quarta-feira, dezembro 18, 2024

Minha Querida Helena (15)

Minha Querida Helena,

Ignoro como encaras as minhas mudanças de humor, bem marcadas nalgumas passagens das mensagens que te vou fazendo chegar. Do que te conheço de tempos recentes, não me pareces uma pessoa com um sentido de humor muito apurado. Mas, quem sabe, o meu desaparecimento visível do teu contacto e a oportunidade de novos encontros de tenham trazido outro fulgor. Questiono-me, aliás, como vai a observação dos pássaros, actividade que tu tanto prezavas e de que eu, de alguma forma, te privei durante tanto tempo.

Espero que as entendas – as mudanças de humor, digo – como a expressão explícita dos altos e baixos que me atravessam a alma, por assim dizer. Forte de ânimo, ao contrário do que alguns pretendem crer (talvez mais, um lutador), sou um ser carente de afecto e só, como tu bem sabes. Daí que a força de que falo me falte, ocasionalmente, e pouco mais me reste que ironizar com a vida que tenho e com as peripécias do meu dia-à-dia. É um mecanismo de auto-defesa, tal qual tu és, ou foste – talvez, devesse dizer –, o meu refúgio; um refúgio que se apresenta já como o abraço de uma multidão onde nos perdemos.

Ser-me-ia mais fácil conviver com esta multidão anónima se o trabalho fosse uma actividade permanente, sem ocasião para pausas, sem tempos para dormir. Custam-me os espaços que antecedem e se sucedem ao sono e custam-me os sonhos. Felizmente que, destes, pouco recordo alguns instantes após o despertar. Pese isso embora, preferira não sonhar.

Como deixo dito, espero que entendas o meu refúgio na ironia, e espero que não me acompanhes neste discurso sem esperança. Tu mereces todas as coisas boas com que sonhaste. Precisas, porventura, ser mais positiva nessa procura esperançada e necessitas, creio eu, de fazer por adquirir um maior sentido de humor. Essa é, no meu entender, uma dimensão essencial da nossa relação com o mundo, que nos faz mais fortes ou, pelo menos, que podemos usar como escudo em momentos de maior fragilidade.

Falo-te a partir de uma experiência vivida, minha querida.

Já agora: haverá forma de eu ter notícias tuas sem que quebres o teu voto de silêncio? Gostaria de te saber bem. Só isso.


José Cadima

terça-feira, dezembro 17, 2024

Minha Querida Helena (14)

 Minha Querida Helena,

Tenho que pedir-te desculpa por ter feito uso de um parágrafo de uma das tuas cartas sem o ter devidamente referenciado. A verdade é que o prefácio que, a pedido do meu filho, me comprometi a escrever para o seu livro me parecia cocho da referência ao seu conteúdo e aquele texto ofereceu-se-me ali à mão de semear,  reunindo, a meu modesto ver, todos os requisitos para o efeito: tratava explicitamente o assunto; era tão espontâneo quanto o são todas as tuas cartas.

Tinha-te disso dado conhecimento mas, concordo contigo, de facto, não é a mesma coisa, e este pedido de desculpas, senão me assegura o teu perdão, pelo menos descansa-me o espírito.

Com esse toque no prefácio encerrei, a bem dizer, o trabalho de edição dos textos do José Pedro. A faltar ficam agora: a arrumação dos textos por capítulos, que designei por desesperança, esperança, deslumbramento e sobressaltos; uma derradeira verificação gramatical; e o trabalho de produção gráfica, que, em todo o caso, devido a férias, vai ter que esperar por Setembro. Tenho até já a capa. Curiosamente, também da autoria do poeta (descobri-a entre os seus desenhos do jardim de infância, e creio que mesmo tu a vás achar uma gracinha).

Se me permites, confesso-te que,  a esta distancia, estou satisfeito com o resultado global do projecto (salvaguardado o tal tom sombrio e sofrido de que falo no texto que te roubei). Foi pena que não pudesses ter-me dado uma colaboração maior. O trabalho do José Pedro enriquecer-se-ia com isso e eu ficar-te-ia ainda mais grato, se isso fosse possível. Fica para a próxima, não é minha querida? Fica, talvez, para quando se trate de similar projecto do João Miguel.

E, por hoje, creio que é tudo o que queria dizer-te. Recebe um beijo e um chicoração apertado deste que tanto te quer (mesmo não beneficiando das graças do teu coração).

 

José Cadima

segunda-feira, dezembro 16, 2024

Minha Querida Helena (13)

 Minha Querida Helena,

Olá! Espero que estejas bem. Espero, inclusive, que tenhas tido ocasião para ires ao cabeleireiro e te cuidares, de um modo geral, agora que não me tens a tomar o teu tempo. Nota que, se comigo não precisavas ter essas atenções, doravante é diferente.

Escolhi esta manhã de Domingo para este instante de intimidade contigo. Imagino-te em casa, atarefada nas tuas arrumações e desarrumações mas, porventura, estarei bem errado. Talvez seja esta chuva que se faz sentir em Braga que me traz a melancolia que pressentirás nas minhas palavras escritas. Daí, talvez, digo, a fuga para a intimidade a que aludo antes. Como seria se estivesse calor, não te sei dizer.

Sabes: tenho usado parte do meu tempo para dar substância ao projecto de produção do livro do meu filho mais velho, de que te falei. Definitivamente, resolvi assumir o trabalho de editor dos seus textos. Aguardava que me pudesses ajudar mas, circunstâncias que tu bem conheces, inviabilizaram contribuição que eu tinha por preciosa. Assim são as coisas, e momentos há em que não nos resta senão admitir a nossa impotência.

É um trabalho que ora se me sugere gratificante ora me é penoso. A penosidade não releva do esforço, em si, mas dos conteúdos com que vou deparando, demasiado sofridos, denunciando uma violência de sentimentos que me surpreende. Sobretudo, na dimensão desesperança da mensagem. Repara: são só catorze anos; catorze anos de uma vida a que eu fui sempre dando o amparo que fui capaz .Podia ter sido mais, consinto, mas eu, que o não tive maior, não me recordo de ter escrito mensagens de tamanha mágoa e desapontamento, nessa idade. Os tempos são outros, sem dúvida, e talvez daí venha a diferença entre duas personalidades intimas que eu pressinto tão próximas. É bem certo que, nessa idade, eu não tinha ainda uma namorada, no sentido comum do termo, pese embora as Helenas que se foram cruzando na minha vida. Teria sido mais feliz se a tivesse, especulo eu, agora. Mas as Helenas, tu bem o sabes, sempre me foram esquivas. E quanto eu as amei! Nem tu nem ninguém é capaz de avaliar.

As Helenas, meu amor não retribuído, têm sido a minha razão de vida e a fonte dos meus maiores desencantos. É o meu fado!

 

José Cadima

domingo, dezembro 15, 2024

Minha Querida Helena (12)

Minha Querida Helena,

Já percebi a tua mensagem! Não precisas mais manter-te incomunicável com o mundo para não correres o risco de ouvir a minha voz do outro lado da linha. Não o queres, não o farei! Para mais, sei-te acompanhada por quem gostas muito, o qual, seguramente, te saberá dar o conforto que sei que te é necessário.

A esta distância, ganhou toda uma outra clareza a insistência que punhas na pergunta que me dirigiste na última ocasião em que estivemos juntos, em fim de jornada. O “agora, para onde é que me levas?”, que eu não percebi, não queria significar outra coisa senão a despedida que tinhas planeado e que imaginaste à medida da derradeira refeição de um condenado. Daí a tua recusa em acompanhar-me no jantar. Por isso, a tua tristeza, mesmo quando, acompanhando as pombas e as gaivotas, por alguns instantes, esvoaçaste ao longo da margem do rio.

Confesso-te que não sinto mágoa por não ter entendido o alcance do teu aceno de naufrago. Nunca gostei de despedidas. Evito-as sempre que posso. Se noutras ocasiões fui cúmplice de outros rituais de despedida, fui-o na ânsia de eternizar esses momentos de comunhão e porque, no fundo, sempre me recusei a creditar que fossem os últimos de uma entrega intima que, embora tu o recuses, foi muito profunda. Falo no passado, para invocar esses instantes, embora se apresente mais adequado usar o presente, querendo reportar-me ao amor que te tenho e que é agora alvo de expressão de recusa tão violenta da tua parte.

Com esse íntimo, questiono-me por quanto tempo mais aceitarás receber estas minhas cartas; quanto tempo passará até que, simplesmente, te recuses recebê-las ou lê-las. Aí, tens sempre a solução simples das rasgares antes de as abrires. Porventura, se isso te dá maior sossego exterior, toma as minhas cartas como correspondência de duas pessoas que cultivam o hábito e o gosto da escrita; dois velhos amigos de saudosas lides literárias.

Para mim, desde que as não tenha de volta, fica-me sempre a esperança que as tenhas lido e o conforto resultante de pensar que continuo a ter alguém com quem posso comunicar e a quem posso transmitir emoções e sensações provindas do fundo do coração.

De mim, meu amor não correspondido, terás todo o carinho e incentivo para que percorras um caminho mais feliz do que o que trilhaste comigo, e a certeza, que gostaria que désseis por certa, de um ombro onde sempre podes repousar.


José Cadima

sábado, dezembro 14, 2024

Minha Querida Helena (11)

Minha Querida Helena,

Tantos dias passados, rendo-me à evidência: não é simples acaso esta ausência de comunicação; definitivamente, devo concluir que já não gostas de mim (concedo que, em algum momento passado, possas ter gostado). Digo-te, no entanto, que não és a primeira que rejeita o meu amor. A minha história afectiva é, aliás, fortemente marcada por rejeições amorosas. Julgo, até, que de algumas nunca cheguei a recompor-me completamente.

Porventura, sou eu que não serei merecedor do amor daquelas a quem, em expressão de desígnios insondáveis, em momentos sucessivos da vida, resolvi confiar o meu coração. Porventura, a minha sina reservou-me uma vida esforçada, de pequenas vitórias quotidianas, mas fundamentalmente de desesperança. Talvez daí o tom amargo que carrego, como que alguns me atiram, qual pedra se atira ao vulgar ladrão.

Ficas a saber, amor meu não correspondido, que não há nada que eu desejasse mais – salvaguardado o benefício do teu amor – que assumir um dia-à-dia descontraído, de sorriso permanente nos lábios, sem que de uma máscara se tratasse. Será, quiçá, o meu fado, tal e qual o é estar-me reservada o número 13 ou ser o último a ser contemplado num qualquer sorteio.

Daqui talvez possas entender quanto é importante para mim perceber os que me rodeiam felizes. É uma forma de transferência como outra qualquer, isto é, das suas realizações recolho o conforto que sei me estar vedado. Nalgum momento de intimidade passada havias vislumbrado em isto de que te falo? Admito que sim, por ser tão óbvio. É, no entanto, algo de que me inibo de falar, porventura porque é penoso (para mim e para os demais) confessar-me infeliz. Quem gosta de conviver com gente infeliz? Para infelicidade já basta a que carrega cada um.

Desculpa-me este instante de particular fragilidade. Em atenção a algum momento bom passado, desculpa-me por esta infeliz partilha, e esquece! Esquece,  para que de mim te reste apenas a memória deste amor que te dedico.


José Cadima 

sexta-feira, dezembro 13, 2024

Minha Querida Helena (10)

 Minha Querida Helena,

Embora de licença sabática, esgotei-me em trabalho no pretérito fim-de-semana. Almejava recuperar atrasos acumulados, ganhar espaço e concentração para tarefas que tenho há muito agendadas e, last but not least, não criar ansiedade pela inviabilidade de te contactar. Recorrentemente, acudia-me à memória o envelope com os exames médicos que realizastes no Porto, que, justamente, acabaste de levantar, e era-me impossível desligar esse facto da ausência de um telefonema teu na passada 6ª feira. Imaginação fértil a minha, não deixarás tu de intuir.

Como uma desgraça nunca vem só – como bem diria a voz do povo – eis que, chegados a 2ª feira, deparo-me com a completa falha de ligações telefónicas no campus universitário. Por via desse infausto evento, fiquei pois impossibilitado de concluir se a nossa ruptura de contacto seria apenas fruto de uma conjugação infeliz de circunstâncias ou resultado de vontade assumida, tua.

Que fazer? Como já questionava Lenine, vai para uma centena de anos. Sinceramente, minha querida, já não sei. Não sei que fazer; não sei que concluir; e, o que é mais, não sei como dar-te ânimo, até porque, sem o teu conforto, o ânimo me vai faltando.

Se me permites o desabafo, acredito que a resposta às fragilidades que enuncio – as tuas e as minhas -, se quiseres, a resposta ao que fazer de Lenine, está mesmo só em ti. Sem o teu grito de Ipiranga, o teu estado de alma não pode senão deteriorar-se (a tua débil condição de saúde já te fragiliza quanto baste); sem o teu sorriso não saberei sorrir.

Minha querida, nem que seja apenas em memória do nosso amor, ensaia de novo a tua corrida, tal qual o fizeste, há dias, em Ponte de Lima! Repara que, se tu tivesse perguntado antes, ter-me-ias dito não ter forças para tanto e, afinal, foste capaz ... e foi bonito ver-te, qual pomba solta...

 

José Cadima

quinta-feira, dezembro 12, 2024

Minha Querida Helena (9)

Minha Querida Helena,

“Olá menina ... Faz-me rir e eu prometo que não te farei chorar”, clamava eu há um par de dias, e zás: perdi, uma vez mais, o contacto contigo. E o pior é que, se eu não tenho forma de te contactar, contigo a situação é ainda mais extrema em razão da ausência de cabinas telefónicas nas tuas redondezas, próximas ou longínquas. Não fora essa realidade infeliz e, seguramente, teria tido o telefonema que prometeste fazer-me na 6ª feira p.p.

À mingua das tuas palavras – em hora em que já descreio que desejes presentear-me com o teu sorriso – vou sonhando que, numa das minhas deambulações sem destino certo, o acaso me atravesse no teu caminho, em ocasião não cruelmente distante. Terá, obviamente, que ser um acaso mais piedoso que aquele que provocou a recente avaria do teu telemóvel. Digo-o, pois sei que, nesta matéria de acasos, há-os de diferente índole.

Ensaiando um método razoavelmente seguro de olvidar este infortúnio que nos mantém incomunicáveis, refugio-me no trabalho: na tese cuja leitura já devia ter concluído; no artigo de homenagem ao orientador da minha tese de doutoramento e inspirador do académico que tento ser; na resenha de notícias de  fim-de-semana com que procuro manter-me a par do que vai no mundo; nos poemas de adolescência do meu filho cujo trabalho de editor ensaio, interrogando-me sobre quão longe devo levar o embelezamento formal em detrimento da inocência que esteve na sua génese.

Congratulo-me por me não falhar o trabalho, mesmo quando, em cedência embaraçosa ao sentimento, retorno a estas cartas que, sendo de amor, se sugerem igualmente um refúgio. Parco substituto do sorriso porque desespero; minguada compensação do beijo de que sinto falta.

Quererás tu constituir-te em  etérea musa inspiradora? Ou, recuperando o mote de um dos versos do meu filho, tomas essa distância apenas porque és má?


José  Cadima

quarta-feira, dezembro 11, 2024

Minha Querida Helena (8)

 Minha Querida Helena, 

Decorreram entretanto muitos dias desde a derradeira ocasião em que os meus olhos repousaram nos teus; correram muitos mais desde a última vez em senti o teu peito apertado contra o meu; passou ainda mais desde o dia em  que ... Tanto tempo, meu amor! Quantas saudades.

Neste penar, questiono-me se as tuas saudades serão tão grandes quanto as que eu levo de ti  e duvido. Duvido porque, se o fossem, não estarias tanto tempo sem mim ou, porventura, essa é a forma que encontras de me fazer sentir quão escravo eu estou deste amor, quer dizer, de ti. Liberta-me, querida, dessas amarras. Deixa-me fluir para os teus braços.

Nesta distância, questiono-me por onde andarás, que razões te movem, que novo amor te prenderá. Ou será um velho amor a quem retornas? Sei de quanto valor simbólico está rodeado um primeiro amor; sei que o tempo passado lhe renova o encanto e as virtudes; sei que foi com ele que viste pela primeira vez um certo mundo. Sei, todavia, que há um tempo que se esgota e, daí, a esperança que me anima: o ânimo de, a breve trecho, poder repousar os meus nos teus olhos, de envolver-te num abraço longo, longo ... Quem me dera ter sido esse teu primeiro amor; quem me dera tê-lo sido e sê-lo ainda e sempre.

“Olá menina, quero tratar de ti ... Acredita que nunca me senti assim ...Chega só um pouco perto de mim. Faz-me rir e eu prometo que não te farei chorar”

 

José Cadima

terça-feira, dezembro 10, 2024

Minha Querida Helena (7)

Repetido que já foi por ti várias vezes, tenho mesmo que conceder que não gostas do nome que te chamo. Lamento-o, minha querida, já pelo carinho que esse teu nome transporta, já por, da tua sensibilidade literária e poeta, ter inferido o contrário. Porventura, não te agradou a adaptação cinematográfica de “Tróia” que esteve em cena até há poucas semanas . Em boa verdade, podendo escolher, eu também teria preferido um desenlace diferente para a guerra entre cidades que o título invoca.

Infelizmente, não parece ser só disso que não gostas. A meu ver, não gostas igualmente o bastante dos que gostam de ti e, pior que tudo, deixaste de gostar de ti. Estamos, portanto, perante aquele enredo muito glosado em peças dramáticas de diversa natureza em que alguém reclama o seu amor por outrém sem ser correspondido. Pese embora essa amarga realidade, ouso reafirmar-te o meu amor e ouso suplicar-te que voltes a gostar de ti ou, pelo menos, aceites tornar a pensar nisso.

Minha querida Helena: cansa-me a tua amargura; ferem-me as sombras que atravessam o teu olhar e fazem empalidecer o teu rosto. Bonita? Perguntas tu. Bonita, sim, quando o teu rosto desanuvia, quando os teus olhos e os teus lábios consentem uma réstia de ternura. Bonita, fresca quando retornas ao teu corpo de adolescente e te espraias no meu colo ou me apertas para um “chi-coração” cúmplice. Como eu adoro os teus “chi-corações”!

Não me peças, minha querida, que eu desista de te amar. Podes pedir-me, se assim o entenderes, como noutras ocasiões já to disse, que desista de ti, mas, nesse caso, tens de me fazer prova, primeiro, que te reencontraste com a tua auto-estima. 

Helena querida: bonita? Sempre que tu queiras!


José Cadima

domingo, dezembro 08, 2024

Minha Querida Helena (6)

 Minha Querida Helena,

Em tempo de confidências, quero falar-te hoje do sentimento que tive na passada semana quando, por feliz acaso, passei a noite em tu casa. O acaso a que me refiro releva dos nossos desencontros recentes, que verbalizei em mensagens anteriores.

Não me deterei sobre a tua receptividade em relação a gestos de carinho matinal; não me alongarei sobre a estranheza que para mim é a gestão que fazes das tuas horas nocturnas, onde parece não haver tempo para o sono – presumo que aches que outro tanto seja válido para os demais ou, pelo menos, para mim; não comentarei a quantidade de comida que sempre pões à minha frente, nem tão pouco a surpresa que sempre enuncias pelo pouco que – dizes tu – eu como. Tal qual digo, pretendo apenas dar-te notícia do sentimento que me invadiu, em tua casa, enquanto aguardava que acabasses de fazer o jantar, primeiro, ou te libertasses das arrumações da cozinha, depois.

Concretizando, digo-te, minha querida, que me vi na condição de um objecto que preenche a casa. Não digo um objecto mais, porque poderia parecer-te ofensivo, mas, em todo o caso uma peça que ocupa um espaço, porventura preenche um vazio. Curiosamente, no teu dizer, alguém que se move sem ruído e que, por isso, ocasionalmente te surpreende e te assusta. Repara, o meu objectivo era estar contigo – sublinho:  estar contigo – mas a ti satisfez-te ter-me no sofá da tua sala, enquanto tu te movimentavas pela cozinha, pela casa; satisfez-te saber-me deitado na tua cama, a perdido de sono, enquanto te ocupavas da cozinha, da casa de banho, e do mais que julgaste ajustado para aquela hora tardia.

Em abono da verdade, devo dizer-te que não foi a primeira vez que pensei isto que agora te enuncio. Foi, no entanto, a primeira vez que o senti na sua expressão vivida, na exacta hora. Não to disse na ocasião porque não sabia como reagirias ou, melhor, receei que reagisses mal, e isso era a derradeira coisa que eu desejaria. Digo-to agora, num apelo à sinceridade, na expectativa de que entendas a bondade do que te transmito e me perdoes, nessa mesma medida

Seguramente, te surpreenderei com esta minha confissão. Tu sabes, no entanto, que és o meu único refúgio, pelo que não havia outrém a quem segredar este pensamento íntimo. É  também isso que faz a diferença entre ter ou não ter  alguém ... meu amor.

 

 José Cadima

sábado, dezembro 07, 2024

Minha Querida Helena (5)

 Minha Querida Helena,

Por vezes, é tão difícil falar contigo. Há ocasiões em que tenho a sensação que só te escutas a ti. Digo-o não no sentido figurado - de que o teu pensamento prevaleça sobre o de outrém (o meu) - mas no exacto sentido em que, pura e simplesmente, ignoras o que te procuro transmitir, e fico a repetir palavras, a exprimir emoções crescentemente irritado e tentando controlar a vontade de bater com o telefone. Nessas ocasiões, concluo sempre, e algumas vezes digo-to, que não devia ter telefonado. O problema é que não sou capaz de antecipar quando não te devo ligar e, uma vez entrados nessa conversa de surdos, é tarde de mais para recuar, se bem que o devêssemos fazer. Cortando, estabelecendo a ligação a partir do início, a possibilidade de sucesso da comunicação é inquestionavelmente outra.

Curiosamente, isso acontece mais em ocasiões em que procuro exprimir-te a preocupação que tenho com a tua saúde ou com a tua estética, o que configura a ideia, que já te tenho repetido, de que essas são peças da tua estratégia de auto-flagelação, sendo certo que, magoando-te, me magoas também, embora as consequências desse  gesto sejam bem mais gravosas para ti.

Quando finalmente consigo que me ouças, dizes-me amiúde que sou eu que sou incapaz de julgar a ordem das prioridades: a prioridade de alguém que chega e que espera atenção sobre a prioridade de agendar uma consulta médica; a prioridade de arrumar a sala sobre a prioridade de realizar um tratamento no hospital; a antecedência absoluta de uma visita ao café da D. Felizmina, de um cigarro sobre a visita ao cabeleireiro.

Não entendes tu que essa tua ordem de prioridades me confunda e me contrarie? Porque não aceitas tu, minha querida, que eu queira ver-te fresca e bonita? Onde está a irrazoabilidade deste meu querer?

Helena querida, fico a ansiar o teu sorriso.


José Cadima

sexta-feira, dezembro 06, 2024

Minha Querida Helena (4)

Minha Querida Helena,

Temerosamente, digitei o teu número. Respondeste-me questionando porque não te tinha ligado antes. O meu coração estremeceu de alegria, embora, crendo não te ter ouvido bem, a tenha silenciado. Fiquei na expectativa doutros sinais. Perguntaste-me porque não toquei à tua companhia, quando, deambulando, acabei por me achar ontem em Barcelos, visitando a feira do livro. Acreditei então ter-te entendido bem.

Disseste-me, também, que tinhas estado a arrumar os teus papéis e a casa. Pretendi ver nisso um sinal de retorno à vida, um indício de que posso ter esperança de ver novamente balouçar-te nos lábios um sorriso. Desejaria antes uma gargalhada mas um sorriso é sempre um sorriso ... meu amor.

Envolvido nos meus pensamentos, de coração aliviado, interrogo-me sobre se o que percebi em ti será um momento de acalmia ou o emergir de um novo ciclo. Desejaria  que as nuvens tivessem descarregado tudo quanto houvessem que largar e o azul do céu se afirmasse com todo o brilho próprio desta Europa do sul. Assiste-me a esperança de que retomes a rua, os livros, os teus poemas, a força que ousavas pôr nas tuas atitudes e convicções. Se, nesse frémito de vida, quiseres buscar repouso nos meus braços tanto melhor para mim mas importante, importante mesmo é ter-te de regresso à luta.

Li no jornal de hoje as desventuras de um país à espera de ter Governo e as acrimónias dos que, na sua segurança, não perdoam a insegurança do Presidente da República e, mais do que a insegurança, a generosidade posta por ele na sua decisão de entregar a formação do governo a um macaqueador da política. Não tenho a este propósito a segurança dos que aqui invoco e, tenho, por contrapartida, grande consideração pelos que conseguem pôr bondade onde a maioria põe interesses, hipocrisia, mesquinhez. Vou ficar a aguardar. Vou esperar pelo que dá este macaquear da política americana no melhor estilo reaganiano. A necessidade de eleições parece-me também a mim certa, mas lá para a primavera do próximo ano. Até lá, vou ficar na expectativa (desejara que fora a expectativa de termos um governo e um projecto  económico para Portugal mas,  por esses, vamos ter que aguardar muito mais).

Li o jornal embora o meu pensamento estivesse centrado em ti, nesta esperança de um sorriso teu, meu amor.


José  Cadima 

quinta-feira, dezembro 05, 2024

Minha Querida Helena (3)

Minha Querida Helena,

Depois de muita ansiedade, cedendo a um impulso, resolvi ligar-te. Procurava o conforto da tua voz, na dúvida sobre o desconforto das palavras que me dirigisses. Sinto-me reconfortado por esse gesto, pese embora as notícias de abandono que me veiculaste.

Permaneço na dúvida sobre se a tua desistência reiterada é fruto de um momento menos bom da vida (que todos temos, de quando em quando) ou a forma que encontraste de me penalizar. Nota porém que, a ser esta última a tua motivação, estás a admitir a força do laço afectivo que me prende a ti.

Gostei que tivesses admitido que me ligaste – para escutar a minha voz- disseste – se bem que pareça estranho que, querendo ouvir-me, tenhas desligado logo que atendi. Se me permites que o diga, acho isso mais auto-flagelação que qualquer outra coisa, mas talvez seja isso mesmo que pretendas. A tua recusa em cuidares da tua saúde, a tua insistência em descuidares o arranjo dos teus cabelos, o teu fecho para o mundo – que procuras activamente, embora depois, do nefasto que isso te é, reclames -   vão nesse sentido.

Não precisavas ter-te posto incomunicável depois disso. Não precisas, aliás, recear denunciar a tua insegurança. Eu não receio fazê-lo. Antes, junto de ti a minha insegurança esvai-se. Tu és a minha segurança e a minha insegurança!

Amor meu, que posso eu fazer para te arrancar de novo um sorriso? Amor meu, que podemos nós fazer para que o sonho volte a ser possível?

Fala comigo, meu amor! Faz de mim o teu confidente, o teu refúgio, tanto quanto tu és o meu – quero dizer,  tanto quanto eu preciso que voltes a ser o meu ... amor...


José Cadima

quarta-feira, dezembro 04, 2024

Minha Querida Helena (2)

 Minha Querida Helena,

Passaram entretanto quatro dias desde que falámos ao telefone e me pediste para que não voltasse a ligar-te. Foram quatro longos dias, apenas suavizados pela evasão que o trabalho me proporcionou e pela escape que procurei em salas de cinema ou deambulando com o João Miguel, assumindo o papel de pai que tanto me custa vestir. Ainda para mais, nalguns filmes, reencontro o mesmo vazio que a tua ausência me inspira. Foi o que se passou ontem, na série filmes de culto, em que a personagem aparecia perdida de um amor que persistia em recusar que a vida lhe roubara.

De quando em quando sobressalta-me o telefone que toca, na esperança secreta que sejas tu. Depois, volto aos meus pensamentos e procuro arduamente uma nova rotina.

Deixa-me algo perplexo,  minha querida, a forma como recebeste a minha carta: ao invés de uma carta de amor, leste nela uma confissão de desistência e tomaste-a como carta de despedida. Meu amor, a despedida que aí podias ver era só até amanhã. Pergunto-me, por isso, se foi a minha carta que leste ou, tão só, os teus próprios pensamentos.

Sei bem  as mágoas que carregas. Sei bem quanto a insegurança com que lido com as coisas do amor e da vida te desgosta e te gasta. Entendo bem a necessidade de descansares a cabeça e a alma que sentes. O teu ombro, o teu regaço não me é menos necessário que porventura te sejam os meus. O caminho é, todavia, bem mais curto se formos os dois a fazê-lo, caminhando um ao encontro do outro. Importaria, nesse sentido, que eu sentisse que as palavras que te dirijo respeitantes aos cuidados que devias tomar com a tua saúde, aos cuidados a que te devias dar com a forma como te apresentas,  ao empenho que devias colocar no reganhar de um projecto de realização intelectual eram escutadas. Esgotar-te em mim é algo que recuso, e recusaria mesmo que o nosso encontro não se sugerisse mais um mar de desencontros.

Minha amada Helena, se tu descreste, eu quero continuar a acreditar. A minha entrega a ti força-me a sonhar. É a energia que me permite continuar.

José Cadima

terça-feira, dezembro 03, 2024

Minha Querida Helena (1)

Minha Querida Helena,

Não encontrando outra forma de comunicar contigo, virei-me para a escrita desta carta. No desespero da tua ausência, a possibilidade de te ter ao telefone converteu-se para mim num refúgio seguro, por mais efémero e etéreo que se ofereça. Quando mesmo isso me escapa, resta-me esta pobre consolação do desabafo, na incerteza de alguma vez ser lido.

Dirás tu que tudo podia ser diferente. Digo eu que sim, se soubéramos conviver na sociabilidade quotidiana da mesma forma que convivem os nossos olhos, as nossas mãos entrelaçadas... Se soubéramos estar, digo, para além das amarras que a vida nos tece, chamem-se elas filhos, parentes, colegas ou conveniências e convenções.

E o amor? Questionarás tu. Minha querida, o amor é a componente mais frágil da relação humana dos nossos tempos. Tão frágil que nos faz definhar em cada dia que não estamos juntos – e cada vez são mais dias -  mas não sensibiliza os que assistem ao nosso esgotamento.

Quisera estar contigo. Quisera alcançar a paz que a tua voz me trás. Quisera... Meu amor! Meu amor.


José Cadima 

segunda-feira, março 14, 2022

Há 10 anos, por ocasião da celebração dos 30 anos da Escola de Economia e Gestão (UMinho)

 A história das instituições é sobretudo a história das pessoas que lhe dão corpo


Cheguei a Braga a meio de Dezembro de 1982 para iniciar funções docentes pouco depois, em Janeiro de 1983. A entidade funcional em que fui integrado chamava-se UCP (Unidade Científico-Pedagógica) - Economia e Gestão.

Quando cheguei a Braga, conhecia uma única pessoa na cidade e na Universidade do Minho. Conhecêramo-nos enquanto estudantes do Instituto Superior de Economia, da Universidade Técnica de Lisboa (actualmente, ISEG). Por coincidência, trata-se do Presidente da Escola de Economia e Gestão (EEG) em funções (Manuel Rocha Armada).

Fui contratado para a dita “unidade” na mesma altura que 5 outros jovens recém-licenciados, dos quais permanecem ao serviço da Universidade do Minho apenas 2: Luís Gonçalves (Escola de Direito) e Pedro Vasconcelos (Escola de Direito). Um outro, que alguns dos presentes conhecerão, ainda é fácil encontrá-lo por Braga mas há muito enveredou por outro percurso profissional (a banca). Refiro-me a António Marques, actual Presidente da Direcção da Associação Industrial do Minho e, curiosamente, também Presidente do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do AVE (IPCA).

Entre o serviço que me foi distribuído nesse primeiro ano e nos que se seguiram estavam cadeiras como Macroeconomia, Moeda e Crédito, Desenvolvimento Económico Regional e Local, Análise Económica de Projectos e Análise de Projectos. Os destinatários do ensino de que fui encarregue eram alunos de Gestão, de Administração Pública e de Relações Internacionais, se bem que também me tivesse calhado leccionar disciplinas como "Problemas Económicas da Actualidade" em “opções culturais” de cursos de Engenharia.

Entre os alunos que tive logo no meu primeiro ano na UM (a marca UMinho é uma coisa recente) encontravam-se dois(duas) que pouco tempo depois viriam a integrar o corpo docente da “Escola”. Desses(dessas), um(a) aposentou-se entretanto, permanecendo em funções outro(a). Refiro-me a, respectivamente, Elvira Lima e Mª Helena Guimarães.

A UCP-Economia e Gestão era então (Janeiro de 1983), no total, qualquer coisa como 29 docentes e 2 funcionários, todos instalados no último piso de um prédio situado na rua D. Pedro V, construído para servir de habitação. Como local de trabalho, a uns calhou a sala de estar ou os quartos, a outras a cozinha.

Soube algum tempo depois que, até pouco antes, as ditas instalações tinham sidas partilhadas com colegas das Ciências Sociais. Cheguei mesmo a cruzar-me aí com um (Aníbal Alves – Comunicação Social) que, estando no estrangeiro a preparar doutoramento quando a “cisão” se deu, aproveitou uma visita que fez a Portugal mais tarde para recolher livros e outro material que deixara no espaço que usava para trabalhar. Desse processo de emancipação da Economia e Gestão das Ciências Sociais não me chegou mais do que isso. Ouvi falar de nomes, como Lima de Carvalho, que só muito mais tarde conheci.

Foi nesse espaço que travei contacto também com Altamiro Machado (Informática de Gestão/Sistemas de informação). Tal aconteceu numa ocasião em que fez uma visita ao Professor António Vale e Vasconcellos. Ambos, são nesta altura apenas memória, como vários outros professores com que me fui cruzando nos corredores da UMinho e nas ruas das cidades de Braga e de Guimarães, de bastantes dos quais guardo gratas recordações.

A Escola de Economia e Gestão era então apenas um projecto, em todo o caso, partilhado com razoável entusiasmo por muitos de nós.

A fase imediatamente seguinte de materialização desse projecto foi vivida no Edifício da Rua do Castelo, tendo-se constituído num momento particularmente rico em matéria de convívio, tirando proveito da existência logo ao lado de alguns cafés e restaurantes, onde, a meio da tarde, era possível trocar ideias entre um prato de rissóis e algumas cervejas. Tínhamos o futuro pela frente. Sonhar era possível.


J. Cadima Ribeiro

segunda-feira, maio 11, 2015

De um futuro em ciclo

Do passado se aprende,
mas o futuro se escolhe.
Olhamos por onde vamos
ou miramos para alcançar?

É importante resistir
à ansiedade das ilações,
resistir à ignorância
de ver a história como ciclo.
Nenhum homem é traçado num só caminho!

Seja verdade ou seja mito,
ouvi histórias de quem já morreu
após a morte d'seu próprio destino.
Não olhar ao passado
não significa que não se possa tê-lo.

Admiramos alguém
porque nos reconhecemos no seu trajeto,
ambicionando conter em nós
um personagem que nos conte essa mesma história.

José Cadima

domingo, agosto 17, 2014

"Bambi"


Um nome que, entre outras coisas, invoca um espaço comercial onde, em tempo de férias escolares, passei alguns dias da minha adolescência  a trabalhar na montagem da cúpula de uma pista de dança.

José Cadima

quarta-feira, agosto 13, 2014

"Quando eu for grande"

"O meu sonho, quando for grande, é ser analista político. Não é o máximo? Vou também ter o meu clube de ´fans` e receber imensas cartas e postais ilustrados. Só não decidi ainda se vou morar na Quinta da Marinha ou em Cascais; a seu tempo se verá.
É um trabalho bem árduo o de ´fazedor de opinião`e que deixa pouco tempo livre para outros trabalhos menos nobres, mas o paizinho acha que é muito gratificante e, além disso, permite-nos dar notas aos políticos."

J. C.

(excerto de texto originalmente publicado em 1995/05/06, no semanário Notícias do Minho)

sábado, julho 26, 2014

Joana

Joana Catarina:
um nome, uma memória,
uma ferida que não sara;
uma vida esgotada em sete anos;
uma dor imensa que persiste, abafada,
latente, nunca superada;
um luto de 10 anos, mal conseguido;
uma tragédia que arrastou outras.
Caminhar, apesar de tudo.
Caminhar...
Filhos? Sim, tenho!
Antes destes tive uma filha que perdi cedo
e me deixou por aqui, agonizante,
percorrendo um caminho que me é penoso, tantas vezes.

José Cadima

sexta-feira, julho 25, 2014

Flores

Que lindas flores!
Obrigada.

C.P.

Silêncio

Há ocasiões em que só o silêncio nos resta. Gritar a nossa fúria, torna-nos fracos.
O silêncio tem a força da eternidade.

K

quinta-feira, julho 17, 2014

"Há um grande silêncio dentro de mim"

"Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio".

C. Linspector

(citação constante de mensagem recebida de Clara Costa Oliveira)

quarta-feira, julho 16, 2014

Papoilas

"Mais contente estaria se, ao invés, andássemos por aí mirando o deslumbrante das papoilas que a brisa vai agitando."

K

quinta-feira, julho 03, 2014

Dependência

Em certas madrugadas,
certos dias, fazes-me mais falta.
Falta-me a suavidade da tua pele,
o teu encostar no meu peito,
o teu silêncio.
Em certos dias sinto mais a tua ausência,
como ontem, como anteontem,
como em vários outros dias precedentes.
A tua ausência custa-me cada vez mais,
sobretudo quanto te pressinto perto, inalcançável.
Tornei-me obsessivamente dependente dos teus
abraços, da tua mão na minha mão,
dos teus cabelos, que me afrontam, tantas vezes,
e não sei como fugir disso.
Frágil como nunca, sinto o perigo,
luto por preservar uma réstia de autonomia
que me permita a sobrevivência,
que não estou seguro que valha a pena.

K

quarta-feira, junho 25, 2014

Uma mesa à beira do Mar Egeu

(Izmir, Turquia)







A água de novo. Sempre a água, e a serenidade que aparece espelhada na foto. Ao fundo, percebe-se o bulício e a confusão de uma cidade (das arábias) surpreendente.

K

[Foto da auoria de C.P.]

segunda-feira, junho 23, 2014

domingo, junho 22, 2014

Recordando: "So much of life is a negotiation"

"So much of life is a negotiation - so even if you're not in business, you have opportunities to practice all around you."

Kevin O'Leary

(citação extraída de SBANC Newsletter, December 3, Issue 798 - 2013, http://www.sbaer.uca.edu)

domingo, junho 08, 2014

O Rio Cávado, na foz, a preto e branco e outras cores (2)



A cada dia que passa, sinto a atração do rio, do mar (,do abismo?) mais fortes. Será um certo sentido do retorno às origens que me impele para cá ou será a ausência de sentido...? O rio e o mar como centros de gravidade. O brilho da água espelhando o Sol (e a Lua) como deslumbramento, enquanto aguardo o pôr-do-Sol, que a Lua nunca se põe, apenas dispõe (ou indispõe).
O vazio de sentido de certos momentos. O deleite de paisagens tão vazias de gente quanto plenas de vida. Amanhã estarei de volta, outra vez!

K

[Fotos da autoria de C.P.]

quinta-feira, junho 05, 2014

"Queria não querer nada"!

"Queria ser nada.
Queria não ter nada.
Queria não querer nada."

Henrique Barroso

[citação constante de mensagem recebida de Clara Costa Oliveira]

domingo, junho 01, 2014

A minha janela

As vistas que avisto são das mais belas que alguma janela alguma vez me proporcionou. A minha janela é muito generosa comigo. Por isso lhe dedico, também, tanta atenção.
Poupa-me do ruído que pressinto no exterior, e igualmente por essa razão lhe fico reconhecido. É a minha janela, única, inimitável, transparente, intimista.
Protegido pela janela, sinto-me numa redoma, perto e longe de tudo, preso das vistas que avisto, solto da vida que corre para lá da minha janela. Recupero energia, esgoto-me em pensamentos, deixo a vista deambular pelas paisagens que a minha vista avista.
A minha janela é transparente. A minha janela é única. Não há janela como a minha!

K