domingo, janeiro 12, 2025

Minha Querida Helena (34)

 Minha Querida Helena,

Depois do teu inesperado telefonema, depois da tua afirmação critica “...mas não tocaste à campainha !” - como se tu tivesses tocado à minha ou, mais simplesmente, me tivesses feito chegar uma linha ou um aceno – vencendo resistências internas, fui visitar-te. Até ao momento em que respondeste à porta, não dei por seguro que a deslocação valesse a pena. Consegui ver-te, falar-te, e daí que tenha dado por útil o meu esforço.

Pela manhã tinha lido as três cartas acabadas de receber, de onde não tirei muito mais que a tua insistência nalgumas obsessões, e mesmo leituras de factos que só tu podias fazer (indo buscar razões descortináveis apenas por ti e elaborando sobre dados da tua cabeça). O que achei nelas de novo eram as preocupações que exprimias com o momento psicológico do João Miguel. Daí, e de pouco mais, se podia deduzir que tinhas lido as minhas cartas. Aliás, outro tanto retirei da conversa que mantivemos depois: dados cruciais em matéria de evolução do meu equilíbrio emocional e de opção de vida que te fui transmitindo passaram-te ao lado, conforme te sublinhei, incrédulo. Admiras-te tu depois que eu receie as interpretações que dás ao que oralmente te digo. Contesta tu que eu recuse ser questionado por actos e compromissos que tu tomaste de uma maneira e eu de outra.

E depois, minha querida, onde pretendes tu chegar ou aonde queres que te levem a tua teimosia em descuidares o arranjo dos teus cabelos e o desarranjo da tua casa? Que afirmação de vontade é essa? Para mim, Helena querida, isso não passa de uma forma de chamares à atenção ou um sinal de protesto que queres dar. O pior é que, com esses sinais e essas atitudes, hostilizas aqueles que queres cativar e te hostilizas a ti, porque essa também é peça do teu bem-estar físico e psíquico. É o princípio de um circulo vicioso que só tu podes quebrar, e que, não obstante, magoa todos.

Pois claro que estás doente e isso justifica muita coisa. O problema é que essa é razão fraca quando estão em causa uma pintura e um corte de cabelo. Como te disse, a importância desse particular facto não está nele mas no simbolismo que ele acarreta.  Atrás deste facto vêm outros e outros mais e, finalmente, temos uma mulher desmotivada, doente, cansada, confusa, mais doente, mais fragilizada, agonizante. É uma forma de chamar a atenção, de protestar injustiças e desatenções mas é a que magoa mais e, em primeiro lugar, ao “grevista”.

É nesse sentido que não há lugar para outra coisa que não seja começar tudo de novo. O amor – mesmo protestado - não chega. O amor levou-nos onde? O amor, Tróia da minha desesperança, levou-te onde? A Tróia que vale a pena reconstruir há-de ser sólida, fresca, apetecível como a maça que condenou Adão.

 

José Cadima

Ps: por causa das dúvidas, aqui deixo o meu endereço electrónico institucional; a saber: jcadimaribeiro0@gmail.com. Através dele mantenho-me em contacto com o mundo 24 horas por dia, todos os dias da semana. A sociedade pós-moderna também nos trouxe coisas que valem a pena.

sábado, janeiro 11, 2025

Minha Querida Helena (33)

Minha Querida Helena,

O telefone toca. Era a segunda vez que tocava neste dia, agora que toca muito menos que há uns meses. Atendo. És tu. Inesperadamente, do outro lado da linha ouço a tua voz sem ter imediatamente percebido que eras  tu ou, talvez melhor dito, sem ter querido acreditar que eras tu que me falava.

Não soube reagir. Fiquei a escutar o que me dizias. Também, que poderia dizer-te que não te tivesse escrito nestes 40 dias de ausência? Ocorreu-me primeiro perguntar-te se tinhas estado doente, onde e que resultados tinham revelado os exames médicos que fui levantar contigo. Fiquei contente que me dissesses que os exames não tinham revelado nada de grave. Fiquei contente, sim, embora talvez não o tivesses entendido do tom da minha voz. Tenho agora a sensação de nunca te ter falado com uma voz tão inexpressiva. Surpreendido pelo telefonema, fiquei sem palavras e quase sem emoções ou, pelo menos, incapaz de as expressar.

Dizes que me escreveste. Mencionas três cartas e aludes ao João Miguel e à atenção que as notícias que dele te dei te mereceram. Quis dizer-te quanto sensível estou para o momento que atravessa o João Miguel, de modo idêntico ao que procurei estar para a fase de maior fragilidade que o José Pedro atravessou há uns meses. Do que interpretei do que me disseste, não terás pensado assim. Felizmente, digo-te, não têm ciclos emocionais concertados porque, se os tivessem, não saberia como acudir-lhes em simultâneo. Ocasiões há em que nem as minhas próprias emoções sou capaz de gerir, quanto mais as dos miúdos, de ambos, a par das minhas. Sei hoje quanto os miúdos se me assemelham emocionalmente; de forma diferente, mas com idêntica sensibilidade emocional. Tanto pior para eles. Tanto pior para mim.

Confessas-te magoada com o que te escrevi na última carta que recebeste, datada de 1 de Setembro, conforme explicitas. Uma vez mais não sei que te dizer nem entendo a que te queiras referir. Escrevi-te tantas cartas. Como poderia eu lembrar-me de uma, em particular? Para mais não havia sido a última. Tinha bem presente que eram cartas de amor, todas. Deduzi que tinhas tomado essa pela derradeira e te tinha incomodado a crueza de sentimentos que expunha. Mas tinha bem presente ter-te escrito outras após aquela. Uma, pelo menos, tinha colocado no marco do correio há pouco mais de duas horas. Recordava-me disso muito bem. Eram todas cartas de amor, estava seguro. Como poderiam então ter-te magoado?

Descobri mais tarde, antes de te escrever esta, que a diferença daquela é que se tratava de uma carta de despedida. De despedida, digo, não a última. Não deixava, por isso, de ser uma carta de amor. Era talvez mesmo a mais intensamente vivida carta de amor das que te escrevi. Era essa a diferença. Percebi, relendo-a, porque a destacaste.

Falaste doutras coisas. De algumas não entendi a oportunidade, doutras ficou-me uma ideia muito ténue. Procurei escutar-te ou, se calhar, só ouvir a tua voz e, escutando-te, convencer-me que eras tu, a minha Helena que ousara partir. Não soube que dizer-te. No meu intimo, não estou certo ainda agora se cheguei a crer que eras mesmo tu. Seguro, seguro só sei que regressei confuso e cansado. Não te sei dizer se o cansaço me vem da jornada de trabalho, se da emoção da tua inesperada chamada, se de ambas. Achar-me confuso isso só pode ser resultado do turbilhão de pensamentos que me acodem.

Minha querida Helena: ainda bem que telefonaste! Gostei de ouvir-te. As cartas eram todas cartas de amor.


José Cadima 

sexta-feira, janeiro 10, 2025

Minha Querida Helena (32)

 Minha Querida Helena,

Da minha janela, por entre uma fresta da cortina, espreito o horizonte. Lá fora, descortino o casario e o cinzento de chumbo do céu. A chuva regressou esta tarde, forte, convicta, embora nesta hora já tenha partido. Senti a sua chegada como sinal de viragem de estação, e com o seu chegar ficaram mais próximos o tom dos dias e o meu estado de alma. Foi como se tivesse ganho uma inesperada companhia.

Do rádio chega-me o relato floreado do jogo entre a Letónia e Portugal. O jornal já lá vai e espera-me uma noite presumivelmente longa, à semelhança de tantas outras, recentes.

Enquanto avançava no texto Portugal marcou por duas ocasiões, de supetão, uma a seguir à outra. Antes, alguns segundos antes, apenas, uma jovem tinha surgido no relvado de maminhas ao léu. Provavelmente, dizia o relator, os jogadores portugueses tinham  ido retirar àquele “incidente” a inspiração para mudarem o ritmo e o rumo do jogo, até aí igualmente acizentado. Ainda bem – digo eu - que os nossos jovens permanecem sensíveis às coisas bonitas. Sobre a motivação subjacente à ousadia que levou a menina aos écrans da televisão não sei que dizer. Se se tratasse da minha Helena, preferia que ela preservasse exclusivamente para os meus olhos a sua graciosidade. Outros gostarão de forma diferente.

Mirando o horizonte, enquanto oiço o evoluir do jogo, vou-me questionando sobre o que estaria a fazer nesse mesmo instante a minha esquiva Helena. Acaso escutaria as mesmas palavras que me chegavam? Ocupar-se-ia, ao invés disso, de tarefas domésticas no seio de uma família reencontrada ou recuperada? E o seu estado de espírito revelar-se-ia tão sombrio quanto o meu?

Divagações de uma mente carente; especulações de quem procura um caminho mas nem por isso lembra menos amores tão sentidos, tão vividos; pensamentos de quem lembra a sua Helena inseguro de saber trilhar caminho sem ela.


José Cadima

quinta-feira, janeiro 09, 2025

Minha Querida Helena (31)

Minha Querida Helena,

Vagueio pela minha memória, revejo imagens e sensações arquivadas e não compreendo: não entendo como foi possível desaguarmos neste mar de ninguém; escapa-me o sentido de um abandono à beira da praia. Acredito que haja uma explicação. Sou consciente que nadar em mar revolto é desgastante e que muitos não lhe resistem. Mas soçobrar à vista da praia?! Não o compreendo, mas o certo é que aconteceu.

Neste entretanto, questiono-me: e se por acaso, por mero acaso, um destes dias eu me cruzar numa qualquer rua com a minha Helena de Tróia, como vou eu ser capaz de conter as emoções, especialmente aquelas que não sei antecipar hoje? Serei porventura capaz de aguentar firme mesmo sabendo Tróia condenada e com ela tantos sonhos que alimentei. E como será Tróia sem a minha Helena, acaso a fortaleza possa algum dia ser reconstruída? Para já, recuso-me a admitir que Tróia possa existir sem a minha Helena. Se num hipotético futuro poderá ser diferente, não sei dizer. Permito-me duvidar, no entanto.

As Helenas são uma dimensão vital de mim. Sem elas caminho sem destino. O tamanho do amor que dediquei a cada uma que o destino, o vento ou qualquer força que não sei entender colocou no meu trajecto só é comparável ao vazio imenso que a sua perda me traz. E uma após outra desaparecem como emergiram: subitamente, levadas pelo vento, pelo destino ou por qualquer força obscura de que só sei que mas rouba para deixar no seu lugar um imenso vazio. Como eu as amei!

Numa certa acepção, descansa-me sentir o aproximar do fim do trajecto. Pelo menos sei que não haverá mais Helena alguma a dar-me num dia o que me vai tirar no dia seguinte, deixando ao meu redor e, sobretudo, dentro de mim um enorme vazio. Nessa medida, sinto maior tranquilidade que a que experimentei em situações transatas, mesmo sendo tão grande quanto qualquer outro que já experimentei este vazio que deixaste em mim.

 

José Cadima 

quarta-feira, janeiro 08, 2025

Minha Querida Helena (30)

Minha Querida Helena,

“As horas passam,
o tempo voa,
e eu continuo aqui
sem amor,
sem ti.

Só no meu coração
te vejo,
te beijo
e te abraço.” (Cadima, José Pedro; 2004).

Leio este versos, releio-os e pergunto-me: do que dizem, referido a um tempo que é passado mas ainda presente, o que sobrou para o dia de hoje? Transfigurando-me na pessoa do autor – e tal não se me afigura nada complicado - quero eu dizer: 

As horas passam,

nalgumas ocasiões mais céleres que noutras,

e eu continuo aqui

sem amor,

e sem ti.

O meu coração

ainda te pressente,

os teus beijos são doces recordações

e a lembrança do teu xicoração sugere-se-me uma expressão de afecto

que resistirá a todas as desventuras deste romance.

 

Entretanto, começo a descrer

da força que parecia alimentar esse amor.

E descreio mais ainda

que os beijos que me davas

tivessem génese inteira no teu coração

porque, se assim fora, não te teria sido possível ignorar

durante todas estas semanas o meu lancinante grito de dor.

Duvido, bem assim, que o nosso xicoração tivesse o mesmo significado de entrega para ti que para mim porque, se assim fosse, ter-me-ias estendido o braço quando pressentiste que começava a afogar-me em desespero e em solidão. Não o fizeste e nada disso pode ser lido como expressão de acaso. Não o quiseste fazer. É tudo!

Repara: poderia ter-me afogado do mesmo modo. Mas terias tentado; terias dado sinal de humanidade e terias afirmado uma memória de afectividade, de entrega que estaria para além dos desencontros de percursos cruzados que não foram capazes de fazer do lugar do encontro o lugar de uma vida plenamente preenchida.

Posso estar a ser injusto contigo como, noutras alturas, tu terás sido injusta comigo. A verdade, porém, é que, nesta altura, descreio que tudo não tivesse passado de uma desatenção ou deficiência de percepção da tua parte do apelo de socorro que te dirigi repetidamente. Face à gritante evidência dos dados que estão à vista, manda a razoabilidade que conclua que, simplesmente, me ignoraste.

Minha querida Helena: a minha ferida é profunda; talvez não tão profunda, todavia, quanto o meu desapontamento.

Um beijo para ti ou, talvez, um até sempre.


José Cadima

terça-feira, janeiro 07, 2025

Minha Querida Helena (29)

Minha Querida Helena,

Espero que te encontres bem, na companhia dos teus. Eu cá vou indo como posso, umas horas mais fresco outras carregando com esforço óbvio o meu cansaço. Os fins de tarde, de um modo geral, têm-se revelado bastante penosos. O pior é quando ao dia se junta uma noite de sobressalto. Tirando  isso – como te dizia – cá vou andando.

Sobre os meninos, dir-te-ei que lá vão indo, também. Tenho andado um pouco preocupado com o José Pedro em razão da indicação que tenho de que algo não vai bem com os seus amores (tal qual se passa com o pai). Na verdade, fiquei algo alvoroçado quando há dias me mandou uma mensagem electrónica (vulgo, e-mail) dando-me indicação que retirasse a dedicatória à Maria do seu livro em projecto. Imaginei-o logo de volta aos seus poemas de desesperança, de que te falei vai para uns tempos, e que tanto desconforto me provocaram. Surpreendentemente, contudo - tanto quanto me apercebi – isso não terá acontecido. Em vez disso, partiu com o avô rumo a Leiria, primeiro, e a Lisboa, depois, de onde me deu notícias razoavelmente descontraídas de Sintra e de Queluz. Faço grande força para que assim continue.

Todavia, a serem válidos os sinais de que te falo no parágrafo precedente, tanta ou mais preocupação que o José Pedro dá-me o João Miguel. Imagina que criou um espécie de pânico em relação ao regresso à Escola, ao ponto de uma destas madrugadas ter aparecido no quarto da mãe em choro aberto questionando se não podia ter antes aulas em casa. Confirmo assim a ideia com que tinha ficado de que o ano académico passado foi para ele um enorme pesadelo. E até nem me custa entender que como tal o tenha sentido a aquilatar pela impreparação que constatei nos professores que, em má hora, tive que contactar. Mas daí até este vale de lágrimas de um miúdo como aquele vai certa distância. Lá tenho procurado sossegá-lo o melhor que sei, mas a apreensão, essa, ninguém ma tira.

Como uso dizer – e sou inteiramente sincero nisso – só pensa ter filhos hoje em dia quem não tem nada mais com que se ocupar ou, o que é radicalmente pior, quem é muito ingénuo ou um grande irresponsável. Como sabes, eu encácho-me na categoria dos ingénuos. Feito o erro, vou ter que viver com ele, mesmo que isso me custe para além do que tenho e posso dar. É uma de entre várias fatalidades com que estou confrontado. Daí a expressão cá vou indo com que iniciei esta mensagem que decidi endereçar-te.

Ciente, no entanto, que a carta vai longa e que te macei já para além do razoável, mantendo embora presente a tua benevolência, despeço-me até à próxima.

Dá cumprimentos da minha parte ao teu filho, e não te esqueças de lhe dizer que não me julgue mal pela forma como não soube lidar com a sua mãe. Recebe um beijo deste que tanto te quer.


José Cadima

segunda-feira, janeiro 06, 2025

Minha Querida Helena (28)

Minha Querida Helena, 

Embora exausto, não me sinto tão ansioso e desencantado quanto me senti em diversas outras ocasiões ao longo da minha vida. Com surpresa relativamente ao que podia antecipar, sinto uma razoável tranquilidade. Se me questionassem a esse respeito, talvez dissesse viver um certo sentimento de paz íntima.

Poderá, porventura, ser a calmaria que antecede a tempestade. Será, porventura, expressão de um despojamento de que não me  imaginava capaz. Ou, então, sinal de um cansaço e de uma saturação que iam para além das forças que me sustêm. Tanta luta. Tanto desencontro. Tanta ânsia de atenção e carinho. Tamanha carência de amor.

A ânsia de carinho não se esvaneceu, é claro. A tranquilidade pode não ser senão uma face que ignorava do desencanto: para quem era acusado de querer ter duas mulheres, não deixa de ser irónico encontrar-se sem nenhuma ou, melhor, não ser certo que a sua necessidade de ser amado venha a ser reconhecida por alguma.

Onde pára a minha pequerrucha? Onde pára a minha alma gémea? Será que o seu sexto sentido não lhe dá já notícia dos sobressaltas de alma do seu amado? Eventualmente, interferências radioeléctricas mais fortes que o usual toldam-lhe a recepção dos sinais. Ou será a distância (a afectiva incluída)? Onde pára a minha Helena?

Olhando os sinais, pelo meu lado, tenho o sentimento que as Helenas me voltam a ser esquivas, e interrogo-me porquê. A única resposta que encontro parece remeter para o amor que lhes dediquei (dedico). Quanto eu as(a) amei (amo)! Esse parece ser o meu fado e a razão profunda do meu desencanto. Quem me dera que o amor que senti e sinto tivesse sido/fosse antes algo que se assemelhasse a uma brisa do mar, numa noite serena de Verão!


José Cadima

domingo, janeiro 05, 2025

Minha Querida Helena (27)

Minha Querida Helena,

Já está: o congresso chegou ao fim e com ele encerrou-se mais um ciclo anual. No meu íntimo é, de facto, assim, quer dizer, o congresso da ERSA, realizado a cada última semana de Agosto, constitui o momento simbólico de fecho de um ano de trabalho e o anúncio do início da nova época. Senti-o assim também este Agosto, pese a sua realização em Portugal e o meu afastamento das celebrações sociais que o evento integrou.  Percebi-o assim  mesmo que me ache demasiado desgastado, em termos físicos e de ânimo, para enfrentar o novo ciclo que se anuncia.

Em boa verdade, o congresso encerrou para mim ontem; um dia antes da subida em barco do rio. Não me achei com forças para enfrentar aquele desafio e, receando soçobrar perante o olhar público, retirei-me. Sou dos que prefiro chorar em silêncio a expor a minha desgraça ao mundo. Provavelmente, estarei ultrapassado neste jeito de ser mas é desse modo que sei exprimir-me.

A ti, conto-te isto por te tomar como um complemento de mim, um espelho em que posso observar a minha imagem; se bem que receie cada vez mais que, à mingua de luz, mesmo o espelho se recuse a refletir-me a figura, especialmente, o rosto e os olhos entristecidos.

Falo-te disto neste dia, e talvez te devesse falar, antes, do mês que é  decorrido desde a derradeira ocasião em que pude ter-te sentada a meu lado, por acaso num banco de jardim, perscrutando o correr das águas de um outro rio, mais dado à contemplação e à celebração da vida (tal qual o sinto, pelo menos). Digo isto sabendo que não há data simbólica que te escape, pelo que ouso pensar que nos reencontremos nessa invocação. Melhor para ti se assim não for: quererá significar que vencestes a distância que separa um abraço esboçado de um aceno de despedida. Eu, por contrapartida, recordo ainda como se fora à bocadinho o teu calor transmitido nesse encosto de corpos.

Melhor fora que não lembrasse e, daí, não sentisse a vontade de repetir esse aconchego. Melhor fora...

 

José Cadima

sábado, janeiro 04, 2025

Minha Querida Helena (26)

Minha Querida Helena,

A noite passada sonhei contigo. Sonhei que tinhas recusado outros amores e tinhas voltado para mim. A ironia que encontro neste sonho (de que me lembro, ao contrário do que é comum) é que teve lugar numa altura em que não preservo quase gota de esperança que o sonho venha a antecipar a realidade. Eu, vê lá tu, que me tinha por um lutador! Eu que me arrastei até aqui cruzando selvas, transformando dor em raiva e raiva em forças para prosseguir caminho.

Por coincidência ou talvez não, essa foi igualmente a noite em que, pela primeira vez desde que me lembro, pude conversar, sem gritos, sem manifestações de histeria, com a mãe dos meus filhos sobre a infelicidade que se me espelha nos olhos e a solidão que me rodeia. Ainda por cima, por sua iniciativa, já que eu havia desistido de acreditar que essa conversa pudesse resultar noutra coisa que não em gritos, histeria, ameaças de chantagem emocional e material e mais gritos e mais gestos de histeria. Também ela se dera conta da infelicidade que me aparecia espelhado nos olhos e, finalmente, admitia que não se resumia tudo a má-vontade em relação a si e às suas expectativas e aspirações ou espírito endémico de traição.

Saí dessa conversa mais sereno, mais capaz de enfrentar o dia seguinte, embora incapaz de antecipar o que esperar do dia seguinte. Gostaria que o retomar da conversa (se/quando o houver) fosse tão sóbrio e franco quanto o foi a conversa finalmente mantida. Não sei se o será. Custar-me-á que o não seja.

Obviamente, os projectos constróem-se com ambições, expectativas, suor, respeito pela ambição e expectativas dos demais parceiros de empreendimento, e cortesia. Dou tudo isso por válido e custa-me tremendamente o sofrimento e frustração dos que são atingidos pelo insucesso; para mais quando sou parte do problema. Mas, e eu? Sou suposto não falhar? Sou suposto não ter os meus próprios projectos? Sou suposto ser apenas um ser animado, sem espaço para frustações, impermeável a emoções?

Porventura, devia sê-lo: sofreria muito menos; não transportaria a infelicidade que carrego. Para desgraça minha, não o sou!

Querida Helena: desculpa-me o tom de confidência que esta mensagem transporta, e desculpa-me o que te penalizo com o sofrimento que dela transborda.

Um beijo grande, grande para ti.


José Cadima

sexta-feira, janeiro 03, 2025

Minha Querida Helena (25)

Minha Querida Helena,

Se há quem “mate com o seu olhar”, tu fulminas-me com a tua ausência. A tua distância é-me insuportável. Disse-to, repeti-o, voltei a dizê-lo, e tu permaneces impenetrável. Impressionas-me na tua obstinação, confesso. Pergunto-te, entretanto: estás mais feliz? Essa distância devolveu-te o entusiasmo que havias perdido? Se sim, valeu a pena . Resta-me dar-te os parabéns e desejar-te felicidades. Se não, pergunto-me: aonde pretendes chegar então meu amor?

A ERSA cá está, como te havia dito. Já lá estive e pareceu-me bem. Vi muitas faces conhecidas e muita gente nova. Ainda bem que há gente nova. Ainda bem que há muita gente conhecida entre os participantes. Dá-me gosto rever bastantes deles, saber o que andam o fazer e por onde andam. Talvez nos reencontremos para o ano, em Portugal, em Amsterdão ou algures na Europa. Talvez ! É bom reencontrá-los, mesmo que alguns não me inspirem simpatia especial.

Já não tive coragem de acompanhar a comitiva na sua digressão social por alguns sítios do Porto. Aliás, falta-me a coragem para participar nos vários eventos sociais paralelos. A exposição pessoal seria maior e mais demorada e receio não resistir. Alternativamente, sempre posso recuperar o meu retiro e, desde ele, travar este diálogo unilateral contigo. Se questionado, tenho a escapatória de uma apresentação para acabar de preparar. Sinto-me miseravelmente, mas não me exponho e recupero forças para o dia de amanhã.

É pena que não me possas aconselhar na gestão deste processo. Por certo, terias muito para me transmitir da tua vivência e da tua reflexão. Espero que, pelo menos, estejas mais feliz que eu e que não necessites de te socorrer destas estratégias de preservação pessoal.

Cá fico, nesta espécie de estágio de preparação para o evento. Sabes, por vezes sair à rua, enfrentar a alegria dos outros é penoso. Alegra-me por eles. Entristecem-me, por contrapartida, aqueles em que não vislumbro um sorriso nos rostos.

Um beijo grande, grande para ti.


José Cadima 

sábado, dezembro 28, 2024

Minha Querida Helena (24)

Minha Querida Helena,

Estive hoje em Gaia, num hospital que conheces bem. Fiquei contente por saber que não estavas lá internada, se bem que tivesse gostado de te ver. Face ao teu desaparecimento repentino e sem rasto, já admiti tudo. Esta era só  uma hipótese que quis confirmar.

Uma outra possibilidade que me ocorre é que a minha preocupação com o teu bem-estar e o meu desespero te inspirem um gozo imenso, que queiras prolongar ao limite. Como te digo, já me ocorreu tudo; já admito tudo.

Esta carta significa, por outro lado,  que sobrevivi ao cansaço de que falei na carta que não te escrevi por me faltarem as energias. Não te sei dizer como, mas sobrevivi. Ponho a possibilidade de ter ido buscar forças ao meu desalento sem fim.. Se assim tiver sido, ironicamente, terei assegurada vida eterna.

Enquanto as respostas para as minhas dúvidas não chegam, vou-me arrastando  nesta rotina. Nesta altura, em concreto, estou numa espécie de estágio de preparação para a conferência anual da ERSA (European Regional Science Association), que decorrerá este ano em Portugal, na FEP,. de hoje até domingo.

No próximo ano será seguramente mais interessante, pelo menos assim se me sugere. Basta dizer, para tanto, que será em Amsterdão, uma cidade que nunca visitei, de uma Holanda que me cativa. Para mais, Amsterdão têm um apelo que lhe vem de um atributo turístico especial: o seu bairro vermelho (cuja designação imediatamente denuncia os seus antecedentes proletários que, ao que me dizem, preserva).

Enquanto Amsterdão não chega – se é que virá a chegar para mim – mantenho-me, conforme deixei dito, nesta espécie de retiro de estágio antes do grande acontecimento. Isolado do mundo, para atingir uma melhor concentração. Retirado do mundo, para que não me choque a festa do reencontro anual e não se torne mais presente a minha solidão.

Que te posso dizer que tu não saibas? Talvez possa falar-te do carinho que me inspiras; da angustia, do vazio que me traz a tua ausência. Procurarei fazê-lo em próxima ocasião.


José Cadima

sexta-feira, dezembro 27, 2024

Minha Querida Helena (23)

Minha Querida Helena,

Hoje não te escrevo. Estou tão cansado que me falta a energia para te exprimir o que sinto e para te gritar quanta falta me fases. No presente estado de alma, recolheria até energia de palavras desagradáveis que me dirigisses - à semelhança de tantas outras no passado, algumas vezes injustas. Daí haveria de retirar a força para dar o próximo passo e, quiçá, contributo para tornar menos doloroso este sentimento de perda que me assiste.

Há ocasiões em que o trabalho, pouco que seja, me esgota. Lembro-me de outras em que o trabalho se esgotava sem que lhe sentisse o peso. Não é, sei-o bem, apenas uma questão de esforço. É, muito mais, um problema de motivação, de crença que valha a pena enfrentar o dia seguinte, estado de espírito que me escapa nesta altura e de que não estou certo de ser capaz de libertar-me. A não ser... A não ser que...

Estou sem esperança. Estou sem ânimo. Sinto-me profundamente cansado, a ponto de me falhar a energia sequer para te gritar a falta que me fases. Por isso, hoje não te escrevo.

Não te farão falta, no entanto, as minhas palavras escritas. Porque se fizessem não te seria indiferente o meu cansaço. Porque se te faltassem, não me deixarias a agonizar. Por contrapartida, eu não tenho dúvida em dizer-te quanta falta me fases. Gritá-lo-ia, até, se tivesse energia para tal. 

Hoje não te escrevo. Se recobrar forças para esse empreendimento, escrever-te-ei noutra ocasião, para te dizer quanta falta me fases e quão tamanho é este amor que te devoto. Se recobrar forças para tanto, gritar-te-ei até a falta que me fases, mesmo duvidando que venhas a escutar o meu grito.


José Cadima

quinta-feira, dezembro 26, 2024

Minha Querida Helena (22)

Minha Querida Helena,

Não tendo cedido perante o cansaço, estou a morrer de saudades tuas. Faltam-me as tuas palavras de conforto, falha-me o sossego da tua presença, falta-me o descanso do teu corpo, falta-me a alegria do teu sorriso, falha-me a esperança do teu amor. Poderá alguém sobreviver em condições tão extremas de carência? Não creio.

Responder-me-ás: culpa tua! Contrapor-te-ei: culpa minha que nunca soube lidar com o amor e, querendo conciliar o que hoje sei inconciliável (valores básicos de respeito pessoal, de dignidade humana, de tolerância ante expectativas de um projecto de vida mais feliz), perdi o direito a ser amado. Aprendi-o de experiência própria. Aprendi-o tardiamente por me recusar a acreditar que um sentimento como o amor não inspirava tolerância e respeito pela nobreza desse sentimento.

Aprendi-o em vésperas de me esgotar de saudades: saudades de uma pequerrucha plena de energia e a transbordar carinhos; saudades de uma poetisa que cantava o rio, os pássaros, as flores e a paixão que a embalava. Percebi-o quando o meu amor deixou que se instalasse no seu olhar uma sombra cinzenta, a poesia deu lugar a um discurso arrastado, de desapontamento, e nem o rio, nem as flores, nem o chilrear dos pássaros foram capazes de voltar a levar-lhe inspiração e sonho. Nessa altura, perdi-te. Desde essa altura, fiquei também eu condenado a esvair-me, senão em desencanto e desesperança, em saudades.

Chegados a este termo, imagino-me a recomeçar tudo de novo, desde o primeiro olhar, o primeiro beijo, e culpo-me por não ter sabido guiar-te por trilhos mais seguros e mais portadores de futuro; culpo-me por não ter sabido preservar-te a energia que usavas transportar e os carinhos de que transbordavas. Pensando em tudo isso, e muitas coisas mais, enquanto me culpo de não ter sabido  preservar o teu sorriso, vou morrendo de saudades  tuas.


José Cadima

 

quarta-feira, dezembro 25, 2024

Minha Querida Helena (21)

Minha Querida Helena,

Hoje vi-te! Ou terei sonhado que te vi. Se não estou seguro se te vi ou apenas terei sonhado que te vi, estou seguro que deambulei pela tua cidade, se assim posso designá-la. A segurança de que te falo vem-me da circunstância de me ter cruzado com um teu antigo amor – não sei se também o mais recente. Se não era ele, era alguém que tomei como sendo ele, socorrendo-me da imagem que dele retenho de fotografias vistas em jornais e em painéis de rua. 

A dita personagem também me olhou mas, porque simplesmente não era quem eu pensei que fosse ou porque não me reconheceu – o que é muito verosímil, já que não guardo memória de alguma vez nos termos cruzado, em pessoa, digo – não me terá reconhecido. Se era quem eu penso que fosse, como dizia, está efectivamente um pouco mais gasto e com menos cabelo, como vai para algum tempo tu comentavas. Mas quem o não está? Com menos cabelo, quero eu dizer.

No meio de tanto azar, fiquei contente de não te ver com ele (ou atrás dele). Ser-me-ia muito penoso, confesso. Mais penoso seria, claro está, ver-te no passeio público com ele de mão dada ou com o braço pelo ombro, num assumir explícito de um amor reencontrado. Nesta fase – a teres retornado a esse teu grande amor de juventude – talvez seja aconselhável que reserves esses gestos de carinho para o recato de espaços menos públicos. Não te parece também? Repara, não o digo só por mim, pelo choque que isso me provocaria – de que provavelmente não mais recuperaria -, mas também por ti, para não te tomarem por uma troca tintas, quer dizer, uma troca amores; assim de um dia para o outro.

É bem verdade que o povo usa dizer que amor há só um: o primeiro e mais nenhum. Não é, no entanto, válida esta afirmação. E eu sei-o bem já que, não tendo sido tu o meu primeiro amor, a verdade é que te amei e amo como se tivesses sido a primeira, embora sem a esperança de ver o meu sentimento retribuído.

Não tendo sido tu a minha primeira Helena, tenho porém seguro que serás a derradeira. Nisso, só me custa mesmo a ausência de esperança de ver o meu amor correspondido; um pouco que fosse.

 

José Cadima

 

segunda-feira, dezembro 23, 2024

Minha Querida Helena (20)

Minha Querida Helena,

É irónico, não é, como um amor tão intenso e tão sofrido desagua assim, de repente, num vazio absoluto? Nem uma palavra, nem uma letra, nem um aceno. Confrontado com tamanho vazio, questiono-me: mas esse amor existiu? O objecto desse amor foi um ser de carne e osso, com sentimentos? Ou tudo não passou de um sonho? Ou, se não um sonho ( para ficar a par da pós-modernidade), uma elaboração mental de um espírito já incapaz de diferenciar o real do virtual.

Não queres tu, num gesto piedoso (se disso és capaz), trazer-me a luz em relação a esta dúvida que ameaça instalar-se definitivamente na minha mente?

 Repara: lendo Camões ou Bocage (naquilo que deles me recordo) retirava-se a ilação que na génese de cada verso estavam grandes paixões, fossem elas a pátria ou sereias encantadas, também chamadas musas. Mas eu, na minha ingenuidade de então, atrevia-me a pôr sempre uma Helena  de carne e osso, a transpirar sensualidade, no corpo de cada uma dessas musas. Vejo agora quão ingénuo era: eram mesmo sereias encantadas que, transportadas para os dias de hoje, não passariam de seres virtuais; perfeitas, sim, mas desprovidas de sentidos e, logo, de sentimentos  e de qualquer arremedo de sensualidade.

 Pobres deles. Pobres de tantos depois deles que julgaram descobrir sereias encantadas em “simples” criações digitais. Pobre de mim que, seguindo-lhes os passos - a distancia considerável - sorvendo-lhes os versos, me deixei ludibriar pelas lucubrações de uma mente carente de afecto, desgastada pela luta da sobrevivência quotidiana, tal qual a deles, porventura.

Daqui, podes tu, criatura real ou virtual, inferir sobre o nível de debilidade em que estou. Se real, um aceno teu, uma letra, uma palavra poderá ainda ajudar a devolver-me ao mundo dos que são capazes de destrinçar o que é verdadeiro do que não passa de imaginário. Se não o és, não me assiste qualquer esperança: parecendo-o embora, já não sou deste mundo; não tendo talvez alcançado ainda o outro. Estarei no caminho.

Ao que chegamos, minha deusa!

 

José Cadima

domingo, dezembro 22, 2024

Minha Querida Helena (19)

Minha Querida Helena,

Cansado, repouso com as tuas cartas. Angustiado, tento convencer-me que esta separação que tu forçaste te vai proporcionar, pelo menos, a tranquilidade de espírito que tanto procuravas e mereces. Resta saber se este cansaço que me tolhe é expressão de um esforço que, nalguma dimensão, se pode afigurar portador. Resta confirmar se a tranquilidade que procuravas e mereces fica garantida com esta ruptura tão penosa e, mais do que isso, te vai permitir alcançar uma vida emocionalmente mais preenchida, quer dizer, mais feliz.

Desfilando memórias, recordo as vezes que me disseste quanto desejaste um beijo meu, há uma vintena de anos atrás, quando tal era para mim insondável e para ti uma infracção imperdoável. Deambulando pelas minhas memórias, recordo o encanto, o enlevo do nosso reencontro à pouco menos de uma dezena de anos. Não me julgava já capaz de viver uma paixão. Não acreditava já estar ao meu alcance encontrar a outra metade de mim com que todos sonhamos – assim o julgo. Afinal foi possível.

Finalmente, não quero crer que tudo não tenha passado de um sonho; se bem que um sonho que não me arrependo de ter tido. Afinal, a vida é constituída também por sonhos: nuns somos capazes de voar; noutros acabamos esmagados. É curioso, não é, como o nosso ânimo balança entre dois extremos como o são a euforia e o absoluto desalento? É intrigante, não é, como os nossos sonhos alternam o terror absoluto com a leveza suprema?

Cansado, volto-me para ti – quisera, antes, voltar para ti. Angustiada, cansada, fragilizada foges de mim, procuras com tão penosa rejeição recuperar a dimensão do sonho que nos permite voar ou, pelo menos, prescutas reganhar a tranquilidade de espirito que mereces.

Quisera, antes, voltar para ti, meu amor!


José Cadima 

sábado, dezembro 21, 2024

Minha Querida Helena (18)

Minha Querida Helena,

Ter-te-ás dado conta que as duas mais recentes cartas que te dirigi iam com as datas gralhadas: em vez do que aparece, deveria estar 17 e 18 de Agosto, respectivamente. Vais ter que me perdoar isso, que outra coisa não é que a expressão de uma mente cansada e baralhada. A gravidade da falta deverá ser compatível com o nível de tolerância que tu manténs em relação aos meus erros – assim o creio.

Na verdade, escrevi-te quase só para te transmitir isso e deixar este apelo. Não fora este pretexto, não querendo, por outro lado, repetir-me nos meus lamentos, não teria assunto para esta mensagem. Como bem sabes, não é assunto com que se mace quem quer que seja, muito menos alguém de que muito se gosta, dar notícia de um dia de trabalho cinzento após outro de idêntico tom, de um arrastar de pés dia após dia sem alegria nem esperança.

Assim sucedendo, dando corpo ao pensamento que me assiste, e também como forma de preencher esta página, ouso citar o meu filho num dos seus versos tão forte nos sentimentos que transmite quanto impressionante nos termos de que se socorre; a saber:

Demónio da minha paixão

Rio de sangue,

que transportas
o meu demónio,
permite que eu aceda

ao favor de um beijo

que me faça sorrir.

Demónio de sangue,
demónio esbanjador,
faz-me um favor:

espeta-me um beijo e sorri.

Demónio de escolta,
meu segurança
dos demónios à solta,

espeta-me um beijo e sorri.

Demónio da sorte,
transportador da minha felicidade
ou morte,

espeta-me um beijo e sorri.

Demónio alimentador
da minha paixão
grande e assombrosa,
espeta-me um beijo e sorri.

Demónio sugador
de toda a minha atenção;
demónio que me arrebata o coração;
espeta-me um beijo e sorri.

Demónio do amor,
rainha da beleza,
só tu fazes a minha dor.
Por assim ser, espeta-me um beijo e sorri.

Demónio da minha vida
e da minha glória,
nem tu sabes o quanto
te quero arrancar um sorriso;

pois, meu amor,
tu és o meu demónio
e eu não sei viver sem ti.  (Cadima, José Pedro; 2004)

Sem mais palavras, quase sem palavras, despeço-me de ti, “demónio da minha vida”.

 

José Cadima

sexta-feira, dezembro 20, 2024

Minha Querida Helena (17)

Minha Querida Helena,

Recuperada alguma energia, retorno à tua companhia e à expectativa de que me faças chegar sinais de vida. Sinais de vida, meu amor. É só isso que te peço para trazer algum descanso ao meu coração. Nem juras de amor, nem promessas de eterna fidelidade, nem sequer um aceno de esperança. Apenas um sinal de vida, mesmo que esboçado.

Sei-te capaz de crueldade, particularmente contigo própria; sei-te magoada comigo, fruto de muitos desencontros e visões distintas de várias coisas da vida; se isso te der conforto, podes falar-me do(s) amor(es) reencontrado(s) e de quanto ele(s) te dá(dão) que eu não fui alguma vez capaz de te oferecer; fala-me de como foi bom voltares a sentir um frémito no corpo e uma ânsia de prazer sem limites. Faz-me chegar, entretanto, um sinal de vida, mesmo que só esboçado.

Sem ti, nestes tempos de retiro e desencanto, ultimei a revisão dos versos do José Pedro; uma revisão derradeira. Fico razoavelmente satisfeito com o trabalho concretizado, sendo certo que a qualidade do trabalho do miúdo merece bem esta minha pequena ajuda. Fiz o que sabia. Fico tranquilo, aproximada a questão a partir da minha condição de pai e tutor, que cumpro sem jeito e com sacrifício.

E tu, meu amor não retribuído? Retomaste a escrita do teu romance? Retornaste aos teus poemas, cantando amores perdidos e reencontrados? Escrevestes poemas de saudade? Foste à caça ou, tão só, observar os pássaros? E terás, por mero acaso, picado o rabo numa dessas saídas? Cruel, como nalgumas ocasiões só tu sabes ser, grita-me que sim  e liberta nesse gesto toda a raiva que te move. Liberta a tua raiva e, com ela, faz-me chegar um sinal de vida, mesmo que apenas esboçado.

 

José Cadima

quinta-feira, dezembro 19, 2024

Minha Querida Helena (16)

Minha Querida Helena,

Espero que te encontres bem.

Após alguns poucos dias de silêncio, retomo o contacto na expectativa de não te maçar excessivamente. Aliás, com esta ausência quis evitar que as minhas cartas te cansassem como te cansou o meu amor. Infelizmente, não estou seguro de ser bem sucedido. Não me privarás dessa esperança!

Sem as tuas cartas a minha solidão foi (ainda) mais completa. Não te digo, todavia, nada que tu não saibas; não digo nada que a minha pequerrucha não conheça bem. Falo, no entanto, da minha pequerrucha e de ninguém mais... envolto num mar de saudades tão grande quanto o oceano que algumas vezes mirámos aconchegados um no outro. Por onde andará a pequerrucha que me enche de saudades?

Privar-me das tuas cartas foi também o modo que encontrei de testar a minha resistência à dor ou, se quiseres, um modo de auto-flagelação. Sigo-te nisso, de alguma forma: disse-te vezes sem conta que não entendia o gozo que parecias retirar do sofrimento que, por vezes – vezes demasiadas -  te aparecia espelhado no rosto e que tanto me afligia. Pois bem, resolvi experimentar a tua receita. Dessa experiência não retirei, entretanto, mais que amargura e dor, pelo que mantenho a afirmação da falta de sentido dessa auto-penalização.

Volto ao teu contacto, meu amor, mas sinto-me muito debilitado. Daí que as minhas palavras não possam deixar de te soar arrastadas e eu seja incapaz de te assegurar por quanto tempo mais o alento me assistirá. Dá-me energia a expectativa de que as leias, mas é quase só isso que me assiste, e, concordarás, é parco para alimentar uma alma sequiosa da sua alma gémea.

Minha querida  Helena, ... am...


José Cadima