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quinta-feira, março 28, 2013

O medo do desespero (2)

Aproxima-se a meia-noite
e com ela afasta-se a sobriedade
de pensamentos.

O desespero
possui uma certa magia,
mas é como a água:
dela ninguém respira.
O que me mete medo
é vir a sonhar com ele.
Quando me vir no sonho,
o desespero fugirá?
Sentirá também o medo
que eu sinto dele?
A passo largo, a meia noite aproxima-se...

José Pedro Cadima

domingo, março 10, 2013

Quem sou (hoje aqui)?

Em busca de reconhecimento,
sem nada ter feito.
Em busca de futuro,
tendo-te dado tão pouco.
Hoje aqui,
amanhã num qualquer lugar remoto.

Quero ser tanto na vida
que me esqueço de quem sou.

José Pedro Cadima

quinta-feira, setembro 27, 2012

Lembrando: "À chuva"

Sempre a meu lado,
vais à chuva,
sempre à chuva!

E eu, pelo guarda-chuva
coberto e liberto
e, no entanto, preocupado.
Porque vais à chuva?

José Pedro Cadima

domingo, setembro 02, 2012

Numa escala (2)

Numa escala de zero a dez,
quanto te assustaria
se te escrevesse um poema?
E se fossem cem?

Achar-me-ias tolo?
Considerar-me-ias obsessivo
ou chamar-me-ias “poeta”?

Numa escala de zero a vinte,
quanto te afastarias de mim
se te escrevesse um romance?

Incomodar-te-ia a minha confissão de amor?
Ser-te-ia pesada a minha presença
ou achar-me-ias “romântico”?

Numa escala só tua,
quanto te intimida o meu contacto físico?
E quanto temes um beijo meu?

José Pedro Cadima

quinta-feira, agosto 23, 2012

Maré (alta)

Eras a maré,
maré alta, entenda-se,
que me enrolava, que me arrastava.

Eras uma força a remar
contra os meus maiores objectivos.
E, no entanto, ali estavas,
derradeiro tormento e prémio.

Estranguladora e libertadora,
eras a minha morte criativa,
a minha paz eterna.

José Pedro Cadima

terça-feira, julho 31, 2012

Ainda: "Vermelho-consequência"

De vermelho-consequência
cobre-se quem dá importância
à própria ilusão da imagem.

São seres marcados nas pernas
com queimaduras de cera
e com os braços cobertos
de pêlos grossos, lilases.

Confundem-se com o real!
Confundem o real.

São seres de olhos vermelho-verde,
de lábios vermelho-rosa,
de faces num tom vermelho-azul,
e sem noção da relação causa-consequência.

Confundem-se com o real!

José Pedro Cadima

terça-feira, julho 24, 2012

Adoro a chuva (II)

Adoro a chuva, se intensa, se forte
Adoro escutar o som do metal
matraqueado pela água que cai.

Em dias depressivos,
chorar acaba por trazer-me alívio;
chorar permite-me atirar para poças de água turva
os sentimentos que trago enrolados em mim.
É como aquelas músicas pesadas que nos embalam
e, ao mesmo tempo, nos levam para longe do conforto.

Adoro ouvir a chuva cair.
Nessa altura, o mundo lá fora
torna-se  tão real quanto a dor que sentimos.

José Pedro Cadima

quinta-feira, julho 12, 2012

De volta a ´Sonhos a Um Espelho`: "Em teus olhos eu mergulho"

«Em teus olhos eu mergulho
para achar a razão
de meu coração se sentir engulho
se de ti ouvir um não.

Em teus lábios os meus querem mergulhar,
tão belo e doce é seu contorno.
Mais doce deve ser seu paladar.
Em teus olhos eu mergulho…»


José Pedro Cadima (2009), Papiro Editora, Lisboa, p. 40

quarta-feira, junho 13, 2012

"Resíduo"

O amor é
um elemento residual.
O que nos junta
é o vício e o conforto.

O amor é
um sentimento maldito:
reclama de nós entrega,
esconde dor.

Perscrutando o horizonte,
não te enxergo.
Admito que andes por aí,
resíduo…

José Pedro Cadima

terça-feira, junho 05, 2012

De volta a ´Sonhos a Um Espelho`: "Chamam-lhes histórias"

Dizem eles que são histórias,
mas eu vi-a gerar uma luz na tempestade.
No solo, essa luz criou vida;
no céu, essa luz criou liberdade.

Dizem eles que são histórias,
mas eu vi-a! Como vejo escrever,
eu vi-a! Olhei para ela até doer.
Ainda dói, mas são saudades.

Dizem eles que são histórias,
e ninguém em mim acredita.
Fundam-se em velhas glórias.
Seja a sorte maldita!

Teimam eles serem histórias,
mas aquela luz era bela
e com ela vinha a mais bela donzela,
que até a lua fazia derreter.

Não! Não são histórias.
São desejos… São fantasias.
Mas havia luz.
Eram meus olhos a brilhar!

José Pedro Cadima (2009), Papiro Editora, Lisboa, p. 62

quinta-feira, maio 24, 2012

De volta a ´Sonhos a Um Espelho`: "Mais um grito"

É noite e está frio.
Sinto mais um arrepio.
Faltam-me palavras para expressar
sentimentos que alguém ousou roubar.

De olhos quase vidrados,
olho lá para fora,
guardo minha alma aos bocados,
que tenta ir-se embora.

De verdade, tenho medo,
não encontro consistência nas palavras,
enquanto perco proximidade a um qualquer conto de fadas.

Então grito
até sair tudo de mim:
frio, medo e pozinhos de perlimpimpim.


José Pedro Cadima (2009), Papiro Editora, Lisboa, p. 38

terça-feira, maio 22, 2012

De volta a ´Sonhos a Um Espelho`: "Vejo-o em teus olhos"

«Em teus olhos vejo
a próxima resposta.
Nem precisas de falar;
já está tudo dito!

Vejo o que estás a sentir.
Sei-o até melhor que tu.
Vejo o que estás a pensar.
Incrível, não é?

Dói-me ver a tua resposta,
e fico com medo de perguntar.
Dói-me saber em quem tu pensas;
dói-me saber que não é em mim.»

José Pedro Cadima (2009), Papiro Editora, Lisboa, p. 72

sexta-feira, maio 18, 2012

De volta a ´Sonhos a Um Espelho`: "Um sítio distante de mim"

«Desejaria partir
em busca de isolamento
num lugar bem longe daqui,
num sitio distante de mim,
onde pudesse encontrar
resposta para tudo,
no relativismo absoluto
dos teus e dos meus sentimentos.

Nem em tudo eu meto sentimentos.
Eles é que se metem em mim!
Queria encontrar resposta para problema assim.»

José Pedro Cadima (2009), Papiro Editora, Lisboa, p. 44 

sexta-feira, março 09, 2012

De volta a "Sonhos a Um Espelho"

«Na idade dos porquês
Estou outra vez
em mutação,
quer dizer, na idade dos porquês
(se bem que pareça questionar-me em vão).
Não acho resposta para nenhuma pergunta.
Sabes: as folhas no Outono? Eu sinto-me assim!
Nada resulta!
As perguntas ficam por responder
e eu sinto medo das respostas procurar.
Só me apetece esconder…
… e chorar.»

José Pedro Cadima (2009), Papiro Editora, Lisboa, p.48

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

De volta a "Sonhos a Um Espelho"

«Adorar e não adorar
Vi uns poucos, em acto de adoração,
a chamar de rei e senhor
a alguém em que apenas reconheci um homem comum.
Porquê esta necessidade de encontrar alguém a quem idolatrar?
Porquê esta necessidade de alguém que os guie?
Não saberão eles guiar-se a si próprios?
Sentir-se-ão fracos ou é essa postura que os torna fracos?
Eu? Nunca fui de adorações!»

José Pedro Cadima (2009), Papiro Editora, Lisboa, p.74

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

De volta a "Sonhos a Um Espelho"

«Aqueles momentos
Há aqueles momentos sem nada que escrever,
sem nada para dizer.
Pois bem, este não é um deles,
e, mais do que nunca, apetece-me escrever,
correr, saltar, delirar
e, sobretudo, estar a teu lado e abraçar-te.
Apetece-me inspirar
e expirar muito lentamente,
ouvir a tua respiração em sincronia com a minha.
E apetece-me
chegar os meus lábios ao teu ouvido, lentamente,
e dizer-te: amo-te!»

José Pedro Cadima (2009), Papiro Editora, Lisboa, p. 14

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

De volta a "Sonhos a Um Espelho"

«No fundo

É usual dizer-se que, no fundo,
esta ou aquela pessoa ainda gosta de nós.
Mas, no fundo,
no caso do poço, está a água
e, no vulcão, está a lava.
Para mim, tanto faz morrer afogado
como por lava queimado.»



José Pedro Cadima (2009), Papiro Editora, Lisboa, p. 18  

domingo, maio 29, 2011

Resíduo (II)

O amor é
um detalhe,
um quase nada
nas nossas vidas
plenas de incidentes.
O que nos junta é o vício
e a busca, ansiosa, de conforto.

O amor é
um sentimento maldito:
reclama de nós entrega;
esconde frustração e dor.

Perscrutando o horizonte,
não te enxergo.
Admito que andes por aí,
resíduo…

José Pedro Cadima

domingo, maio 15, 2011

Maré (III)

A maré vai alta.
Ainda há pouco o mar se sugeria sereno.
Foi o vento,
foi um vento que lhe deu.

Eras a maré
contra a qual tinha que lutar.
Eras a corrente
que me arrastava para o mar alto.
Eras o meu tormento
e o meu prémio derradeiro.

Estranguladora e libertadora,
eras a morte da minha criatividade,
a minha paz eterna.

José Pedro Cadima

domingo, maio 01, 2011

A 1 de Maio, apeteceu-me recordar "Gargalhadas amargas"

O mundo agita-se, roda

e o que eu mais quero é sossego

(e vislumbrar no horizonte sinais de esperança).

Se a agitação é própria do prazer que é a vida,

a tranquilidade não o é menos.


Sentir, sofrer, amar!

Eu sou só um,

e se a agitação me estimula

também me embriaga

e me tortura.

Na mesma medida em que anseio o frémito

desta Terra de oportunidades,

rejeito-lhe a inequidade,

a mesquinhez que grassa.

Daí que sejam amargas

as gargalhadas que por vezes liberto.


José Pedro Cadima