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domingo, março 02, 2014

És o verde-esperança que me resta

Em tempo de flores,
quase a chegar a Primavera,
a Primavera, nota, não a prima Vera,
que não sei por onde anda,
dizes-me que sou a tua rosa,
rosa vermelho-carmim.
Quase a chegar a Primavera,
perguntas-me se gosto de ti,
flor vermelho-carmim,
cor-de-rosa, verde, azul, de tantos tons.
Como podia eu não gostar desta rosa,
deste lírio dos campo, deste mal-me-quer cor-de-neve,
desta flor-de-laranjeira?
Custam-me os espinhos.
Custa-me destoar das tuas cores,
quando emparceiramos em jarra de cristal.
Custa-me o desafio da vida,
cansado que me sinto, tantas vezes.
Vais-me dando ânimo.
O teu vermelho-carmim, o teu tom de rosa,
o teu branco-neve perfumado puxam por mim,
contrariam os meus tons sombrios,
verde-desmaiado, azul-gasto, cinzento-névoa.
És a minha flor!
És o verde-esperança que me resta.

K.

segunda-feira, setembro 10, 2012

Sopa de palavras

Só em sonho te tenho aqui.
Só em sonho…
Há quem diga que “nos sonhos,
como no amor, nada é impossível”.
Há quem diga,
e o tempo passa.
Só no meu coração te encontro,
Pobre de mim,
duplamente, pobre de mim que já não vislumbro
diferença entre realidade e sonho,
Porque hei-de padecer
de tal sorte?
Sonhar é cada vez mais difícil.
Se “amar-te tem sido um sonho”,
a cada passo, os pesadelos
sobrepõem-se-me aos sonhos.
No meio desse turbilhão,
amar(-te) é seguro que quero,
amar(-te), “e, eventualmente, viver”.
Submergido num mar de angústia,
abafado pela ansiedade,
refém de um corpo cansado,
não descortino escape possível.
Sonhar é cada vez mais penoso.

K

quarta-feira, agosto 15, 2012

Num momento de pausa, recordando...


«Quero parar

Quero parar!
Quero seguir o meu caminho,
caminho distinto
do que me trouxe a estas paragens.
Quero parar, parar, parar
mas a inércia arrasta-me, impele-me,
deixando-me cada vez mais estreito
o umbral de arbítrio.
Anseio seguir por onde quero,
percorrendo estrada ampla,
liberta de sinais vermelhos.
Quero parar!
Quero retornar à utopia
que me trouxe a estes lugares,
que já não são de encontro,
antes são de desassossego.
Quero parar
para procurar caminho retemperador.»

José Pedro Cadima

quarta-feira, maio 11, 2011

Dizer-te (II)

São tantas as saudades
que sinto de ti
que parece que partistes há muito,
muito tempo.
Amor da minha vida,
mar salgado,
deixa-me dizer-te quanta falta me fazes.
Deixa-me dizer-to vezes sem fim.
Liberta-te desses mostrengos
que te atormentam,
e, libertando-te deles,
liberta-me também.
Mar salgado,
deixa-me dizer-te
quanto me és preciosa,
quanto falta me fazes,
para sempre.
Meu amor, liberta-te desses mostrengos,
liberta-te e liberta-me, para sempre!

K

quarta-feira, dezembro 08, 2010

A chama que me chama

A chama chama-me.
Ela és tu,
uma chama triste
que eu quero alegrar,
sentir por entre os meus braços,
dando-me conforto,
dando-me serenidade.
Continuarei a tentar alegrar essa chama
pois ela ajuda-me a percorrer a vida,
ajuda-me a saber quem sou.

C.P.

terça-feira, dezembro 07, 2010

O mar

Não sei se estava salgado.
Alterado, bravio,
sem dúvida, estava.
Não deixava, por isso, de ser o mar salgado.
Sei-o e sabem-no as gaivotas,
que, alinhadas, em bando,
se aconchegam junto a uma saliência da praia.
Há outras que preferem tirar partido do vento
que as fustiga
elevando-se no ar,
bailando nos braços do vento.
Como pano de fundo,
têm a imensidão do mar
que se espraia para além do horizonte,
agitado, bravio,
e, seguramente, salgado,
mar salgado.

José Cadima

domingo, novembro 28, 2010

Dizer-te – III

Ó mar salgado,
deixa-me enrolar-me nas tuas ondas.
Ó mar salgado,
deixa-me dizer-te quanto me é penosa
a travessia deste deserto
feito de angústia e lágrimas.
Ó mar salgado,
afasta de mim a tempestade
em que me constitui
para que haja lugar para a brisa suave
que anseio ser.
Ó mar salgado,
deixa-me reencontrar a tranquilidade
e o lugar do sono
para que surja também a oportunidade do sonho.
Ó mar salgado,
quem me dera experimentar de novo a embriaguês
dos nossos corpos em rodupio,
pairando sobre campos pejados de malmequeres
ou de lírios dos campos.
Ó mar salgado,
Quem me dera virar oceano outra vez.

K

sexta-feira, novembro 26, 2010

Esta descrença que me trespassa

Questiono-me sobre como aqui cheguei.
Interrogo-me sobre para onde vou.
Retenho o caminho agitado que trilhei
quase sempre navegando por intuição.
Se sonhei?
Se sorri?
É óbvio que sorri.
É certo que fortuitamente me deixei transportar
nas asas do sonho.
Como podia ser de outro modo?
Como se pode percorrer caminho
vazio de esperança?
Como seguir trilho certo
suportado em tão poucas ajudas à navegação?
O meu devir?
Será bastante a esperança
de que o sonho será o limite?
Interrogo-me, volto a interrogar-me,
corro em direcção ao certo
que me resulta incerto.
Busco ansiosamente a tranquilidade
que não encontro em mim
e que quero crer que sejas tu.
Seguro parece-me ser só este desespero,
esta descrença que me trespassa
e me tolhe.

José Cadima

quarta-feira, novembro 17, 2010

Dizer-te - II

Ó mar salgado,
deixa-me dizer-te quanto te quero.
Ó mar salgado,
deixa-me garantir-te
que dos mostrengos vou livrar-te.
São mostrengos horrendos
esses que te tiram a tranquilidade e o sono.
Como salvadora
me podes pois pensar.
Fica-nos depois espaço
para, de mãos dadas, subirmos o Pico Everest
e ficar por lá até a morte chegar.

K

domingo, novembro 14, 2010

Sou assim

Sou assim, cheio de falhas.
Sou assim, cheio de vontade de abraçar o mundo.
Sou assim, carente de paz,
ansioso por desfrutar de uma vida que me foge.
Sou assim, pleno de saudade
de todas aquelas coisas que me fazem sentir bem,
que me chamam para si
e que, quando as alcanço,
logo concluo que não era delas a saudade que sentia
mas de outras coisas
que elas me fazem/faziam lembrar.
Sou assim, tão forte
quanto a fragilidade
com que fui tecendo uma vida.
Sou assim, pleno de forças
que se alimentam das muitas falhas
com que tive que tecer um percurso
construído de vontade,
de suor, de desespero, de alegrias;
muito poucas, se olhadas à luz
de ânsia que sempre tive das alcançar.
Sou assim!

José Cadima

quinta-feira, novembro 11, 2010

Amar(-te)

Há quem diga
que “nos sonhos,
como no amor,
nada é impossível”.
Questiono-me porque, nos tempos que correm,
sonhar é cada vez mais difícil.
E se, em verdade,
“amar-te tem sido um sonho”,
a cada passo, os pesadelos
entrepõem-se-me nos sonhos.
No meio desse turbilhão, interrogo-me
sobre se “quero viver”.
Amar(-te) é seguro que quero,
amar(-te), direi, “e, eventualmente, viver”.

K

terça-feira, novembro 09, 2010

A árvore que sou

Na árvore que sou,
estou no Outono,
uma estação de tempo instável
mas sempre dominada
pelo agitar do vento,
o esvoaçar das folhas,
o espreitar do Sol
em perda de brilho e de intensidade.
Na árvore que sou,
sinto fragilizada a terra
a que se agarram as minhas raízes
e empobrecida a seiva de que me alimento.
Na árvore que sou,
estou no Outono,
mas não desisti ainda
de ser a Primavera de alguém.

José Pedro Cadima

sexta-feira, outubro 29, 2010

Minha flor: o texto alternativo

Chamas-me “minha flor”.
Reclamas que a tonalidade
que dou à tua vida é de céu aberto,
azul claro, e com poucas nuvens.
Reclamas que as nuvens
que ocasionalmente aparecem
são nuvens que não indiciam chuva;
estão apenas lá, no céu,
para não o tornar monótono...
Contra o cinzento e mediocridade que nos cerca,
dizes, temos apenas que ser honestos
e tentar contrariar essa mediocridade.
Benevolamente, concluis
que contrario, muito bem, essa mediocridade...
Oxalá que assim fosse.
Oxalá que assim pudesse (possa) ser,
para sempre, meu amor.

K

quinta-feira, outubro 28, 2010

Minha flor

Chamas-me “minha flor”.
Reclamas que não pode ser cinzenta a minha vida,
que não podem ser cinzentas as nossas vidas.
E que cor podem ter, então,
cheias que são da mediocridade do tempo presente
e mergulhadas que estão em correrias
para lugar algum,
a que somos levados no quotidiano?
A tua vida não é cinzenta,
gostaria de proclamar eu,
mas não serei eu, por mim só,
capaz de mudar-lhe a tonalidade
para outra mais viva, mais radiante.
Com aguaceiros todos somos confrontados,
e até com turbilhões ocasionais,
mas isso é expressão de vida;
é a turbulência da vida.
O cinzento é antecâmara de morte,
a não ser que o sol que possa espreitar
por trás das nuvens densas vença.
Acredito-te parte desse sol.
Só não sei se este enevoamento
que vai tolhendo as nossas vidas
não acabará por ser mais forte que nós,
para sempre, meu amor.

K

terça-feira, outubro 26, 2010

Longe

Longe de ti,
longe de mim,
longe...
Sinto-te longe
e fico mais longe, também,
perdido num mar de pensamentos.
De quando em quando,
um qualquer acontecimento exterior
me faz regressar,
me rouba ao alheamento que de mim se apossa.
Por breves momentos,
retorno a Lisboa, a Leiria
a um sem número de lugares,
e, logo de seguida, ao rio que tudo arrasta,
ao fogo que tudo abrasa.
É vida em convulsão onde o porto de chegada
se ansiava que apresentasse águas serenas, sereias de encantar.
Longe de mim,
o meu pensamento vagueia,
ansiando achar lugar de repouso
que possa partilhar com este corpo cansado.
A hora não terá chegado.
A hora é de fazer caminho,
correr, enquando as forças o permitam,
ou mesmo quando não o recomendem.
O lugar de peregrinação é este, cinzento,
desassossegado, longe de ti, longe de mim, longe...

José Cadima

quinta-feira, outubro 14, 2010

Vale a pena?

Há ocasiões em que me interrogo
sobre se vale a pena este labor, esta luta.
Há ocasiões em que me questiono
se é avisado o caminho que trilho
e, mais ainda, se valeu a pena
fazer o caminho que aqui me trouxe.
Há momentos em que me pergunto
se a valia da vida pode mesmo
ser avaliada "by the moments that take our breath away",
ao invés de ser " measured by the number of breathes we take”,
de penoso que é respirar.
Há momentos em que me interrogo
sobre o significado da palavra destino,
dando por certo que o meu destino
é fazer caminho, mais penosamente, numas ocasiões,
com maior alívio noutras,
sempre convencido de quão estreita
é a margem que tenho de auto-determinação.
De permeio, tento recordar-me
das ocasiões em que senti a respiração faltar-me
em razão da emoção do momento.
São estreitas as margens
do leito em que corre este rio.

José Cadima

quarta-feira, setembro 29, 2010

quinta-feira, setembro 23, 2010

Quero parar

Quero parar!
Quero seguir o meu caminho,
caminho distinto
do que me trouxe a estas paragens.
Quero parar, parar, parar
mas a inércia arrasta-me, impele-me,
deixando-me cada vez mais estreito
o umbral de arbítrio.
Anseio seguir por onde quero,
percorrendo estrada ampla,
liberta de sinais vermelhos.
Quero parar!
Quero retornar à utopia
que me trouxe a estes lugares,
que já não são de encontro,
antes são de desassossego.
Quero parar
para procurar caminho retemperador.

José Pedro Cadima

segunda-feira, setembro 06, 2010

Pelo mar dentro

Pelo mar dentro
tentámos ir.
Fomos até à ilha das pedrinhas,
ilha repleta de sonhos,
ilha repleta de símbolos.
Havemos de lá voltar um dia.
Um dia, havemos de lá voltar...

K

segunda-feira, agosto 23, 2010

Longe e perto

Longe, outra vez,
fico mais perto de mim,
e com mais espaço para deixar fluir o pensamento.
Longe e perto, outra vez.
Que bom é partir!
Que bom é regressar!

Noutros tempos, partir era certeza
de evasão do quotidiano,
ânsia de chegar,
onde a sensação de diferente, de novo,
me permitia alcançar a serenidade
que o dia-a-dia me roubava.
Hoje, perdi essa capacidade de abstracção
e, talvez, a vontade de começar de novo.
Nos tempos que correm, encontro-me a espaços,
ausento-me esparsamente,
e sorrio mais episodicamente, ainda.

Talvez o sorriso que me reste sejas tu.
Talvez sejas tu a razão que me ficou para regressar
e, porventura, também para partir,
fazendo da viagem um ponto de encontro.
Longe e perto, outra vez.


José Cadima