeno contributo para o relatório sobre oportunidades de investimento que estou a elaborar para a ADRAVE (que se está a revelar mais complicado do que antecipara, isto é, as ideias não fluem). Continuou depois no estúdio com o regresso à tradução e revisão da comunicação sobre marketing de eventos desportivos (ainda a pretexto do Euro 2004).
Dei o trabalho por terminado, em primeira aproximação, pelo meio da tarde. Algum tempo depois retomei o texto para uma leitura transversal adicional. Encontrei o pretexto e a motivação no texto da comunicação que apresentarei na próxima semana em Barcelona, na Conferência da AECR (Associação Espanhola de Ciência Regional). A verdade é que um termo que me escapara na tradução do texto precedente surgiu-me ali, à mão, logo na primeira leitura da comunicação da AECR. Não é por acaso que um trata de marketing de eventos desportivos e outro de preço dos azeites regionais. Não é por acaso, disse: é porque, em algumas ocasiões, eu me proponho tarefas que não lembrariam a alguém avisado.
Estes afazeres juntos,
achei-me na cercania das 21,00 horas, altura que me pareceu adequada para
jantar. O dia fora cheio mas, felizmente, calmo e produtivo. Era hora de fechar
o dia e pensar o dia seguinte, e era hora de estar contigo, meu amor tão
distante.
Um beijo de saudade!
José Cadima
sexta-feira, janeiro 31, 2025
Minha Querida Helena (53)
Minha Querida Helena,
Escrevo-te estas linhas acabado de chegar da rua, onde fui para te telefonar. Não foi uma experiência traumática como muitas vezes tem sido, se bem que não deixasses de me falar da coincidência dos teus sonhos com aquilo que tu leras em carta minha acabada de receber (com significativo atraso, convenhamos). A coincidência está na tua vontade de ver intuições nos sonhos que tens e em nada mais, digo-te.
Contrariando o que vem sendo comum neste enredo – sublinho – gostei de ouvir a tua voz, como já tinha gostado ontem. Num e noutro caso, julguei reconhecer a voz (e a expressão) da mulher com quem passei a tarde de 5ª feira pp. e, particularmente, pareceu-me vislumbrar a voz que associo à emoção de um abraço no meio do areal de uma praia que era só nossa. Foi um abraço que já não cria possível. Foi um abraço que não se esquece, pelo que diz.
Julgavas tu, admitia eu que a
nossa relação se alimentava de encontros e desencontros; talvez mesmo de
rotinas. Aquele abraço na praia veio dizer que a nossa afectividade se funda
numa identidade subjectiva que as palavras e as rotinas só podem perturbar. Se
assim não fosse, como poderia tamanha identificação exprimir-se do mesmo modo
que a senti há tantos anos, pese embora todos os encontros e desencontros
porque passámos desde então? Não há forma de fugirmos de nós mesmos! Também,
porque o haveríamos de fazer?
Escrevo-te esta carta depois de uma tarde calma, passada entre o jornal e o texto cuja revisão da tradução estou a fazer. É uma tarefa morosa e desgastante que preciso intercalar com a leitura do jornal ou com uma simples deslocação à casa de banho. De facto, vezes há em que a ida à casa de banho se sugere em razão de uma necessidade psicológica mais que de necessidade fisiológica. Neste caso, a deslocação é curta. Noutros é mais longa, mas a casa de banho sugere-se-me um bom destino para uma deslocação breve, num caso e noutro. A ir à rua, correria o risco de experimentar frio e o incómodo de não saber que destino tomar. Sendo deste jeito, o destino é seguro e o desconforto oferece-se bastante limitado.
Daqui passarei directamente para a cama, onde também nem sempre fico confortável. Hoje, porém, fico na expectativa de sonhar contigo. Se isso vier a acontecer, sei que será um sonho agradável, bem diferente daquele a que te referiste na nossa breve comunicação telefónica.
Recebe um beijo grande e um
chicoração deste que tanto te quer.
José Cadima
quinta-feira, janeiro 30, 2025
Minha Querida Helena (52)
Minha Querida Helena,
Sinto-te de novo longe. Não
que procures tomar distância face a este teu admirador mas, simplesmente, no
sentido em me falta a tua presença e o teu carinho. Coisas de alguém carente
que passa o comum dos dias correndo entre lugares e/ou entre coisas e gostaria,
antes, de ter ocasião para tomar o sabor de uma leitura descontraída, de uma
conversa com um amigo ou de um olhar do mar, esquecido de que existe outro
ritmo que não o das ondas num dia de acalmia.
Para piorar as coisas, tenho a
sensação de que gasto o tempo a fazer coisa nenhuma, isto é, avaliando os
resultados de um dia, após outro, sugere-se-me ter produzido coisa nenhuma.
Pelo menos, a revisão da tradução para inglês do texto que encetei na 2ª feira não
progrediu ainda, e é já o termo de 4ª feira. Entretanto, tarefas planeadas para
lhe sucederem aguardam, sendo que tarefas há que se mantêm em agenda desde o
meio do Verão, não sendo certo ainda o momento em que terão a sua vez.
Nalguma dimensão, conjugar-se-ão
para este efeito uma ineficiente gestão do tempo, uma deplorável perda de
energia, quando confrontado com melhores dias, e uma manifesta incapacidade de
dizer não a solicitações externas que encaixam nas prioridades de outros mas
não nas que eu deveria ser capaz de definir para mim. Pelo menos estas razões,
digo. Falta-me tempo para mim (que gostaria de partilhar contigo) e sobra-me
tempo usado a responder a prioridades alheias ou, nalgumas situações, a reagir
a coisa nenhuma.
Pelo que digo, não estranharás
que te sinta longe, como não te surpreenderá a saudade que sinto dos teus
braços. Não falo do repouso do guerreiro já que, se o fui nalguma ocasião
passada, não me reconheço nessa figura na actualidade. Refiro-me, tão só, ao
homem fatigado e descrente de hoje que reclama a urgência de um porto de
abrigo.
José Cadima
quarta-feira, janeiro 29, 2025
Minha Querida Helena (51)
Minha Querida Helena,
Volvidas que são as
conferências e outras urgências, tento voltar para ti. Tento, digo, porque
retomar o “romance” não é apenas uma questão de querer; é muito mais uma coisa
que releva do ser.
Nessa busca do íntimo, recordo
primeiro a troca de palavras sem sentido que ontem mantivemos. Odeio falar
contigo ao telefone e, sabendo-o, tu pareces querer que eu odeie cada dia mais:
explica-me lá porque misteriosa razão, conhecendo eu alguém, não posso deixar
de conhecer a tia desse alguém, a sobrinha e, ainda, o enteado? Não fazendo
sentido que essa ideia releve de qualquer encadeado razoável de circunstâncias,
quando me atiras com esse arrazoado só poderás estar a querer gozar comigo ou,
o que vai dar no mesmo, a pretender irritar-me - sabendo-me ao telefone. É mais
um incentivo para que não te ligue. De tanto insistires, acabarás por ser
sucedida no teu intento de pôr termo a esse tipo comunicação entre nós.
Do telefone, volto para os
meus pensamentos e deles para a sede que me ficou de soltar a raiva resultante.
Nessas alturas pode-se fazer qualquer coisa: até achar que não há mais espaço
para o romance. Ganhar distância, remeter para o domínio do ficcional palavras
trocadas que nunca deveriam tê-lo sido é a outra opção. Não é nunca fácil, não
obstante. Só dando tempo ao tempo se viabiliza que o romance se sobreponha à
raiva e a saudade emirja, leve, primeiro, com intensidade maior, depois.
Nessa altura, nesta altura já
te sinto o rosto pousado sobre o meu colo, já sinto a tua pele sedosa nos meus
dedos enquanto a minha mão percorre as tuas costas, encalhando nas costuras das
tuas roupas. Estou de volta para ti, mas nem por isso deixo de me questionar se
não será hora de partir para sempre de cada vez que a minha mão encalha nas
costuras das roupas (ou as minhas palavras trocadas contigo ao telefone na tua
obsessão de transformar cada telefonema que te faço num abismo sem fundo). A
mão vai fazendo caminho pela pele sedosa; para lá das costuras insinua-se um
estremeção de excitação e a resistência quebra-se. Estou de volta ao romance,
estou de novo contigo, aconchegando-me no teu peito.
Porque não dura sempre este
nosso romance, meu amor?
José Cadima
terça-feira, janeiro 28, 2025
Minha Querida Helena (50)
Minha Querida Helena,
Ontem não te telefonei. Resta-me esperar o pior quando te falar hoje. Não me direi preparado para o que me dirás, ou talvez não digas, embora devesse estar. Fiquei-me pela condição de explicador/tutor e ousei quebrar uma rotina que uns dias me faz bem e outros muito mal.
Anseio, entretanto, reencontrar-te. Reencontrar mesmo, digo, minha querida: reencontrar-te nos meus braços; apertar-te contra o meu peito. Anseio o calor dos teus beijos e o aconchego do teu corpo.
Neste intermeso, entretenho-me com as conferências que modero (hoje, na ACB) ou em que sou palestrante (amanhã, em Galegos, iniciativa da ACIB). Em relação a esta última, mantenho a expectativa sobre que assistência vou encontrar e, nesta hora, assiste-me ainda a incerteza sobre o que direi. Não é que me falte assunto. Pelo contrário, é a vastidão das opções que me tolhe; isso e a conveniência ou inconveniência de ser politicamente correcto, sabido o desconforto com que lido com a incompetência, técnica e política, e a acomodação e falta de arrojo.
Agora que reparo nas horas, incomoda-me igualmente o pouco tempo que tenho para fechar esta carta. Fechá-la, quer dizer, interromper o romance que são estes momentos de abandono, de confidência em que só tu e eu contamos, juntinhos como não é possível estar mais. Se bem que a quebra seja sempre penosa, anima-me a certeza de poder a qualquer momento retomá-lo.
Até lá, meu amor!
segunda-feira, janeiro 27, 2025
Minha Querida Helena (49)
Minha Querida Helena,
A correria em que tenho andado
não me tem dado tempo para um momento de intimidade contigo, aqui ao
computador. Não se poderá dizer que tenha usado o meu tempo de forma muito
produtiva, de trabalho que se veja, mas o que é seguro é que o tempo me tem
escorrido por entre os dedos. Quando aqui chego, o dia vai já demasiado
adiantado ou eu estou saturado demais para que as palavras fluam e o raciocínio
se ofereça escorreito. Aliás, nalgumas das linhas que te dirigi em ocasiões
passadas isso é perceptível nas gralhas que restam ou nas palavras que se
perdem.
Lutando contra este andar dos
dias, estou agora à procura da serenidade que me falta, recordando as palavras
que esta tarde me dirigiste, pelo telefone, e o apelo que nelas se percebia.
Recordo isso e lembro a tarde absurda que passei em tua casa no domingo, depois
de quase teres recusado abrir-me a porta. O absurdo resulta do estado
psicológico em que fui encontrar-te, que só não me apanhou de todo desprevenido
porque me deparei antes com algo próximo. Entretanto, o inesperado do sucedido
deixou-me tão desamparado quanto outras situações que atravessei.
Dizes tu, minha querida, que
me adoras. Mas, pergunto eu: se me adoras, não tens aí uma razão forte para
lutares contra as tuas fraquezas físicas e psicológicas, ao invés de soçobrares
logo que a porta se fecha nas minhas costas? Se me adoras, porque te sinto eu
tão distante, conforte te tenho dito nas minhas cartas (não querendo sequer
invocar o que sucedeu em Agosto)?
Eu também te adoro e disso te
vou dando notícia em todas e em cada uma das cartas que te escrevo, e na
vontade de que te dou notícia de te ver assumir o teu dia-à-dia com vontade e
esperança. Preciso dessa tua garra e esperança para que eu possa, igualmente,
agarrar a vida com algum entusiasmo. Se me falhas, como me faltaste no domingo
pp., falha-me a alegria que me resta e sobra-me o sentido de não deixar que
mais ninguém (especialmente, os meus filhos) me acuse de não ter alcançado o
que podia alcançar porque eu lhe faltei. Não é justificação para uma vida, no
entanto. Assim o entendo!
Vêm até mim, meu amor.
Abraça-me, forte!
José Cadima
domingo, janeiro 26, 2025
Minha Querida Helena (48)
Minha Querida Helena,
Se há dias em que não devemos sair de casa, este foi para mim um deles. Só que tudo começou por correr mal em casa, do “periférico” do computador que avaria e que não parece ser possível adquirir em lado algum ao correio electrónico que se revela difícil de visualizar. Para terminar em desgraça completa, até o presente acabado de adquirir veio com defeito. Como saldo do dia, ficou cansaço e irritação e uma mão cheia de nada, se se considerar o trabalho que estava por fazer e o que efectivamente foi feito.
Em consonância com o demais, pelo telefone soube que te sentias doente, o que não se tratando de novidade, infelizmente, também em nada ajudou ao meu dia. Vou ficar a aguardar com ansiedade o dia em que me digas exactamente o oposto, isto é, que te sentes em boa forma e nada te apetece mais que sair à rua e deixar passar para quantos se cruzem contigo a alegria que se te estampa nos olhos e se percebe na leveza dos teus gestos.
Dentro do expectável, a deslocação a Lisboa até nem correu mal: uma noite calma no hotel, quer dizer, razoavelmente dormida; uma reunião com alguns pontos de interesse, sublinhada por duas intervenções na discussão dos dossiês em agenda que não deslustraram; uma viagem de combóio serena e no horário, na ida e no regresso; a comodidade dos novos comboios que circulam na linha renovada Braga-Lisboa (mais renovada em Braga que em Lisboa). Para ser melhor, bem melhor, teria que se ter concretizado a tua “promessa” de me acompanhares. Mas a “promessa”, desgraçadamente, não passou disso, de promessa. Fica para a próxima, não é minha querida?
Pela minha parte, não me esquecerei de te dirigir novamente o convite na vizinha oportunidade, e na oportunidade vizinha da vizinha e nas ocasiões seguintes, até que te canses de recusar os meus convites e decidas aceitar um.
José Cadima
sábado, janeiro 25, 2025
Minha Querida Helena (47)
Minha Querida Helena,
No contexto intimo
proporcionado por estas cartas, tenho que te exprimir a minha perplexidade por
algo que se vem passando ultimamente, que não sei interpretar na sua plenitude.
Vamos aos factos:
i)
primeira situação – convido-te para saíres comigo: a
tua reacção é, na aparência, de agrado para, logo depois, comentares que há
muito não te dirigia semelhante convite; curioso é que, mesmo após insistência
dois dias depois, continuo sem resposta;
ii)
segunda situação – passar a noite em tua casa: na
semana passada convidaste-me para jantar contigo num dos dias, planeando eu
permanecer essa noite contigo; tudo corria com normalidade até à véspera do dia
aprazado; nessa altura dás-me notícia de não te sentires bem, fazendo-me sentir
a inconveniência de manteres o convite para o jantar; não falamos na
conveniência ou não de eu pernoitar em tua casa, retirando eu do que disseras a
ilação da falta de oportunidade; dois ou três dias depois, quando o assunto é
ventilado, exprimes surpresa por eu ter considerado dormir em tua casa pese o
teu mal-estar;
iii)
terceira e derradeira situação – a porta que se abre ou
não abre: chegado ao teu prédio, toco a campainha e o mecanismo de abertura
automática não funciona; embora noutra porta, este incidente repete-se pela
terceira vez, pelo menos; comentário teu posterior: “Como não queres ser visto
à minha porta, não a accionas em devida altura razão porque ela não abre. Ainda
há minutos a abri ao A.”; salvaguardada a riqueza de detalhes, este já havia
sido o comentário produzido em ocasião precedente (pelo menos, os sujeitos
invocados foram os mesmos).
Querendo entrar em situações
mais intimas, outros desencontros podiam aqui ser enunciados para induzir a
mesma conclusão: qualquer coisa se passa contigo que não tens querido ou sabido
explicitar mas que, bem vistas as coisas, dá notícia do teu desconforto ou
desinteresse na continuidade da nossa ligação afectiva. Se não é o caso, então
és tu que estás a atravessar uma fase profundamente desastrosa na forma como
comunicas comigo, o que, para além de lamentável, precisa de ser corrigido de pronto.
Talvez se passe contigo, minha
querida, algo idêntico ao que sucede comigo, isto é, tenhas perdido o jeito de
falar. Resta-te então a solução que eu encontrei e de que esta carta é
expressão plena. Quero eu dizer: escreve-me ou comunica comigo por gestos ou
por qualquer via alternativa que se te ofereça mas, Helena querida, não deixes
de me dizer o que te vai no coração ou na alma. Por mais que isso me possa ser
penoso, sobretudo não permitas que o nosso amor (ou a sua memória, quiçá)
naufrague nesta maré de ambiguidades e sentimentos mal expressos.
Faz-me isso, minha querida
Helena, mesmo que seja o último desejo que me satisfaças!
José Cadima
sexta-feira, janeiro 24, 2025
Minha Querida Helena (46)
Minha Querida Helena,
Retomo hoje o tema da carta que era para te ter escrito há dois ou três dias e que a conjugação do cansaço, primeiro, com a urgência de finalizar um relatório, depois, impediram que te tivesse escrito na devida altura, isto é, a quente. O tema é, nem mais nem menos, quanto eu detesto conversar contigo ao telefone; especialmente contigo.
Explico: uma coisa é poder comunicar contigo via telefone, poder questionar-te sobre o teu estado de saúde e/ou o teu humor, ou acertar contigo a que horas te vou ou não ver, outra é conversar; sendo certo que tu pareces tomar como substitutos uma conversa frente a frente ou através do telefone. Assim me parece a atender quer ao tempo que usualmente tomam as tuas ligações telefónicas quer à facilidade com que tu assumes tratar nessa instância qualquer tema. Cumpre que te diga que nunca fui grande amante do telefone. Todavia, a minha vivência contigo levou-me a odiar as conversas ao telefone. Terás presente que essa foi a via que preferiste sempre que me quiseste maltratar; e fizeste-o algumas vezes.
As conversas ao telefone parecem ter a conveniência de te permitirem abstrair que do outro lado da linha está alguém igualmente com emoções, e a vantagem de viabilizar que interpretes o que te dizem como te apetecer na ocasião, sem o risco da verificação da legitimidade da leitura feita do que disse o outro. Curiosamente, em conversa pessoal directa és muito menos levada a tomar essa atitude, embora as circunstâncias não pareçam claramente distintas, se descontarmos a presença física do interlocutor e a suposta maior liberdade em termos do tempo da conversa. Admito que a força da presença do interlocutor (neste caso, eu) faça toda a diferença.
Diferentemente,
eu prefiro as palavras escritas. Também são passíveis de ser interpretadas mas
a liberdade de leitura que viabilizam é muito menor, além da existência do
próprio registo. Dizer que te amo, desse modo, só pode querer dizer isso mesmo.
Dizer que detesto conversar contigo ao telefone quer dizer que me causa
desconforto, me suscita as piores apreensões, e quer dizer que guardo recordações
sombrias de outras conversas telefónicas. Tu podes pretender o contrário, podes
até prometer que não voltas a repetir situações infelizes passadas, mas eu
desconfiarei e terei sempre para te mostrar as letras com que, adiante do teu
nome, escrevi a palavra amor.
quinta-feira, janeiro 23, 2025
Minha Querida Helena (45)
Minha Querida Helena,
Ensaio estas
primeiras letras acabado de chegar de tua casa. Encontrei-te doente e tristonha,
como seria razoável de esperar de alguém que se encontre com a saúde abalada.
Em abono da verdade, devo dizer que já te encontrei em pior estado, mesmo menos
doente.
Da parte da
tarde e da noite que passei em tua casa, retenho um sentimento ambíguo, de um
encontro sem sal nem pimenta, talvez por isso calmo. Custa-me, no entanto,
admitir que vi numa tarde mais televisão que a que vejo habitualmente em vários
meses. Nota que não considero neste cômputo o futebol, que não é televisão no
sentido próprio do termo. Sentado no sofá, frente à televisão, senti alguma
tranquilidade mas, também, desconforto: o desconforto de um uso desqualificado
do tempo; o incómodo de uma espécie de esposo que para ali está à espera que
lhe sirvam o jantar. Tu sabes quão desconcertado eu fico nesses papéis. Como
quer que seja, foi tudo mais ou menos, se pusermos de lado o teu mal-estar
físico.
Este dia poderá
ter sido o pronuncio de uma semana que antecipo ou desejo pouco agitada, porque
as semanas agitadas, se nos trazem vida, trazem-nos, de idêntico modo,
desgaste. E desgaste já tenho quanto baste. Não é que eu, a poder escolher,
escolhesse a tarde sensaborona que tive mas, tratando-se da semana, talvez seja
mesmo a que me convém nesta altura. A ver vamos se me sobra espaço e
concentração para dar seguimento ao trabalho que venho adiando, há semanas.
O trabalho, como
tu sabes, é uma componente essencial do meu equilíbrio. Algumas vezes, é mesmo
todo o suporte do meu equilíbrio psicossomático, o que, contraditoriamente, não
deixa de ser uma circunstância infeliz. Nesta ocasião, queria no entanto
retornar ao trabalho sereno e, serenamente, construir o texto e a reflexão
teórica que o texto esboçado precisa. A ver vamos se lá vou chegar. Pelo menos,
o dia que agora tem termo afigurou-se sereno, se bem que sensaborão.
Pena que a minha
Helena se encontre adoentada e tristonha. Amanhã hás de sentir-te melhor!
José Cadima
quarta-feira, janeiro 22, 2025
Minha Querida Helena (44)
Minha Querida Helena,
A agitação da
última dezena de dias retirou-me o tempo, a concentração e a sensibilidade
necessários para te escrever e para que o que te quisesse transmitir fizesse
sentido. Estive nesse investimento de corpo inteiro e se, por um lado, me senti
vivo, por outro lado, esgotei-me num projecto em que sempre achei deverem estar
outros. A intriga, a cumplicidade de medíocres, a falta de coragem e a
incompetência convergiram para me tirar de cena, o que, se me traz alívio,
traz-me, no mesmo passo, uma raiva enorme. Sempre me custou ver triunfar os
medíocres e os incompetentes!
Depois de,
durante uns poucos dias, ter-me sentido vivo, receio agora retornar à minha agonia.
Até porque viver custa e as energias que nesse esforço são gastas dificilmente
são repostas. A ver vamos.
Ao jeito de
compensação, tive a alegria de te ver jovem outra vez, nesse teu arranjo de
cabelo que demorou tanto que me pareceu uma eternidade. Ainda bem que
abandonaste a tua obsessão de te apresentar infeliz para fazer bem presente aos
outros - especialmente a mim - a tua insatisfação. Minha querida: a
infelicidade não precisa de ser cultivada; nasce espontaneamente de qualquer
solo. O que necessita de ser cuidado é o gosto de viver. Jovem outra vez, minha
querida!
Esse corpo e
alma rejuvenescidos não são, entretanto, é bom que tenhas isso presente, fato
que se use e se pendure no guarda-roupa a aguardar a estação homóloga seguinte.
São fato de todo o ano. Só assim me reconheço na minha Helena. Só assim
reconheço o meu amor.
Pese embora o
episódico retorno à vida de que te falo a abrir esta mensagem. Não tenho a
capacidade de me renovar que tu possuis. Gostava da ter, digo-te. Gostava da
ter por quanto a mereces. Não sendo assim, fico a desejar colher de ti a força
que sinto que me escapa.
José Cadima
terça-feira, janeiro 21, 2025
Minha Querida Helena (43)
Minha Querida Helena,
Depois de ter
tido este fim de tarde uma visita que me incomodou, chegou a ocorrer-me a ideia
de ir procurar nos teus braços o conforto de que me sinto carente. Desisti
depois de me lembrar que tinha jantado ontem contigo e nem por isso me tinha
sentido especialmente confortado. Como não fazia sentido fugir daqui à procura
de refúgio e, de seguida, retornar na busca de refúgio aqui, abandonei a ideia
e optei por me recolher na escrita. Conforme tive de oportunidade de te dizer,
as tuas cartas trazem-me alguma acalmia e, na hora que corre, preparam-me para
o sono.
Não digo que
tenha havido ontem algum incidente. Simplesmente, atravessara um dia com algum
mal-estar físico, a juntar a alguma tensão sobrante dos dias anteriores, e não
fui capaz de me mostrar insensível à falta de acerto com que lidaste comigo:
insististe tu em preparar-me um jantar cuidado, quando eu apenas o queria
prático e, sobretudo, rápido; fizeste tu questão de me tratar como aprendeste a
tratar os teus irmãos e anteriores relações, quando eu queria que te
relacionasses comigo a partir dos meus próprios parâmetros; fizeste, outra vez,
questão de me excluir de questões do teu quotidiano onde eu, sem hesitação,
poderia apoiar-te.
Nesta última
vertente, dá-se ainda a agravante de mas omitires ou, o que é pior, me passares
inverdades quando a elas te tens que referir. Disso tens exemplo bem recente na
deslocação que terás feito à Povoa, de que me falaste à posteriori; deslocação
que se revelou inútil por o médico não te ter permitido fazer o exame em razão
dos resultados das tuas análises ao sangue – como tu me dizias – ao invés de
ter resultado inútil por te teres deslocado só – como finalmente fiquei a saber
ouvindo a conversa que a esse propósito mantiveste com o teu filho, perante
mim. Descuido teu, talvez. Deslize voluntário, é possível. Como quer que seja,
mau princípio para quem quer fazer as coisas certas, desta vez.
Situação bizarra
esta, convirá, sabendo que questionas o meu empenho na nossa relação pelo pouco
acompanhamento pessoal que te dou. E mais estranha se se atentar nas tuas
reclamações frequentes - justas, de um modo geral - sobre o grau de solidão em
que te encontras.
Pois é, querida.
É como te digo: cheguei a equacionar bater-te à porta esta noite. Na dúvida
sobre se te iria incomodar e, também, se, aí chegado, me apeteceria ficar,
acabei por me refugiar nas tuas cartas. É um fraco substituto de ti mas, pelo
menos, não me traz surpresas (a não ser quando o computador decide boicotar-me
o trabalho) e acalma-me.
A bem dizer, não
sei porque me acalma: se é a escrita ou és tu. O que interessa, neste caso, é
mesmo que me acalme. Vou acreditar que és tu, Helena querida.
José Cadima
segunda-feira, janeiro 20, 2025
Minha Querida Helena (42)
Minha Querida Helena,
Depois de um
dia interessante, tive o desapontamento de nem o telefone recentemente
adquirido ter viabilizado que conversássemos sobre coisas tão simples como a
vontade que terias ou não terias que eu jantasse contigo. Na primeira vez que
te falei estavas a caminho do supermercado e não era conveniente falarmos. Que
te ligasse quinze minutos depois, disseste-me. Pressupunha-se que estivesses
despachada. Vinte minutos depois não tinhas resolvido nada e estavas numa fila.
Aliás, essa foi uma das poucas coisas que me foi possível descortinar da
comunicação falhada que mantivemos.
Fui jantar.
Tinha em perspectiva ligar-te depois. Nessa altura seria expectável que te
encontrasses em casa (teriam passada muitos quinze minutos) e talvez a conversa
fosse possível, breve e eficaz, e não enrolada e inconclusiva como tu cultivas.
Ainda saí para te ligar da cabina telefónica. Apercebi-me então que o novo
número telefónico ficara esquecido na memória da agenda. Cansado, voltei para o
estúdio e decidi viver a tranquilidade de um fim-de-dia que se revelara
frustrante, depois de um dia interessante.
A
expectativa sobre o decorrer do dia vinha da noite do dia anterior, quando a
presidente cessante da Escola me convidou para uma conversa pela manhã. Não
muito cedo, que os anos e as pernas já pesam e é conveniente começar
devagarinho. O convite tinha o aliciante de não ter agenda anunciada.
A agenda
deduzi-a do decorrer da conversa. Nada menos que um rol de justificações para
incapacidades objectivadas e para
desistências humilhantes. Porventura, igualmente uma tentativa de fazer passar
uma imagem de independência a que faltava a credibilidade de um histórico e de
uma prática recente: “até pode bem parecer, mas nunca houve essa intenção...”; a evidência é uma batata
arredondada; demos-lhe uns retoques e a batata ficará esquinuda...
A
acrescentar a uma conversa de absurdos, juntou-se um clima de nervosismo entre
as hostes opositoras. O nervosismo agrada-me porque ajuda a toldar a lucidez a
quem ela já escasseia e é sinal de insegurança. Cria eu que quem estava numa
posição muito difícil era exactamente eu, e fiquei a saber que as favas
contadas não dão segurança. Que as contem novamente! Enquanto contam e não contam,
eu vou-me rindo e retornando a tranquilidade que tanta falta me faz. Neste
ponto, o dia corria-me bem. Corria, digo, porque depois sobreveio a desgraça do
telefone que só toca quando não é conveniente e dos minutos que nunca são mais
que quinze mas se eternizam.
Jantei
sozinho, rememorando o correr de um dia em que me senti vivo e que, para
terminar bem, reclamava uma companhia para o jantar e o aconchego de um abraço
quente (agora que as noites vão ficando mais frescas). Foi pena, meu amor. Fica
para a próxima!
José Cadima
domingo, janeiro 19, 2025
Minha Querida Helena (41)
Minha Querida Helena,
Como tudo
parecia correr-me bem, desde o amor ao estado de saúde dos meus dentes,
recuperada plenamente a minha frescura ao ponto de me sentir com 15 anos outra
vez, parti à aventura, quer dizer, candidatei-me de novo à Presidência da EEG.
Entretanto,
dado que há uns meses, por ocasião do cessar de funções do meu terceiro
mandato, tinha apresentado publicamente a minha despedida daquele tipo de
funções aos meus colegas e amigos, senti-me agora na obrigação de lhes dar uma
justificação (e, convenhamos, tentar justificar perante mim mesmo, em voz alta,
porque cometi semelhante burrice). Ocupei ontem parte da noite a redigir a
mensagem electrónica que corporiza essa justificação. Também essa forma de
ocupar a noite se me ofereceu despropositada; mas já passou.
O que lhes
disse não foi retórica, se bem que descreia que alguns deles cheguem a
percebê-lo. Naturalmente, omiti os detalhes; nomeadamente, os que se prendem
com o asco que me provoca a incompetência e a incapacidade de alguns, o
desprezo que tenho pelos que se apresentam sempre em bicos dos pés, e a pena
que me suscita a falta de coragem de outros de darem a cara pelos projectos em
que acreditam.
Ficou uma
coisa comovente, como era adequado que ficasse. Fui todo coração e nada razão,
até porque os destinatários tinham todos,
ao longo de muitos anos – uns mais que outros, obviamente – dado sinal de
grande consideração por mim e feito prova de inquestionável amizade múltiplas
vezes. Chato foi estarmos em período de campanha eleitoral, mas disso não tenho
culpa alguma já que não fui eu que me demiti das funções assumidas (o que é uma forma de falar) vai para meia
dezena de meses, em nome de consensos em que nunca acreditei e prometendo
dedicação só própria de sacerdotes (estou a referir-me às intenções da
candidatura e não às razões da demissão, está bom de ver).
Como quer que
seja, certo, certo é que estou metido numa alhada, das grandes, e, nestas
circunstâncias, dava-me imenso jeito uma intervenção divina que me libertasse
dessas atribulações. Se a intervenção divina não se der entretanto, pelo menos
que me valha o velho princípio de vida que me acompanhou em muitas situações
passadas, que se exprime na ideia que o dia seguinte não pode ser pior que o
que o antecedeu ou, se se quiser dizer de forma alternativa, para pior já basta
assim.
Confessa lá,
minha querida: deixei-te comovida, não é verdade? Eu estou. E estou, também, na
expectativa dos passos seguintes que a inércia me forçará a dar.
Dava-me
jeito, nesta altura, poder abraçar-te forte, forte, até me confundir plenamente
contigo e, desse jeito, desaparecer.
Um beijo
grande!
José Cadima
sábado, janeiro 18, 2025
Minha Querida Helena (40)
Minha Querida Helena,
A propósito da forma como se vai para a fonte, se se vai formosa, se se vai descalça, se se vai formosa mas não segura, gostava de te dizer que poucas coisas há que me irritem mais que bater-te à porta e não vires abrir-ma, mesmo quando toco uma meia dúzia de vezes. Uma coisa que me irrita ainda um pouco mais é esperar meias horas, horas inteiras e ninguém me aparecer, mesmo nas ocasiões em que me recordo bem de ter acertado uma hora e um minuto para esse efeito (que não foi o caso de hoje).
Vê agora tu o estado em que fico quando toco à campainha, e toco e insisto de novo e nada, e espero, e espero e toco à campainha, e toco e é como se não tivesse feito muitos kms e gasto muito tempo para poder bater-te à porta e ver-te, e tenho como retribuição uma mão cheia de rigorosamente nada.
Ter-te-ei já dito tudo isto mas, depois de uma deslocação de mais de duas horas, com chegada e partida no local onde agora me encontro, e na hora imediata ao regresso, isto tem outro significado e outra força e, deste modo, talvez eu consiga descarregar parte da raiva que me assiste em razão dos tristes eventos de que te falo. Até porque sei que amanhã ou depois de amanhã, quando te lembrares de me fazer um telefonema, não vais deixar de me cobrar a promessa que te tinha feito de me encontrar contigo neste domingo de deus.
Não tenho dúvidas que terás as tuas razões, que serão muito válidas. Mas isso pouco adiante perante um desastre, acabado de dar-se, desta dimensão. Evidentemente, há aqui um problemazito que é o da reiterada repetição do incidente, o que, para quem detesta que o façam secar, acaba por constituir-se num verdadeiro problemazito. Não te deverá, assim, surpreender que numa próxima ocasião que me telefones (infelizmente, esqueceste-te de comprar no sábado o telefone que me anunciaste que ias comprar no sábado pp.) eu te dê notícia da minha irritação por não me ter sido possível cumprir o que te havia prometido cumprir hoje, neste domingo de deus. A não ser que tenha descarregado já, nesta carta, toda a raiva que o incidente me trouxe.
É pouco provável, no entanto.
É irritação em demasia para uma carta tão singela como a presente. É pouco
provável, digo-te, Helena do meu desespêro. Em tais circunstâncias, nem o ires
descalça para a fonte é desculpa bastante.
José Cadima
sexta-feira, janeiro 17, 2025
Minha Querida Helena (39)
Minha Querida Helena,
Quando já não o esperava, eis que dás um sinal de boa-vontade; pequeno, tardio, mas nem por isso deixou de ser um passo um frente. Como interpretá-lo então? Como o primeiro de um percurso que tem que ter um primeiro passo? Como uma breve hesitação ou desequilíbrio que ocorreu nesse sentido, podendo tê-lo sido para trás ou para qualquer um dos lados? Como um gesto de quem procura um caminho e está inseguro de ser aquele o trilho que o vai levar á meta perseguida?
Mesmo surpreso, fico contente; pouquinho, para não ser surpreendido por uns próximos dois passos atrás. Para mim, alguém que se move é um ser que está vivo e, estando-o, só pode esperar que o dia seguinte corra melhor que o dia que o antecedeu. Sabes: podendo não parecê-lo, sou eu que te digo isto, provavelmente não por força da realidade que me assiste no presente mas, antes, por tê-lo assumido como filosofia de vida no passado e, tendo como rotina o trabalho com jovens, tê-lo usado para lhes transmitir o entusiasmo, o arrojo e a iniciativa que amiúde não descortinei neles.
Vou ficar na expectativa. Vou tentar reconhecer em ti a aluna que foste, esforçada, decidida, mas insegura (Descalça vai para a fonte, Helena pela verdura; vai descalça mas não segura. Recordas-te?). Com o carinho do professor que segue os gestos hesitantes da aluna por quem desenvolveu uma empatia que nasceu de um ror de pequenos nadas, vou ficar a aguardar que passo darás depois deste primeiro; não sendo, no entanto, já capaz de dar-te lições, por me faltar convicção.
Falo disto com óbvio embaraço
pois que sempre fiz por ensinar o que conheço e aquilo em que acredito. Isso
levou-me a percorrer caminhos mil, ensaiar percursos que quem me dera nunca tivesse
usado percorrer, tentar aprender outra vez o que soube e esqueci ou o que
julgava ter aprendido mas, lá chegado, verifiquei ser uma caixa negra sem porta
de entrada evidente. Falo disto com o óbvio embaraço de quem, porventura, quis
mostrar-te um mundo novo e só conseguiu pôr diante de ti um território de
ilusão, que se esvaneceu logo que os primeiros ventos arrastaram os fumos que
davam forma às imagens que configuravam o meu mundo imaginário.
Que frustração imensa, minha
querida, esta do professor que julgava saber e nada compreendia. Que calamidade
esta, meu amor, de me encontrar a mirar que passos darás não tendo modo de te
dizer que vais segura se seguires caminho comigo.
José Cadima
quinta-feira, janeiro 16, 2025
Minha Querida Helena (38)
Minha Querida Helena,
O que é evidente, evidente é: decidiste desinvestir do nosso amor. Só assim se compreende a tua falta de empenho em me cativares. Apenas a essa luz tem leitura o teu desinteresse em fazeres-me um telefonema, que seja. Nestes dias mais recentes, não podes nem argumentar que não tinhas para onde me ligar.
Cai assim por terra o argumento que desfilaste durante muito tempo que querias ver-me a viver só. Só, já estava. A viver só, estou desde Agosto e nem por isso a tua receptividade aos meus apelos se alterou de modo expressivo. Nota: eu posso até aceitar que assim seja e não te faltarão razões passadas; tens é que deixar de fazer que fazes; tens é que dar notícia de receptividade ao desafio que te lancei ou recusá-lo, sem mais.
Não te pedirei explicações; elas estão dadas. Não te reclamarei um amor que, lendo as coisas como as evidências sugerem, se esgotou. Não me pedirás tu, por sua vez, que esqueça o passado, e que faça de conta que tu tens o mesmo significado para mim que qualquer outra, mesmo que com um rabo tão bem feito quanto o teu. Devias, até, cuidar mais dele.
A
diferença entre ti e uma outra é que, queiras ou não queiras, és a minha
Helena, e isso faz toda a diferença. Também te disse que não procurarei mais
Helena alguma e, desse modo, estás condenada a ser a última que me encantou e
se foi, deixando atrás de si um imenso vazio. É que, sabes, as Helenas sempre
me foram esquivas, talvez por tê-las amado tanto.
José Cadima
quarta-feira, janeiro 15, 2025
Minha Querida Helena (37)
Minha Querida Helena,
Depois de um dia completo de
trabalho em Famalicão, no regresso a Braga, aventurei-me a passar por tua casa.
Queria saber o que se passava contigo e que gestos de boa-vontade (e também de
bom-senso, se me permites enunciá-lo assim) é que tinhas para mostrar.
Encontrei-te melhor que há uma
dezena de dias, mas gestos de boa-vontade (eu prefiro chamar-lhe gestos de
bom-senso) nem um só, se não contarmos com a arrumação feita da casa, que me
custa tomar àquele título por algumas vezes me parecer antes uma paranóia. Por
contrapartida, na despedida, insististe nas despedidas que não chegam a sê-lo,
e insististes no discurso entre o recriminatório e o auto-penalizante que, por
vezes( vezes demais, para o meu gosto), usas a título de despedida. Para
completar, reclamas das horas a que te procuro, das horas em que consigo
encontrar-te, do tempo que tenho ou não tenho para conversar contigo,
desejavelmente com serenidade e tempo.
Dos cuidados estéticos que deverias ter
tomado, pese o agendamento firme de que me falaras na passada 6ª feira,
disseste-me nada, para além de escusas que começam a estar gastas. Da retoma da
tua comunicação com o mundo escusastes-te de falar, se bem que fique patente
que a tua incomunicabilidade com o mundo comece, desde logo, por ser
inviabilidade de comunicar comigo. Acresce que, tendo-nos encontrado na noite
de 6ª, esperavas rever-me no sábado (assim mo disseste hoje), se bem que não mo
dissesses na 6ª feira.
Perante este rol de
sub-entendidos, mal-entendidos e desencontros, pergunto-te, minha querida
Helena, se alguma vez te ocorreu que eu queira ver-te bonita e cuidada
exactamente porque gosto muito de ti, e também porque quero que retomes o gosto
por ti própria. E questiono-te, adicionalmente, se tens presente que o amor e o
carinho vivem e alimentam-se de pequenos gestos, alguns deles puramente
simbólicos. Simbólico é, por exemplo, viabilizares que eu posso inteirar-me do
teu conforto e ânimo quando as circunstâncias não permitem que me desloque até
ti, para mais em contexto sempre inserto sobre se reages ao toque da campainha.
Esta é, acrescento, incidência que me desconforta consideravelmente.
Minha querida: começar é
abalançar-se a dar os primeiros passos e, sucedidos estes, avançar para os
segundos e assim por diante. Amor meu: o amor não é apenas uma emoção nascida
de razões que estão para além de racionalidades circunstanciais. O amor
cultiva-se como te cultivam as roseiras, os pessegueiros que dão pêssegos
grossos (quando dão poucos) ou os dióspireiros: nenhum deles dispensa ser
regado; nenhum deles gera flores e/ou frutos bonitos e grossos se deixarmos que
as ervas e as silvas as/os minem e envolvam.
Minha querida Helena: como
poderia ser-me indiferente se estás ou não estás bonita? Como poderia eu
manter-me desinteressado sobre se te sentes ou não sentes bem? Repara: eu fui
ao ponto de te dizer que se o teu conforto e bem-estar físico e psíquico
dependessem de te veres livre de mim, aceitá-lo-ia. Sofridamente, mas
aceitá-lo-ia. De outro modo, dar-te-ia espaço para duvidares de quanto
importantes és para mim.
José Cadima
terça-feira, janeiro 14, 2025
Minha Querida Helena (36)
Minha Querida Helena,
Falava-te eu, na minha última
carta, dos beijos que gostava de receber. Finalmente, concedeste-me o especial
favor de uns, poucos, beijos. Não foi fácil nem podes alimentar ilusão que
tenham saciado, de perto que seja, a minha sede de beijos. Não esqueças a
mingua a que me votaste semanas a fio. Ultrapassados os receios de não saborear
mais os teus carinhos, questionava-me, aliás, que sensação me provocariam o
enfrentamento dos nossos olhos e o contacto com o teu corpo: levantaria eu as
defesas que ergui em semanas de abandono?
Não te adiantarei nada sobre
esta matéria nesta data. Nem saberia dizer-te já que, resultado das caricias
com que me presenteaste ou, mais verosivelmente, consequência do abandono a que
estive votado, tudo conjugado com trabalho e esforço, não me sinto ainda menos
confuso e cansado que antes. Talvez, antes pelo contrário. É caso para me perguntar
se a morte virá mais depressa do mal ou da cura. Em todo o caso, a cura
configurar-se-á sempre mais doce.
Depois de um dia quase inteiro
a tentar ganhar energia e coragem, voltei ao trabalho. Descrente, primeiro,
preso de movimentos, depois, lá fui avançando no texto e na análise. À medida
que fui progredindo, a confiança foi-me acompanhando e quando parei quase me
havia esquecido das dificuldades do arranque. Uma vez mais, o trabalho
conseguira transportar-me para fora da minha essência. O problema é que, de
quando em quando, é preciso parar e, nessa hora, tudo volta a ser como antes,
isto é, cansaço, insegurança, desalento. Logo após, retomar o trabalho volta a
ser tão penoso quanto fora na ocasião precedente. Passo a passo, há que
percorrer o mesmo caminho: descrente, primeiro; preso de movimentos, se
conseguir lá chegar. Talvez amanhã seja diferente, quiçá?
Sonhando com esse amanhã que
cantará, decido-me mesmo a tomar o rumo do meu quarto, interrogando-me sobre
que insónias a noite me trará. Preferia que me trouxesse sonhos; preferia que
me levasse até ti e, enlaçados, ganhássemos asas e, ao sabor de vento ameno,
esvoaçássemos, esvoaçássemos...
José Cadima
segunda-feira, janeiro 13, 2025
Minha Querida Helena (35)
Minha Querida Helena,
Nestes altos e baixos de ânimo, por razões próximas que não sou capaz de descortinar, retorno ao ponto mais baixo do ciclo. É o ânimo e é o cansaço, que em mim se apresentam associados. Se a semana decorresse mais intensa em matéria de solicitações de trabalho, não haveria espaço para estes sinais exteriores de debilidade, isto é, teriam que aguardar oportunidade. As coisas são entretanto como são e, por assim ser, volto ao estado de agonia na sua dimensão mais embaraçosa.
Não ligo esta ressaca aos telefonemas (dois) recentes que me fizeste, nem à visita que te fiz. Não digo que não me tenham afectado mas, se concorrem para este meu momento psicológico, fá-lo-ão em adição de razões mais profundas. Aliás, hoje não me telefonaste, embora eu mantivesse a expectativa que o fizesses. Porventura o questionário com que me brindaste ontem ficou então preenchido, pelo que não permanecia justificação para contacto posterior. Tens que conceder, no entanto, que a interrupção abrupta da ligação (por força do esgotamento das moedas) não permitiu que me desses conta do sucesso ou insucesso das respostas.
Neste interregno de
comunicação, fui processando os dados que me havias feito chegar. Desses,
talvez te surpreenda que o que me mereceu maior ponderação tenha sido o que se
exprime na circunstância de me teres visto movimentar em Braga, sendo seguro
que eu não te vi. Não mereceria atenção particular não fora a coincidência de
tal se ter passado de modo idêntico em diversas outras ocasiões, a crer nas
tuas alegações. E, confesso-te: gostaria de te ter visto desta e das outras
vezes, particularmente desta vez.
Não te vi - disso não me resta dúvida – e não entendo como pudeste tu ver-me sem que eu te visse. A verdade é que, se a minha vista não é o que já foi, a tua não me parece em melhor estado. Tu mesma o dizes. Resulta então, daqui, um mistério. O mistério adensa-se quando eu sou visto por “A” ou por “B”, acompanhado, neste e naquele sítio, mesmo que não o tenha frequentado em período recente ou lá tenha estado sozinho. Tens que admitir que estes são dados fortes o bastante para me prenderem a atenção. Tanto mais quanto me sabes um cultor da ficção científica e um adepto confesso dos efeitos especiais. Aliás, como costumo afirmar, para ensaio sobre as misérias do quotidiano basta o próprio quotidiano. Disso fazem espectáculo diário os media.
Eis, Helena querida, um retrato do meu estar psicológico. Será bastante fidedigno já que o que está escrito antes foi-o ao sabor do pensamento livre (outros diriam, ao sabor da pena), não antecipando este final de divã de psiquiatra. É bom que assim seja para que o retrato surja bem autêntico, sem maquilhagem e sem acerto de cabelo. Perante ti posso expor-me despido, segundo creio.
Não tenho conselhos para dar
ao psiquiatra. Também não lhos peço. De ti também não os pretendo receber. Se
fossem beijos...
José Cadima
Ps: correndo o risco de ser acusado de uma súbita
simpatia pelo Ps. (com um pontinho em vez de dois pontos – o “s” pequeno é para
simbolizar o estado em que está o socialismo), que declaro não ter qualquer
fundamento, sou obrigado a recorrer outra vez a esta figura para reparar os
efeitos de uma gralha que pousou sobre a data da carta de ontem, fazendo
aparecer um seis onde, em verdade, estava um oito. Embora a culpa seja toda da
gralha, por uma questão de afinidade com aquela, venho assumir a
responsabilidade do erro.
