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segunda-feira, outubro 18, 2010

Falta de respostas (II)

O tempo corre.
O tempo voa,
sobretudo quando mais desejávamos
que certos instantes perdurassem.
O tempo passa.
A mais das vezes, sabe-se que passou
e não se sabe porquê.

José Pedro Cadima

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

O tempo (2)

Houve tempos em que o tempo passava do frio para o calor, do calor para o frio, sempre a saltitar.
Houve alturas em que o tempo passava para matar ou curar; passava devagar, para nos ver sofrer. Era sádico, esse tempo, o nosso tempo.
Houve tempos em que o tempo saltitava. Às vezes, chegava até o tempo do amor. Esclareça-se: não era o tempo que amava!
Agora, o tempo passa sem razão, quer dizer, passa por passar, dá passos em frente sem saber por onde andar. Parece-me perturbado, este tempo, o nosso tempo.

José Pedro Cadima

quarta-feira, dezembro 17, 2008

O que é que quero ser quando for grande?

Cara Professora,
A sua pergunta é das mais introspectivas que tive nos meus, até agora, oito anos… não, quero dizer, nos meus nove anos de vida (oito anos e sete meses, arredondados para cima).
Quando, na minha jovem idade de dezoito dias e quatro horas, decidi que queria ser “respirador profissional”, não entendia ainda muitas coisas. Com a prática, respirar provou ser uma actividade para o qual eu tinha tanta aptidão que o fazia mesmo quando não estava a pensar nisso. Acontecia-me com a maior das naturalidades.
Ainda jovem, em tempos de, como se sabe, grande promiscuidade, decidi ser “mamador profissional”. Tinha então vinte e um dias e vinte e duas horas. Mantive o sonho e esforçava-me por praticar todos os dias, a quase toda a hora. Acordava durante a noite a horas pré-marcadas para chorar e mamar. Ás vezes, isso revelava-se um enorme desafio mas, talvez devido a essa emoção, fui insistindo. De facto, pelos meus trezentos e trinta e quatro dias, o desafio foi maior que a minha emoção: a patroa desmamou-me! Felizmente, dadas as compensações definidas na lei de pendor socialista, recebi em troca um biberão de chucha amarela.
Destroçado, impedido de continuar o sonho de quase toda uma vida, utilizei as minhas compensações de forma pouco digna: comecei a beber! Bebia tudo o que encontrava. Não achava sentido em preocupar-me com aquilo que me enfiavam no biberão. Enchia-me de leite magro, leite meio-gordo, leite gordo! Por vezes, em actos de pura inconsciência, chuchava sem que houvesse leite.
Lembro-me de num desses dias, depois de ter acumulado largas dívidas, vir o senhor meu pai penhorar-me o biberão. Desde esse dia que não tenho actividade fixa. Percorro este mundo sem sonhos.
Por vezes, discuto com a Rosa o assunto, ela diz-me sempre que já achou o sonho dela: “baloiçadeira”. Eu, sinceramente, não entendo este tipo de comunzisse que anda para aí. Neste meu entender, fazer algo tão fácil e com tantos praticantes é uma espécie de cobardia! Pelo menos, não tem a atitude o Ricardo, o rapaz não se enxerga. Tem a tola ideia de que quer se astronauta e andar na Lua. Esquece-se que para isso precisa de certas características que comprovem a sua aptidão para o trabalho. Primeiro, tem de ficar bem de branco, e não fica. Segundo, não consegue flutuar na água quando mais no ar! Uma verdadeira anedota.
Se fosse de minha exclusiva decisão aquilo que eu seria quando fosse grande, teria de reflectir as minhas bases de pensamento. Como não encontro profissão que se adeqúe, deixo-lhe aqui um conjunto de características que se enquadram no perfil:
- quero ter uma barba branca e sábia, um peso ligeiramente acima do normal e uma estatura normal;
- a minha roupa deverá ser escura, um fato, talvez um colete, sendo que tanto um como outro terão um conjunto de bolsos bonitos onde possa colocar um redondo e dourado relógio de bolso;
- desejo encontrar a minha paz ao som de música clássica;
- a minha voz deverá ser portadora de um suave sotaque britânico e eu dispor de um cachimbo em pinho castanho;
- no fim de todas as minhas frases, deverei fazer referência ao autor que citei;
- o meu rabo será suposto adaptar-se a um sofá de couro castanho claro, que estará eternamente virado para a mesa onde me deverá ser servido, pontualmente, o chá das três.

José Pedro Cadima

quarta-feira, novembro 26, 2008

As portas de um labirinto

Abro uma porta. Entro num compartimento. Sinto-me só. Tem quatro paredes e uma porta em cada uma. Abro a da frente e a de trás fecha-se. Dou um passo atrás, dou um passo para o lado, abro a porta do lado esquerdo e a da frente fecha-se. Dou dois passos para o lado direito e abro essa porta, a do lado esquerdo fecha-se. Dou um passo para a esquerda e um para trás, viro-me para a porta de onde vim e abro-a, fecha-se de novo a porta que tinha aberto e eu vou em frente, no caminho para o passado.
Vejo portas a abrir-se e a fechar-se, sempre um ciclo que pareceu ocorrer na minha vida. Encontro compartimentos hexagonais ou até circulos com uma única porta, um único caminho a tomar, que quando se entra nesse compartimento nem para trás dá para voltar. Há salas estranhas, em que abrir uma porta faz abrir três ou quatro. Encontro salas com portas trancadas, que é preciso forçar para entrar. Encontro compartimentos que a única porta que têm é aquela pela qual viemos. Encontro salas que, para além das portas laterais, têm no meio um poço; pior, encontro salas que só têm o poço.
Paro. Tenho a memória desta sala, tenho a memória da minha escolha, da escolha da porta que segui. Lembro-me que foi difícil: seis portas e um poço, as saídas desta sala; dei duas voltas ao poço; tinha já atravessado mais de mil salas, aberto mais de mil portas e parecia tudo igual, parecia estar sempre no mesmo sítio, e o poço, era a única entrada que não tinha experimentado. Mas passou a correr por mim alguém, abrindo uma porta e escolhendo rapidamente outra. Era um conselho…
Certas pessoas atravessam umas portas para encontrar riqueza. Outros atravessam outras portas para achar amor. Uns espreitam as fechaduras à procura de ver a felicidade. Uns quantos correm por todos os compartimentos. Esses querem tudo. Eu já não sei porque entrei aqui, não sei onde quero chegar. Atravesso as portas e os compartimentos como se tivesse a passear, a ver os outros viver. Não sei onde quero chegar.
Lembro-me de uma sala que baptizei “uma questão de tempo”, porque ela era mesmo isso: uma questão de tempo. Devia ser uma penalização por ter escolhido a porta errada. Era uma sala que, quando nela se entrava, não se encontrava nada, nem mesmo a porta por onde viéramos. E porque pensava eu estar tudo acabado, deitei-me e adormeci à espera que a morte me levasse. No momento mais profundo do meu sono, algo me acordou. Havia uma porta à minha espera, no tecto da sala, um alçapão para um nível acima daquele em que me encontrava.
Nesta volta ao passado, vejo mais pessoas atravessar outras portas, rapidamente, quase sem pensar, deixar o instinto escolher por elas, viver rapidamente, passar tudo aquilo. Chegarão elas ao fim mais rapidamente que eu? Eu espero, penso, toco a cada porta; espreito se na outra está aquilo que eu não sei se procuro. Sinto a porta. Tento sentir o que está do lado de lá. Desenho caminhos, escolho previamente portas antes de saber como me vou deslocar até elas.
Tantas portas que odiei escolher. Agora, arrependo-me de cada uma das que abri com as minhas próprias mãos. A caixa de Pandora trouxe-me, de facto, algo. Errado! Eu é que entrei pela caixa a dentro. Eu é que enfrentei todas aquelas coisas e, no fim da caixa, no fim do labirinto, alimentei a esperança de achar aquilo que não sabia se queria; melhor: aquilo que ainda não sei se quero.

José Pedro Cadima

quarta-feira, novembro 19, 2008

Querido Pai Natal (2)

Queria pedir-te alguma sanidade, pois é isso que mais me falta. A paz no mundo não me aquece nem me arrefece. É apenas uma utopia que muitos desejam sem sequer saber porquê. A guerra não é aqui; não vai cá chegar.
Quereria pedir-te alguma noção do que se passa. Sinto-me perdido; sinto-o de verdade. Não vejo dia em que não anoiteça, nem noite em que não veja o sol nascer. Todo o meu corpo suporta este cansaço, queixando-se apenas da saudade dos lençóis e não da cama.
Não te peço nada disso, por mais poder que tenhas. Não fui suficiente bom menino e castiguei o meu corpo com todas estas penosas preocupações. Em breve emergirá a verdade de tudo. Em breve perderei o resto da sanidade que me resta.
Não sei em que ano estamos. Talvez seja o ano dois mil ou o ano quatro mil. Pouco importa. A esperança média de vida não chega a um século e o ano faz apenas parte de uma data marcada para efeitos gerais. Também não me lembro do dia em que faço anos e já lá vão tantos que nem a minha idade sei. Pouco me importa se sou adolescente, adulto ou idoso. Continuo a ser eu. Pouco me importa se faço anos em Janeiro ou Agosto. Continuo a ter a mesma mãe.
Talvez o Pai Natal me pudesse dar a entender todas estas coisas e porque é que as marcamos. Talvez, nessas circunstâncias, também me possa nascer a vontade de saber as datas em nasci, em que ano estamos, entre outras.
Tamanho foi o meu desinteresse para com a vida que já não sei se isto é viver. Sei que se parece como tal: respiro, mexo-me, alimento-me, vejo, oiço e agora até escrevo à sua pessoa, que tão pouca gente sabe porque nos visita duas vezes por ano, uma vestido de velho de barbas longas outra de coelho.
Já lhe pedi tantas coisas. Sei que foram mais aquelas em que me deu algo. Ter tanto, fez-me mal. Talvez a culpa seja sua. Mas também outros têm tanto e ainda lhes dão mais e não perdem o interesse em receber. Talvez tudo isto seja apenas fraqueza minha.
O meu desinteresse arrasta-se à tanto tempo que além das datas do meu nascimento, o ano em que estamos, a idade do senhor que ninguém conhece, não sei também identificar muitos dos feriados patrióticos que se avizinham. Serei, por isso, um traidor da pátria? E se o for? Serei traidor de mim mesmo por não me lembrar do dia em que nasci? Que importa!? Talvez importe. Talvez não importe. Não tenho datas. Não sei o nome das pessoas que conheço, e escrevo uma carta à única pessoa que ainda me visita.
Não sei as datas, digo, e confesso-lhe que se não tivesse ouvido um passarinho cantar que amanhã era dia vinte cinco, e feriado, nunca lhe escreveria esta carta interesseira a pedir que neste Abril me traga um pouco de sanidade.


José Pedro Cadima

terça-feira, setembro 11, 2007

Reconhecer

Incapaz de reconhecê-lo,
a confusão instaura-se.
Andava antes à procura de uma saída
e recuso-me agora a sair.

Vendo embora a entrada,
recusava-me na altura a entrar.

Nada disto faz sentido.
Nunca fez sentido.
Era um pensamento condenado.

Agora penso nos teus erros,
enquanto me recuso a acreditar
que alguma vez tenha errado.

Assim se demonstra uma outra vez
quanto o amor é capaz de nos confundir.

José Pedro Cadima

quarta-feira, agosto 15, 2007

Um futuro ...

A pior coisa do mundo
é acreditar num futuro;
quero dizer, só acreditar,
não lhe dando nem forma nem cor.

José Pedro Cadima

sexta-feira, agosto 10, 2007

Uma realidade real

As histórias estão erradas
(também as dos outros).
Só cada um sabe a (sua) verdade.

Escondida está a realidade.
Não se mostra;
é preferível ser-se falso.

Escondida dos outros,
todos o fazem,
está uma história igual por contar.

Para todos existe uma realidade real,
que é diferente da que se conta.
Todos têm uma vida que é tal como é.

José Pedro Cadima

domingo, julho 29, 2007

Riu-se de mim

Passou-me por cima;
não me viu.
- Pisei-te? Desculpa…
(Era a segunda vez).
Não se pôde conter;
riu-se de mim;
riu-se das palavras ocas,
dos sentimentos que fingia profundos;
riu-se de como me traía.

José Pedro Cadima

segunda-feira, julho 16, 2007

Raios de sol

Abriste as janelas.
Entraram múltiplos raios de sol;
tantos quanto os homens da tua vida,
mas até estes irradiavam mais calor.

José Pedro Cadima

sábado, julho 07, 2007

quinta-feira, junho 28, 2007

Adorar e não adorar

Vi uns poucos, em acto de adoração,
a chamar de rei e senhor
a alguém em que apenas reconheci um homem comum.
Porquê esta necessidade de encontrar alguém a quem idolatrar?
Porquê esta necessidade de alguém que os guie?
Não saberão eles guiar-se a si próprios?
Sentir-se-ão fracos ou é essa postura que os torna fracos?
Eu? Nunca fui de adorações!

José Pedro Cadima

domingo, junho 24, 2007

O caminho do conhecimento

Conhecimento é riqueza.
Cada caminho percorrido
é algo mais que conhecemos,
que é suposto deixar-nos mais ricos.

Cada pessoa, cada opinião
dão-nos uma força diferente.
Nem sempre temos as que precisamos;
as que necessitamos, temos que procurar por elas!

Cada experiência acrescenta riqueza,
se bem que haja quem a encontre sem procurar por ela.
Eu preciso de ajuda para fazer o meu caminho.
Serás tu capaz de me ajudar a encontrá-lo?

José Pedro Cadima

terça-feira, maio 15, 2007

O tempo

Houve tempos em que o tempo
passava para de comer nos dar.
Passava do frio para o calor,
do calor para o frio, sempre a variar.

Havia alturas em que o tempo
passava para matar ou curar;
passava devagar, para nos ver sofrer.
É sádico, o tempo, o nosso tempo.

Houve tempos em o tempo saltitava.
Ás vezes, chegava até o tempo do amor.
Esclareça-se: não era o tempo que amava!

Agora, o tempo passa sem razão;
quer dizer, passa por passar,
dá passos em frente sem saber por onde caminhar.

José Pedro Cadima

terça-feira, abril 24, 2007