quinta-feira, outubro 15, 2026

Histórias de vida, e não só, em livro

 

Sinopse

As pessoas fazem as instituições. Uma instituição prestigiada como a Escola de Economia, Gestão e Ciência Política (EEG) tem sido construída pelas muitas histórias de cada pessoa que tem sido parte da EEG. Este livro reúne o testemunho de muitas das pessoas que, sendo EEG, já se encontram aposentadas. Este testemunho é muito importante para as gerações atuais e futuras da instituição, da universidade e da sociedade. Porque uma instituição assim prestigiada reforça a sua visão e o seu contributo quando se sabe como resultado de tantas memórias, lutas e momentos individuais. Quando sabe que tem uma herança académica, intelectual e humana, fica capacitada para renovar o empenho face a qualquer desafio com que se depare e, daí, também o seu sucesso. É esta herança que só as instituições académicas fortes recebem; é esta herança que só as academias fortes conseguem legar.

sexta-feira, junho 19, 2026

Diário de Bordo, 7 de junho de 2026

 

Sigo nesta ocasião num voo da Ryanair com destino a Estocolmo (Arlanda). Tenho a ideia que será a 5ª vez que me desloco à Suécia. Desta vez, não viajo em trabalho e, apesar de segui sozinho no banco, a minha mulher, Paula Cadima Remoaldo, segue no mesmo voo, alguns lugares maia a traz. Esta e uma das maravilhas destes voos “low cost”, em que, se queremos ter a nossa mulher sentada junto de nós, temos que pagar para isso.

Viajo há pouco mais de 2 horas e já estou saturado e desconfortável no meu banco. Por cortesia para com a minha mulher, aceitei acompanhá-la neste voo na visita que vai fazer à filha. Quis ter esse gesto para com ela, se bem que, aquando da reserva e depois, já no processo de obtenção dos “cartões de embarque”, me tenha questionado múltiplas vezes sobre se não teria sido preferível ficar em braga/Ponte de Lima, acompanhando o Fera. Sei que vai sentir muito a minha falta, e eu também vou sentir muito a falta dele e, sobretudo, preocupa-me o seu conforto. Infelizmente, ainda faltará mais de 1 hora para chegarmos ao aeroporto de destino.

À medida que o tempo passa, a viagem vai tornando-se mais penosa. E eu que, durante muitos anos, adorava viajar e fazer dessas deslocações momentos de vasão e descontração do meu quotidiano de trabalho. Como se pode hoje em dia, voando em companhias aéreas como a Ryanair, sentir conforto, descontração e ansiar a oportunidade de um próximo voo? Embora nada me tenha sido oferecido, passaram, entretanto, pelo corredor funcionários vendendo sandes e bebidas, primeiro, café, chás e outras bebidas, depois, e, num terceiro momento, bilhetes de lotaria. E eu que desejava sentir-me menos apertado e mais confortável no meu banco de avião.

Os funcionários parecem simpáticos e, obviamente, têm que fazer pela vida, mas não será excessivo pedir-lhes todos estes fretes? As pessoas acostumam-se, dir-se-á. Entretanto, eu é que sinto mais dificuldade em acostumar-me a tais modelos de viagem, tanto mais que há muitos anos que deixei de fazer viagens longas em autocarro. O comboio proporciona-me bastante mais espaço para estar e para me movimentar pelos corredores, se necessário.

Assiste-me a dúvida sobre o tipo de companheiros de viagem que tenho. Aparentemente, muitos são portugueses, jovens ou de meia-idade. Estarei entre os viajantes de mais idade. Haverá, seguramente, alguns que serão emigrantes, mas não sou capaz de discernir quais.

Há suecos a bordo e há, também, pessoas de outras nacionalidades. Duas mulheres jovens serão japonesas ou coreanas. Depois de visitarem o Porto, presumo, estarão em visita a paragens mais a norte, na Europa? Também percebi a presença de agentes comerciais na porta de embarque, ainda no aeroporto de partida. Fiquei com a ideia de que seriam representantes de alguma empresa de confeções ou de têxteis.  E os demais? Haverá muitos turistas portugueses rumando à Escandinávia?

Saí de casa, desta vez, sem grandes preocupações com o trabalho que tenho por fazer. Na verdade, procurarei que isso não acontecesse, planeando assumir as tarefas que tenho “em carteira” depois do meu retorno a Portugal. Vamos ver como as coisas correm até lá.

Enquanto tomava estes apontamentos, os funcionários de bordo tiveram a oportunidade de percorrer o corredor do avião mais uma vez “oferecendo” perfumes e outras lembranças ditas “duty free”. Algum tempo depois o comandante do avião anunciou, em bom português, que noa prestávamos para chegar. Alegra-me isso, isto é, esse foi um dos momentos mais ansiados deste voo. Ainda bem que o próximo voo é só daqui a 8 dias. Tentarei entretanto recuperar deste e preparar-me melhor para esse.

José Cadima Ribeiro


segunda-feira, fevereiro 10, 2025

Minha Querida Helena (63)

Minha Querida Helena,

Retomo o contacto contigo depois de ausência longa, muito longa, motivada por razões de força maior. Foi um afastamento penoso mas necessário, forçado por razões próprias de quem fez caminho cruzando terreno bravio, sempre à beira de soçobrar.

Regresso cansado, de um cansaço diferente daquele com que parti, mas, ainda assim, cansado. Embora às vezes nos recusemos a admiti-lo, as viagens são quase sempre fatigantes, sendo certo que ficar pode ser pior. Ensaio retomar algumas rotinas e, também, algumas das referências que informaram a minha vida de sempre. Nem todas, já que algumas me dizem pouco agora e outras receio não ter energia para as agarrar de novo. Regressei, se bem que não esteja certo de que devesse ter regressado ou, então, que seja este o momento certo para retornar a este lugar.

É verdade que muitas vezes - porventura, demasiadas vezes – falta-nos a resposta para as questões que colocamos, sendo bem melhores aqueles momentos em que não temos questões a inquietar-nos. Sinto-me cansado, digo, mas, mais do que isso, sinto que me falta ânimo e energia para enfrentar esta onda que tudo enreda e tudo arrasta, deixando atrás de si desolação e destroços. Se destroço ainda não sou, provavelmente pouco mais serei que desolação.

Custa-me a incerteza do que farei amanhã ou, melhor, do que serei capaz de fazer amanhã, embora no meu refúgio me sinta tranquilo, relativamente apaziguado com os meus espíritos e seguro da sua inviolabilidade pelos espíritos alheios. O problema é quando abro a porta e, desgraçadamente, abro-a vezes excessivas. Não o deveria fazer, eu sei, mas há referências passadas de que nunca somos capazes de nos libertar por inteiro (assim me parece).

Estou de regresso, embora não esteja certo que seja avisado regressar e tenha por seguro que uma dimensão fundamental de mim terá ficado nas paragens longínquas por onde deambulei durante este tempo de ausência. Quem chega nunca é o mesmo sujeito que partiu. No meu caso, chego mesmo a questionar-me quem sou já que dificilmente me reconheço nesta desolação quase destroço em que me converti.

Gostava de te trazer boas novas, meu amor de sempre. Gostava mesmo!

 

José Cadima

domingo, fevereiro 09, 2025

Minha Querida Helena (62)

Minha Querida Helena,

Estou naquela hora em que só a revolta e o desespero me assistem. Atravesso aquela hora do dia em que à minha volta só sinto tristeza e raiva; tristeza, por sentir que já não sou capaz de dar alma ao mundo que me rodeia; vazio por parecer ineficaz tudo quanto faço para que o dia seguinte não me apareça transformado num vale de lágrimas igual ao que foi o de hoje.

Falava eu há um par de dias de ciclos de esperança e desesperança, que se alternam. Pobre de mim que no meu desespero já confundo sonho e realidade. A esperança vive apenas na minha ansiedade; porventura, também nas minhas memórias longínquas. Não é parte da realidade que é o meu quotidiano. Aí, a alternância faz-se com acalmia, bonança, não com excitação, nunca com tempos de alegria aberta, sustentável.

Como aqui cheguei não to sei dizer. Questiono-me sobre se foram os meus olhos que foram pintando tudo mais sombrio ou foi o sombrio da minha envolvente que se foi impondo aos espasmos de  conforto que ocupavam as minhas memórias. Questiono-me também como saberei percorrer caminho, descrente de alcançar um retiro que me permita recuperar energia, alcançar descanso.

Sobra-me o sonho fugaz de que voltes a ser o meu porto de abrigo, o meu lugar de evasão. Quer dizer, descrente de poder aceder à paz na terra, já só sonho com a tranquilidade que o céu me possa trazer. Atormenta-me entretanto o receio de que o meu céu não passe de ilusão de moribundo perdido em terra inóspita.

Atravesso aquela hora em que todos os pensamentos me assaltam, menos aqueles que podiam dar-me força para rumar contra uma maré que parece sempre prenhe de desgraças, pequenas e grandes, e de incidentes que nos desgastam e nos esvaem as forças que restam.

Nesta hora nefasta, sonho com horas preenchidas por encontros, reencontros, retornos, alegrias de vidas simples, preenchidas por encontros, reencontros, retorno a lugares onde subsista espaço para o romance, para a simplicidade de vidas simples. Sonho...

Sobram-me  tempos de desapontamento enquanto me escasseia ocasião para o sonho das coisas simples, das pequenas realizações que são pequenas alegrias que nos aquecem a alma e rejuvenescem o corpo. Sobra-me o sonho fugaz de que voltes a ser o meu porto de abrigo, que queria que se tornasse realidade desta hora. Seria um começo.

 

 José Cadima 

sábado, fevereiro 08, 2025

Minha Querida Helena (61)

Minha Querida Helena,

Tal como a economia, também a minha vida parece desenvolver-se em ciclos, isto é, há ocasiões em que uma desgraça só anuncia a desgraça que lhe sucede. No próprio dia de anos, apesar de me ter refugiado no estúdio logo a seguir ao almoço, não me libertei de receber a notícia que o João Miguel tinha tido negativa a História, atirada assim como quem só quer dar uma prenda a alguém; neste caso, eu, que fazia anos e, na boa tradição nacional, merecia uma prenda. Em Portugal, não se faz anos em vão: há sempre uma prenda para receber, mesmo que nos refugiemos longe de todos o dia de anos inteiro.

Do dia anterior, e de outros antes desse, sobrava-me a memória das tuas palavras magoadas, comigo e com os outros (nalguma medida, o mundo inteiro), e a tua atitude de desistência, que a mim me soa a condenação por culpas que tenho mas que, conscientemente, recuso que sejam só minhas e não minhas e tuas. A mágoa que daí me vem assistiu-me o dia todo e, presumivelmente, acompanhar-me-á por muitos mais. Pior é, no entanto, sentir que não está ao meu alcance provocar o abanão que te agite, te desperte e afaste para sempre esse torpor que te colhe  e te arrasta para um território de ninguém e, desse jeito, me arrasta contigo para o desencanto, o território em que uma desgraça só pode anunciar que uma outra desgraça se anuncia.

Escrevo estas letras enquanto me interrogo como me vais responder quando, daqui a alguns minutos, te telefonar: surpreender-me-ás com a prenda de uma palavra(um gesto) positiva(o) ou, pelo contrário, limitar-te-ás a confirmar que, em fase negativa de ciclo, uma má notícia que me chega só anuncia que outra está a caminho?  Ou, simplesmente, não chegarás a atender, confirmando com esse gesto toda a apreensão que me acompanhou ao longo do dia, qual amarga prenda de anos?

Talvez não. Talvez, num gesto de carinho, decidas pôr um sorriso e presentear-me com ele neste dia de anos que não fiz questão de lembrar a ninguém e, por isso, me refugiei aqui tão cedo quanto as obrigações de agenda mo permitiram. Daqui a pouco o saberei.


José Cadima

sexta-feira, fevereiro 07, 2025

Minha Querida Helena (60)

Minha Querida Helena,

Há momentos em que nos sentimos esmagados. Para mim, acabado de regressar de tua casa, este é um desses momentos. A tua desistência, a tua doença e a tua atitude deixaram-me num tal estado. Não é a primeira vez que sou atingido deste modo tão fulminante. Não é, por isso, que me encontro melhor preparado. Em boa verdade, há factos ou situações para as quais não parecemos jamais preparados. Diria, entretanto, que me sinto mais impreparado do que alguma vez me encontrei; talvez por estar mais velho, mais desgastado; talvez por ter deixado de olhar para diante com o optimismo doutros tempos.

Sempre lidei com grande desconforto com o que não era capaz de entender ou com dificuldades que escapavam à minha capacidade de dar contributo para a sua superação. Os problemas só existem quando nos escapam os instrumentos para a sua resolução. Doutro modo, não são problemas; são desafios.

Esmagado, digo; confesso-me esmagado e dolorido: não é em vão que vimos escapar-nos por entre os dedos um amor sofrido de muitos anos; não é em vão que se assiste ao assumir de uma atitude de desistência de qualquer esperança por parte da mulher que dá calor à nossa vida – desistência que raia a própria sobrevivência física. Esmagado, confuso, desesperado olho em redor e não vejo senão desolação, desesperança, vazio quando, em vez disso, precisaria sentir o teu calor, o teu estímulo, o teu entusiasmo para seguir caminho contigo, meu amor de ontem, de hoje, do resto da minha vida.

Volta para mim minha querida! Não deixes que o vazio se apodere de nós! Não deixes que eu desista porque tu desististe. Lembra-te que a desistência não era palavra que constasse do nosso dicionário. Não desistas, meu amor: volta para mim!

 

José Cadima