quinta-feira, novembro 29, 2007

Meu peixe…

As aventuras são um mal.
Só as tem quem não as quer!
As imagens do meu último momento heróico
estão já estilhaçadas:
subi montanhas, saltei vales,
nadei com piranhas e outros males.
Um peixe quase me comeu!
Era grande, era forte
a minha vontade de te amar;
até os ossos me roeu.

José Pedro Cadima

terça-feira, novembro 27, 2007

O meu coração está na tua mão

O meu coração está na tua mão.
Da esquerda para a direita,
da direita para esquerda,
olha como ele balança.
Não o deixes cair,
senão esgotar-se-á o meu sorriso.

José Pedro Cadima

sábado, novembro 24, 2007

Sinto-me assim

Só.
Triste.
Descrente
de ser amado.
Sinto-me assim.

Onde estão os braços
em que disseste que me poderia sempre recolher?
Onde está o peito
em que posso repousar minha cabeça
e sonhar que o mundo é só o aconchego que daí me vem?

José Pedro Cadima
e
José Cadima

quinta-feira, novembro 22, 2007

Minha Querida Helena

Ter-te-ás dado conta que as duas mais recentes cartas que te dirigi iam com as datas gralhadas: em vez do que aparece, deveria estar 17 e 18 de Agosto, respectivamente. Vais ter que me perdoar isso, que outra coisa não é que a expressão de uma mente cansada e baralhada. A gravidade da falta deverá ser compatível com o nível de tolerância que tu manténs em relação aos meus erros – assim o creio.
Na verdade, escrevi-te quase só para te transmitir isso e deixar este apelo. Não fora este pretexto, não querendo, por outro lado, repetir-me nos meus lamentos, não teria assunto para esta mensagem. Como bem sabes, não é assunto com que se mace quem quer que seja, muito menos alguém de que muito se gosta, dar notícia de um dia de trabalho cinzento após outro de idêntico tom, de um arrastar de pés dia após dia sem alegria nem esperança.
Assim sucedendo, dando corpo ao pensamento que me assiste, e também como forma de preencher esta página, ouso citar o meu filho num dos seus versos tão forte nos sentimentos que transmite quanto impressionante nos termos de que se socorre; a saber:

Demónio da minha paixão

Rio de sangue,
que transportas o meu demónio,

permite que eu aceda
ao favor de um beijo
que me faça sorrir.


Demónio de sangue,
demónio esbanjador,
faz-me um favor:
espeta-me um beijo e sorri.

Demónio de escolta,

meu segurança
dos demónios à solta,
espeta-me um beijo e sorri.

Demónio da sorte,

transportador da minha felicidade
ou morte,
espeta-me um beijo e sorri.

Demónio alimentador

da minha paixão grande e assombrosa,
espeta-me um beijo e sorri.

Demónio sugador

de toda a minha atenção;
demónio que me arrebata o coração;
espeta-me um beijo e sorri.

Demónio do amor,
rainha da beleza,
só tu fazes a minha dor.
Por assim ser,
espeta-me um beijo e sorri.

Demónio da minha vida

e da minha glória,
nem tu sabes o quanto
te quero arrancar um sorriso;
pois, meu amor,

tu és o meu demónio
e eu não sei viver sem ti.
(Cadima, José Pedro; 2004)

Sem mais palavras, quase sem palavras, despeço-me de ti, “demónio da minha vida”.

Braga, 19 de Agosto de 2004


José Cadima

terça-feira, novembro 20, 2007

Afogo-me em pensamentos

Afogo-me em pensamentos
sobre o que é e o que não é,
e não encontro a resposta.

Há tanto tempo que me interrogo
que perdi a pergunta
num monte de respostas falhadas.

José Pedro Cadima

sábado, novembro 17, 2007

A ironia

Odeio a ironia,
apesar da usar.
Odeio-a tanto, talvez, por ser das poucas armas
de que sou capaz de valer-me.
Odeio a ironia
e, em razão disso, odeio aqueles que dela se valem
para me atormentar.
Odeio a ironia tanto quanto aprecio um sorriso aberto
e a transparência que, de quando em quando,
reconheço no teu olhar.

José Pedro Cadima

quarta-feira, novembro 14, 2007

Sonho contigo

Olho-te
e, enquanto repouso meus olhos em ti,
a minha mente vagueia
pelo terreno do sonho
que seria saber seguro o teu amor.
Depois, à noite, a memória desses pensamentos
perturba-me o sono.

Toco-te
e, ao tocar-te, mais me cresce o desejo de abraçar-te
e a vontade de apertar-te contra mim
a ponto de parecermos um só.
Depois, à noite, falta-me a suavidade da tua pele
e, por isso, não durmo.

Beijo-te,
esparsamente, mas beijo-te.
Por serem tão esparsos os beijos que trocamos,
passo o tempo todo à procura de mais um beijo
e a ansiedade que daí me vem
faz-me permanecer acordado, à noite.

Sonho contigo,
e esse sonho de conquistar o teu amor
impede-me de dormir
e sonhar contigo.

José Cadima
(adptado de Cadima, José Pedro , Poesia 2005)

segunda-feira, novembro 12, 2007

Minha Querida Helena

As horas passam,
o tempo voa,
e eu continuo aqui
sem amor,
sem ti.

Só no meu coração
te vejo,
te beijo
e te abraço.”
(Cadima, José Pedro; 2004).

Leio este versos, releio-os e pergunto-me: do que dizem, referido a um tempo que é passado mas ainda presente, o que sobrou para o dia de hoje? Transfigurando-me na pessoa do autor – e tal não se me afigura nada complicado - quero eu dizer:

As horas passam,
nalgumas ocasiões mais céleres que noutras,
e eu continuo aqui
sem amor,
e sem ti.

O meu coração
ainda te pressente,
os teus beijos são doces recordações
e a lembrança do teu xicoração sugere-se-me uma expressão de afecto
que resistirá a todas as desventuras deste romance.

Entretanto, começo a descrer
da força que parecia alimentar esse amor.
E descreio mais ainda
que os beijos que me davas
tivessem génese inteira no teu coração
porque, se assim fora, não te teria sido possível ignorar
durante todas estas semanas o meu lancinante grito de dor.

Duvido, bem assim, que o nosso xicoração tivesse o mesmo significado de entrega para ti que para mim porque, se assim fosse, ter-me-ias estendido o braço quando pressentiste que começava a afogar-me em desespero e em solidão. Não o fizeste e nada disso pode ser lido como expressão de acaso. Não o quiseste fazer. É tudo!
Repara: poderia ter-me afogado do mesmo modo. Mas terias tentado; terias dado sinal de humanidade e terias afirmado uma memória de afectividade, de entrega que estaria para além dos desencontros de percursos cruzados que não foram capazes de fazer do lugar do encontro o lugar de uma vida plenamente preenchida.
Posso estar a ser injusto contigo como, noutras alturas, tu terás sido injusta comigo. A verdade, porém, é que, nesta altura, descreio que tudo não tivesse passado de uma desatenção ou deficiência de percepção da tua parte do apelo de socorro que te dirigi repetidamente. Face à gritante evidência dos dados que estão à vista, manda a razoabilidade que conclua que, simplesmente, me ignoraste.
Minha querida Helena: a minha ferida é profunda; talvez não tão profunda, todavia, quanto o meu desapontamento.
Um beijo para ti ou, talvez, um até sempre.

Braga, 1 de Setembro de 2004

José Cadima

sábado, novembro 10, 2007

A solidão como meio de encontro

A solidão também pode ser um estado de alma.
A solidão também pode ser boa,
uma oportunidade de reencontro,
um momento de purificação da alma.

Momentos há em que essa é solução única
para sossegar o espírito, apaziguar fantasmas,
recuperar a energia de que necessito para o dia seguinte.
Nessas alturas, a solidão é uma benesse.

A solidão também pode ser uma viagem solitária de automóvel,
percorrendo uma estrada que não me leva a outro qualquer lugar
que não seja ao retorno a mim mesmo.

A solidão também pode ser um desfilar apressado de imagens
que são, simplesmente, cenários do percurso
que me deve reconduzir à minha essência profunda.

Só, penso em ti
e nos momentos felizes que passámos,
de que tenho saudade tão intensa que só resisto a ela
retomando um estado de solidão tão sereno
que nada mais conta senão tu e eu.

José Cadima

quarta-feira, novembro 07, 2007

Duvidar

Quando duvido não é por ter falta de evidências,
mas sim por elas estarem ali tão obviamente à minha frente.
É que, quando tudo me sorri,
não sou capaz de deixar de me questionar
sobre quanto tempo vai levar
até que me venha, de novo, a vontade de chorar.
Quando duvido …

José Pedro Cadima

domingo, novembro 04, 2007

“Vão passar anos até que eu me perdoe”

“Pois é verdade: há dias levantei-me às quatro e meia da noite! Vá lá, censurem-me o mau gosto, que bem mereço.
Seria bastante mais razoável que me tivesse deitado a essa hora, salvaguardado que isso se ficasse a dever a uma noite bem passada. A vida, todavia, tem destas coisas, e não é por acaso que o prémio Nobel da Economia foi atribuído a autores de contribuições teóricas que enfatizam a racionalidade limitada dos agentes económicos; o que é paradoxal, por seu turno. Consistente seria mesmo que o ponto de partida fosse a irracionalidade com que os homens conduzem as suas vidas, incluindo a vertente económica destas. Mas não; entendeu-se partir do princípio oposto e foram precisos cerca de dois séculos desde que a Economia adquiriu estatuto científico para ver o óbvio.
É bem apropriado neste caso o dito que afirma que «o que está à vista é o mais difícil de ver». Nesta situação, nem a circunstância do gato ter o rabo de fora ajudou. Não nos desviemos entretanto do que importa.
Na ocasião, o que verdadeiramente é relevante é que me levantei a meio da noite, isto é, a horas que só deveriam ser usadas para o sono ou para outros prazeres da vida. Daí que seja bem feito que me censurem, como eu me censuro. Pensando bem no assunto, julgo que vão passar alguns anos até que eu me perdoe”

J.C.

(reprodução parcial de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 96/11/01, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)

sábado, novembro 03, 2007

Por querer-te tanto

Por querer-te tanto
É que não te quero!
E sobre as folhas de Nenúfar
Silencio o coaxar
Que chama
O teu corpo,
O teu cheiro,
As tuas mãos,
O teu olhar.
E vagueando no meu grito,
Sinto a raiva de já não te poder
Oferecer-me por inteira.

Helena, MC

sexta-feira, novembro 02, 2007

Ao Acordar

Acordei com uma dorzinha miúda. Quem ma trouxera tinha sido o frio da manhã, que me fazia cócegas nos pés. Acreditava que o dia me correria bem; acreditava que a ilusão me cobriria de flores luminescente, num dia nublado de Outono.

Vi-te ao longe, dos pés à cabeça. A utopia me dizia que a tua companhia me levaria a um lugar pelo qual doutra forma teria eu que lutar. Tua boca abriu-se. De lá saíram tantas palavras que… se desfez a utopia, se desfez a mais pequena ilusão deste dia ser diferente dos outros. Mais um dia em que teria que me controlar. Mais um dia em que teria de ser menos eu para ser mais forte. Talvez um dia pudesse sentir-me forte, mas, por agora, seria apenas mais um dia em que não seria eu.

Senti dor. Acordei com um picar na espinha. A dor era causada por um dos lados da cama onde me encostara incorrectamente. Olhei a janela e aceitei que o dia seria como o de ontem e não iria ser eu quem te amaria.

Vi-te; falaste-me; beijaste-me. Aos poucos, senti-me um pouco mais eu. Protegido pelo teu carinho, confortado pelas tuas palavras doces e serenas, fui-me encontrando. A utopia cresceu e do nada fez-se o momento mais perfeito que poderia acontecer. Fui feliz.

Acordei de barriga para o ar. Não havia dor. Não havia felicidade. Chovia.

Vi-te… Pensei que tudo isto seria antipatia. Pensei que seria um eu diferente, não forte por ter que ser forte. Não confortável, porque assim me sentia. O peito doeu-me. Sabia o que era: era tudo o que se tinha passado lá dentro, em revolta. Estava confuso.

Acordei na mais pura das dores, uma dor psicológica forte que se fazia sentir deste lado. Tive vómitos e, cá dentro, o corpo apertava-se para sobreviver. Estava assim fisicamente. Psicologicamente estava pior.

Imagina agulhas debaixo das unhas, vidros estilhaçados nas gengivas e olhos perfurados. Imagina só a dor de tudo isso. Entenderás a analogia se imaginares um corpo desencontrado da respectiva alma. Apenas, assim, fisicamente te posso transmitir a dor que sinto a cada palavra que ousas pronunciar sobre um passado teu tão recente que chega a parecer presente. Porque foi o que tu disseste que germinou cá dentro e agora cresce, agora ganha vida, alimentando-se da minha.

José Pedro Cadima

quarta-feira, outubro 31, 2007

Tens medo de sair à rua?

Lá fora chovia e trovejava desmesuradamente. Uma jovem atada e amordaçada tremia numa pequena arrecadação escura e fria. Pouco conseguia fazer senão respirar e imaginar o seu destino doloroso. A arrecadação tinha uma forma rectangular que, talvez felizmente, a jovem, de nome Sílvia, não conseguia ver. As paredes estavam manchadas de sangue e na porta estavam escritos os nomes de vários infelizes.

Do outro lado da porta, completamente livre, estava um homem que se divertia com a sua faca: desde pequeno que abria ratos ao meio e, desde há pouco tempo, que o fazia com pessoas…

Todas as quartas, quintas, e sextas, a Sílvia saía à noite e ele olhava-a; traçava o padrão e a rotina. Ambicionava apanhá-la e, quando o fizesse, mostrar-lhe-ia que não devia sair à rua só.

Na arrecadação, a Sílvia tremia. Por vezes, sentia os peludos e gordos ratos e ratazanas que comiam migalhas deixadas em volta dos seus pés. O coração dela disparava e o suor escorria-lhe pelo corpo. Os ruídos metálicos arrepiam-na na espinha e os pêlos eriçavam-se-lhe instintivamente. Havia dezenas de ratos que guincham em seu redor, com as caudas pegajosas a roçarem-lhe os tornozelos. Ela tentava gritar, sem sucesso: saiam-lhe sons miseravelmente abafados pela mordaça.

Devagar e com extrema perícia, o vizinho predador pegava num rato e abria-o. Sacodia o animal de maneira a que as tripas cedessem e, com a gravidade, tudo se fundia numa mistela esmagada no chão. Dava-lhe prazer fazer aquilo, mas não tanto como lhe dava abrir alguém a meio, enquanto esse alguém respirava, e, de seguida, deixar os ratos alimentarem-se dele.

A Sílvia saiu pelas 23 horas, levando uma mini-saia e estava decidida a percorrer o seu caminho habitual, mas o predador gostou dela. Fazia-lhe lembrar a mãe, que à noite também saía, deixando-o sozinho nos piores dos pesadelos. Devagar, tal como aos ratos, o vizinho apanhou Sílvia a dez metros da saída de casa, numa curva onde aquela hora ninguém costumava passar e levou-a para a sua arrecadação. Descalçou-a e amordaçou-a, deixando-a com os ratos famintos - as migalhas eram só para impedir que os ratos a mordessem.

Largou o resto do rato no chão e enquanto abria a porta imaginava a pobre Sílvia a urinar pernas abaixo, tentando libertar-se das cordas, ao ouvir o ranger dos seus passos.

Não aconteceu! Fez-se meia-noite e, ao abrir a porta, deparou-se com Sílvia, de frente para a porta, enforcada nas próprias cordas que outrora a amarravam. O predador urinou pernas abaixo e, do fundo do corredor, escondido nas sombras onde o luar não conseguia chegar, ouviu uma voz:

- Não tens medo de ficar sozinho em casa?

José Pedro Cadima

domingo, outubro 28, 2007

“Ainda há esperança”

“Há algum tempo, um colaborador do «Notícias do Minho» despedia-se dos seus leitores alegando falta de objecto de análise ou, melhor, de combate. Na ocasião, cheguei a considerar seguir-lhe o exemplo, não tanto porque as nossas crónicas convergissem no objecto mas, antes, porque este apontamento jornalístico (Crónicas de Maldizer) se aprestava para fazer um ano.
O simbolismo da data tornava-a particularmente indicada para uma despedida em beleza. Havia, no entanto, o inconveniente da coincidência a que atrás me reporto e, para minha desgraça, o dito ex-colaborador tinha tomado a iniciativa. Por outro lado, se o momento de celebração de um ano de maldizer, salvo seja, era uma boa ocasião para procurar novos rumos, muito melhor oportunidade teria sido a comemoração do primeiro mês ou dos primeiros quinze dias. Aliás, se bem que não me recorde quem seja o autor do dito, comungo em grande parte da ideia que «não há como a primeira vez» (ou será «não há amor como o primeiro»?).
Assim sucedendo, qualquer ocasião posterior era tão boa como qualquer outra para dizer, portuguesmente, «bye, bye». Chateava-me, entretanto, a perspectiva que alguém pudesse tirar gozo pessoal do termo das minhas crónicas: conforme deixei expresso algures, os meus escritos sempre tiveram por propósito primeiro o prazer que tiro deles e só a ideia de alguém retirar daí mais gozo que eu era bastante para incomodar-me.
Tomada a decisão de permanecer no activo, permaneceu a eterna dificuldade de encontrar assunto. A verdade é que, apeado Cavaco, a análise política e jornalística ficaram, apesar de tudo, mais pobres. Realmente, há que convir que não é fácil imitar no disparate, na arrogância, na falta de bom senso, os protagonistas maiores da vida política da última década.
Se a ocasião era já de pasmaceira e escasseavam os motivos para a análise e para a crítica social até Outubro pp., depois dessa data então entrámos em período de crise aguda, e há o receio que à crónica de opinião volte a não sobrar outro tema que não seja o percalço da Sra. Etelvina no outro dia em que foi ao mercado comprar cebolas (ou tomates, já não tenho bem presente).
Resta-me, todavia, a expectativa que o Eng. Guterres e os seus doutos ministros rapidamente se ajustem às cadeiras do poder e, na boa tradição dos que os precederam, encetem a senda da asneira. Por exemplos passados, acredito que há razão para manter acesa a esperança. Muito me desiludiria o governo do Eng. Guterres se isso não viesse a suceder a curto-prazo.”

J.C.

(reprodução integral de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 95/11/25, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)

quinta-feira, outubro 25, 2007

Minha Querida Helena

Por vezes, é tão difícil falar contigo. Há ocasiões em que tenho a sensação que só te escutas a ti. Digo-o não no sentido figurado - de que o teu pensamento prevaleça sobre o de outrem (o meu) - mas no exacto sentido em que, pura e simplesmente, ignoras o que te procuro transmitir, e fico a repetir palavras, a exprimir emoções crescentemente irritado e tentando controlar a vontade de bater com o telefone. Nessas ocasiões, concluo sempre, e algumas vezes digo-to, que não devia ter telefonado. O problema é que não sou capaz de antecipar quando não te devo ligar e, uma vez entrados nessa conversa de surdos, é tarde de mais para recuar, se bem que o devêssemos fazer. Cortando, estabelecendo a ligação a partir do início, a possibilidade de sucesso da comunicação é inquestionavelmente outra.
Curiosamente, isso acontece mais em ocasiões em que procuro exprimir-te a preocupação que tenho com a tua saúde ou com a tua estética, o que configura a ideia, que já te tenho repetido, de que essas são peças da tua estratégia de auto-flagelação, sendo certo que, magoando-te, me magoas também, embora as consequências desse gesto sejam bem mais gravosas para ti.
Quando finalmente consigo que me ouças, dizes-me amiúde que sou eu que sou incapaz de julgar a tua ordem das prioridades: a prioridade de alguém que chega e que espera atenção sobre a prioridade de agendar uma consulta médica; a prioridade de arrumar a sala sobre a prioridade de realizar um tratamento no hospital; a antecedência absoluta de uma visita ao café da D. Felismina, de um cigarro, sobre a visita ao cabeleireiro.
Não entendes tu que essa tua ordem de prioridades me confunda e me contraria? Porque não aceitas tu, minha querida, que eu queira ver-te fresca e bonita? Onde está a irrazoabilidade deste meu querer?
Helena querida, fico a ansiar o teu sorriso.

Braga, 14 de Julho de 2004


José Cadima

terça-feira, outubro 23, 2007

Tenho medo

Caminho pela estrada escura e suja
procurando chegar a algum lado,
sem certeza do conseguir.

Enquanto caminho, questiono-me
sobre o que se me oferecerá no horizonte que prescruto,
receoso do que o futuro me reserva.

O medo assalta-me,
mesmo que para a morte se sugira ser cedo.
Sobretudo, tenho medo de ser como quem odeio,
na insegurança sobre ser quem tu amas.

José Pedro Cadima
(reescrito por José Cadima)

domingo, outubro 21, 2007

Porque me desfaço eu em lágrimas?

Choro. Desfaço-me em lágrimas.
Olho-me ao espelho e sinto-me ridículo.
Reparo, então, na ironia de me ver chorar
e questiono-me sobre o sentido, o absurdo desse meu gesto.
Porque hei-de eu chorar?
Porque me é tão penoso amar alguém?
Por alma de quem me auto-flagelo?
Pela minha própria alma, que não sei viver a vida sem entrega?
Por alma de quem amo e me faz padecer deste modo?
Mas, se me quer tanto quando diz querer,
porque há-de desejar este meu choro?
Vendo vem as coisas, talvez a dificuldade resida aí mesmo,
na sua insensibilidade para o amor
e, se assim for, o choro perde todo o sentido;
o meu choro não passará de auto-flagelação.
Porque me desfaço eu em lágrimas?

José Pedro Cadima

sexta-feira, outubro 19, 2007

O inferno como sentença

Muitas das situações que vivemos são absurdas. No entanto, esta, depois de morto, ganha um valor para além do absurdo em si: mesmo agora, no inferno, penso em ti.

A vida depois da vida tem destas coisas. Ando perdido por entre o sentido de um mundo cheio de respostas onde, horrivelmente, falho em compreendê-las. A verdade, vista de tão perto, causa-me incompreensão! Talvez se a minha penitência não fosse esta e tu tivesses vindo comigo para aqui, eu me comportasse como o homem que era e sentisse que a verdade era diferente da mentira vivida em terra.

Quando cá cheguei, notei depressa o calor nauseante e espesso que me obriga a contorcer de dor. As almas penadas dos assassinos ouviam-se por entre as paredes do meu novo lar. Percorrendo passeios paralelos à lava, encontro submersos os tesouros perdidos de quem, pela ambição, não se soube controlar.

O inferno em nada se compara à visão que a sociedade mantinha dele. Não há demónios a empurrarem-nos para calabouços ou a enfiarem-nos em enormes caldeirões que fervem sem parar. O inferno reserva-nos a todos algo pior: quem por natureza é mau, terá, tal como um bom, algo que nunca quis perder. Assim, a pena de cada um é cumprida tirando-lhe aquilo que mais deseja.

Os bons nem sempre recebem aquilo que desejam, mas os maus perdem-no sempre. Os maus que querem paz, nunca a irão ter. Gritam e mutilam-se, querem ficar num estado em que nada mais importe, mas importa: ficam com a paz, a paz que nunca lhes chega e nunca os deixa verdadeiramente descansar.

Alguns dos maus são quase bons; queriam, a seu modo, fazer algo pela sociedade. Não fizeram e aqui estão. A sua condenação é feita porque no momento de escolher entre o bem e o mal escolheram não fazer nada e o mal venceu. O assassino que mata é atormentado todas as noites pelo espírito da vítima. O cúmplice é atormentado pela sua consciência. Os que têm um peso na consciência, procuram respostas que já têm. Querem-nas diferentes e afundam-se ao tentar atravessar os canais de lava, pensando que do outro lado a resposta será melhor.

Tanto eu, mau, como tu, boa, fomos condenados. E tu também sofres pela minha penitência, mesmo aí no céu. Sei que assim é. Aqui no inferno, verdade seja dita, existem mais mulheres do que homens. Todas sedentas de mimos e de um companheiro, mas como posso eu desejá-las se só em ti penso?

Quem me dera ter sido um assassino, para perder a paz, ou um cúmplice, para procurar respostas frustrantes. Era mau, mas só às vezes: enxotava o gato e as pessoas, porém, nunca te enxotei a ti. Tinha mesmo a minha pena que ser o teu paraíso, sendo tu quase tão má como eu? Foste para o céu e aqui me deixaste, só para que perdesse o que mais desejava.

José Pedro Cadima

quarta-feira, outubro 17, 2007

Somos todos o mesmo

Somos todos o mesmo:
o mesmo sangue,
a mesma ideia.

Somos todos o mesmo:
o que aprende,
o que ensina.

Somos todos o mesmo:
o que sofre, o que chora;
o que desilude, o que ignora.
Somos todos o mesmo!

José Pedro Cadima