terça-feira, outubro 28, 2008

There are free lunches!

“There are NO free lunches” é uma expressão anglo-saxónica que significa: “não há almoços grátis”. Esta expressão é uma metáfora para o (ex)facto de nada ser de graça, coisa que se revelou ser mentira a partir do Plano Paulson, recentemente aprovado pelo congresso dos Estados Unidos da América.
Mas o que é preciso para se ter um almoço grátis? E quem foram os felizardos que, em tempo de vaca magras, o tiveram?
Nos últimos dois mandatos presidenciais dos Estados Unidos da América, o bem amado George W. Bush esteve um bocado desatento em relação ao andamento do sistema financeiro Norte-americano. Sem culpa, é claro! Quem, como a América do Norte, tem também que gerir o resto do mundo, em especial, o Iraque e o Afeganistão, e, também, de regular as regiões do Irão e Coreia do Norte não tem tempo para se importunar com os amigos e família, de modo a apurar se tudo corre bem nas respectivas gerências empresariais.
Apesar de todo o trabalho a que George W. Bush se tinha incumbido de fazer para lá do Pacifico e do Atlântico, a gestão e regulação dos mercados dos EUA não foi totalmente ignorada (deixou-a a cargo de um conselheiro). O ex-primeiro ministro Alemão, Gerhard Schröder, fez declarações em que referia que Deus aconselhava George W. Bush nas suas decisões politicas. Algo que se podia constatar pela forma como terminava todos os seus emblemáticos discursos. Pena que a omnisciência e a omnipotência não sejam o que já foram e o sistema financeiro esteja à beira de ruir.
A bolha especulativa do “subprime” rebentou no final de 2007, trazendo à luz do dia o ciclo de insustentabilidade em que o sistema financeiro Norte-americano se tornara. Mas, mesmo com a entrada no famoso “Bear Market”, ninguém tomou consciência daquilo que se aproximava: no dia 7 de Setembro de 2008, o país mais liberal do mundo nacionalizou a Fannie Mae e a Freddie Mac, que detinham metade dos empréstimos à habitação dos Estados Unidos. Uma semana depois, o Lehman Brothers, um dos maiores bancos americanos, que já contava com 150 anos de história, foi obrigado a declarar a bancarrota. E ainda nesse mesmo dia foi anunciada a compra do Merrill Lynch pelo Bank of America. Sucedeu-se o caos financeiro que levou a América e o Mundo a enfrentar uma segunda-feira “negra”. Mas a terça-feira não foi mais clara: as acções da AIG, 18ª maior empresa do mundo (Forbes Global 2000, 2008), caíram 95% do seu valor de mercado.
A resposta mundial foi coordenada: os maiores bancos centrais do mundo injectaram capital nos mercados. Em resposta, não ocorreu melhoria significativa. O Plano Paulson deu algum ânimo aos investidores, mas rapidamente foi rejeitado pelo contribuinte americano, sendo depois também rejeitado pelo congresso, a 29 de Setembro. Entretanto, pela Europa, a Bélgica, a Holanda e o Luxemburgo apressavam-se a salvar o Fortis, sendo que dois dias depois a Bélgica e o Luxemburgo voltavam à cena para, com a França, disponibilizar 9 mil milhões para salvar o Dexia.
Dia 3 de Outubro é aprovada uma nova versão do Plano Paulson. A Islândia afunda-se na crise com a obliteração do seu sistema financeiro e uma dívida igual a 12 vezes o seu PIB. Dá-se mais uma segunda-feira “negra”, seguida, nessa mesma semana, de um corte nos juros por parte dos maiores bancos centrais mundiais, que acaba por não fazer efeito nos mercados. Não há confiança dos investidores no poder instituído.
Enquanto as poupanças da classe média desaparecem, alguns encontram a oportunidade de almoçar de graça: R.Fuld, do Lehman Bros, e J.Cayne, da Bear Stearms, arrecadam, cada um, 40 milhões de $EUA em compensações. R.Syrona, da Freedie Mac, e Daniel Meal, da Fannie Mae, arrecadam 20 milhões e 12,2 milhões de $EUA, respectivamente. Já S.O’Neal, da Merril Lynch, acomoda-se a receber 46 milhões de $EUA.
Mas houve uma administração que levou à letra a expressão "there are no free lunches" como uma provocação! A título de celebração pela aprovação do Plano Paulson, a administração da AIG esbanjou 440 000 $EUA em tratamentos de SPA, jogos de golfe e almoços, tudo por cortesia dos contribuintes norte-americanos!
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José Pedro Cadima

sábado, outubro 25, 2008

O sábio (2)

Um dia, fui procurar o amor.
Julguei, até, tê-lo encontrado.
Puro engano: não passava de uma miragem,
a miragem do amor.

Um dia, fui ter com um velho sábio
e perguntei-lhe o que se escondia no céu.
Ao que ele respondeu: “o amor”!
Fiquei, então, a saber que prefiro o inferno,
porque, na terra, demasiadas vezes
a dor do amor eu provei.

José Pedro Cadima

(texto originalmente datado de 2004, editado por José Cadima na presente data)

quinta-feira, outubro 23, 2008

O verdadeiro prazer - III

Dia 3: Ontem, nem pensei. Limitei-me a deixar correr as palavras “então até amanhã Alexandre” na minha cabeça, à procura de uma imagem em que me segurar, à procura de encontrar algo a que me agarrar. Hoje, depois de, a partir das dezasseis horas de ontem, ter entrado de férias, a voz voltou:
“Nunca tinhas sentido tal ansiedade, não é verdade? É normal que assim fiques. Mantém a coragem na expressão do teu rosto e nas tuas palavras”.
“Hoje, ao saíres, vais consumar o acto: vais seduzi-la. Vais mostrar que és capaz, mostrar a ti mesmo que consegues!”
“- Assim farei, porque tu mo dizes. Se contigo até aqui cheguei, é contigo que lá vou chegar.”
De novo no sítio de ontem, à mesma hora, com o mesmo atraso por parte dela. Por fim, ela chegou e lá fomos em silêncio até ao parque, alimentando uma conversa fútil, comigo apenas a seguir as boas regras do falar nas alturas certas, dizendo as coisas certas. Ela parecia encantada, enquanto eu, observando-a desta forma distante, começava a ver nela uma pessoa algo enfadonha mas ainda com um “charme” que me atraía. Entretanto, as regras que ia seguindo, não me deixando ser eu, em sentido autêntico, deixavam-me desconfortável.
Fomos até uma parte mais escondida daquele belo parque.
“Atrasa o teu passo. Deixa-a ultrapassar-te e abraça-a por trás! Ela vai adorar…”
Assim fiz, mais uma vez. Mais uma miserável vez, segui uma ordem que me levaria à vitória. Não me senti confortável, no entanto. Antes, senti senti um esboço de revolta na minha alma. Todavia, neste caso, os fins justificavam os meios.
A respiração dela e a minha ficaram em alvoroço com esse abraço. As mãos dela cobriam as minhas e o meu corpo apertava-se contra o dela e o dela contra o meu. Era mútuo o agitar dos sentidos. Rodeei-a, segredando-lhe ao ouvido:
- Não esperavas nada disto de mim, minha rosa, flor do meu jardim?
Enquanto isso, questionava-me sobre se não estaria a ser lamechas.
Ela corava e eu beijava as suas bochechas coradas. Ela sorria e eu beijava-lhe as covinhas da cara. O beijo boca a boca aproximava-se. Eu consegui-a vê-lo ao longe, a correr. Chegaria depressa!
As minhas mãos subiram quase até aos seus seios e a sua cabeça inclinou-se para trás. Eu, entretanto, inclinei-me para um dos lados e, no momento em que a sua cabeça se virou para mim, estávamos com os nossos lábios frente a frente.
“Não o faças! Agora que tens o poder da sedução, vinga-te! Não foi ela que te repudiou um dia? Não foi ela que te fez sofrer uma vez ou até mais vezes? Foi, não foi? Ela nem bela chega a ser. Tu nem tens a certeza de querer tê-la! Mostra-te superior. Terás quem te mereça. Não uma mulher fútil… Retirarás daí outro prazer. Acredita que esse será bem maior. A mente sobre o corpo, não é o teu tipo? Não é o que ansiavas? Vais beijá-la ou rejeitá-la, à semelhança do que ela te fez, antes? ..."
"...Ensinei-te a obedecer às minhas ordens, para teu bem. Agora, apenas te deixo este conselho: faz a tua escolha!”
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José Pedro Cadima

quarta-feira, outubro 22, 2008

Cartas de Amor ou quase

“Fico contente por saber que tiveste hoje um dia melhor que os imediatamente antecedentes. Agora, só precisas de ir melhorando um poucochinho cada dia. Aliás, eu também."

José Cadima

domingo, outubro 19, 2008

Amar-te ... E sorrir

Amar-te fortalece a minha alma
Amar-te capacita-me para enfrentar o mundo
Para enfraquecer as tormentas que vão surgindo
Ajuda-me a quebrar as ondas vivas
Que se avizinham perto da costa
Amar-te faz-me sorrir quando te vejo
Faz-me sorrir quanto te lembro
Conclui há pouco tempo
Que todos nascemos para amar
Mas nem todos temos a felicidade de ter um "objecto" de amor
Eu encontrei essa felicidade
A de te amar… E a de seres o meu "objecto" de amor

C.P.

sábado, outubro 18, 2008

O verdadeiro prazer - II

Dia 2: “É tudo uma questão de timing; uma questão de saber dizer as coisas certas nas alturas certas; uma questão de tudo o resto não existir ou, se existir, apresentarmo-nos de igual para igual ou até superiores. Isso impressiona; chama-se segurança. Toda a gente ambiciona sentir isso e, quando alguém tem confiança, desperta interesse! Parece que o que dizes é realmente verdade, é realmente importante, é realmente interessante, mas, se virmos bem, tudo o que digas ou possas dizer é sempre descartável. Os seres humanos funcionam assim.”
Os ensinamentos que me são transmitidos são assustadoramente assertivos. Se calhar é isso que me faz ter interesse neles… Se calhar é essa a ideia que devia ter de tudo. Ontem… Como é que ontem?! Oh… Será que é esta voz que me fez ganhar coragem? Será mesmo o meu subconsciente? “Não importa…” Pois não…Nada importa!
Ontem mandei uma mensagem à Rita a convidá-la para sair e ela disse que sim. Vamos dar um passeio pela cidade, ver os jardins e assim…
Combinámos encontrarmo-nos junto à escola. Ela está atrasada cinco minutos, mas já a vejo ao fundo. Vem com seus cabelos castanhos decoradas com madeixas naturais loiras. Os seus cabelos são levados com o vento. A primeira vez que a vi foi ao vento. A primeira vez que reparei nela, era o vento que a puxava, levando-a pelos seus cabelos…
- Olá! – disse a sorrir
- Olá! – respondeu ela com um sorriso copiado do meu
Começámos a andar. Entrámos num jardim e nenhum de nós falava. “Coragem”. Disse a voz, e eu ganhei coragem e as palavras saíram:
- Estás melhor que ontem? Já tens tudo na cabeça?
- Já! – sorriu-me
“A mentira é tão bonita. Não te preocupes com esse assunto. Comenta algo, critica, mostra-te de pensamentos próprios, deixa-a a pensar. A confusão é meio caminho…”
- Gosto de ver aqueles idiotas ali, com 2 pares de óculos de sol - ela riu-se, concordou e continuou a conversa.
Entretanto, a voz ia-me dizendo, constantemente: “espera”. Ela, por sua vez, ia falando.
Como gostam estas raparigas de falar, como gostam que concordem com elas. É tudo isso o que importa, o timing.
“Sempre aprendeste alguma coisa. Rápido! Faz um comentário sobre aquele cão. Não sejas cómico desta vez”. E não fui. Crucifiquei o cão, pela nojice como se apresentava. Rita concordou com cada letra do que disse, até com os “á” sem “h”, isto é, mal escritos e mal ditos.
A tarde foi boa. Cheguei a abraçá-la uma ou outra vez. Assumi uma postura familiar, de amigo íntimo. Tentei ganhar-lhe a confiança. Tive coragem para lhe falar. Tive segurança ao falar. Mantive-me calado de quando em quando. É giro impressionar alguém. É tão giro impressionar alguém. Talvez seja isso que nos faz vazios: ter que respeitar certas coisas para poder ter outras. É uma espécie de custo de oportunidade!
Ela estava a adorar. Á medida que a tarde corria isso sugeria-se mais óbvio: nos comentários que fazia, na familiaridade com que me tratava. Pela minha parte, tudo isso me fez sentir miserável. Como vou agora acreditar em mim? Não… na voz, porque quando estamos desesperados é noutros que nos apoiamos e noutros que acreditamos, e quando os outros estão certos, fingimos ser como eles.
- Então, até amanhã Alexandre!
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José Pedro Cadima

quinta-feira, outubro 16, 2008

Acordo a sentir teus beijos

Acordo a sentir teus beijos.
Adormeço a imaginar teus abraços.
Ao saudar-te, posso jurar
que sinto teus lábios.
Estremeço só de me lembrar de ti.
Sinto teus os meus cabelos pela manhã
e pareço sentir tua boca
ao beber água cristalina ao pôr-do-sol.

Vejo-te onde quer que me encontre
e chamo por ti como se chamasse pela vida.
Estou louco.
Estou louco por ti!

José Pedro Cadima

(poema extraído de Sonhos a um Espelho, Papiro Editora, Porto - no prelo)

terça-feira, outubro 14, 2008

És diferente

És diferente…
Diria mesmo, totalmente diferente
Diferente de todos os outros
Na tua simplicidade e complexidade
Na tua frontalidade e fragilidade
Na tua sinceridade e honestidade
No amor que me dás…
Quando és inteligente
Quando és determinado
Quando me olhas
Sinto que és diferente
Muito diferente dos outros
Diria mesmo, totalmente diferente
És diferente…
E amar-te é também fazeres sentir-me diferente

C.P.

segunda-feira, outubro 13, 2008

O verdadeiro prazer - I

Dia 1: Choro, choro, choro. Mais valia o suicídio a isto! Mais valia pôr fim a todo este universo que criei em minha volta. Mais valia perder a vida.
“Escuta!”.
A vida não faz sentido. Nasci feio. Nasci o mais feio!
“Escuta!”.
Uh?! Uma vozinha interrompeu o meu pensamento.
"- Quem és tu?!"
“Responde isso a ti mesmo e mais tarde trabalharemos na minha identidade”.
A minha mente perdia-se nesta frase mas, antes de poder sequer responder, a pequena voz, que parecia partir do meu subconsciente, interveio novamente:
“Se te achas capaz de ser aquilo que querias, escuta-me e farás o que te direi. Dar-te-ei o dom da sedução”.
Que resposta poderia eu dar a isto? O que eu queria, a voz já o sabia: queria ter o poder de manipular como me manipulam a mim, que é o que importa neste mundo.
"- Eu aceito… Dá-me a ordem! Eu seguirei tudo!"
“Sai à rua!"
E os seus desejos, que não eram mais que cumprir os meus, foram cumpridos.
“Café lá da escola…”
E lá fui, seguindo cada passo que me era sugerido. Quem estaria lá que eu desejasse tanto?
Entro no café. Ao fundo está a Rita, a bela e única Rita, que tanto eu desejei que olhasse para mim e tanto me deu para trás… Que estou aqui a fazer? Já não a desejo… Pelo menos, não tanto como quando era ela o meu único desejo.
“Se já a desejaste tanto, é impossível que a chama se tenha apagado por completo. Apenas a acalmaste”.
Transpirei, tremi.
“Não tenhas medo, ela quer-te!”.
"- Quer?"
“Sim, quer, e tu também. E vais tê-la porque a mereces”.
Voltei a transpirar.
“Avança!”.
Assim fiz…
- Olá Rita! – disse
- Olá Alexandre… - respondeu com um ar um pouco abatido. Não parecia contente de todo em ver-me….
“Pergunta o que se passa! Junta-lhe humor… Fá-la sorrir e elogia esse facto!”.
"- Perdi-me. O que tu, voz dos céus me pedes é demasiado para mim…"
“O importante é não te deixares incomodar ou amedrontar. Ela ou uma cadeira são a mesma coisa. Tens que conquistar para poderes possuir. Faz o que te digo! Confia. Faz como que te disse!”.
- Que se passa? Pareces abatida… (como vou eu juntar humor a isto!?).
“ Se estás triste por causa do cabelo não te preocupes, ele continua uma lástima!”
– Se estás triste por causa do cabelo não te preocupes, ele continua uma lástima!
Ela riu-se.
- Oh!
- Estava a ver que não conseguia sacar de ti um sorriso hoje.
- Conseguiste! – sorriu
E que belo sorriso…
“Sorri para ela e inclina os teus olhos para ela. Baixa as pálpebras, deixando-as entre-abertas”.
Assim fiz.
- Estás diferente!
A seguir à resposta dela, a voz surgiu para me fortalecer com a sua sabedoria:
“É… Dizem que cresci. A pergunta é se isso será bom! Sê sarcástico!”
E assim fiz.
- É! Dizem que cresci, mas ainda não sei se isso é bom. Se é que me percebes – sorri
- Se calhar até é… - sorriu para mim e bebeu um pouco de sumo de laranja que tinha no seu copo
- Que faço agora!?
“ Tens que ir! Diz que estás atrasado. O tempo é sempre fundamental.”
- Olha, tenho que ir !
“Muitas coisas interessantes me esperam!”
– Muitas coisas interessantes me esperam!
“Não pareças intimidado…”
"- Ok., ok.!"
- Não sou interessante, não é?
“Talvez! Vemos isso noutro dia…”
– Talvez! Vemos isso noutro dia! – sorri.
Despedi-me e fui em direcção à porta.
“Mostra-te interessado! Diz-lhe algo e depois diz para esquecer”
- Olha Rita… e se… nah. Esquece!
- Agora não esqueço! Que querias perguntar?
“Nega tudo…”
– Não era nada…
“Convida-a para saírem amanhã.”
- Diz, senão fico zangada contigo!
- Queres sair amanhã?
- Quero! Tens o meu número?
Então não havia de ter? Tanto tentava chamar-lhe a atenção, tanto transpirava à sua beira, sem que ela me passasse a bola. Tinha o Carlos atrás de si, muito mais giro, muito mais interessante …
- Sim, tenho o teu número! Então, logo digo-te algo!
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José Pedro Cadima

sábado, outubro 11, 2008

Minha Querida Helena

Não pretendendo tomar-te muito tempo, gostaria que me dissesses como vão as coisas contigo. Voltaste a dormir mal? Tens conseguido dar encaminhamento aos teus assuntos? Se precisares da minha ajuda, daqui, em relação a algo que esteja ao meu alcance, diz-mo, por favor.
Não fora o contexto de saúde que vives e a forma como isso condiciona o teu estado emocional, não ousaria enviar-te esta mensagem. Se te desconfortar responder-me, não o faças. Falaremos na primeira oportunidade sobre esse assunto.
Numa tua anterior mensagem, questionavas-me a respeito de breves considerações que fiz sobre a planta que tens em casa. A esse propósito, disse-te já tudo o que havia a dizer. A sublinhar, há só a exigência que, de agora em diante, a trates de modo bem diferente, única forma que tens de te redimires dos maus-tratos a que a sujeitaste, voluntária ou involuntariamente. Dos traumas que viveu, dada a respectiva profundidade, dificilmente ela se vai libertar, por muitos anos que viva. Também não entendi que dúvida te pôde suscitar a referência que fiz ao tema do congresso em que estás a participar. Não é por seres especialista dessas matérias que foste convidada? Não, não me queria referir à exigência que fizeste para que fosse ao médico, e a todas as análises que esperas que faça e que estou seguro que me vou arrepender de fazer. Se eu quisesse estar doente, há muito tempo que tinha procurado um médico.
Quando te mandei a mensagem ontem, estava longe de imaginar que ainda irias responder. Que é isso de andares a fazer jejum numa altura em que nem os muçulmanos o estão já a fazer? Lembra-te que não é Verão, pelo que não é caso para estares para aí angustiada com o receio de ganhares umas gorduritas, que eu duvido que ganhasses, em qualquer dos casos. Acho, por outro lado, que não deves sacrificar as tuas horas de sono, e muito menos para me responderes. Por favor, tem isso presente. Se não te posso ser agradável doutra forma, pelo menos que retenhas de mim a preocupação que tenho com o teu bem-estar.
Da tua mensagem, deduzo que conseguiste superar as dificuldades que te oferecia o teu dia de 5ª feira. Ainda bem! Hoje, tudo há-de correr ainda melhor. Por essas paragens, que classificas de deslumbrantes (não sei se o termo mais indicado não seria paradisíacas), as coisas terão necessariamente que ir bem.
Cá fico a aguardar o teu regresso, cheia de energia. Não tendo a tua energia e juventude, receber-te-ei com um abraço do tamanho da saudade imensa que tenho de ti.
Um beijo muito grande,

José Cadima

sexta-feira, outubro 10, 2008

“Crónicas do reino da bicharada” - III

“3. Neste jogo da política dos interesses, sinceramente não sei o que me espanta mais: se a mediocridade dos argumentos usados para justificar o injustificável; se a incompetência em matéria de gestão dos dinheiros públicos.
Dizendo isto, mantenho presente, por um lado, a leviandade com que o governo prescinde do pagamento das portagens na ponte do Tejo, em Lisboa, em Agosto p.f., e, por outro lado, a leviandade ainda maior com que prescindiu das portagens de auto-estradas nas cercanias de Lisboa e Porto, logo a abrir a governação PS. O pior que tudo é que quem em última instância sai penalizado são os contribuintes, todos, e não apenas aqueles a quem as infra-estruturas vão servir.
Para ilustrar a ligeireza do exercício da política em Portugal, talvez não haja melhor exemplo do que as declarações do Sr. João Soares a propósito da manutenção do pagamento da portagem na ponte 25 de Abril. A propósito, confessava o dito senhor que, até data recente, não tinha percebido que o pagamento de portagem servia de travão ao afluxo de tráfego a Lisboa, isto é, sem portagem o congestionamento viário da ponte e de Lisboa seria bem pior.
Pois bem, para quem não saiba, o Dr. João Soares é o actual presidente da Câmara Municipal de Lisboa, lugar em que sucedeu ao Dr. Jorge Sampaio, Presidente da República.”

J. C.
(reprodução parcial de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 96/07/06, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)

terça-feira, outubro 07, 2008

“Crónicas do reino da bicharada” - II

“2. Já que estamos em ocasião de comentário a matérias de índole futebolística, se bem que só por acidente de percurso, talvez não seja descabido falar do «toto-negócio», que nestes dias foi discutido na Assembleia da República.
Por ocasião da publicação do compromisso assumido, o governo PS fez muita questão de dizer que aquela era uma má solução para as dívidas dos clubes de futebol ao Estado, mas era a única possível. E mais insistia, reagindo à crítica da oposição e da opinião pública, que lhe apresentassem solução alternativa, se a tinham. Pretendia deste modo anular a justeza da indignação sentida com o argumento de que, não existindo outra via, o governo tinha dado expressão de lucidez e bom-senso.
Neste negócio embrulhado, o governo escudava-se, assim, na lógica aristotélica, na sua versão de bolso, que, partindo de uma premissa falsa que estabeleça conexão com outra que seja verdadeira, pretende concluir a veracidade de uma terceira que é, realmente, aquela que justifica todo o exercício de mistificação. Na circunstância, o objectivo derradeiro era (sempre foi) o perdão fiscal, e a ideia agitada de que a partir daí se podia partir para a prisão da «máfia do futebol» não passava de argumento para enganar tolos. Ora, o que é curioso é que este é, de facto, um exercício arriscado já que, usando o mesmo recurso lógico, tudo pode ser posto completamente ao avesso e, neste caso, fazer-se efectivamente justiça.
Bastava para tanto que se começasse por meter na prisão o Sr. Pinto da Costa, o Sr. Valentim Loureiro e uns tantos mais, e a partir daí a cedência dos dinheiros do totobola aos clubes de futebol deixaria de constituir uma demonstração humilhante de fraqueza do poder político perante os «senhores» do futebol, para poder ser vista como o primeiro passo da refundação do futebol em Portugal.”

J. C.
(reprodução parcial de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 96/07/06, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)

domingo, outubro 05, 2008

“Crónicas do reino da bicharada" - I

“1. Por ocasião do campeonato da Europa de futebol, recentemente realizado, os jornais deram notícia do desvio de um avião, no regresso de Inglaterra, de Lisboa para o Porto. Conforme se noticiava, a operação foi levada a cabo por dois conhecidos membros da «máfia do futebol».
Descrentes da eficácia da actuação das autoridades policiais, aos passageiros não restou senão exprimir a sua indignação com uma forte assobiadela à saída dos «meliantes». Para este sentimento de descrença que refiro, muito terá contribuído a memória do beija-mão a um dos «padrinhos» a que se reportava a notícia a que se sujeitou o primeiro-ministro português, Eng. António Guterres, não vai para muito mais de um mês.”

J. C.
(reprodução parcial de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 96/07/06, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)

quinta-feira, outubro 02, 2008

O mundo do nojo

O mundo funda-se em muita coisa. Porquê? Porque é o mundo de muita gente: o meu mundo; o teu mundo; o mundo dele; o mundo dos outros. Não há o nosso mundo, pois o meu sou incapaz de partilhá-lo seja com quem for, ou talvez tente partilhá-lo, talvez consiga partilhá-lo mas facilmente me refugio num sítio aonde ninguém consegue chegar.
O meu mundo talvez seja diferente. Talvez seja maléfico, porque muitos o achariam impossível de viver, e eu ouso dizer que não sei viver nele.
Às vezes, o meu mundo parece-me seres tu. Mas é mentira… Tu és apenas uma tempestade. Disse apenas? Queria dizer que eras o próprio tempo, uma das causas que permite ou não a vida no meu mundo.
O tempo passa com o tempo (deveria passar, não deveria?), chuva, sol, neve, nevoeiro, mas a tempestade grande és tu. Sei lá porquê! Só sei que não percebo.
Quando não eras minha, angustiava-me que o não fosses. Sentia nojo de seres doutro. Quando eras minha, incomodava-me teres sido doutro. Sentia raiva de não teres sido minha, primeiro. Quando passares a ser novamente de outro, sentirei nojo de teres sido minha e de seres de outro, depois.
Sinto nojo de mim mesmo por pensar assim. Sinto-me nojento por ter desejado partilhar alguma coisa contigo. Incomoda-me ter tido alguma ligação a ti e, ao mesmo tempo, sinto-me mal por ter-te deixado fugir. Repito: sinto nojo por pensar assim!
Sinto nojo de mim por ter um orgulho fugidio quando o assunto és tu. Parece que ele se esconde. Parece que se abaixa para te deixar passar por cima de mim. Parece que gosta de se mostrar naqueles momentos em que te faço mal e, por isso, sinto nojo de mim. Mete-me nojo o meu orgulho. Mete-me nojo o meu orgulho pela forma como me rebaixa perante mim e te magoa a ti. Desgosta-me gostar tanto de ti. Desgosta-me pensar e sentir assim.
Metes-me nojo por pensares assim. Pensar como tu pensas, ver as coisas como tu vês, mete-me nojo… Pura e simplesmente, mete-me nojo. Mete-me nojo a maneira como inclinas a cabeça. Parece que nada do que te digo está certo ou, às vezes, parece que estará certo demais. Mete-me nojo não estar certo. Mete-me ainda mais estar. Enjoa-me querer-te e enjoa-me não te querer. Sinto insuportável esta confusão.
É seguro que não estamos apaixonados… Isso faz-me sentir o que já sabemos mas, por dentro, o sentimento é tão de compaixão, tão à mesma de desejo, tão pouco do género fazer tudo à volta brilhar que não pode deixar de me desgostar, de me enojar. Essa é a realidade que não precisa de ser imaginada.
No fundo… tudo me mete nojo. Mete-me nojo amar-te. Mete-me nojo achar que tudo acabou. Mete-me nojo pensar em recomeçar. Mete-me nojo o meu orgulho, o teu pensamento, as minhas maneiras, as tuas maneiras. Mete-me nojo a nossa amizade. Mete-me nojo aquilo em que ela se fundamenta, que, porventura, será no nojo.
Porque é não há o nosso mundo?

José Pedro Cadima

quarta-feira, outubro 01, 2008

Lamento ter-te desapontado...

"Lamento ter-te desapontado. Eu sabia que esse era um risco sério. Não é que eu não goste de doces, mas gosto apenas de alguns. De ti, por exemplo."

José Cadima

segunda-feira, setembro 29, 2008

“Pensamentos dispersos” - III

“5. Em tantos anos de corridas e correrias, não espanta que o cenário, quer dizer, o enquadramento da pista, tenha sofrido significa transformação. Preocupa-nos, obviamente, termos passado a circular entre torres e mamarrachos quando antes nos comprazíamos com a pacatez bucólica do lugar. Uma coisa não se alterou, no entanto: a falta de civismo de muitos dos condutores com que nos cruzamos e dos excursionistas cujo restolho fica a aguardar a passagem caridosa dos serviços de limpeza da cidade. O único elemento de conforto que daí se pode retirar advém da pouca diferença que neste campo se nota entre o presente e uma década atrás.”

J. C.
(reprodução parcial de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 96/03/16, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)

sábado, setembro 27, 2008

Minha querida Helena

Obrigado pela tua preocupação e pelas tuas mensagens. Já estou por Braga. Tirando a madrugada que fiz, não tenho nada de especial a assinalar. Conforme era minha expectativa, foi uma relativa perda de tempo, a deslocação, digo. Nunca mais aprendo a não me meter em coisas em que não acredito.
Continuas com mensagens enigmáticas. Não sei se deva alegrar-me ou ficar assustado. Que tens uma imaginação muito fértil, disso já não tenho dúvidas. Quero entretanto prevenir-te que, embora em recuperação, ainda me sinto bastante abalado. Não sei mesmo quando recuperarei a forma, se alguma vez o vier a conseguir.
Retomando a tua mensagem precedente, quero esclarecer que eu não duvido do que tu me dizes. Acho é embaraçoso muito do que me dizes. Evita, portanto, dizer algumas coisas menos próprias de serem-me endereçadas. Não há dúvida que tu sabes ser simpática. Só a esta luz me parece fazerem sentido as palavras que me fizeste chegar.
Fico mais descansado sabendo que estás pouco ranhosa. Mais confortável fico, ainda, por me dizeres que não fui eu que te pus ranhosa. Espero bem que seja verdade. Mesmo assim, por favor, diz-me se há algo em que posso ajudar-te, aparte oferecer-te o meu carinho e solidariedade.
Desejo-te uma tarde cheia de festa. Não abuses no baile, no entanto. Faz-me raiva a ideia de andares por aí a roçar-te nalgum desconhecido ou num teu bem conhecido.
Um beijo grande,

José Cadima

sexta-feira, setembro 26, 2008

“Pensamentos dispersos" - II

“3. Animados pelo fervor clubista, os meus parceiros de atletismo não deixam de amiúde reportar-se às aventuras e desventuras do seu F.C. Porto. Para desespero meu, tarda já o enterro desportivo do Sr. Pinto da Costa. Retiro disso um exemplo de que a mediocridade nem sempre é mal passageiro, sobretudo quando bem alimentado por árbitros corruptos e jogos de interesse inconfessáveis. Os últimos resultados obtidos pela equipa na taça de Portugal, em confronto com equipas da sua igualha, isto é, da 2ª divisão e da divisão de honra, fazem-me alimentar a esperança de que este estado de coisas não se eternize.
4. A saída, providencial, dos jornais semanários às Sextas e Sábados fornece-nos excelentes motivos de conversa. Comentam-se as desgraças do Sr. Do Porto, o Dr. Fernando Gomes, as desventuras do PSD à procura de novo «líder», os percalços da política à portuguesa e as desventuras da Rute, apanhada pela bófia com a boca na botija. Num destes fins-de-semana derradeiros, o motivo de conversa foi o governo, assemelhado a uma donzela excitada mas, por motivos óbvios, mal preparada para a brincadeira. O pior é que, a continuarmos assim, quem sai primeiro lixado são os portugueses, incluindo os que não fizeram opção pela rosa.”

J. C.
(reprodução parcial de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 96/03/16, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)

quarta-feira, setembro 24, 2008

“Pensamentos dispersos”

“1. Vai para uns anos que realizo regularmente a minha corrida dominical na companhia de uns amigos. Nesse tempo, pude assistir e comentar a ascensão e queda do Prof. Cavaco Silva. É nossa esperança que possamos acompanhar o ocaso do Engº. Guterres; a avaliar pela gestão dos seus primeiros 100 dias, talvez nem seja preciso esperar assim tanto tempo.
2. Tomando embora expressão menor nas nossas conversas, a figura do Dr. Mário Soares não deixou igualmente de ser invocada. Curioso é que, tendo começado por dividir opiniões, hoje esta figura política nacional faz consenso pleno no grupo: foi um péssimo primeiro-ministro e um presidente meia-tijela; persiste sendo um campeão do passeio, e a falta de bom senso do próprio e dos muitos cultores de personalidade que compõem o universo político português estão em vias de transformá-lo num pavão em idade de reforma.”

J. C.
(reprodução parcial de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 96/03/16, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)

domingo, setembro 21, 2008

Crianças no Cinema

O rapaz esperava sentado nas escadas, um pouco impaciente. A rapariga tinha ido à casa de banho. O rapaz olhava tudo, até as outras raparigas que passavam. Aproveitava ou tentava aproveitar este pequeno tempo de liberdade, mas não conseguia. Queria a sua apaixonada. Que ela voltasse depressa. Por isso mesmo tinha comprado bilhetes para o cinema, para a ter bem próxima de si.
A rapariga, na casa de banha, estava nervosa vá-se lá saber porquê! Desde sempre, esta adorável menina tinha exprimia nervosismo por tudo e por nada. Até houve um ano em que, sem querer, pisou e matou um lagarto ou, pelo menos, assim pensou, pois tinha-lhe saído e cauda (quando esta parou de mexer, a menina havia chorado copiosamente). Agora, na casa de banho, ela apenas pintava os olhos e via-se ao espelho, para estar mais apresentável.
Nunca tinha ido ao cinema com um namorado. Era o seu primeiro namoro “a sério”, porque este tinha beijo com sabor. A nenhum dos outros tinha ela dado um beijo com a língua. Apenas a este namorado, e agora iam para o cinema ficar umas horas aos beijos. Não era por acaso que tinha sido escolhido o filme com mais tempo que estava em exibição.
A rapariga aproximou-se do rapaz e estendeu-lhe a mão para ele a ver. Este, estava concentrado a ler os resumos dos filmes numa pequena brochura mas, ao ver a mão da sua amada, rapidamente lhe deu a mão e se levantou, engoliu em seco e esticou-se devagar para lhe dar um beijo. Um toque de lábios, apenas. A língua? Essa guardá-la-ia para depois.
Entraram de mãos dadas. A sala estava escura e grande. Tinha pouca gente. Isto sim era cinema, para eles. Sentiam arrepios na espinha, estavam nervosos mas desejavam-se e, degrau a degrau, desceram a sala de cinema até dois terços dela. Sentaram-se num canto da fila para não darem tanto nas vistas e esperaram…Ainda davam os anúncios e nem o rapaz nem a rapariga eram capazes de abrir a boca e agir naturalmente. Parece que para ambos era a primeira vez que acontecia tal experiência…
O filme começou, as primeiras imagens de filme começaram a aparecer: o director, o produtor, os actores mais importantes, e, por detrás, surgiam as imagens do início do enredo. Era sobre um mundo mágico, sobre amor e harmonia. Eles não haviam escolhido o filme por isto mas sim devido à duração. Seria isso ironia? Talvez, mas os jovens não prestaram atenção ao filme e ele, que estava mais impaciente que nervoso, fazendo contraste com ela que estava mais nervosa que impaciente, deu-lhe um beijo, um magnífico e sedutor beijo.
A rapariga, que não estava preparada, abriu a boca rapidamente, num acto quase de quem se propunha trincar algo, mas este contraste não durou muito. Logo após, a sincronia pareceu perfeita. Beijo atrás de beijo, eles foram cumprindo o que o destino lhes reservara para aquele lugar. Beijarem-se, beijarem-se, beijarem-se … As mãos do rapaz, que eram mais curiosas do que a sua língua, que apenas se mantinha na boca da rapariga, procuraram o resto do corpo da sua apaixonado e, com um puxão na perna dela, fizeram com ela ficasse com a mesma em cima do colo dele. Os Beijos não paravam. As mãos dela ganharam vida pouco depois, mas eram muito menos curiosas que as dele: apenas lhe amarraram o cabelo, puxando-o para ela.
Num certo momento, as portas abriram-se e a música passou a ser outra que não a do genérico do filme… Eles pararam… Olhavam-se apaixonadamente. Nunca tinham sido tanto um do outro… Dentro deles gritava-se a palavra amor.
Quando, mais velhos… Não… Não se casaram, nem se lembravam deste momento. Apenas se lembravam das zangas que tiveram. Do amor não… porque isso… Isso é só nos filmes…

José Pedro Cadima
(excerto de texto intitulado “Ano de abertura”)

quinta-feira, setembro 18, 2008

Como ganhar o teu amor (2)

Tu de mim não vais fugir!
Não tens como escapar!
Nem que tenha que te dedicar
um poema a cada segundo,
vou escrevê-los até que desistas,
até que te rendas a mim.
Não vou desistir enquanto não te entregues,
pois o amor é um campo de batalha
e os poemas são os canhões que tenho ao meu alcance.
Sei que com eles vou deitar as tuas defesas por terra
e, ao fim do dia, por altura do pôr do sol,
terei tomado o castelo que é o teu coração
e, então, serei o teu eterno amor.

José Pedro Cadima

terça-feira, setembro 16, 2008

Amor

...Há dois meses que pergunto a mim própria,
a cada instante,
se tanta felicidade não será um sonho.
Parece-me que o que sinto,
não é deste mundo.
Este céu sem nuvens
quando estou contigo.

C.P.

(adaptado de Victor Hugo)

domingo, setembro 14, 2008

A Bela Adormecida

À nascença, são-nos concedidos dons e defeitos, somos marcados para certos acontecimentos mas, por vezes, somos apenas marcados. Todo um reino pode sucumbir ao destino de uma só pessoa. Todo um mundo pode chorar pelos feitos de um só homem…

No dia de maior calor, ela subiu a uma torre. Não sabia o que procurava. Não sabia porque ali estava, mas estava traçado que assim fosse. Ela estava marcada…
Era o fuso de uma roca que a esperava. Uma roca espiral, da melhor madeira que se podia encontrar. Tão poderoso que até na morte poderia mandar. Não mandou, já que alguém tinha marcado algo por cima. Já outro destino tinha sido imposto!
Menina curiosa, sempre com a vontade de em tudo tocar, picou-se na roca, que a fez desmaiar; tudo muito mágico mas, mesmo assim, adormecendo um reino e selando um destino.

Experimentou um sentimento estranho, trazendo todas as cores e todas as formas, cheio de arestas mas parecido com uma esfera. Sim, por momentos ela viu a confusão… Abriu-se uma porta, uma comporta, uma escotilha. Estava confusa. Era uma passagem qualquer, era uma entrada que só ela podia penetrar. Era a eternidade. Ela não sabia disso… A curiosidade nem sempre traz informação…
A curiosidade já a tinha levado até ali. Podia levá-la muito mais longe. Como um insecto atrás de uma luz ou outro ser em busca de um objecto brilhante, ela mergulhou. Mergulhou sem saber para o quê, mas mergulhou. A curiosidade não precisa de causa! Mergulhou com toda a determinação e com quanta intensidade pôde. Não sabia de que se tratava, mas mergulhou.

E ainda hoje a Bela Adormecida se encontra no mais profundo sono à espera que um príncipe lhe dê o beijo que a faça acordar.

José Pedro Cadima

sexta-feira, setembro 12, 2008

Agradecer-te

À tua espera
Penso em ti, em nós…
No amor simples que me tens dedicado
A que não estou habituada
No carinho que me ofereces
E que eu tento retribuir
No significado da canção You get what you give
Que ouço pensando em ti, em nós…
Não podemos abdicar daquilo em que acreditamos
Don't give up
You've got a reason to live
You can not forget
You only get what you give
Finalmente, agora
Tenho algo importante porque lutar
A good reason to live
Obrigada, meu amor
Pelo que me fazes sentir
I got the music in me
The reason to live
O amor está aí a chegar
Esperas-me lá fora
You're a good reason to live

C.P.

(cito, em itálico, versos de uma música dos New radicals, de que gosto muito)

quarta-feira, setembro 10, 2008

Minha querida

Às vezes vem ter comigo uma vontade louca de estar contigo, mas tal acontece mais quando realmente já estou. Penso que deve ser pelo óbvio da situação. Felizmente, a vontade que tenho de matar toda essa ansiedade leva-me a que me controle.
Apetece-me estar contigo. Apetece-me estar com os meus amigos. Às vezes, parece que não posso estar com ambos. Por vezes, penso em todos aqueles com quem poderia sair, pondo-me a eliminar um a um por motivo de repetição. Sobras tu, o sentimento perdido.
Não escrevi nada nos primeiros dias em que estive contigo. Ou melhor: não te escrevi destas cartas; sim, destas cartas que, se calhar, nunca irás ler. Mas escrevi dois textos: um sobre o quanto te queria, pois é mesmo disso que falo no texto, isto é, sobre um momento nosso e, depois, sobre um desejo meu; o outro é acerca de escolhas; falo de tudo metaforicamente mas, com atenção, vê-se que é de escolhas que realmente falo. Acabarei por te dar a ler esses dois textos, mas estas cartas talvez sim, talvez não.
Resolvi este ano ser mais verdadeiro, mais do que era. Impossível? Não. Vais ver-me ser desagradável. Não gosto de mensagens subliminares. Se queres dizer algo, di-lo logo. Ainda hoje não me querias ter contigo. Perguntei-te se querias que me fosse. Disseste que não e, apenas uns minutos depois, reconsideraste. Peço-te: não voltes a fazê-lo. (Pena é que não estejas a ler isto).
Não me importo de me afastar. Realmente, tu precisas de espaço. Tanto quiseste que to preenchesse que a certa altura já só querias que me fosse. Mas foste-te tu.
Estou confuso, conforme se pode perceber. Tudo cá dentro é uma confusão: o querer estar contigo; o controlar a ansiedade; o ser desagradável quando a tua resposta não é favorável, apesar de, para o ser, ter talvez de ser a que menos me favorece. Quero a verdade!
Quero estar contigo, quero ter-te mas, de certa forma, já te tenho. Já te tenho nos meus braços, nas minhas palavras, nos meus mimos. És tu e só tu. Mas a minha mente, o meu sentimento também se afasta e, quando estou longe, não sinto a mesma saudade. Sinto, apenas, o mesmo ciúme. Estou confuso…
Um beijo,

Braga, 19 de Setembro de 2006
.
José Pedro Cadima

terça-feira, setembro 09, 2008

Dá-me algo (memória)

Dá-me algo que amar.
Dá-me o teu corpo
e, com ele, a tua alma.
Dá-me algo
que vá ao encontro
da minha ânsia profunda,
algo que juntos possamos conceber.

José Pedro Cadima

domingo, setembro 07, 2008

Tocar-te (me)

Quando te toco
O mundo não existe
Existimos nós…
Simplesmente tu e eu
O mundo continua lá fora
Alucinante como sempre
Perguntas-me as horas
Não as sei dizer-te
Adivinho-as, ainda tonta de te amar
Toco-te mais profundamente
Indiferente ao passar do tempo
Ao mundo de lá de fora
Que não se interessa por nós
Deslizas os teus dedos
Deixo tocar-me
Sinto-me tua e
Sinto-te meu
Simplesmente tu e eu
O mundo…
Esse pode continuar lá fora…

C.P.

sexta-feira, setembro 05, 2008

Tu

Senti-me mal. Pensei até chorar. Não era capaz: tinha aprendido a não o fazer.
Decidi tomar um banho. A água morna acalmou-me. Relaxou-me cada músculo anteriormente preparado para rebentar. Mas não chegava.
Fui à casa de banho buscar um pente. O pente deslizou-me sobre os cabelos encaracolados. Arrancou montes deles.
Penteei o cabelo para à frente, para me tapar os olhos. Aos poucos, as pontas encaracolaram-se para cima e deixaram ver a minha cara novamente.
Continuo sob pressão. Se não gritar, reterei tudo dentro de mim. Se gritar, serei egoísta.
Decidi masturbar-me. Não tenho vontade, não tenho desejo. Apenas quero libertar a tensão.

José Pedro Cadima

quarta-feira, setembro 03, 2008

Eu não sei…

De repente, nada parece certo.
De repente, tudo faz sentido:
o meu desespero,
a minha angústia,
a minha busca, tu.
Resposta?
Talvez!

Certeza, só tenho a que me aportas.
Segurança, só me resta a que tu me dás,
mas quase nunca fora do teu regaço.
Talvez amanhã ou num futuro mais largo
saberei recuperar a crença
que esta luta sem esperança
faz sentido,
que esta batalha que travo
pode devolver-me o sorriso perdido.

Sorriso?
Para já, só o recupero quando, no teu regaço,
me reencontro.
Apenas só o tempo do teu regaço.
Fugaz que é, vale a pena.
O teu regaço é um sortilégio:
a minha angústia sai diminuída;
a minha busca cessa.
Tu fazes sentido!
Eu? Não sei!
Eu não sei…

José Cadima

domingo, agosto 31, 2008

Minha Querida Helena

Sentado à mesa do restaurante, olho a mulher de cabelos louros que se senta, só, à mesa do piso inferior, à beira da doca, e penso em ti. Nos seus cinquenta anos (estimo), entretendo-se com o telemóvel, que pensará aquela mulher? Que angústias a assaltam? Porque se refugia no mexer nervoso no seu telemóvel cor-de-rosa? Cuidada no vestir, cuida-se porquê?
Só, à mesa, olhando o agitar das águas fronteiras, sentir-se-á só, como eu, porque me faltas tu, ou está simplesmente só?
Congratulo-me que se tenha ido embora entretanto. Assim, a tua ausência é-me menos penosa, a tua lembrança é menos permanente. Porque me trouxe a mulher que se encontrava lado a lado com a água desta doca a tua memória? Porque me sinto eu só ou porque me custa a tua ausência?
Quem se sentará de seguida na mesa agora deserta? Outra mulher loura, só, mexendo nervosamente num telemóvel cor-de-rosa ou de outra cor qualquer? São estranhos estes destinos que nos trazem longe e perto e nos confrontam com as angústias, supostas, dos outros, que, porventura, são sobretudo as nossas angústias.
Hoje, meu amor, sobretudo hoje, nesta hora, teria preferido ter-te aqui comigo, para que a imagem da mulher sentada, só, na mesa da frente, não me fizesse lembrar a minha solidão, as minhas angústias, a falta que me fazes, particularmente em ocasiões como esta.
Um beijo grande,

José Cadima

sábado, agosto 30, 2008

O teu amigo desconhecido (2)

De ti eu gostei.
Ainda gosto …
embora preferisse que fosse doutro modo.
Não te amar, eu tentei,
mas perdi.

Que sou eu sem ti, para ti?
Sem, no mínimo, ser teu amigo,
sou apenas alguém,
alguém que não vai para além
de um desconhecido.

José Pedro Cadima

sexta-feira, agosto 29, 2008

Deitar-te (me)

Deito-me e sinto-te a meu lado
Ainda ouço o sussurrar das tuas palavras
Que disseste há pouco no meu leito
Queres deitar-me
Aconchegar-me no meu leito
Sinto esse gesto
Mesmo estando tu ausente
Viro-me e recordo as tuas palavras
Envolvo-te nos lençóis
Deito-te a meu lado…

C.P.

quinta-feira, agosto 28, 2008

Minha Querida Helena

Sabendo-te longe, penso em ti. Estivesses tu perto e mais pensaria em ti. É estranho o que nos torna próximos, e mais intrigante é o que me faz correr para ti. Talvez em razão dessa estranheza, por vezes, sinto-me tentado a fugir-te.
Leio as tuas cartas e questiono-me sobre o que fazer com o teu amor, o que fazer contigo, desconfortado com esse amor que me dedicas, eu que me habituei a dores múltiplas e a amores que me trazem sofrimento. Certo de vir a desapontar-te, chego a perguntar-me se não teria sido preferível que essa paixão nunca tivesse despertado, que o acaso não te tivesse levado a olhar para mim como objecto de amor.
Não, não sei corresponder aos teus anseios, à tua sede de carinho. Objecto de amor, fico sem graça, mesmo se sem graça sempre estive, incapaz de dar-te o xicoração que mereces e incapaz de to negar por nele me reencontrar com uma dimensão escondida de mim. Refiro-me àquela dimensão que revela o ser carente de amor que sou.
Perturbado, passo em revista os breves momentos do nosso encontro, ainda tão recente, já tão intenso. Recordo o jogo com que pensei escapar-te, fugindo a admitir quanto me cativava imaginar-me desejado, objecto do teu amor. Soçobrei, fiquei aquém do que era exigível para resistir aos laços com que quiseste envolver-me. Frágil, outra vez. Frágil sempre, talvez quando fosse mais necessário que me mostrasse forte, inacessível na minha carência angustiada.
Sabendo-te longe, desejava-te perto, bem colada a mim.
Um beijo grande de saudade,

José Cadima

quarta-feira, agosto 27, 2008

Abdicar

Abdicar… Aí está algo realmente difícil. Só a palavra já inspira medo.
Abdicar… A sua força derrubaria não uma montanha mas uma serra inteira. O seu peso puxaria o sol até mim.
Já perdi tudo, já perdi tudo tantas vezes… Agora abdico, abdico daquilo que uma vez perdi e de que, quando tomei a certeza que era meu, abdiquei.

Acendo um cigarro (eu não fumo, apenas me vejo com um cigarro nos momentos mais mórbidos; talvez seja em razão da proximidade da morte), vejo o fumo sair e, subitamente, começa a chover (o tempo é sempre o mesmo, a chuva cai dos meus olhos!). Apago o cigarro e percebo que estou descalço, nu e num deserto gelado, na noite mais fria do ano (sentimento constante).

Abdiquei da lua pois não encontrei nada mais belo. Desejei ser outro. Desejei que tudo fosse diferente. Depois desejei ser eu mesmo e ter tudo como agora. Tornei isto num ciclo de desejos. Por fim, passei a contradizer-me. Agora tento perceber qual deles sou e como está tudo.

O vento gelado sopra e trás com ele neve. O meu corpo não cede. O fumo daquele cigarro é como a dor que sinto: algo acabado de tirar do coração, sempre quente.
A dor é que me mantém vivo. É a prova de que sinto. Se não houvesse dor, não havia nada.
Dirijo-me para norte. Qualquer Canguru ficará feliz por me ver e acolher em sua casa.

Abdiquei ainda no outro dia de um pouco de tempo da minha vida. Foi por uma boa razão: meter o ombro deslocado no sítio. Tive, pois claro, o custo de oportunidade: não vi de que é que tive que abdicar mais. Quando souber o que foi, chorarei por isso.

Estou a ver ao fundo a casa gelada.
- Abdicarás do teu deserto gelado para entrar nesta bela casa? – perguntou o Canguru.
- Ó meu filho da puta… Põe-te no caralho!

José Pedro Cadima

segunda-feira, agosto 25, 2008

Minha Querida Helena

Obrigado pelas tuas mensagens. Não te sintas obrigada a comunicar comigo enquanto estiveres por essas paragens longínquas. De vez em quando, é bom cortar com o mundo.
A minha comunicação é só na 6ª feira à tarde, na véspera de regressar.
Vejo que os campos de milho começam a agitar-te. Nota o seguinte: os campos de milho fornecem uma cobertura excelente para quem penetre neles. Normalmente, as plantas são muito altas e densas. No passado, o milho era criado de forma menos densa e no mesmo chão era cultivado feijão rasteiro, não tomates. Quem quisesse usar o campo de milho para outras actividades que não a sacha ou a rega, podia fazê-lo com razoável à-vontade. Obviamente, talvez ficasse um pouco empoeirado mas, em situações de emergência, isso pouco importaria, até porque a actividade agrícola já implica, ela própria, lidar com alguma poeira. Isto dito, encontras aqui o fundamento para a ficção criada em torno do milho. Hoje em dia, creio que os campos de milho perderam muito do seu encanto, mesmo pelo modelo de cultivo praticado.
Espero ter dado um modesto contributo para o esclarecimento da questão candente que colocavas.
Também gostei "um poucochinho" de estar contigo ontem. Forneceu-me ânimo para a semana que se avizinha, e alguma preocupação.
Dado gostares um bocadinho de mim, como dizes, sou obrigado a dar um desconto grande às considerações que fazes, nos diferentes aspectos a que te referes. Essa de eu ter umas pernas bonitas não passaria pela cabeça de ninguém mais objectivo. Conforme te expliquei variadas vezes, algumas mulheres é que têm pernas e rabos bonitos. Felizmente, é o teu caso.
Não sei igualmente o que te dizer quando te referes à eventualidade de algumas mulheres se apaixonarem por mim. Seguro, até hoje isso só aconteceu com uma, o que acabou por lhe ser bastante penoso, desgraçadamente. Ainda estou por perceber como pôde acontecer. Para teu conforto, espero bem que isso não venha a acontecer contigo. Os meus sentimentos procurarei eu gerir da melhor forma que puder e souber.
Agradeço a atenção das notícias em cima da hora. Isso de pontos, vírgulas e pontos de interrogação é só um detalhe. Fico feliz com o teu sucesso, mesmo sabendo da minha incapacidade de concorrer com propostas tão tentadoras quanto aquelas que te foram apresentadas. Era expectável esse êxito, digo eu que te conheço relativamente mal. Obrigado pela simpatia de me associares ao teu sucesso. Permite, no entanto, que te faça um reparo: "porra" não é um termo adequado para ser usado por uma senhora com a tua educação e posição. Admito que o tenhas usada neste contexto de familiaridade, o que te desculpa.
Com um programa tão intenso de conferências, até pela ausência de recursos com que nos confrontamos, não acho sensato que procures reter nenhuma das minhas. Ponderarás melhor o assunto. Depois, voltaremos a falar.
Agradeço o esforço que fizeste e os incómodos a que te deste para que possamos estar uns momentos juntos, colados, num futuro próximo. Estou a precisar muito desse refúgio. No entanto, se a minha mensagem, nos parágrafos precedentes, te desapontou demasiado, não te inibas de cancelar o encontro. Há dias em que não sou capaz de ser mais positivo.
Um beijo grande,

José Cadima

domingo, agosto 24, 2008

“Por esta auto-estrada acima”

“Num país à beira mar plantado, existiu em tempos um ministro que se auto-intitulava de «fazedor de auto-estradas». E, efectivamente, inaugurou algumas, se bem que nunca se lhe conhecessem dotes de cantoneiro ou de servente de obras públicas. Porque lhe pareciam poucas as que inaugurava, implantou mesmo a tradição de as ir colocando ao serviço por troços; 5 km agora, mais 10 pouco depois, mais 7,5 quinze dias volvidos. Outras vezes, inaugurava primeiro as pontes, depois os espaços entre pontes, para, finalmente, cortar a fita do conjunto.
Andava o dito ministro nesta azáfama quando lhe trouxeram a boa (má) nova: havia sido despedido. Distraídos que andavam, ele e os demais ministros, haviam-se esquecido que as estradas não servem só para trazer, servem também para partir, e a hora de dizer adeus havia chegado.
Acabrunhado, sacola ao ombro, lá foi ele à procura de novas vidas, havendo quem diga que, na hora da despedida, procurava abafar o desgosto que lhe consumia a alma repetindo até à exaustão a frase enigmática seguinte: «um dia, ainda hei-de chegar a regedor do Terreiro do Paço e do Campo de Santana».
Ora, acontece que ao «fazedor de auto-estradas» veio a suceder um ministro que, não sendo embora apologista dos celebrados caminhos de cabras, tinha uma aversão especial aos colaboradores, que lhe ficara do tempo em que, ainda bastante moço, usava percorrer a igreja de bandeja em riste recolhendo as oferendas dos devotos. Cientes disto, logo alguns paroquianos mais vivaços reclamaram a abolição das portagens nas respectivas freguesias, não cuidando de esclarecer que a única razão porque reclamavam tratamento particular era por serem afilhados e/ou sobrinhos da D. Felisberta, ela, por seu turno, aparentada com o Sr. do Porto (não confundir com o Senhor Porto).
Instalada que foi a confusão, logo outros de paróquias mais afastadas entenderam não lhes assistir menor razão para se desfazerem das portagens; até porque, não sendo embora parentes da mencionada senhora, tinham também na família alguma Felizmina ou Adalberta.
Estava a coisa neste pé quando alguém, de cujo nome não ficou registo, se lembrou de perguntar quem pagaria as auto-estradas por fazer e, mesmo, a reparação das que haviam sido feitas. E mais perguntou o mencionado cidadão se alguém cuidara de avaliar o impacto sobre a fluidez do tráfego da abolição das portagens.
E a seguir a este cidadão vieram outros que inquiriram sobre os efeitos suburbanos de uma tal política de transportes e comunicações, e sobre o custo social da promoção do transporte individual em detrimento do transporte público. E vieram outros que deixaram outras perguntas, que de tantas serem já não enxergo.
Foi nesta altura que o ministro, empossado de fresco, teve pela primeira vez a sensação que tinha feito mau negócio ao aceitar o cargo. Depois dessa primeira vez, esse mesmo sentimento lhe haveria de ocorrer em múltiplas ocasiões ao longo do seu percurso, embora curto ainda.”

J. C.
(reprodução integral de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 95/12/16, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)

Cartas de Amor ou quase

Conseguiste distorcer tudo quanto eu disse.
-
Não te incomodo mais. Sei que estás cheia de trabalho, e o tempo que perdeste comigo ontem não te ajudou nada.
-
Dar-me-ás notícias oportunamente, se te sobrarem uns minutos para me dares alguma atenção.
-
Havemos de arranjar alguma coisa, no pressuposto que não te percas de amores pelos lugares para onde vais.

José Cadima

sexta-feira, agosto 22, 2008

A Janela

Há dias em que a janela tenta falar de mim às pessoas que não conheço. Tem vontade de me dar a conhecer. Tem vontade de contar meus segredos a toda gente. Nas ruas da vizinhança, ela fala e tenta não se calar. Tim-tim por tim, conta que esta manhã me ajoelhei perante mim mesmo, ao tropeçar nas escadas. Já dizia eu a mim mesmo: “Um dia cairei para me ajoelhar em frente de algo que todos os dias piso”.
Certo dia, ouvi a janela gritar. Queria contar ao senhor coelho que lá fora passava que eu queria ir atrás dele para o matar. Não podia ser assim! O homem, enquanto caçador, tem que matar para comer. O coelho tem que morrer para que eu possa dizer que comi.
Tranquei-me cá dentro, engendrando modo de a fazer calar. Se a via aberta, fechava-lhe a boca. Lá para fora não diria mais nada. Mas não era isso que a calava: os vidros partiram, como que lábios a rasgar, e a janela falava, falava. Nada a calava.
- Oh janela, cala-te! - dizia eu transtornado – Não contes mais a minha vida aos senhores que moram aqui ao lado.
Já todos sabiam quem eu era na rua; não bastava que soubessem quem eu era em casa. Já todos sabiam onde vivia; não bastava sabê-lo eu. Talvez um dia, bêbado e sem encontrar meu caminho, isso me possa ajudar. A quem enganava eu? Bêbado, sei melhor o caminho para casa. Sempre a direito e contornando as curvas, nunca me engano.
– Mas janela, oh minha janela, cala-te! – Não se calava. Pedi um tempo de silêncio. Não o respeitou… Cada dia que passava, mais as pessoas para mim apontavam. Comentavam umas com as outras quando saia, quando entrava… Perseguiam-me, verdadeiramente. Sei que sim, que sabiam meus segredos, meus fracassos. A janela contara tudo, até o chichi que fizera na cama, em criança. E eles, eles que me perseguiam, usariam isso para me assustar, para me corromper, para me atacar. Estava criada a oportunidade de me chantagearem!
Fartei-me da janela. Não se calava… Metia-me medo, agora mais que nunca. O que iria ela dizer-me a mim? A mim, digo, não aos outros. Os outros, sabia eu que já sabiam tudo. Os outros, sabia eu que me iriam fazer sofrer e destruir. Tinha medo do que a janela me diria. Tinha tanto medo… Poderia ela saber quando eu morreria?
Um dia, sem sequer a fechar, comprei tijolos e cimento e, a bem ou a mal, fechei-a para que se calasse de vez. Achei-me protegido.
- Agora, já não falas. Nada mais lhes dirás! Não lhes poderás dizer que fui para longe. Ficarei a salvo, sabes!? A salvo! Apenas mais esta noite dormirei em casa e, para entrarem, teriam que fazer tanto barulho que me mataria primeiro. Teriam que destruir este muro para aqui entrar.
*
De noite choveu. O vento era tanto… A janela batia. Batia com tanta força… Imaginando-os lá fora, aos outros, aos seus horrores, o homem da janela ficou com tanto medo que agarrou numa caçadeira que tinha, meteu-lhe cartuchos e disparou.

José Pedro Cadima

terça-feira, agosto 19, 2008

Descreve o amor (memória)

– Escreve uma composição descrevendo o amor!
– Não sei!
– Tens que saber!
– Já por mais de mil vezes tentei e nunca o consegui.
Em todos os livros procurei e não achei o significado.
Se não existe definição como posso eu descrevê-lo?
De todas as maneiras como foi descrito o amor
aquela que melhor interpreta o que sinto é a dor.

José Pedro Cadima

segunda-feira, agosto 18, 2008

Sinto-te (Estás longe)

Tão presente te sinto
E tão longe estás… apenas de mim…
Quero sentir-te perto
Perto de mim…
Revelar-te que Te Amo
Que és Tu
Quem eu quero
E Amo

C.P.

sábado, agosto 16, 2008

Cartas de Amor ou quase

Sublinho: se tens coisas por fazer, dá-lhes prioridade. Eu ficarei sempre para uma 3ª ordem de prioridades. Não levarei a mal.
-
Essa é matéria para ser tratada pessoalmente, de preferência, para que tudo resulte muito bem esclarecido.
-
Se achares que não me deves falar mais, aceitarei. Ficarei triste mas aceitarei. Dir-me-ás o que entenderes ou não me dirás nada.
-
Estou, de facto, cansado. Neste caso, não foi culpa tua: um beijo trocado às escondidas não desgasta tanto.
-
Quanto a gostares um bocadinho de mim, não é problema. Eu também gosto um bocadinho de ti.

José Cadima

sexta-feira, agosto 15, 2008

Diário de uma viagem - décimo-segundo dia

Olá,
Já estive a fazer a mala. Ao fim da noite devo acabar de fazê-la. Amanhã volto para Portugal.
"1.1 CADIMA/JOSEMR
1. TP 386 S 03AUG PORTO / LONDRES (LHR) HK1 1620 1835
2. TP 8953 S 03AUG LONDRES (LHR) / MANCHESTER HK1 2050 2155
3. BD 597 E 16AUG MANCESTER / LONDRES (LHR) HK1 1410 1515
4. TP 387 S 16AUG LONDRES (LHR) / PORTO HK1 1925 2135"
No bilhete ainda tem um autocolante da TAP, que tapa a hora. Removo-o ou deixo estar quando o apresentar no check in?
Um abraço,
.
José Pedro G. Cadima
-
Olá,
Compreendo mas, apesar desse acontecimento, Liverpool é a cidade mais activa em termos de música do Reino Unido. As bandas com origem em Liverpool passaram mais tempo no top musical do que as bandas com origem em qualquer outra cidade, mesmo Londres. Repara que já era uma capital da música.
Agora que me vou embora, não tem importância. Nota que eu não disse que isto foi uma má experiência. Também conheci pessoas interessantes, mas é uma cidade onde tenho dificuldade em ir a lugares onde me possa divertir.
Sim, amanhã também tenho aulas. Já me deram o certificado, mas não diz quanto tempo cá fiquei nem em que nível estou. Apenas diz que estive presente nas aulas na EF, em Manchester.
Um abraço,

JPGCadima

quinta-feira, agosto 14, 2008

Diário de uma viagem - décimo-primeiro dia

Olá,
Não foi isso que eu disse. O que eu disse foi que a cidade de Liverpool faz mais o meu género, por isso eu devia ter ido para lá ao em vez de vir para aqui (para Manchester). Não falei em nenhuma ERSA e apenas referi aquela data porque tu e o meu irmão estarão lá nessa altura.
Uma das minhas aulas foi sobre um parque florestal a norte de Manchester; outra foi sobre a cidade a Oeste (Liverpool). Vai haver um festival de música quando lá estiveres. O centro da cidade estará fechado - daí a data de 24/25 de Agosto.
Um abraço,
.
José Pedro G. Cadima
-
Olá,
São só mais dois dias e estou em Braga!
Estou um pouco desapontado porque pensei que seria uma experiência melhor. Liverpool é bem melhor. Parece que os bares e pubs de lá têm muito melhor ambiente e identificam-se muito mais comigo, além de que passam muita música pop/rock.
Um abraço,

José Pedro G. Cadima

quarta-feira, agosto 13, 2008

Desaparecer

Desaparecer: quantas vezes não desejamos nós isso?
Um desejo repentino, surgido após uma cena desastrosa. Quando tudo acontecer, não é aqui que quero estar. Quando tudo se revelar, não quero existir.
Querer desaparecer mantém-nos acordados à noite, muitas vezes. Tentar fechar os olhos ao dia de amanhã. Tenho medo, não sei o que me reserva o dia de amanhã.
Um olhar sobre a vida. Memórias que nos fazem ferida, que nos dão vontade de desaparecer.

Vi-te um dia e decidi que te queria. Tu decidiste não me querer, da mesma maneira. Tive então vontade de desaparecer.
Culpo-te a ti e a todos por me terem dado essa vontade. Vi cada dia passar e dizer-me que tinha fracassado. Ou desapareço ou choro! Chorei.

Escolheste outro. Tu e o outro. Eu e a dor.

Todos os dias te vejo adormecer antes de mim… Espero sempre que os teus olhos fechem e mergulhes nos teus sonhos para que eu possa então chorar.
Mergulhas nos teus sonhos e os meus olhos ganham brilho. Depois, uma lágrima traça um carreiro de água salgada até à almofada onde tento desaparecer.

Tenho na memória a rejeição, o dia em que preferiste outro, os carinhos que perdi. Agora, que te tenho, só falta mesmo fazer desaparecer os parágrafos que surgem acima.
Apagá-los será fácil. Difícil será apagar da minha memória os dias tristes, os dias em que faltaste.

José Pedro Cadima

Diário de uma viagem - décimo dia

Olá,
Bem, eu acho que vale a pena ver. Mas eu vi-o num IMAX, por isso a experiência é diferente - tem um efeito maior na audiência do que um cinema normal.
Certos pormenores são excessivos, mas eu achei-o um bom filme. E tem tempo suficiente: duas horas e tal. É muito mais completo do que outros filmes baseados na banda desenhada.
Um abraço,
.
José Pedro G. Cadima
-
Olá,
Sim, eu sei. Acho que vou 4 horas antes para ter a certeza que encontro o meu terminal.
Fui ver o Batman no ecrã IMAX. Por isso, foi uma boa experiência, já que o ecrã é o maior de Inglaterra.
Um abraço,
.
José Pedro G. Cadima

Seduzir-te (seduz-me)

Sinto o teu carinho
E o sorriso que me fazes chegar.
Tento comunicar contigo
Seduzir-te e ficar a deambular.
As tuas mãos me seduzem
São elo de transmissão.
Mas, às vezes, acordo
E constato que é apenas um sonho
Um sonho que se tornou realidade.
Meu amor, que bom que é voltar a sonhar
Que bom é saber que o amor voltou a brilhar.

C.P.

terça-feira, agosto 12, 2008

A vida pára (memória)

Não há nada que eu te possa dizer
para que te sintas melhor.
E seria estúpido dizer-te que a vida continua,
pois tu sabes tão bem como eu
que a vida pára
naquele exacto momento
em que se deixa de amar alguém.

José Pedro Cadima

Diário de uma viagem - nono dia

Olá,
Penso que dentro de dez anos, com o crescimento de Moçambique, de Angola e do Brasil, serão os franceses a ter de aprender Português. De qualquer forma, não é uma língua que aprecie, tal como não sou fã da cultura francesa.
Hoje vou aos cinemas IMAX (o maior do Reino Unido) para ver o Batman.
Eu tenho dinheiro e tenho um cartão de débito, se necessário. Acho que vou de táxi pelas 10h para ter tempo para procurar o meu terminal.
Um abraço,
.
José Pedro G. Cadima
-
Olá,
Sim, poderão ser excessivos, mas há um ou outro dia que só tenho uma ou duas aulas, como é o caso do dia de amanhã. Por isso, vou tentar.
O indigena que partilha o meu quarto é francês e isso já é mau o suficiente. É uma pessoa simpática, mas não consegue parar quieto e o pior é que há aqui tantos franceses que fala-se mais francês do que inglês e o resto do pessoal fica de fora das conversas.
Um abraço,
.
José Pedro G. Cadima

segunda-feira, agosto 11, 2008

Diário de uma viagem - oitavo dia

Olá,
Acho que o peixe é igual ao que como na cantina da Universidade do Minho. As chips são praticamente iguais, embora um pouco mais gordas que as nossas.
Sim, compreendo isso das coisas diferentes, mas repara que é exactamente a mesma coisa em Portugal. Existem na mesma discotecas e eu já lá fui. Simplesmente não é algo novo.
Sim, a minha mãe parece-me agitada. Metem-se-lhe coisas na cabeça. Deverias conversar um pouco com ela - parece-me preocupada.
Tenho dois enormes projectos para esta semana: vou ler um livro e estava a pensar em escrever uma história. Vamos lá ver se me surge inspiração para o fazer.
Um abraço,

José Pedro G. Cadima
-
Olá,
Repara que eu em Portugal, no Verão, vou sempre a festivais e a concertos, etc. No entanto, são locais frequentados por pessoas com os quais me associo. Aqui, grande parte dos estudantes não frequentam esse género de locais - são mais de discotecas.
Claro que há sítios mais apropriados para mim, isto é, onde eu possa ir. Não há é com quem (encontrei um "nightclube" de HardRock, por exemplo).
Eu gostei do fish and chips, mas ficou abaixo das expectativas. Os pratos mais famosos dos países mediterrânicos parecem-me melhores. Certamente são mais complicados e/ou originais.
Um abraço,
.
JPGCadima

domingo, agosto 10, 2008

Diário de uma viagem - sétimo dia

Olá,
Foi um fim-de-semana estranho. Tive aulas no sábado de manhã e fui à cidade dar uma volta.
É um bocado difícil divertir-me por aqui já que não tenho sorte em encontrar pessoas com as quais me identifique. Encontro muito é daquele pessoal com o qual não me dou, infelizmente.
Fui a um Take away de comida britânica, mas o fish and chips ficou aquém das expectativas.
Um abraço,
.
JPGCadima
-
Olá,
Não penso voltar mais gordo do que quando vim para cá.
Eu tenho uma eterna fase de pouca eficiência no uso do meu tempo. Nem sempre é mau. Poder-te-á fazer bem!
Eu falei com a Isa ao telemóvel e ela tinha assuntos pendentes por isso não respondeu. Obviamente que estou a gerir o assunto. Ela irá voltar aí para responder numa altura em que tenha mais tempo.
Um abraço,
.
JPGCadima

“Onde se fala de Manuela Ferreira Leite e de mau gosto”

“No Notícias do Minho de 9 de Setembro pp., assinado por João Hemingway, surgia um artigo que se reportava a Braga de A a Z, onde, se definia Notícias do Minho do seguinte modo: «sou amigo do director e fica-me mal dizer bem. Faltam algumas coisas, mas sendo o único em Braga que emerge da sociedade civil, é imprescindível que se transforme no jornal de referência».
O leitor mais desatento talvez se questionasse com o que, naquela frase, se queria pôr em destaque na ideia «que faltam algumas coisas», e é por isso que acho louvável a ideia do director de incluir algumas páginas adiante um artigo, na secção «Opinião», que se afigura particularmente esclarecedor. O que é chato, na circunstância, é esse material pecar por excesso ao invés de por defeito, isto é, estar a mais.
A natureza do artigo fica perfeitamente a descoberto logo nos destaques que o editor entendeu fazer, ao enunciar que «o autor lança um olhar sobre questões de fundo do nosso Ministério da Educação» e «gosta de Manuel Ferreira Leite». Tanto bastou para que eu ficasse siderado: eu que me havia convencido que se havia ministério que não tinha fundo nem ponta por onde se lhe pegasse era precisamente o ministério da educação; eu que havia defendido nas páginas deste mesmo jornal que era preciso ser detentor de muito mau gosto para ser atraído pelos olhos ou pelas falas, tudo menos doces, da senhora Manuela Ferreira Leite. Mas é mesmo assim: continua a haver gostos para tudo.
Se os sublinhados do editor são uma obra-prima, que dizer então do conteúdo do artigo propriamente dito?
A resposta não pode deixar de sublinhar: i) o espanto pelo rigor da análise – bem apoiado pela invocação multiplicada de números e índices estatísticos diversos; ii) o espanto e admiração decorrentes do recurso a terminologia técnica identicamente rigorosa, de que retenho especialmente a referência à «revolução da pílula»; iii) o espanto perante a qualidade do discurso literário, bem ilustrado em passagem que se refere às escolas abertas com um só aluno, «este, coitado, sem um condiscípulo para brincar e trocar ideias, dia a dia, ano a ano, acompanhado pelo mostrengo do professor».
E se não fora o espanto, o artigo em epígrafe tocaria pelas perplexidades múltiplas que não podia deixar de despertar no leitor. Já me referi, a propósito, ao fundo do ministério sem fundos, mas que dizer de «caras que não enganam» e de ministros que «devem» ser honestos? Que dizer da expectativa enunciada de virem a ser feitos «edifícios condignos, bem localizados» nos centros urbanos para acolher uma população escolar em franca regressão? Que dizer da notícia sobre o «progressismo» reinante nas repartições e direcções do ministério da educação?
De realçar do conteúdo do artigo a que me venho reportando é ainda a menção que o autor faz à série britânica «Sim, Senhor Ministro». Daí, fica a saber-se que a série não lhe serviu para nada, e mais lhe teria valido continuar a usar o seu tempo assistindo aos concursos e/ou às telenovelas.”

J. C.
(reprodução integral de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 95/10/07, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)

sábado, agosto 09, 2008

Diário de uma viagem - sexto dia

Olá,
De facto, desconhecia que já estavas a fazer o meu diário de viagem!
Tentarei não vir daqui mais gordo, mas cozinho muito bem - tenho-me surpreendido!
Já viste algum dos textos da pasta zipada que deixei no meu pc?
Um abraço,
.
José Pedro Cadima
-
Olá,
Era um bar, mas era mais de bebidas do que de comidas, em especial, tinha cerveja sul americana e espanhola. Eu tenho comido bem - tenho uma cozinha no apartamento e é lá que, geralmente, faço massa, arroz ou batatas com carne, peixe e vegetais.
Uma boa novidade: finalmente comi o prato tipico, a saber: Fish and Chips!
Não tenho escrito nenhum diário, mas posso fazer uma compilação dos mails que te tenho mandado!
Um abraço,
.
JPGCadima
-
Olá,
Não me perderia tão facilmente. Sim, digamos que foi uma festa igual. Foi numa discoteca chamada "Copa Cabana", mas não passou música brasileira.
Eu vou sempre dando noticias.
Um abraço,
.
José Pedro G. Cadima

Tic-Tac do Amor

Muito tempo aguardei
pelo Tic-Tac de um relógio.
Máquina pouco emotiva
que tem o sentido que lhe quisermos dar.
O teu relógio me chamou
e ao teu Tic-Tac me rendi.
Mas quando contigo estou
o Tic-Tac pára.
Que será feito do tempo?
Se eternidade para toda a eternidade for
Contigo ficarei.
Atrai-me esse Tic-Tac
Sinto-o, mas ainda bem que pára
Quando contigo estou...

C.P.

sexta-feira, agosto 08, 2008

Diário de uma viagem - quinto dia

Olá,
Como a minha mãe te deve ter dito, eu falei com ela ontem. Ontem não tive oportunidade de ir à internet porque tive aulas e fui visitar o centro da cidade. De noite, fui a uma festa de estudantes da escola.
Referente aos baldistas, na escola está escrito que precisam de ir a 80% das aulas, mas acho que é só para meter medo porque eles continuam a balder-se. Parece-me mesmo que estão aqui pelo turismo.
Sim, já reparei que é dificil traduzir o texto, mas irei modificar o necessário para manter as ideias.
LOL = Laughing out Loud = Rir alto (sonoramente). Neste caso, sim "isto é uma festa".
Como já te disse, aqui não há televisão, mas sempre vejo um ou outro filme em inglês.
Um abraço,
.
JPGCadima

quinta-feira, agosto 07, 2008

Cartas de Amor ou quase

"Não te inibas de comunicar comigo sempre que tiveres vontade. Afinal, eu sou o teu actual psicólogo."
-
"Disse-te, de facto, o que se passava. Não estou seguro que essa seja sempre uma boa política. Em muitas ocasiões, é preferível deixar de lado certos assuntos, sobretudo quando eles nos tornam infelizes."
-
"Obrigado pelas tuas palavras, sempre carinhosas. Confirmo-te que não estarei em condições de te acompanhar esta noite no teu observar das estrelas."
-
"Decididamente, eu não fui feito para isto, como provavelmente não fui feito para muitas outras coisas."

José Cadima

Frases soltas

«Se te estás a referir à "crónica de maldizer" que publiquei hoje no meu blogue (em 2 deles), devo confessar-te que é mesmo da autoria de J. C., e não minha, isto é, não é da autoria do signatário desta mensagem, que, como podes comprovar, não assina assim. Tive o privilégio de aceder a uma cópia dos referidos textos, o que me permite publicar um ou outro, de vez em quando.
Estava longe de imaginar que o comentário era teu. É um comentário perspicaz. Tirando a referência ao António Barreto, poderia subscrevê-lo sem reservas.»
.
J. Cadima Ribeiro

quarta-feira, agosto 06, 2008

Diário de uma viagem - terceiro dia

Olá,
Tive uma aula esta manhã, mas tenho a tarde livre. Preferi vir para aqui para a internet porque os meus colegas de turma têm aulas que eu não tenho (estão em general), e os que se baldaram são demasiado desportivos. O meu parceiro de quarto está também na aula.
Só me restava mesmo fazer isto (estou a aproveitar para traduzir um dos meus textos).
Não tenho televisão! LOL
Um abraço,
.
JPGCadima
-
Olá,
Eles têm alguns cozidos e alguns bolos, mas é impossível encontrá-los.
Sim, só fui ao centro uma vez. Manchester é um bocado grande. Eu tenho um bilhete de autocarro que dura uma semana, mas só o usei uma vez porque é um bocado confuso ir de autocarro.
Este fim-de-semana, irei ao centro todos os dias porque sábado de tarde, domingo, e segunda não tenho aulas. Preocupo-me um bocado porque isto não é como em Amesterdão, onde todos os autocarros iam dar ao mesmo local. É um bocado confuso.
Alguns dos meus colegas passam o tempo a ir a Liverpool e a Londres.
Eu já enviei um e-mail à minha mãe. Ela pode não entender, mas para que eu responda é preciso que ela pergunte. De qualquer forma enviar-lhe-ei um em forma de relatório.
Um abraço,

José Pedro G. Cadima
-
Olá,
Só fui à cidade uma vez. Parece-me interessante e tem muitos edifícios magníficos, tal como muitos monumentos. Parece-me uma cidade muito moderna, talvez até demasiado, como venho comprovando pela falta de costumes britânicos, em detrimento de milhares de cafés italianos, indianos, franceses (até há uma Chinatown aqui!). Quando perguntei a um professor onde podia encontrar a verdadeira comida britânica, ele disse-me que não sabia porque ele a fazia em casa e nunca a comprava fora. Talvez todos os britânicos sejam assim.
Um abraço,

JPGCadima
-
Olá,
Pois, acredito que haja portugueses em todo lado. Há dois que jogam no Manchester United, mas aqui na escola parece que só há um, para além de mim. Talvez haja brasileiros, mas eu não falo com ninguém que comunique em português.
Sim, no meu apartamento existem dois franceses e a minha turma, que é de 15 alunos, tem 6 franceses.
Aprendi francês e não tive necessidade de o usar até hoje. Não aprendo porque até agora nunca senti necessidade do usar. Como tal, mesmo que voltasse a aprendê-lo ou recordar o que aprendi, voltaria a esquecê-lo por falta de uso.
Em relação a este lugar espectacular:
os azulejos da casa de banho estão a cair; quando me sentei no sofá pensei que me ia afogar, porque ele afunda; quando cheguei, uma das cadeiras estava em cima da mesa; temos uma colher para 3 pessoas; o leite tem um sabor esquisito; tive de comprar um conjunto para a minha cama e a almofada tem 1/4 do tamanho normal; as persianas das janelas não funcionam, por isso, quem olhar, consegue ver tudo o que se passa cá dentro; é frio à noite.
Não sei mais nada muito relevante que dizer-te. Quando voltar, contar-te-ei que tipo de aventura isto foi.
Um abraço,

JPGCadima

Choro (memória)

Olho-te nos olhos.
Viras-me a cara
e eu choro.
Falo para ti.
Ignoras-me
e eu choro.
Quero-te. Tu recusas ser minha
e eu choro.
Choro. Tu estendes-me a mão
e eu choro apenas por chorar.

José Pedro Cadima

terça-feira, agosto 05, 2008

Diário de uma viagem - segundo dia

Olá,
Encontraste a pasta com os textos?
Hoje foi o primeiro dia de aulas. Não houve nada demais.
O tema escolhido foi "Fit and Healthy", por isso é muito à base de vocabulário relacionado com o corpo humano. Nada que me esteja a interessar, para já, mas tenho falado muito inglês, embora as línguas mais faladas por estas bandas sejam o francês e o espanhol.
Um abraço,

JPGCadima

segunda-feira, agosto 04, 2008

Diário de uma viagem - primeiro dia

Olá,
Isto é muito caro. Tive de comprar umas coisas para a minha sobrevivência pois no apartamento não há nada, nem utensílios razoáveis; só meia dúzia de coisas quase inúteis - felizmente há um microondas.
Como vês: a Internet não será um problema. Também já tenho uma tomada.
Fiz hoje o meu exame e estou no antepenúltimo nível de inglês - PRE-ADVANCED.
Há um jogo do Manchester na quarta ou quinta. Talvez vá ver.
Amanhã virei à Internet.
Um abraço,
.
JPGCadima

“Idiossincrasias Bracarenses”

“Bracarense que sou vai para uma dúzia de anos (antes, tive, pelo menos, duas outras nacionalidades), ainda não consegui entender porque é que a polícia da cidade não faz férias repartidas, à semelhança do comum dos portugueses. Sucedendo como sucede agora, confrontam-se os habitantes desta urbe periodicamente com o espectáculo do aparcamento em plena Avenida Central, ao lado do parque de estacionamento automóvel ou, como também é muito comum, em segunda fila, Avenida da Liberdade acima. São obviamente apenas dois exemplos, gritantes sem dúvida, do transtorno que a inédita programação de férias que a PSP mantém desencadeia na nossa cidade.
Dir-me-ão a propósito que, no fim de contas, tudo não passaria de um assunto interno da corporação se os cidadãos fossem medianamente educados, detentores de algum espírito cívico. Isso são balelas!
Todos sabemos as economias que sucessivos governos e ministros da educação têm realizado poupando na educação dos portugueses, para investirem em cursos de formação profissional, em centros comerciais de Belém, na Exponorte, e em desfiles de gente fina promovidos pela ANJE; para já não fazer menção dos belos carros e espectaculares vivendas de alguns empresários de maior iniciativa, que vamos tendo.
A Dra. Manuela Ferreira Leite não é desse ponto de vista excepção, embora se tenha que reconhecer que padeceu ela própria da mesma filosofia de investimento na educação, não se podendo por isso exigir-lhe mais. Embora haja quem insinue que, neste caso, um esforço maior de formação também pouco adiantaria.
Uma outra idiossincrasia bracarense refere-se ao respeito sagrado que os meus concidadãos mantêm pelos feriados à segunda-feira. Que eu me recorde, nem uma vez assisti ao cumprimento menos zeloso por parte dos residentes de Braga de um feriado ou dia santo agendado para esse dia. O paralelo que encontro com esta consagração das segundas-feiras será, talvez, a repulsa que lhes suscita feriados ou dias santos à sexta-feira, especialmente se se trata do Natal, do ano Novo ou da Páscoa.
Dentro deste mesmo espírito de proceder ao levantamento sumário das idiossincrasias dos cidadãos desta urbe, poderia ainda trazer outros exemplos, como o hábito de comer «pão-de-rosca» ao Domingo ou a peregrinação do mesmo dia ao Feira Nova. Melhor será, no entanto, fazer delas tema de uma próxima crónica.”

J. C.
(reprodução integral de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 95/09/23, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)

domingo, agosto 03, 2008

Amar-te

Começo a Amar-te
Verdadeiramente Te Amo, Meu Amor.
Sensação nóbile…
Sabor estonteante, Meu Amor.
Tocar-te
Amar-te até me desfazer
Cair no teu feitiço
Enfeitiçar-me até me perder.
Perder-me de Amor por Ti
Verdadeiramente Te Amo, Meu Amor.

C.P.

sexta-feira, agosto 01, 2008

“Ainda há esperança - IV”

“3. Em contexto diverso, impressionou-me também um debate que escutei entre o Dr. António Braga e o Dr. Miguel Macedo, não tanto por falarem os dois ao mesmo tempo, mas, sobretudo, pela contundência da acusação feita ao PSD pelo primeiro dos políticos mencionados de que não sabe ser oposição ou, melhor, não consegue ser oposição responsável.
Ouvindo-o, não pude deixar de reflectir sobre a importância que assume o local de trabalho na formação dos indivíduos, e quanto, muitas vezes, essa aprendizagem em exercício deforma e enforma a postura de um trabalhador. No mesmo passo, ocorreu-me a crítica que vem sendo feita à governação do PS de falta de capacidade de inovação, de mimetização do governo de Cavaco, especialmente nos momentos de derradeiro eclipse.
No saldo do balanço mental que encetei, tenho que admitir que não fiquei entusiasmado com as perspectivas que o PS oferece aos portugueses, ou, pelo menos, a versão António Braga do Partido Socialista.”

J. C.
(reprodução parcial de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 96/06/01, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)

quinta-feira, julho 31, 2008

Relógio do Amor (memória)

Tic-tac, tic-tac,
pequeno som que faz o relógio,
pequena máquina de destruição
que me destrói por dentro,
pois és tu que me dizes
há quanto tempo estou sem ela,
sem a minha musa,
sem o meu amor,
sem o meu tudo.

Se tens pena de mim,
faz-me um favor,
um pequeno favor:
pára quando eu com ela estiver.
Pára para toda a eternidade.

José Pedro Cadima

terça-feira, julho 29, 2008

“Ainda há esperança - III”

“4. Para introduzir uma nota dissonante nesta crónica, quero entretanto dizer aos leitores que na ocasião em que a escrevia o dia se apresentava solarengo, e não via razão nenhuma para admitir que fosse o último dia em que isso viesse a acontecer. Ora, se eu fui levado a pensar isso, porque não hão-de os meus leitores, por seu turno, sonhar com o dia em que Vieira do Minho e Cabeceiras de Basto igualarão em rendimento «per capita» Lisboa e em que os políticos no activo não se chamem todos Mendes, Menezes, Braga, Dias, Lacão, Monteiro ou outros nomes igualmente denunciadores de política praticada ao seu nível mais rasteiro.”

J. C.
(reprodução parcial de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 96/06/01, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)

domingo, julho 27, 2008

Bela criatividade

Quão bela é a criatividade humana. Chega, até, a questionar o domínio dos deuses.

Assemelhava-se o homem a um chimpanzé. Vivia da colecta de frutos e da captura de animais. Ansiava dar às suas mãos uso e logo agarrou um pedaço do céu.

Doravante, via-se-lhe nos olhos um novo ser. Os deuses eram agora mortais. O poder de criar não morria.

Não fomos expulsos do Éden. Criámo-lo nós próprios. Deitámos por terra a perfeição por se ter tornado coisa antiquada. O horror vinha do instinto animal. O poder de criar, roubámo-lo ao céu.

Fez-se história: criámos o horror e a arte; separámos a vida e a morte; gritámos com a morte. Impusemos-lhe mais anos de vida. Aprendemos que a uma criança não se dá uma tesoura.

Aos deuses restou-lhes arrependerem-se de não serem tão bons pais.

José Pedro Cadima

sexta-feira, julho 25, 2008

Minha Querida Helena

De tão atarefada que estás, fico com um sentimento de culpa por ter-te desafiado para uma breve fuga para o mundo dos sonhos. Sinceramente, se vês que não é possível compatibilizar esse devaneio com a tua agenda pessoal e profissional, diz-mo. Não ficarei de modo algum zangado. Também há a alternativa de mudarmos a data. Se insistires em que fique como está, é de facto ao Minho profundo que me proponho levar-te. Sei de um lugar (há mais que um) que se me sugere bem acolhedor para uma noite mal dormida, eventualmente.
Fazes coisas muito giras com as tuas mensagens electrónicas. Nem imaginei que era possível fazer isso. Talvez te devesses dedicar às artes visuais, sobrando-te tempo.
No que respeita ao trabalho que tinha entre-mãos, já dei conta do recado, felizmente. Os artigos estão prontos, ficando a marinar até 2ª feira pela manhã, altura em que embarcam para o destino.
Já que falo de trabalho, deixa que te diga que não te sabia tão avessa a vassouras. Sinal dos tempos, porventura.
Não acho boa ideia que releias as minhas mensagens. De cada vez que o fazes vens com uma nova interpretação, como se as mensagens fossem ambíguas ou pretendessem dizer mais do que aquilo que dizem. No mais, fico-te eternamente reconhecido pelo teu carinho e atenção, e lisonjeado por me dizeres que a mereço, a atenção, digo.
Nos teus braços, sinto-me quase com os teus 19 anos. Isso perturba-me. Já não estou habituado a ter essa idade. Assim sendo, embora, ou por isso mesmo, anseio voltar para os teus braços.
Recebe um beijo muito, muito grande.

José Cadima

quinta-feira, julho 24, 2008

Viva a artificialidade!

No inferno, e não somos irmãos.
Juntos vínhamos, e não somos amigos.
Algures, roubei. Ele matou.
Fui preso, com fome.
O que é a fome, nunca soube ele.

Comemore-se este tempo de hipocrisia.
Viva a artificialidade!
Senda nela que nos cruzamos e achamos o nosso caminho,
comemoremo-la, pois. Hurra!

José Pedro Cadima

terça-feira, julho 22, 2008

Alpinista do amor (2)

Tal como um alpinista
escala uma montanha,
eu ensaio escalar teu coração.
A minha vida sem ti carece de sentido,
é solidão imensa;
só contigo se enche de emoção.

José Pedro Cadima

domingo, julho 20, 2008

Felicidade, essa miragem

A minha cabeça fervilha
com tudo o que me ocorre nesta hora,
com tudo aquilo que sinto e vejo
e com quanto anseio e não alcanço.
...
O silêncio, o choro,
o amor, o ódio, o desespero, a esperança…
…
Quem sabe se um dia, talvez…
Quem sabe se um dia serei capaz de ser feliz.
Tudo o que sinto, tudo o que desejo
parece trazer-me infelicidade.
Aquilo que procuro, não encontro.
Ao invés, algumas vezes encontro o que não procurava.
Choro. Fujo para longe, longe de mim, entenda-se.
Que farias tu no meu lugar?
Chorar, talvez,
tal qual eu faço, quando sou capaz.

José Pedro Cadima

(editado por José Cadima, nesta data)

sexta-feira, julho 18, 2008

O destino

Sou eu aquele a quem o diabo vendeu a alma.
Sou eu o terror no medo e o desespero no terror.
Ao desespero deixo-o sozinho.

Sabe deus quanto lhe custou um anjo.
Sei que o comprei por menos.
Sabe o homem o que é a dor
até ao momento imediatamente antes do pós-guerra.
Sei qual é a alegria de a começar.

Cultivam-se e esmagam-se plantas,
das mais feias às mais belas.
Sou eu que o digo, que sei bem do que falo.
Olho o homem nos olhos:
fica-lhe bem a morte!

José Pedro Cadima

terça-feira, julho 15, 2008

Olhar-te

Olhar uma paisagem
Que sempre esteve lá
Mais alucinante que uma nova paisagem
É olhar-te, ver-te lá
Sentir a emoção de explorar-te
Sentir que sempre estiveste por lá
Captar o teu olhar
Olhar-te e perder-me por lá

C.P.

segunda-feira, julho 14, 2008

Minha Querida Helena

O que eu desconfio é que começas mesmo a gostar de mim e isso deixa-me preocupado. Muito poucas pessoas gostaram verdadeiramente de mim até hoje e, daí, talvez possas perceber quanto isso me soa estranho. Repara: não é que não ache que não tenha algumas qualidades e mereça um pouco de amor. A gente habitua-se a pensar as coisas de um certo modo e depois tem dificuldade em ajustar-se a outro contexto. Até porque já não vou para novo, como é bem evidente.
Não confundas estas confidências íntimas com "brainstorming". Isso é outra realidade. Aí são as questões "técnicas" que emergem. Trata-se de reflectir sobre o nosso quotidiano, confrontar avaliações. Não há grande espaço para emoções a este nível reservado. Aliás, aqui posso até dizer-te coisas que nunca seria capaz de transmitir-te olhos nos olhos, porque, conforme já tiveste oportunidade de constatar, há coisas, acontecimentos que me emocionam muito e que, por isso, dificilmente sou capaz de exteriorizar de viva voz. A escrita é, a esse nível, um instrumento muito mais impessoal, porque ambíguo. Aí pode-se dizer quase tudo, porque cada um fará a sua leitura, isto é, há sempre alguma ficção, ou pode admitir-se que a haja.

Numa tua anterior mensagem, mais profissional mas não menos denunciadora das emoções que te assaltam, davas-me os parabéns pelo trabalho de consultoria em que estive envolvido e que foi muito recentemente apresentado ao público, com alguma pompa e circunstância. É bonito que o tenhas feito e foram bonitos os elogios que a esse respeito me endereçaste. Fico muito contente que tenhas ficado com boa impressão do trabalho. Nota entretanto o seguinte:
i) o essencial do trabalho técnico não foi feito por mim; eu dei-lhe os contornos estruturais, coordenei a composição de algumas peças e participei activamente na componente de elaboração estratégica, incluindo a componente mais imediatamente política (de vender o projecto, à entidade que o contratou e à população);
ii) tratando-se de um projecto na área dos transportes, nem era óbvio o meu envolvimento; aliás, entrei nele contrariado e enfrentei muitos momentos de desmotivação no decurso da sua elaboração;
iii) para minha surpresa, os resultados foram surpreendentemente bons; falo da capacidade que tivemos de vender à CCDR-N uma nova concepção de organização do território e de uso da linha-férrea como peça estruturante desse projecto; finalmente,
iv) lendo os jornais, nomeadamente os de hoje, fico convencido que deixei de ser um técnico de planeamento para ser uma marca que é usada como garantia de qualidade de um projecto; isso é simpático, sem dúvida, mas deixa-me alguns embaraços, conforme imaginas (inclusive, porque isso ofusca o trabalho árduo de outros, que, algumas vezes, mereceria ter maior reconhecimento).
Sobre mudar o mundo, não digo nada, nesta ocasião.
Isto dito, perceberás o sentimento misto que me atravessa e a dificuldade que as tuas palavras simpáticas me provocam. Deixas-me com mais ansiedade ainda em relação ao nosso próximo encontro. Vou lidar com dificuldade com a inviabilidade de te abraçar. Desgraças!
Fico por aqui. Está na hora de me refugiar no trabalho, já que o não posso fazer nos teus braços.
Um xicoração,
.
José Cadima

sábado, julho 12, 2008

Dá-me algo (2)

Dá-me algo para amar.
Dá-me o teu corpo
e, com ele, a tua alma.
Dá-me algo
que vá ao encontro
da minha ânsia de amar,
da minha necessidade profunda
de sentir-me amado.
Dá-me algo que juntos
possamos construir,
enlaçados de corpo e alma.

Naquele dia, caminhando sem destino,
fui dar a ti.
Foi tão inesperado,
tão … Sei lá.
Foi tão bom!

José Pedro Cadima

(editado por José Cadima, nesta data)

quinta-feira, julho 10, 2008

Procurar-lhe sentido

Mundo: sítio horrível,
em que se encontram Céu e Inferno,
o bem e o mal.
Presos neste vazio,
vasculhamos uma essência
que nos pertença,
que nos dê sentido.

Mundo: sítio horrível,
que nos leva à loucura
de lhe procurar sentido,
para que a nossa existência
não seja só forma
e seja, antes, sentido, essência, vida.

José Pedro Cadima

terça-feira, julho 08, 2008

Querida Helena

Devo assumir que estás a despedir-te, mesmo tendo acabado de chegar (se posso afirmar isso, sequer)? Se for o caso, aceito-o, ficando muito triste, embora. É da minha natureza ser triste. Disse-te que era uma personagem muito complexa, sendo sincero nessa afirmação. Há também coisas muito complexas na minha história de vida. As Helenas informam essa dimensão: são um desafio e uma maldição, desde a minha adolescência.
Helena que és, para mim, não fugirás a esse desígnio. Partir ou ficar é decisão tua. Aceitarei a que tomares. Se ficares, terás que conviver com a minha complexidade. Se partires, não digo que sobreviva porque uma parte adicional de mim partirá também. Continuarei com o que de mim restar.
Um beijo grande para a minha Helena,
.
José Cadima

domingo, julho 06, 2008

O que será?

O que será?
Quem será?
Porque será?
Que será que é?
Mil e uma imagens,
cada uma a valer mil palavras,
mil acções, mil ideias,
passam pela minha cabeça,
sobrevoam-me em voo rasante.
Vejo-as passar
e, no entanto, não parecem fazer sentido,
não lhes encontro sentido
e, por assim ser, questiono-me
sobre a sua razão de ser.
Não lhes encontro sentido
e gostava de encontrar.
Talvez a resposta chegue amanhã,
talvez...

José Pedro Cadima

sexta-feira, julho 04, 2008

Mundo ingrato

Contando as estrelas,
faço vida de passatempo,
aprecio beleza
desobrigado da ver.

Contando estrelas e planetas,
vejo derreter ouro
e fazer moedas,
vejo morrer homens
e fazer festas.
O amor segue descalço.

Anda descalço o amor
a calcar espinhos de rosa,
fugindo de feridas pequenas
que nos pés se aconchegam.

Nunca foi tão pobre.
Deu tudo o que tinha
sem olhar ao que lhe restou.

Não lhe resta nada.
Descalço, ferido
e com os pés em ferida,
só nos resta implorar-lhe que não se vá,
que fique,
que aceite sofrer só um pouco mais.

José Pedro Cadima

quarta-feira, julho 02, 2008

Desejar-te

Desejo-te a cada momento
Mesmo ao acordar
És em mim forte sentido
Sentido que quero dar
Sinto-me tua
Antes de o ser
Vem…
Pega na minha mão
E mostra-me o sentido
Que me queres dar

C.P.

terça-feira, julho 01, 2008

Escreverei um poema (2)

Deixem-me ficar com ela
e escreverei um poema.
Deixem-me beijá-la
e ela mesmo será o tema
do meu poema.
Deixem-me com o meu amor.
Não peço mais nada, nesta hora.
Deixem-me ficar com ela … beijá-la,
abraçá-la...
Prometo que serei o seu apaixonado amante.
Prometo mover mundos para que o meu amor a encante.
Prometo...

José Pedro Cadima