Tic-tac, tic-tac,
pequeno som que faz o relógio,
pequena máquina de destruição
que me destrói por dentro,
pois és tu que me dizes
há quanto tempo estou sem ela,
sem a minha musa,
sem o meu amor,
sem o meu tudo.
Se tens pena de mim,
faz-me um favor,
um pequeno favor:
pára quando eu com ela estiver.
Pára para toda a eternidade.
José Pedro Cadima
Imagina só poderes ver os meus sonhos no meu reflexo. "Jornal de Parede" de José Pedro Cadima e de José Cadima
quinta-feira, julho 31, 2008
terça-feira, julho 29, 2008
“Ainda há esperança - III”
“4. Para introduzir uma nota dissonante nesta crónica, quero entretanto dizer aos leitores que na ocasião em que a escrevia o dia se apresentava solarengo, e não via razão nenhuma para admitir que fosse o último dia em que isso viesse a acontecer. Ora, se eu fui levado a pensar isso, porque não hão-de os meus leitores, por seu turno, sonhar com o dia em que Vieira do Minho e Cabeceiras de Basto igualarão em rendimento «per capita» Lisboa e em que os políticos no activo não se chamem todos Mendes, Menezes, Braga, Dias, Lacão, Monteiro ou outros nomes igualmente denunciadores de política praticada ao seu nível mais rasteiro.”
J. C.
J. C.
(reprodução parcial de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 96/06/01, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)
domingo, julho 27, 2008
Bela criatividade
Quão bela é a criatividade humana. Chega, até, a questionar o domínio dos deuses.
Assemelhava-se o homem a um chimpanzé. Vivia da colecta de frutos e da captura de animais. Ansiava dar às suas mãos uso e logo agarrou um pedaço do céu.
Doravante, via-se-lhe nos olhos um novo ser. Os deuses eram agora mortais. O poder de criar não morria.
Não fomos expulsos do Éden. Criámo-lo nós próprios. Deitámos por terra a perfeição por se ter tornado coisa antiquada. O horror vinha do instinto animal. O poder de criar, roubámo-lo ao céu.
Fez-se história: criámos o horror e a arte; separámos a vida e a morte; gritámos com a morte. Impusemos-lhe mais anos de vida. Aprendemos que a uma criança não se dá uma tesoura.
Aos deuses restou-lhes arrependerem-se de não serem tão bons pais.
José Pedro Cadima
Assemelhava-se o homem a um chimpanzé. Vivia da colecta de frutos e da captura de animais. Ansiava dar às suas mãos uso e logo agarrou um pedaço do céu.
Doravante, via-se-lhe nos olhos um novo ser. Os deuses eram agora mortais. O poder de criar não morria.
Não fomos expulsos do Éden. Criámo-lo nós próprios. Deitámos por terra a perfeição por se ter tornado coisa antiquada. O horror vinha do instinto animal. O poder de criar, roubámo-lo ao céu.
Fez-se história: criámos o horror e a arte; separámos a vida e a morte; gritámos com a morte. Impusemos-lhe mais anos de vida. Aprendemos que a uma criança não se dá uma tesoura.
Aos deuses restou-lhes arrependerem-se de não serem tão bons pais.
José Pedro Cadima
sexta-feira, julho 25, 2008
Minha Querida Helena
De tão atarefada que estás, fico com um sentimento de culpa por ter-te desafiado para uma breve fuga para o mundo dos sonhos. Sinceramente, se vês que não é possível compatibilizar esse devaneio com a tua agenda pessoal e profissional, diz-mo. Não ficarei de modo algum zangado. Também há a alternativa de mudarmos a data. Se insistires em que fique como está, é de facto ao Minho profundo que me proponho levar-te. Sei de um lugar (há mais que um) que se me sugere bem acolhedor para uma noite mal dormida, eventualmente.
Fazes coisas muito giras com as tuas mensagens electrónicas. Nem imaginei que era possível fazer isso. Talvez te devesses dedicar às artes visuais, sobrando-te tempo.
No que respeita ao trabalho que tinha entre-mãos, já dei conta do recado, felizmente. Os artigos estão prontos, ficando a marinar até 2ª feira pela manhã, altura em que embarcam para o destino.
Já que falo de trabalho, deixa que te diga que não te sabia tão avessa a vassouras. Sinal dos tempos, porventura.
Não acho boa ideia que releias as minhas mensagens. De cada vez que o fazes vens com uma nova interpretação, como se as mensagens fossem ambíguas ou pretendessem dizer mais do que aquilo que dizem. No mais, fico-te eternamente reconhecido pelo teu carinho e atenção, e lisonjeado por me dizeres que a mereço, a atenção, digo.
Nos teus braços, sinto-me quase com os teus 19 anos. Isso perturba-me. Já não estou habituado a ter essa idade. Assim sendo, embora, ou por isso mesmo, anseio voltar para os teus braços.
Fazes coisas muito giras com as tuas mensagens electrónicas. Nem imaginei que era possível fazer isso. Talvez te devesses dedicar às artes visuais, sobrando-te tempo.
No que respeita ao trabalho que tinha entre-mãos, já dei conta do recado, felizmente. Os artigos estão prontos, ficando a marinar até 2ª feira pela manhã, altura em que embarcam para o destino.
Já que falo de trabalho, deixa que te diga que não te sabia tão avessa a vassouras. Sinal dos tempos, porventura.
Não acho boa ideia que releias as minhas mensagens. De cada vez que o fazes vens com uma nova interpretação, como se as mensagens fossem ambíguas ou pretendessem dizer mais do que aquilo que dizem. No mais, fico-te eternamente reconhecido pelo teu carinho e atenção, e lisonjeado por me dizeres que a mereço, a atenção, digo.
Nos teus braços, sinto-me quase com os teus 19 anos. Isso perturba-me. Já não estou habituado a ter essa idade. Assim sendo, embora, ou por isso mesmo, anseio voltar para os teus braços.
Recebe um beijo muito, muito grande.
José Cadima
José Cadima
quinta-feira, julho 24, 2008
Viva a artificialidade!
No inferno, e não somos irmãos.
Juntos vínhamos, e não somos amigos.
Algures, roubei. Ele matou.
Fui preso, com fome.
O que é a fome, nunca soube ele.
Comemore-se este tempo de hipocrisia.
Viva a artificialidade!
Senda nela que nos cruzamos e achamos o nosso caminho,
comemoremo-la, pois. Hurra!
José Pedro Cadima
Juntos vínhamos, e não somos amigos.
Algures, roubei. Ele matou.
Fui preso, com fome.
O que é a fome, nunca soube ele.
Comemore-se este tempo de hipocrisia.
Viva a artificialidade!
Senda nela que nos cruzamos e achamos o nosso caminho,
comemoremo-la, pois. Hurra!
José Pedro Cadima
terça-feira, julho 22, 2008
Alpinista do amor (2)
Tal como um alpinista
escala uma montanha,
eu ensaio escalar teu coração.
A minha vida sem ti carece de sentido,
é solidão imensa;
só contigo se enche de emoção.
José Pedro Cadima
escala uma montanha,
eu ensaio escalar teu coração.
A minha vida sem ti carece de sentido,
é solidão imensa;
só contigo se enche de emoção.
José Pedro Cadima
domingo, julho 20, 2008
Felicidade, essa miragem
A minha cabeça fervilha
com tudo o que me ocorre nesta hora,
com tudo aquilo que sinto e vejo
e com quanto anseio e não alcanço.
...
O silêncio, o choro,
o amor, o ódio, o desespero, a esperança…
…
Quem sabe se um dia, talvez…
Quem sabe se um dia serei capaz de ser feliz.
Tudo o que sinto, tudo o que desejo
parece trazer-me infelicidade.
Aquilo que procuro, não encontro.
Ao invés, algumas vezes encontro o que não procurava.
Choro. Fujo para longe, longe de mim, entenda-se.
Que farias tu no meu lugar?
Chorar, talvez,
tal qual eu faço, quando sou capaz.
José Pedro Cadima
(editado por José Cadima, nesta data)
com tudo o que me ocorre nesta hora,
com tudo aquilo que sinto e vejo
e com quanto anseio e não alcanço.
...
O silêncio, o choro,
o amor, o ódio, o desespero, a esperança…
…
Quem sabe se um dia, talvez…
Quem sabe se um dia serei capaz de ser feliz.
Tudo o que sinto, tudo o que desejo
parece trazer-me infelicidade.
Aquilo que procuro, não encontro.
Ao invés, algumas vezes encontro o que não procurava.
Choro. Fujo para longe, longe de mim, entenda-se.
Que farias tu no meu lugar?
Chorar, talvez,
tal qual eu faço, quando sou capaz.
José Pedro Cadima
(editado por José Cadima, nesta data)
sexta-feira, julho 18, 2008
O destino
Sou eu aquele a quem o diabo vendeu a alma.
Sou eu o terror no medo e o desespero no terror.
Ao desespero deixo-o sozinho.
Sabe deus quanto lhe custou um anjo.
Sei que o comprei por menos.
Sabe o homem o que é a dor
até ao momento imediatamente antes do pós-guerra.
Sei qual é a alegria de a começar.
Cultivam-se e esmagam-se plantas,
das mais feias às mais belas.
Sou eu que o digo, que sei bem do que falo.
Olho o homem nos olhos:
fica-lhe bem a morte!
José Pedro Cadima
Sou eu o terror no medo e o desespero no terror.
Ao desespero deixo-o sozinho.
Sabe deus quanto lhe custou um anjo.
Sei que o comprei por menos.
Sabe o homem o que é a dor
até ao momento imediatamente antes do pós-guerra.
Sei qual é a alegria de a começar.
Cultivam-se e esmagam-se plantas,
das mais feias às mais belas.
Sou eu que o digo, que sei bem do que falo.
Olho o homem nos olhos:
fica-lhe bem a morte!
José Pedro Cadima
terça-feira, julho 15, 2008
Olhar-te
Olhar uma paisagem
Que sempre esteve lá
Mais alucinante que uma nova paisagem
É olhar-te, ver-te lá
Sentir a emoção de explorar-te
Sentir que sempre estiveste por lá
Captar o teu olhar
Olhar-te e perder-me por lá
C.P.
Que sempre esteve lá
Mais alucinante que uma nova paisagem
É olhar-te, ver-te lá
Sentir a emoção de explorar-te
Sentir que sempre estiveste por lá
Captar o teu olhar
Olhar-te e perder-me por lá
C.P.
segunda-feira, julho 14, 2008
Minha Querida Helena
O que eu desconfio é que começas mesmo a gostar de mim e isso deixa-me preocupado. Muito poucas pessoas gostaram verdadeiramente de mim até hoje e, daí, talvez possas perceber quanto isso me soa estranho. Repara: não é que não ache que não tenha algumas qualidades e mereça um pouco de amor. A gente habitua-se a pensar as coisas de um certo modo e depois tem dificuldade em ajustar-se a outro contexto. Até porque já não vou para novo, como é bem evidente.
Não confundas estas confidências íntimas com "brainstorming". Isso é outra realidade. Aí são as questões "técnicas" que emergem. Trata-se de reflectir sobre o nosso quotidiano, confrontar avaliações. Não há grande espaço para emoções a este nível reservado. Aliás, aqui posso até dizer-te coisas que nunca seria capaz de transmitir-te olhos nos olhos, porque, conforme já tiveste oportunidade de constatar, há coisas, acontecimentos que me emocionam muito e que, por isso, dificilmente sou capaz de exteriorizar de viva voz. A escrita é, a esse nível, um instrumento muito mais impessoal, porque ambíguo. Aí pode-se dizer quase tudo, porque cada um fará a sua leitura, isto é, há sempre alguma ficção, ou pode admitir-se que a haja.
Numa tua anterior mensagem, mais profissional mas não menos denunciadora das emoções que te assaltam, davas-me os parabéns pelo trabalho de consultoria em que estive envolvido e que foi muito recentemente apresentado ao público, com alguma pompa e circunstância. É bonito que o tenhas feito e foram bonitos os elogios que a esse respeito me endereçaste. Fico muito contente que tenhas ficado com boa impressão do trabalho. Nota entretanto o seguinte:
i) o essencial do trabalho técnico não foi feito por mim; eu dei-lhe os contornos estruturais, coordenei a composição de algumas peças e participei activamente na componente de elaboração estratégica, incluindo a componente mais imediatamente política (de vender o projecto, à entidade que o contratou e à população);
ii) tratando-se de um projecto na área dos transportes, nem era óbvio o meu envolvimento; aliás, entrei nele contrariado e enfrentei muitos momentos de desmotivação no decurso da sua elaboração;
iii) para minha surpresa, os resultados foram surpreendentemente bons; falo da capacidade que tivemos de vender à CCDR-N uma nova concepção de organização do território e de uso da linha-férrea como peça estruturante desse projecto; finalmente,
iv) lendo os jornais, nomeadamente os de hoje, fico convencido que deixei de ser um técnico de planeamento para ser uma marca que é usada como garantia de qualidade de um projecto; isso é simpático, sem dúvida, mas deixa-me alguns embaraços, conforme imaginas (inclusive, porque isso ofusca o trabalho árduo de outros, que, algumas vezes, mereceria ter maior reconhecimento).
Sobre mudar o mundo, não digo nada, nesta ocasião.
Isto dito, perceberás o sentimento misto que me atravessa e a dificuldade que as tuas palavras simpáticas me provocam. Deixas-me com mais ansiedade ainda em relação ao nosso próximo encontro. Vou lidar com dificuldade com a inviabilidade de te abraçar. Desgraças!
Sobre mudar o mundo, não digo nada, nesta ocasião.
Isto dito, perceberás o sentimento misto que me atravessa e a dificuldade que as tuas palavras simpáticas me provocam. Deixas-me com mais ansiedade ainda em relação ao nosso próximo encontro. Vou lidar com dificuldade com a inviabilidade de te abraçar. Desgraças!
Fico por aqui. Está na hora de me refugiar no trabalho, já que o não posso fazer nos teus braços.
Um xicoração,
.
José Cadima
sábado, julho 12, 2008
Dá-me algo (2)
Dá-me algo para amar.
Dá-me o teu corpo
e, com ele, a tua alma.
Dá-me algo
que vá ao encontro
da minha ânsia de amar,
da minha necessidade profunda
de sentir-me amado.
Dá-me algo que juntos
possamos construir,
enlaçados de corpo e alma.
Naquele dia, caminhando sem destino,
fui dar a ti.
Foi tão inesperado,
tão … Sei lá.
Foi tão bom!
José Pedro Cadima
(editado por José Cadima, nesta data)
Dá-me o teu corpo
e, com ele, a tua alma.
Dá-me algo
que vá ao encontro
da minha ânsia de amar,
da minha necessidade profunda
de sentir-me amado.
Dá-me algo que juntos
possamos construir,
enlaçados de corpo e alma.
Naquele dia, caminhando sem destino,
fui dar a ti.
Foi tão inesperado,
tão … Sei lá.
Foi tão bom!
José Pedro Cadima
(editado por José Cadima, nesta data)
quinta-feira, julho 10, 2008
Procurar-lhe sentido
Mundo: sítio horrível,
em que se encontram Céu e Inferno,
o bem e o mal.
Presos neste vazio,
vasculhamos uma essência
que nos pertença,
que nos dê sentido.
Mundo: sítio horrível,
que nos leva à loucura
de lhe procurar sentido,
para que a nossa existência
não seja só forma
e seja, antes, sentido, essência, vida.
José Pedro Cadima
em que se encontram Céu e Inferno,
o bem e o mal.
Presos neste vazio,
vasculhamos uma essência
que nos pertença,
que nos dê sentido.
Mundo: sítio horrível,
que nos leva à loucura
de lhe procurar sentido,
para que a nossa existência
não seja só forma
e seja, antes, sentido, essência, vida.
José Pedro Cadima
terça-feira, julho 08, 2008
Querida Helena
Devo assumir que estás a despedir-te, mesmo tendo acabado de chegar (se posso afirmar isso, sequer)? Se for o caso, aceito-o, ficando muito triste, embora. É da minha natureza ser triste. Disse-te que era uma personagem muito complexa, sendo sincero nessa afirmação. Há também coisas muito complexas na minha história de vida. As Helenas informam essa dimensão: são um desafio e uma maldição, desde a minha adolescência.
Helena que és, para mim, não fugirás a esse desígnio. Partir ou ficar é decisão tua. Aceitarei a que tomares. Se ficares, terás que conviver com a minha complexidade. Se partires, não digo que sobreviva porque uma parte adicional de mim partirá também. Continuarei com o que de mim restar.
Um beijo grande para a minha Helena,
.
José Cadima
domingo, julho 06, 2008
O que será?
O que será?
Quem será?
Porque será?
Que será que é?
Mil e uma imagens,
cada uma a valer mil palavras,
mil acções, mil ideias,
passam pela minha cabeça,
sobrevoam-me em voo rasante.
Vejo-as passar
e, no entanto, não parecem fazer sentido,
não lhes encontro sentido
e, por assim ser, questiono-me
sobre a sua razão de ser.
Não lhes encontro sentido
e gostava de encontrar.
Talvez a resposta chegue amanhã,
talvez...
José Pedro Cadima
Quem será?
Porque será?
Que será que é?
Mil e uma imagens,
cada uma a valer mil palavras,
mil acções, mil ideias,
passam pela minha cabeça,
sobrevoam-me em voo rasante.
Vejo-as passar
e, no entanto, não parecem fazer sentido,
não lhes encontro sentido
e, por assim ser, questiono-me
sobre a sua razão de ser.
Não lhes encontro sentido
e gostava de encontrar.
Talvez a resposta chegue amanhã,
talvez...
José Pedro Cadima
sexta-feira, julho 04, 2008
Mundo ingrato
Contando as estrelas,
faço vida de passatempo,
aprecio beleza
desobrigado da ver.
Contando estrelas e planetas,
vejo derreter ouro
e fazer moedas,
vejo morrer homens
e fazer festas.
O amor segue descalço.
Anda descalço o amor
a calcar espinhos de rosa,
fugindo de feridas pequenas
que nos pés se aconchegam.
Nunca foi tão pobre.
Deu tudo o que tinha
sem olhar ao que lhe restou.
Não lhe resta nada.
Descalço, ferido
e com os pés em ferida,
só nos resta implorar-lhe que não se vá,
que fique,
que aceite sofrer só um pouco mais.
José Pedro Cadima
faço vida de passatempo,
aprecio beleza
desobrigado da ver.
Contando estrelas e planetas,
vejo derreter ouro
e fazer moedas,
vejo morrer homens
e fazer festas.
O amor segue descalço.
Anda descalço o amor
a calcar espinhos de rosa,
fugindo de feridas pequenas
que nos pés se aconchegam.
Nunca foi tão pobre.
Deu tudo o que tinha
sem olhar ao que lhe restou.
Não lhe resta nada.
Descalço, ferido
e com os pés em ferida,
só nos resta implorar-lhe que não se vá,
que fique,
que aceite sofrer só um pouco mais.
José Pedro Cadima
quarta-feira, julho 02, 2008
Desejar-te
Desejo-te a cada momento
Mesmo ao acordar
És em mim forte sentido
Sentido que quero dar
Sinto-me tua
Antes de o ser
Vem…
Pega na minha mão
E mostra-me o sentido
Que me queres dar
C.P.
Mesmo ao acordar
És em mim forte sentido
Sentido que quero dar
Sinto-me tua
Antes de o ser
Vem…
Pega na minha mão
E mostra-me o sentido
Que me queres dar
C.P.
terça-feira, julho 01, 2008
Escreverei um poema (2)
Deixem-me ficar com ela
e escreverei um poema.
Deixem-me beijá-la
e ela mesmo será o tema
do meu poema.
Deixem-me com o meu amor.
Não peço mais nada, nesta hora.
Deixem-me ficar com ela … beijá-la,
abraçá-la...
Prometo que serei o seu apaixonado amante.
Prometo mover mundos para que o meu amor a encante.
Prometo...
José Pedro Cadima
e escreverei um poema.
Deixem-me beijá-la
e ela mesmo será o tema
do meu poema.
Deixem-me com o meu amor.
Não peço mais nada, nesta hora.
Deixem-me ficar com ela … beijá-la,
abraçá-la...
Prometo que serei o seu apaixonado amante.
Prometo mover mundos para que o meu amor a encante.
Prometo...
José Pedro Cadima
domingo, junho 29, 2008
Sonhos...
Sonhos...
Sonhos? Eu?
Acho que não...
Amiude, nem dormir satisfatoriamente sou já capaz.
Quem me dera...
José Cadima
Sonhos? Eu?
Acho que não...
Amiude, nem dormir satisfatoriamente sou já capaz.
Quem me dera...
José Cadima
Minha Querida Helena
Volvidas que são as conferências e outras urgências, tento voltar para ti. Tento, digo, porque retomar o “romance” não é apenas uma questão de querer; é muito mais uma coisa que releva do ser.
Nessa busca do íntimo, recordo primeiro a troca de palavras sem sentido que ontem mantivemos. Odeio falar contigo ao telefone e, sabendo-o, tu pareces querer que eu odeie cada dia mais: explica-me lá porque misteriosa razão, conhecendo eu alguém, não posso deixar de conhecer a tia desse alguém, a sobrinha e, ainda, o enteado? Não fazendo sentido que essa ideia releve de qualquer encadeado razoável de circunstâncias, quando me atiras com esse arrazoado só poderás estar a querer gozar comigo ou, o que vai dar no mesmo, a pretender irritar-me - sabendo-me ao telefone. É mais um incentivo para que não te ligue. De tanto insistires, acabarás por ser sucedida no teu intento de pôr termo a esse tipo comunicação entre nós.
Do telefone, volto para os meus pensamentos e deles para a sede que me ficou de soltar a raiva resultante. Nessas alturas pode-se fazer qualquer coisa: até achar que não há mais espaço para o romance. Ganhar distância, remeter para o domínio do ficcional palavras trocadas que nunca deveriam tê-lo sido é a outra opção. Não é nunca fácil, não obstante. Só dando tempo ao tempo se viabiliza que o romance se sobreponha à raiva e a saudade emirja, leve, primeiro, com intensidade maior, depois.
Nessa altura, nesta altura já te sinto o rosto pousado sobre o meu colo, já sinto a tua pele sedosa nos meus dedos enquanto a minha mão percorre as tuas costas, encalhando nas costuras das tuas roupas. Estou de volta para ti, mas nem por isso deixo de me questionar se não será hora de partir para sempre de cada vez que a minha mão encalha nas costuras das roupas (ou as minhas palavras trocadas contigo ao telefone na tua obsessão de transformar cada telefonema que te faço num abismo sem fundo). A mão vai fazendo caminho pela pele sedosa; para lá das costuras insinua-se um estremeção de excitação e a resistência quebra-se. Estou de volta ao romance, estou de novo contigo, aconchegando-me no teu peito.
Porque não dura sempre este nosso romance, meu amor?
Braga, 31 de Outubro de 2004
José Cadima
Nessa busca do íntimo, recordo primeiro a troca de palavras sem sentido que ontem mantivemos. Odeio falar contigo ao telefone e, sabendo-o, tu pareces querer que eu odeie cada dia mais: explica-me lá porque misteriosa razão, conhecendo eu alguém, não posso deixar de conhecer a tia desse alguém, a sobrinha e, ainda, o enteado? Não fazendo sentido que essa ideia releve de qualquer encadeado razoável de circunstâncias, quando me atiras com esse arrazoado só poderás estar a querer gozar comigo ou, o que vai dar no mesmo, a pretender irritar-me - sabendo-me ao telefone. É mais um incentivo para que não te ligue. De tanto insistires, acabarás por ser sucedida no teu intento de pôr termo a esse tipo comunicação entre nós.
Do telefone, volto para os meus pensamentos e deles para a sede que me ficou de soltar a raiva resultante. Nessas alturas pode-se fazer qualquer coisa: até achar que não há mais espaço para o romance. Ganhar distância, remeter para o domínio do ficcional palavras trocadas que nunca deveriam tê-lo sido é a outra opção. Não é nunca fácil, não obstante. Só dando tempo ao tempo se viabiliza que o romance se sobreponha à raiva e a saudade emirja, leve, primeiro, com intensidade maior, depois.
Nessa altura, nesta altura já te sinto o rosto pousado sobre o meu colo, já sinto a tua pele sedosa nos meus dedos enquanto a minha mão percorre as tuas costas, encalhando nas costuras das tuas roupas. Estou de volta para ti, mas nem por isso deixo de me questionar se não será hora de partir para sempre de cada vez que a minha mão encalha nas costuras das roupas (ou as minhas palavras trocadas contigo ao telefone na tua obsessão de transformar cada telefonema que te faço num abismo sem fundo). A mão vai fazendo caminho pela pele sedosa; para lá das costuras insinua-se um estremeção de excitação e a resistência quebra-se. Estou de volta ao romance, estou de novo contigo, aconchegando-me no teu peito.
Porque não dura sempre este nosso romance, meu amor?
Braga, 31 de Outubro de 2004
José Cadima
sexta-feira, junho 27, 2008
Humilhado
Nunca acreditei
que um dia te teria.
A magia parecia
passar ao lado da minha vida.
Sonhava ter-te mesmo acordado.
Suspirava só em pensar
quão suave seria a tua pele,
quão especial seria tocar-te.
Amava-te mais que à vida,
Aceitava humilhar-me
como prova de amor.
Os tecidos do meu corpo
transpiravam de cada vez que te via.
O meu estômago remexia.
Entretanto, tu continuaste
a ignorar-me.
Deixaste-me para trás, simplesmente;
humilhado, sim,
mas só!
José Pedro Cadima
quinta-feira, junho 26, 2008
Mostrar-te
Quero mostrar-te
O verdadeiro sentido do amor
Incerteza, partilha...
E muita alegria.
É o sabor de me entregar
Sem esperar receber
É fazer aquilo que nunca fiz
Talvez...
Porque nunca o quis.
C.P.
O verdadeiro sentido do amor
Incerteza, partilha...
E muita alegria.
É o sabor de me entregar
Sem esperar receber
É fazer aquilo que nunca fiz
Talvez...
Porque nunca o quis.
C.P.
terça-feira, junho 24, 2008
Não sou o teu amor (2)
Odeio-me!
Não sou o ser magnífico
que procuras.
Odeio-me!
Não sou o sonho
que buscas.
Odeio-me,
porque o teu amor
talvez pudesse ser o sonho
que, a teus olhos, me tornasse
no ser magnífico que mereces ter.
Odeio-me,
por saber impossível
o teu amor!
José Cadima
(adaptado de José Pedro Cadima, 2005)
Não sou o ser magnífico
que procuras.
Odeio-me!
Não sou o sonho
que buscas.
Odeio-me,
porque o teu amor
talvez pudesse ser o sonho
que, a teus olhos, me tornasse
no ser magnífico que mereces ter.
Odeio-me,
por saber impossível
o teu amor!
José Cadima
(adaptado de José Pedro Cadima, 2005)
segunda-feira, junho 23, 2008
Sentir-te
Sinto-te a cada instante
E agonia constante
Fosso cavo
Muito fundo, dizem eles!
Intransponível, talvez!
A ti, ponte quero lançar
És desafio para mim
Vem...
Segue a ponte até ao fim!...
C.P.
E agonia constante
Fosso cavo
Muito fundo, dizem eles!
Intransponível, talvez!
A ti, ponte quero lançar
És desafio para mim
Vem...
Segue a ponte até ao fim!...
C.P.
domingo, junho 22, 2008
“Ainda há esperança! - II”
“2. Até ao momento da leitura dos jornais do passado fim-de-semana, tinha decidido abandonar definitivamente a regionalização como tema de análise: afinal, depois de múltiplas semanas de debate, não havia já nada de novo que se dissesse. Pensava assim, digo, e reconheço agora que estava enganado. Percebi-o na consulta dos jornais, a que já me referi, e reconheci-o relendo declarações do grande defensor da solidariedade, da democracia e dos direitos humanos que foi o Dr. Mário Soares.
Pude, na altura, alcançar quanto Portugal podia ter ganho se, por ocasião da sua passagem pelo governo e pela Presidência da Republica, o citado cidadão não tivesse já esquecido tudo quanto aprendera na sua passagem pela militância política de oposição ao regime fascista e pelo exílio na estranja.”
J. C.
(reprodução parcial de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 96/06/01, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)
Pude, na altura, alcançar quanto Portugal podia ter ganho se, por ocasião da sua passagem pelo governo e pela Presidência da Republica, o citado cidadão não tivesse já esquecido tudo quanto aprendera na sua passagem pela militância política de oposição ao regime fascista e pelo exílio na estranja.”
J. C.
(reprodução parcial de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 96/06/01, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)
sexta-feira, junho 20, 2008
Viva a liberdade!
Querem-na? A liberdade,
a primeira motivação da luta humana,
a razão do fracasso das ditaduras
e do sacrifício dos lutadores.
A liberdade contrapõe-se à crença,
alimentada por alguns, na prisão física,
na opressão, no condicionamento das mentes.
Nem a democracia nos faz livres:
dá prisão àquilo em que tocamos.
Corram pelos campos!
Sintam o vento na face,
nas narinas, nos olhos.
Busque-se a liberdade
no intervalo de dois compromissos.
Sejamos livres.
Façamos do mundo coisa nossa.
José Pedro Cadima
a primeira motivação da luta humana,
a razão do fracasso das ditaduras
e do sacrifício dos lutadores.
A liberdade contrapõe-se à crença,
alimentada por alguns, na prisão física,
na opressão, no condicionamento das mentes.
Nem a democracia nos faz livres:
dá prisão àquilo em que tocamos.
Corram pelos campos!
Sintam o vento na face,
nas narinas, nos olhos.
Busque-se a liberdade
no intervalo de dois compromissos.
Sejamos livres.
Façamos do mundo coisa nossa.
José Pedro Cadima
quarta-feira, junho 18, 2008
Vocabulário
Prender um texto ao nosso vocabulário
não é matar a literatura.
Porquê obrigar-nos a todos
a ter um dicionário?
Tantas palavras bonitas,
com tantos significados,
mas sem emoção alguma.
Prender um texto ao que sabemos,
embora pouco, é dar-lhe um pouco de nós.
Quando se escreve, quando se lê,
é com o coração que o fazemos.
Deixemos o linguarejar para trás.
Expressar sentimentos,
embora de forma rudimentar,
pode ser, quem sabe, mais belo
e tem, por certo, todo outro significado.
José Pedro Cadima
não é matar a literatura.
Porquê obrigar-nos a todos
a ter um dicionário?
Tantas palavras bonitas,
com tantos significados,
mas sem emoção alguma.
Prender um texto ao que sabemos,
embora pouco, é dar-lhe um pouco de nós.
Quando se escreve, quando se lê,
é com o coração que o fazemos.
Deixemos o linguarejar para trás.
Expressar sentimentos,
embora de forma rudimentar,
pode ser, quem sabe, mais belo
e tem, por certo, todo outro significado.
José Pedro Cadima
segunda-feira, junho 16, 2008
Dias tristes
Sinto-me profundamente infeliz, hoje.
Não é por falta de amores.
Será, talvez, por falta de amor.
Há dias assim, tristes,
irremediavelmente distantes do lugar mítico
a que alguns chamam arco-íris.
Chove, lá fora.
Cá dentro, é o meu coração que se sugere despedaçado
por dias que correm cada vez mais cinzentos.
De lá de fora, sinto a ameaça
de mais um dia que se anuncia triste, sem esperança.
Não são amores que me faltam.
O que me falta é alegria,
a alegria de quem corre por algo que julga valer a pena:
uma amizade, um sonho, um grande amor.
Por onde andas, amor meu?
Serás tu este ser que se insinua por aqui
ou será esta força que pressinto
apenas a saudade que tenho de ti?
Vem em meu socorro, depressa!
Se demoras em tomar corpo e forma,
corres o risco de, em vez de mim, ser só desespero
o que venhas a encontrar.
Vem depressa, meu amor!
José Cadima
Não é por falta de amores.
Será, talvez, por falta de amor.
Há dias assim, tristes,
irremediavelmente distantes do lugar mítico
a que alguns chamam arco-íris.
Chove, lá fora.
Cá dentro, é o meu coração que se sugere despedaçado
por dias que correm cada vez mais cinzentos.
De lá de fora, sinto a ameaça
de mais um dia que se anuncia triste, sem esperança.
Não são amores que me faltam.
O que me falta é alegria,
a alegria de quem corre por algo que julga valer a pena:
uma amizade, um sonho, um grande amor.
Por onde andas, amor meu?
Serás tu este ser que se insinua por aqui
ou será esta força que pressinto
apenas a saudade que tenho de ti?
Vem em meu socorro, depressa!
Se demoras em tomar corpo e forma,
corres o risco de, em vez de mim, ser só desespero
o que venhas a encontrar.
Vem depressa, meu amor!
José Cadima
sábado, junho 14, 2008
“Ainda há esperança!”
“1. Irremediavelmente, estou impressionado com a preocupação que os lisboetas manifestam com os atrasos de desenvolvimento do Alto-Minho, da Beira interior ou do Alentejo. Mais impressionado me confesso por essa preocupação, tão veemente, ser assumida em termos maioritários por gente tão ilustrada quanto o são os jornalistas e outros intelectuais com espaço reservado no «Expresso» e noutros órgãos de informação que se usa classificar de «grande difusão».
Apraz-me que o digam, e apraz-me tamanha veemência nesta particular ocasião em que se discute a devolução do poder às regiões e as virtualidades da regionalização enquanto instrumento de desenvolvimento. Provoca-me menos impacto esta expressão de solidariedade regional quando é proveniente de alguém do Minho ou de Trás-os-Montes.
Não fora os epítetos de imbecis ou de traidores da pátria que usam para qualificar os defensores da regionalização e nem se perceberia o imenso altruísmo que os faz movimentar.
Também a este respeito, é caso para reconhecer que o país sem Lisboa é uma ficção.”
J. C.
(reprodução parcial de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 96/06/01, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)
Apraz-me que o digam, e apraz-me tamanha veemência nesta particular ocasião em que se discute a devolução do poder às regiões e as virtualidades da regionalização enquanto instrumento de desenvolvimento. Provoca-me menos impacto esta expressão de solidariedade regional quando é proveniente de alguém do Minho ou de Trás-os-Montes.
Não fora os epítetos de imbecis ou de traidores da pátria que usam para qualificar os defensores da regionalização e nem se perceberia o imenso altruísmo que os faz movimentar.
Também a este respeito, é caso para reconhecer que o país sem Lisboa é uma ficção.”
J. C.
(reprodução parcial de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 96/06/01, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)
quinta-feira, junho 12, 2008
Momentos brancos
Não haja pressa
que o momento aguarda.
Não deixemos o morrer
de ansiedade acompanhar-nos,
sendo nosso par.
Sobretudo, recusemo-nos
a casar com ele para a vida.
Odiosamente, sinto falta
de momentos em branco,
no meio de uma multidão;
momentos apaixonados.
Enrolando o tempo
em amor
que mal me fez,
perdi momentos vazios.
Não tendo sabido parar o tempo,
deixei-os fugir.
José Pedro Cadima
que o momento aguarda.
Não deixemos o morrer
de ansiedade acompanhar-nos,
sendo nosso par.
Sobretudo, recusemo-nos
a casar com ele para a vida.
Odiosamente, sinto falta
de momentos em branco,
no meio de uma multidão;
momentos apaixonados.
Enrolando o tempo
em amor
que mal me fez,
perdi momentos vazios.
Não tendo sabido parar o tempo,
deixei-os fugir.
José Pedro Cadima
segunda-feira, junho 09, 2008
Minha Querida Helena
Hoje não te escrevo. Estou tão cansado que me falta a energia para te exprimir o que sinto e para te gritar quanta falta me fases. No presente estado de alma, recolheria até energia de palavras desagradáveis que me dirigisses - à semelhança de tantas outras no passado, algumas vezes injustas. Daí haveria de retirar a força para dar o próximo passo e, quiçá, contributo para tornar menos doloroso este sentimento de perda que me assiste.
Há ocasiões em que o trabalho, pouco que seja, me esgota. Lembro-me de outras em que o trabalho se esgotava sem que lhe sentisse o peso. Não é, sei-o bem, apenas uma questão de esforço. É, muito mais, um problema de motivação, de crença que valha a pena enfrentar o dia seguinte, estado de espírito que me escapa nesta altura e de que não estou certo de ser capaz de libertar-me. A não ser... A não ser que...
Estou sem esperança. Estou sem ânimo. Sinto-me profundamente cansado, a ponto de me falhar a energia sequer para te gritar a falta que me fases. Por isso, hoje não te escrevo.
Não te farão falta, no entanto, as minhas palavras escritas. Porque se fizessem não te seria indiferente o meu cansaço. Porque se te faltassem, não me deixarias a agonizar. Por contrapartida, eu não tenho dúvida em dizer-te quanta falta me fases. Gritá-lo-ia, até, se tivesse energia para tal.
Hoje não te escrevo. Se recobrar forças para esse empreendimento, escrever-te-ei noutra ocasião, para te dizer quanta falta me fases e quão tamanho é este amor que te devoto. Se recobrar forças para tanto, gritar-te-ei até a falta que me fases, mesmo duvidando que venhas a escutar o meu grito.
Braga, 23 de Agosto de 2004
José Cadima
Há ocasiões em que o trabalho, pouco que seja, me esgota. Lembro-me de outras em que o trabalho se esgotava sem que lhe sentisse o peso. Não é, sei-o bem, apenas uma questão de esforço. É, muito mais, um problema de motivação, de crença que valha a pena enfrentar o dia seguinte, estado de espírito que me escapa nesta altura e de que não estou certo de ser capaz de libertar-me. A não ser... A não ser que...
Estou sem esperança. Estou sem ânimo. Sinto-me profundamente cansado, a ponto de me falhar a energia sequer para te gritar a falta que me fases. Por isso, hoje não te escrevo.
Não te farão falta, no entanto, as minhas palavras escritas. Porque se fizessem não te seria indiferente o meu cansaço. Porque se te faltassem, não me deixarias a agonizar. Por contrapartida, eu não tenho dúvida em dizer-te quanta falta me fases. Gritá-lo-ia, até, se tivesse energia para tal.
Hoje não te escrevo. Se recobrar forças para esse empreendimento, escrever-te-ei noutra ocasião, para te dizer quanta falta me fases e quão tamanho é este amor que te devoto. Se recobrar forças para tanto, gritar-te-ei até a falta que me fases, mesmo duvidando que venhas a escutar o meu grito.
Braga, 23 de Agosto de 2004
José Cadima
domingo, junho 08, 2008
Fez-se história
Fez-se história:
criámos o horror e a arte,
criámos os dois; unimo-los.
Separámos a vida e a morte.
José Pedro Cadima
criámos o horror e a arte,
criámos os dois; unimo-los.
Separámos a vida e a morte.
José Pedro Cadima
sexta-feira, junho 06, 2008
Canibalismo
Que se retorne ao canibalismo.
Que seja hoje e depressa!
Já toda a carne se me sugere saber
àquela que o homem tem.
Com canibal desejo,
devoro aos poucos
a própria consciência.
Sabe-me na boca
e não me sabe mal.
José Pedro Cadima
Que seja hoje e depressa!
Já toda a carne se me sugere saber
àquela que o homem tem.
Com canibal desejo,
devoro aos poucos
a própria consciência.
Sabe-me na boca
e não me sabe mal.
José Pedro Cadima
quinta-feira, junho 05, 2008
Sem apelo
Sem apelo,
sem dó nem piedade,
volto à escrita, como volto ao amor,
mesmo que isso pareça coisa de fracos,
coisa dos que amam uma para sempre.
José Pedro Cadima
sem dó nem piedade,
volto à escrita, como volto ao amor,
mesmo que isso pareça coisa de fracos,
coisa dos que amam uma para sempre.
José Pedro Cadima
segunda-feira, junho 02, 2008
Na vida: sonhos
Jogando em frente
as insígnias conseguidas,
nota-se que há muitos sonhos
que são mais pequenos que a vida.
Reflexos em espelhos sem cantos
permitem a fuga da ilusão.
Tarefa árdua é também procurar
agulha em palheiro:
vemo-nos gregos.
Convirá alertar os homens de ambição
que o mundo não se conquista com talheres,
embora essa conquista possa
não dispensar a mesa.
Pelo menos, não se contam histórias,
em que tal tenha acontecido.
Às mulheres, rosas se oferecem
ao invés de alecrim,
talvez por causa do seu perfume.
Podem ser rosa,
podem ser brancas ou vermelhas,
vermelho-amante;
fazem-nos sempre sonhar
com o seu perfume de rosas,
o seu cheiro de mulher.
José Pedro Cadima
as insígnias conseguidas,
nota-se que há muitos sonhos
que são mais pequenos que a vida.
Reflexos em espelhos sem cantos
permitem a fuga da ilusão.
Tarefa árdua é também procurar
agulha em palheiro:
vemo-nos gregos.
Convirá alertar os homens de ambição
que o mundo não se conquista com talheres,
embora essa conquista possa
não dispensar a mesa.
Pelo menos, não se contam histórias,
em que tal tenha acontecido.
Às mulheres, rosas se oferecem
ao invés de alecrim,
talvez por causa do seu perfume.
Podem ser rosa,
podem ser brancas ou vermelhas,
vermelho-amante;
fazem-nos sempre sonhar
com o seu perfume de rosas,
o seu cheiro de mulher.
José Pedro Cadima
sábado, maio 31, 2008
Sonhos...
Sonhos...
Sonhar? Porque não?
... E a nuvem escura,
tremenda passou,
descarregou toda a água
e a raiva que a movia.
Depois, o sol raiou
e da terra emanou um cheiro suave e perfumado,
o cheiro da terra.
Senti-me leve, então,
capaz de voltar a sonhar.
José Cadima
Sonhar? Porque não?
... E a nuvem escura,
tremenda passou,
descarregou toda a água
e a raiva que a movia.
Depois, o sol raiou
e da terra emanou um cheiro suave e perfumado,
o cheiro da terra.
Senti-me leve, então,
capaz de voltar a sonhar.
José Cadima
quarta-feira, maio 28, 2008
Desespero...
E o momento da morte funde-se com o da vida formando uma camada de desespero incompreensível.
.
José Pedro Cadima
terça-feira, maio 27, 2008
Lábios
Lábios doces, leves;
doces, leves lábios.
Toque apaixonado
por despertar.
Imprevisto gesto de amor.
Flutuo-o levemente,
para lá dos sonhos
impostos pelo desejo de te beijar.
Doces…
Leves…
Lábios…
José Pedro Cadima
doces, leves lábios.
Toque apaixonado
por despertar.
Imprevisto gesto de amor.
Flutuo-o levemente,
para lá dos sonhos
impostos pelo desejo de te beijar.
Doces…
Leves…
Lábios…
José Pedro Cadima
domingo, maio 25, 2008
Minha Querida Helena
Espero que te encontres bem, na companhia dos teus. Eu cá vou indo como posso, umas horas mais fresco outras carregando com esforço óbvio o meu cansaço. Os fins de tarde, de um modo geral, têm-se revelado bastante penosos. O pior é quando ao dia se junta uma noite de sobressalto. Tirando isso – como te dizia – cá vou andando.
Sobre os meninos, dir-te-ei que lá vão indo, também. Tenho andado um pouco preocupado com o José Pedro em razão da indicação que tenho de que algo não vai bem com os seus amores (tal qual se passa com o pai). Na verdade, fiquei algo alvoroçado quando há dias me mandou uma mensagem electrónica (vulgo, e-mail) dando-me indicação que retirasse a dedicatória à Maria do seu livro em projecto. Imaginei-o logo de volta aos seus poemas de desesperança, de que te falei vai para uns tempos, e que tanto desconforto me provocaram. Surpreendentemente, contudo - tanto quanto me apercebi – isso não terá acontecido. Em vez disso, partiu com o avô rumo a Leiria, primeiro, e a Lisboa, depois, de onde me deu notícias razoavelmente descontraídas de Sintra e de Queluz. Faço grande força para que assim continue.
Todavia, a serem válidos os sinais de que te falo no parágrafo precedente, tanta ou mais preocupação que o José Pedro dá-me o João Miguel. Imagina que criou uma espécie de pânico em relação ao regresso à Escola, ao ponto de uma destas madrugadas ter aparecido no quarto da mãe em choro aberto questionando se não podia ter antes aulas em casa. Confirmo assim a ideia com que tinha ficado de que o ano académico passado foi para ele um enorme pesadelo. E até nem me custa entender que como tal o tenha sentido a aquilatar pela impreparação que constatei nos professores que, em má hora, tive que contactar. Mas daí até este vale de lágrimas de um miúdo como aquele vai certa distância. Lá tenho procurado sossegá-lo o melhor que sei, mas a apreensão, essa, ninguém ma tira.
Como uso dizer – e sou inteiramente sincero nisso – só pensa ter filhos hoje em dia quem não tem nada mais com que se ocupar ou, o que é radicalmente pior, quem é muito ingénuo ou um grande irresponsável. Como sabes, eu encácho-me na categoria dos ingénuos. Feito o erro, vou ter que viver com ele, mesmo que isso me custe para além do que tenho e posso dar. É uma de entre várias fatalidades com que estou confrontado. Daí a expressão cá vou indo com que iniciei esta mensagem que decidi endereçar-te.
Ciente, no entanto, que a carta vai longa e que te macei já para além do razoável, mantendo embora presente a tua benevolência, despeço-me até à próxima.
Dá cumprimentos da minha parte ao teu filho, e não te esqueças de lhe dizer que não me julgue mal pela forma como não soube lidar com a sua mãe. Recebe um beijo deste que tanto te quer.
Braga, 31 de Agosto de 2004
José Cadima
Sobre os meninos, dir-te-ei que lá vão indo, também. Tenho andado um pouco preocupado com o José Pedro em razão da indicação que tenho de que algo não vai bem com os seus amores (tal qual se passa com o pai). Na verdade, fiquei algo alvoroçado quando há dias me mandou uma mensagem electrónica (vulgo, e-mail) dando-me indicação que retirasse a dedicatória à Maria do seu livro em projecto. Imaginei-o logo de volta aos seus poemas de desesperança, de que te falei vai para uns tempos, e que tanto desconforto me provocaram. Surpreendentemente, contudo - tanto quanto me apercebi – isso não terá acontecido. Em vez disso, partiu com o avô rumo a Leiria, primeiro, e a Lisboa, depois, de onde me deu notícias razoavelmente descontraídas de Sintra e de Queluz. Faço grande força para que assim continue.
Todavia, a serem válidos os sinais de que te falo no parágrafo precedente, tanta ou mais preocupação que o José Pedro dá-me o João Miguel. Imagina que criou uma espécie de pânico em relação ao regresso à Escola, ao ponto de uma destas madrugadas ter aparecido no quarto da mãe em choro aberto questionando se não podia ter antes aulas em casa. Confirmo assim a ideia com que tinha ficado de que o ano académico passado foi para ele um enorme pesadelo. E até nem me custa entender que como tal o tenha sentido a aquilatar pela impreparação que constatei nos professores que, em má hora, tive que contactar. Mas daí até este vale de lágrimas de um miúdo como aquele vai certa distância. Lá tenho procurado sossegá-lo o melhor que sei, mas a apreensão, essa, ninguém ma tira.
Como uso dizer – e sou inteiramente sincero nisso – só pensa ter filhos hoje em dia quem não tem nada mais com que se ocupar ou, o que é radicalmente pior, quem é muito ingénuo ou um grande irresponsável. Como sabes, eu encácho-me na categoria dos ingénuos. Feito o erro, vou ter que viver com ele, mesmo que isso me custe para além do que tenho e posso dar. É uma de entre várias fatalidades com que estou confrontado. Daí a expressão cá vou indo com que iniciei esta mensagem que decidi endereçar-te.
Ciente, no entanto, que a carta vai longa e que te macei já para além do razoável, mantendo embora presente a tua benevolência, despeço-me até à próxima.
Dá cumprimentos da minha parte ao teu filho, e não te esqueças de lhe dizer que não me julgue mal pela forma como não soube lidar com a sua mãe. Recebe um beijo deste que tanto te quer.
Braga, 31 de Agosto de 2004
José Cadima
sexta-feira, maio 23, 2008
Está tudo tão industrial
Está tudo tão industrial,
como se a vida
fosse mais uma peça de maquinaria.
Se assim é,
deixai-me ser seu manuseador,
deixai-me espaço para manipular
esta máquina que me pertence.
Quero poder rodar manivelas.
Quero saltar sobre os maus tempos.
José Pedro Cadima
como se a vida
fosse mais uma peça de maquinaria.
Se assim é,
deixai-me ser seu manuseador,
deixai-me espaço para manipular
esta máquina que me pertence.
Quero poder rodar manivelas.
Quero saltar sobre os maus tempos.
José Pedro Cadima
Os deuses
Chorei toda a noite,
e hoje chove.
Incrível o que fazem os deuses
para que não me sinta só!
José Pedro Cadima
e hoje chove.
Incrível o que fazem os deuses
para que não me sinta só!
José Pedro Cadima
terça-feira, maio 20, 2008
O precipício no fim da vida
Não há razão para viver
se não se for Colombo.
Não há como dormir
se não se souber como.
De um feixe de luz,
compreender a velocidade.
De uma pedra no chão,
identificar aquela que se é.
Sabereis vós todos
que, na vida, só há vida
se soubermos porquê?
José Pedro Cadima
se não se for Colombo.
Não há como dormir
se não se souber como.
De um feixe de luz,
compreender a velocidade.
De uma pedra no chão,
identificar aquela que se é.
Sabereis vós todos
que, na vida, só há vida
se soubermos porquê?
José Pedro Cadima
sábado, maio 17, 2008
“A saúde está pelas ruas da amargura”
“Alguém que me é próximo sugeriu que me ocupasse numa destas crónicas das temáticas da saúde e da segurança social. Chocou-me a sugestão. Na verdade, é difícil descortinar como é eu poderia trazer para uma rubrica votada à análise política de fundo e à cultura assuntos tão rasteiros.
Rasteiros, digo, pois é bem sabido que saúde e segurança social andam ambas pelas ruas da amargura. Em tempo de triunfo de liberalismos e liberais feitos à pressa, em tempo de glorificação de construtores de auto-estradas e de centros culturais de Belém e da Feira sobra pouco para garantir a assistência na doença e o bem-estar dos cidadãos.
É de certo modo compreensível que assim seja, posto que doença é coisa de que ninguém gosta de falar e que o aproximar da idade da reforma é também o aproximar do termo da vida. Muito mais atractivo é, em época de Verão, deitar o olho às mulheraças em «top less» espraiadas ao sol ou aos programas de férias propostos pelas agências de viagens. Infelizmente, meninas de maminhas ao léu continuam a aparecer pouco aqui pelas praias do Minho e, pelo que se reporta a férias tropicais, falta-nos, à maioria, o conforto dos milhões do Fundo Social Europeu e do PEDIP, versão Mira Amaral.
Há também outra faceta nesta coisa do investimento na saúde dos portugueses que não abona a favor do tema, que tem que ver com a circunstância deste tipo de aplicação de fundos cair na categoria do chamado investimento imaterial. Quer dizer, é dinheiro deitado à rua já que uma vez gasto não fica nem tabuleta comemorativa nem obra para a posteridade. Nisso tem, portanto, muito a perder relativamente a auto-estrada, ponte ou quartel de bombeiros.
Os cidadãos eleitores sabem isso, e é essa a razão profunda porque nutrem um especial desprezo pela vida. Sobretudo pela vida dos outros, como se prova pelas estatísticas de acidentes rodoviários e de trabalho. Outro indicador que vai em idêntico sentido é a forma afável como continuam a acolher nas suas terras os ministros da saúde e do emprego e segurança social.
Tratasse-se dos seus congéneres das obras públicas ou da indústria, por exemplo, e a coisa ficaria bem diferente: «fujam que aqui vai calhau!» .”
J. C.
(reprodução integral de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 95/08/05, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)
Rasteiros, digo, pois é bem sabido que saúde e segurança social andam ambas pelas ruas da amargura. Em tempo de triunfo de liberalismos e liberais feitos à pressa, em tempo de glorificação de construtores de auto-estradas e de centros culturais de Belém e da Feira sobra pouco para garantir a assistência na doença e o bem-estar dos cidadãos.
É de certo modo compreensível que assim seja, posto que doença é coisa de que ninguém gosta de falar e que o aproximar da idade da reforma é também o aproximar do termo da vida. Muito mais atractivo é, em época de Verão, deitar o olho às mulheraças em «top less» espraiadas ao sol ou aos programas de férias propostos pelas agências de viagens. Infelizmente, meninas de maminhas ao léu continuam a aparecer pouco aqui pelas praias do Minho e, pelo que se reporta a férias tropicais, falta-nos, à maioria, o conforto dos milhões do Fundo Social Europeu e do PEDIP, versão Mira Amaral.
Há também outra faceta nesta coisa do investimento na saúde dos portugueses que não abona a favor do tema, que tem que ver com a circunstância deste tipo de aplicação de fundos cair na categoria do chamado investimento imaterial. Quer dizer, é dinheiro deitado à rua já que uma vez gasto não fica nem tabuleta comemorativa nem obra para a posteridade. Nisso tem, portanto, muito a perder relativamente a auto-estrada, ponte ou quartel de bombeiros.
Os cidadãos eleitores sabem isso, e é essa a razão profunda porque nutrem um especial desprezo pela vida. Sobretudo pela vida dos outros, como se prova pelas estatísticas de acidentes rodoviários e de trabalho. Outro indicador que vai em idêntico sentido é a forma afável como continuam a acolher nas suas terras os ministros da saúde e do emprego e segurança social.
Tratasse-se dos seus congéneres das obras públicas ou da indústria, por exemplo, e a coisa ficaria bem diferente: «fujam que aqui vai calhau!» .”
J. C.
(reprodução integral de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 95/08/05, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)
quinta-feira, maio 15, 2008
Voltar a viver
Apetece-me saltar de tão alto
que voltar ao chão seja impossível.
Apetece-me correr tão rápido
que parar pareça um sonho.
Apetece-me entrar num sono tão profundo
que acordar seja voltar a viver.
Apetece-me...
José Pedro Cadima
que voltar ao chão seja impossível.
Apetece-me correr tão rápido
que parar pareça um sonho.
Apetece-me entrar num sono tão profundo
que acordar seja voltar a viver.
Apetece-me...
José Pedro Cadima
segunda-feira, maio 12, 2008
Imaginação
O vazio
escorre-me da mente.
Encho baldes
do que não existe.
De imaginação morta,
Deus só nos teria criado a nós.
José Pedro Cadima
sábado, maio 10, 2008
Algo que só tu sabes
Quando estamos juntos,
sinto que dançamos,
sinto algo no ar,
sinto que algo nos junta.
Quando estamos juntos,
sinto algo que me faz assim,
algo que te faz assim,
algo que...
Sinto algo que só tu sabes.
José Pedro Cadima
sinto que dançamos,
sinto algo no ar,
sinto que algo nos junta.
Quando estamos juntos,
sinto algo que me faz assim,
algo que te faz assim,
algo que...
Sinto algo que só tu sabes.
José Pedro Cadima
quinta-feira, maio 08, 2008
Meu achado(2)
Ai achado!
Meu coração-agulha, qual bússola,
aponta para ti.
Um traço teu
leva-me a amar-te,
como a agulha ao norte.
As tuas sardas-meninas,
luzentes ao sol e à luz,
invisíveis na noite
ou no meu quarto escuro,
iluminam-te a vergonha
por me pedires um beijo.
Prova-me nos lábios
o amor que lhes tomei!
José Pedro Cadima
Meu coração-agulha, qual bússola,
aponta para ti.
Um traço teu
leva-me a amar-te,
como a agulha ao norte.
As tuas sardas-meninas,
luzentes ao sol e à luz,
invisíveis na noite
ou no meu quarto escuro,
iluminam-te a vergonha
por me pedires um beijo.
Prova-me nos lábios
o amor que lhes tomei!
José Pedro Cadima
terça-feira, maio 06, 2008
sábado, maio 03, 2008
O fim do mundo
O tempo é de trovoada:
durmo.
Há sempre um dia
para lá de amanhã.
De futuro, virão tempestades e inundações:
dormirei.
A pior das catástrofes levará vidas
e eu cá ficarei, a dormir.
Não te zangues comigo,
meu mundo, minha vida!
O teu medo não me dá descanso.
José Pedro Cadima
durmo.
Há sempre um dia
para lá de amanhã.
De futuro, virão tempestades e inundações:
dormirei.
A pior das catástrofes levará vidas
e eu cá ficarei, a dormir.
Não te zangues comigo,
meu mundo, minha vida!
O teu medo não me dá descanso.
José Pedro Cadima
quinta-feira, maio 01, 2008
Minha Querida Helena
Depois de um enorme vale de lágrimas vertidas por ti e por mim, sigo neste comboio a caminho de Lisboa. A mente deixei-a contigo. Como é possível que o nosso amor incomode tanta gente? Que tem de especial o nosso amor? O ser muito, muito grande? Mas não é mesmo assim que devem ser os amores?
Percorrendo, em pensamento, as últimas palavras que me dirigistes e revendo tudo o que dissestes antes, pergunto-me, adicionalmente, porque é que o nosso amor tem que ser um amor proibido. Será por ser tão intenso que o desgaste a que estamos sujeitos nos extenua desta maneira? Como posso eu querer-te tanto e penalizar-te tanto?
Meu amor: a cabeça fervilha-me de pensamentos e de dúvidas. A única certeza que tenho é que já não sou capaz de conceber o meu dia-a-dia sem ter-te como refúgio e como ancoradouro. Desgraçada que é a minha vida, perderá o sentido que lhe resta sem as amarras que me lanças.
É irónico que num momento juntemos pertences tão simbólicos como o são um cravo do sul, um loureiro e um jarro roxo e no instante seguinte me digas que o xicoração que me deste, quase roubado, foi o último. Como pode ser o último se o nosso cravo do sul e o nosso loureiro permanecem viçosos? Dás por perdido o jarro roxo e, com ele, as demais plantas, símbolos preciosos da nossa união? Não dês, minha querida. Luta para que vivam, mesmo que seja para que nos sobrevivam. Essa será mais uma prova da força deste amor.
Neste comboio, a caminho de Lisboa e contigo como objecto único de pensamento, pergunto-me como será a seguir, logo, quando chegar ao hotel, ou amanhã à noite, quando regressar. Irei telefonar-te? Atenderás tu o telefone se eu tiver a coragem ou a fraqueza de te ligar? E depois?
E depois? Decidido está que 3ª feira comprarei bilhetes para o espectáculo com o José Mário Branco, a 24 de Abril, havendo bilhetes - ficaria muito frustrado se não os houvesse. Está decidido que comprarei dois bilhetes. Depois logo se verá se te terei a meu lado ou se o banco vizinho ficará vazio durante o espectáculo.
Não, não quero questionar-me sobre como resistirei à emoção daquele momento se não puder ter a força de te sentir a meu lado. Não, não quero imaginar como o nosso cravo do sul poderá resistir à minha ausência. Não, não quero pensar … Helena, minha querida.
José Cadima
Percorrendo, em pensamento, as últimas palavras que me dirigistes e revendo tudo o que dissestes antes, pergunto-me, adicionalmente, porque é que o nosso amor tem que ser um amor proibido. Será por ser tão intenso que o desgaste a que estamos sujeitos nos extenua desta maneira? Como posso eu querer-te tanto e penalizar-te tanto?
Meu amor: a cabeça fervilha-me de pensamentos e de dúvidas. A única certeza que tenho é que já não sou capaz de conceber o meu dia-a-dia sem ter-te como refúgio e como ancoradouro. Desgraçada que é a minha vida, perderá o sentido que lhe resta sem as amarras que me lanças.
É irónico que num momento juntemos pertences tão simbólicos como o são um cravo do sul, um loureiro e um jarro roxo e no instante seguinte me digas que o xicoração que me deste, quase roubado, foi o último. Como pode ser o último se o nosso cravo do sul e o nosso loureiro permanecem viçosos? Dás por perdido o jarro roxo e, com ele, as demais plantas, símbolos preciosos da nossa união? Não dês, minha querida. Luta para que vivam, mesmo que seja para que nos sobrevivam. Essa será mais uma prova da força deste amor.
Neste comboio, a caminho de Lisboa e contigo como objecto único de pensamento, pergunto-me como será a seguir, logo, quando chegar ao hotel, ou amanhã à noite, quando regressar. Irei telefonar-te? Atenderás tu o telefone se eu tiver a coragem ou a fraqueza de te ligar? E depois?
E depois? Decidido está que 3ª feira comprarei bilhetes para o espectáculo com o José Mário Branco, a 24 de Abril, havendo bilhetes - ficaria muito frustrado se não os houvesse. Está decidido que comprarei dois bilhetes. Depois logo se verá se te terei a meu lado ou se o banco vizinho ficará vazio durante o espectáculo.
Não, não quero questionar-me sobre como resistirei à emoção daquele momento se não puder ter a força de te sentir a meu lado. Não, não quero imaginar como o nosso cravo do sul poderá resistir à minha ausência. Não, não quero pensar … Helena, minha querida.
José Cadima
terça-feira, abril 29, 2008
O que deixaste à porta
Se bem o deixaste à porta
escusado é voltar atrás.
Não está lá
nem pensa em depressa voltar.
Em retorno, desejo-te do coração
que não se alongue teu caminho.
Ficarias abandonado neste mundo,
outra vez.
Hás-de iludir-te
para a esperança procurar,
que também lá atrás ficou
pedindo ao bem que te espere.
Aqui, espera-te o mal,
carregando ironia vida adiante,
sempre erguido e com mãos largas,
alardeando alegria a tua expensas.
José Pedro Cadima
escusado é voltar atrás.
Não está lá
nem pensa em depressa voltar.
Em retorno, desejo-te do coração
que não se alongue teu caminho.
Ficarias abandonado neste mundo,
outra vez.
Hás-de iludir-te
para a esperança procurar,
que também lá atrás ficou
pedindo ao bem que te espere.
Aqui, espera-te o mal,
carregando ironia vida adiante,
sempre erguido e com mãos largas,
alardeando alegria a tua expensas.
José Pedro Cadima
sábado, abril 26, 2008
Raiva
Há raiva que nada faz
e me deixa sempre em guerra.
Tropeço num vazo que caiu
do alto dos meios receios.
Pior era ter por lá ficado!
A gravidade é forte
e traz tudo para os nossos pés,
excepto os problemas.
Esses teimam em manter-se lá no alto,
ameaçando-nos a tranquilidade,
quando não alimentando-nos a raiva.
José Pedro Cadima
e me deixa sempre em guerra.
Tropeço num vazo que caiu
do alto dos meios receios.
Pior era ter por lá ficado!
A gravidade é forte
e traz tudo para os nossos pés,
excepto os problemas.
Esses teimam em manter-se lá no alto,
ameaçando-nos a tranquilidade,
quando não alimentando-nos a raiva.
José Pedro Cadima
sexta-feira, abril 25, 2008
Escrito no preto
Escrito no preto
para não se ver;
escrito no preto
para não se perceber;
escrito no preto,
por mim;
escrito no preto,
para ti;
escrito no preto
para ser esquecido;
escrito no preto
para nunca tu dizer.
Que sentimento estranho
este de, ao mesmo tempo,
querer apagar-te da memória
e desejar correr para os teus braços!
José Pedro Cadima
para não se ver;
escrito no preto
para não se perceber;
escrito no preto,
por mim;
escrito no preto,
para ti;
escrito no preto
para ser esquecido;
escrito no preto
para nunca tu dizer.
Que sentimento estranho
este de, ao mesmo tempo,
querer apagar-te da memória
e desejar correr para os teus braços!
José Pedro Cadima
terça-feira, abril 22, 2008
Um sitio distante de mim
Desejaria partir
em busca de isolamento
num lugar bem longe daqui,
num sítio distante de mim,
onde pudesse encontrar
as resposta que me faltam,
no relativismo absoluto
dos teus e dos meus sentimentos.
Nem em tudo eu meto sentimentos.
Eles é que se metem em mim!
Queria encontrar resposta para problema assim.
José Pedro Cadima
em busca de isolamento
num lugar bem longe daqui,
num sítio distante de mim,
onde pudesse encontrar
as resposta que me faltam,
no relativismo absoluto
dos teus e dos meus sentimentos.
Nem em tudo eu meto sentimentos.
Eles é que se metem em mim!
Queria encontrar resposta para problema assim.
José Pedro Cadima
sábado, abril 19, 2008
E se eu morresse agora?
Já pensaste: e se eu morresse agora?
Virias à minha campa chorar?
Rezarias pela minha alma penada?
Acharias alguém para te amar como eu te amo?
Não! Não penses nisso.
Terás assuntos mais interessantes em que pensar
e, eu morrendo ou não morrendo,
não te faltarão homens a quem amar.
Menos seguro será encontrares alguém
que te venha a amar tanto quanto eu.
Não, não rezes por mim.
Não, não irás encontrar alguém
que te venha a amar mais intensamente que eu,
mas talvez possas achar alguém que te faça mais feliz
do que eu consegui que fosses comigo.
José Pedro Cadima
Virias à minha campa chorar?
Rezarias pela minha alma penada?
Acharias alguém para te amar como eu te amo?
Não! Não penses nisso.
Terás assuntos mais interessantes em que pensar
e, eu morrendo ou não morrendo,
não te faltarão homens a quem amar.
Menos seguro será encontrares alguém
que te venha a amar tanto quanto eu.
Não, não rezes por mim.
Não, não irás encontrar alguém
que te venha a amar mais intensamente que eu,
mas talvez possas achar alguém que te faça mais feliz
do que eu consegui que fosses comigo.
José Pedro Cadima
quinta-feira, abril 17, 2008
Lá fora
Olhas o quê, à janela?
Olha antes para mim.
Não repares na gente lá fora.
Fazem-nos mal, sabias?
Muito mal:
limam as arestas dos nossos erros;
lembram-nos desgraças
num nunca mais acabar.
Dá-me a mão!
Junta-te a mim!
Só abraçando-te sou capaz de afastar
o frio que vem lá de fora.
Não olhes quem vai lá fora.
Olha-me a mim.
Aqui também há
gente carente de afecto.
José Pedro Cadima
Olha antes para mim.
Não repares na gente lá fora.
Fazem-nos mal, sabias?
Muito mal:
limam as arestas dos nossos erros;
lembram-nos desgraças
num nunca mais acabar.
Dá-me a mão!
Junta-te a mim!
Só abraçando-te sou capaz de afastar
o frio que vem lá de fora.
Não olhes quem vai lá fora.
Olha-me a mim.
Aqui também há
gente carente de afecto.
José Pedro Cadima
terça-feira, abril 15, 2008
Minha Querida Helena
Se há dias em que não devemos sair de casa, este foi para mim um deles. Só que tudo começou por correr mal em casa, do “periférico” do computador que avaria e que não parece ser possível adquirir em lado algum ao correio electrónico que se revela difícil de visualizar. Para terminar em desgraça completa, até o presente acabado de adquirir veio com defeito. Como saldo do dia, ficou cansaço e irritação e uma mão cheia de nada, se se considerar o trabalho que estava por fazer e o que efectivamente foi feito.
Em consonância com o demais, pelo telefone soube que te sentias doente, o que não se tratando de novidade, infelizmente, também em nada ajudou ao meu dia. Vou ficar a aguardar com ansiedade o dia em que me digas exactamente o oposto, isto é, que te sentes em boa forma e nada te apetece mais que sair à rua e deixar passar para quantos se cruzem contigo a alegria que se te estampa nos olhos e se percebe na leveza dos teus gestos.
Dentro do expectável, a deslocação a Lisboa até nem correu mal: uma noite calma no hotel, quer dizer, razoavelmente dormida; uma reunião com alguns pontos de interesse, sublinhada por duas intervenções na discussão dos dossiês em agenda que não deslustraram; uma viagem de combóio serena e no horário, na ida e no regresso; a comodidade dos novos comboios que circulam na linha renovada Braga-Lisboa (mais renovada em Braga que em Lisboa). Para ser melhor, bem melhor, teria que se ter concretizado a tua “promessa” de me acompanhares. Mas a “promessa”, desgraçadamente, não passou disso, de promessa. Fica para a próxima, não é minha querida?
Pela minha parte, não me esquecerei de te dirigir novamente o convite na vizinha oportunidade, e na oportunidade vizinha da vizinha e nas ocasiões seguintes, até que te canses de recusar os meus convites e decidas aceitar um.
Braga, 16 de Outubro de 2004
José Cadima
Em consonância com o demais, pelo telefone soube que te sentias doente, o que não se tratando de novidade, infelizmente, também em nada ajudou ao meu dia. Vou ficar a aguardar com ansiedade o dia em que me digas exactamente o oposto, isto é, que te sentes em boa forma e nada te apetece mais que sair à rua e deixar passar para quantos se cruzem contigo a alegria que se te estampa nos olhos e se percebe na leveza dos teus gestos.
Dentro do expectável, a deslocação a Lisboa até nem correu mal: uma noite calma no hotel, quer dizer, razoavelmente dormida; uma reunião com alguns pontos de interesse, sublinhada por duas intervenções na discussão dos dossiês em agenda que não deslustraram; uma viagem de combóio serena e no horário, na ida e no regresso; a comodidade dos novos comboios que circulam na linha renovada Braga-Lisboa (mais renovada em Braga que em Lisboa). Para ser melhor, bem melhor, teria que se ter concretizado a tua “promessa” de me acompanhares. Mas a “promessa”, desgraçadamente, não passou disso, de promessa. Fica para a próxima, não é minha querida?
Pela minha parte, não me esquecerei de te dirigir novamente o convite na vizinha oportunidade, e na oportunidade vizinha da vizinha e nas ocasiões seguintes, até que te canses de recusar os meus convites e decidas aceitar um.
Braga, 16 de Outubro de 2004
José Cadima
domingo, abril 13, 2008
Memória de uma data especial
sábado, abril 12, 2008
De mãos dadas
De mãos dadas,
a noite nunca é fria.
As nossas almas
afastam qualquer frialdade.
O sentimento, o amor
são energias fortíssimas,
capazes de gerar calor
tanto mais intenso quanto o sejam os laços
que nos ligam.
O contacto, a proximidade
geram troca de energia e estimulam mais trocas
e a geração de mais calor.
Fria que pareça a noite,
parecer-nos-á sempre amena
se a cruzarmos entrelaçados.
José Pedro Cadima
a noite nunca é fria.
As nossas almas
afastam qualquer frialdade.
O sentimento, o amor
são energias fortíssimas,
capazes de gerar calor
tanto mais intenso quanto o sejam os laços
que nos ligam.
O contacto, a proximidade
geram troca de energia e estimulam mais trocas
e a geração de mais calor.
Fria que pareça a noite,
parecer-nos-á sempre amena
se a cruzarmos entrelaçados.
José Pedro Cadima
quinta-feira, abril 10, 2008
Desenfastiando: “what else”?
Um dia depois de ter passado por Braga e na véspera de rumar às terras geladas da Sibéria, Alexandre Sousa, professor da Universidade de Aveiro e desinquietador de espíritos, perguntava-nos, e perguntava-nos bem (mal), “what else?”. Isso queríamos nós saber! É que os rumos do Ensino Superior Nacional são difíceis de descortinar, guiados por timoneiros tão temerários quanto o são os que temos tido, a começar pelo Zé Mariano, que antes foi Gago e só perdeu quando começou a abusar da palavra ganha.
“Como é que tu és a favor do RJIES?”, perguntava-lhe outro marinheiro. Mas como é que se pode ser marinheiro e, ao mesmo tempo, gostar de águas paradas? Escolhido que tenha sido ser-se marinheiro, há que marear nas águas que o mar traga, que nunca hão-de ser paradas e, muito menos, estagnadas. A escolha é ser-se marinheiro.
Feitos ao mar, pode-se ir a Bolonha? Pois concerteza, mas a Bolonha que se queria era bem condimentada, não esta piza sensaborona que nos calhou. Habilitado com o seu curso intensivo de marketing e imagem, o Zé Mariano nunca mais quis saber o que quer que fosse da qualidade da massa e dos ingredientes. Basta-lhe que a piza pareça luzidia, e se se pouparem uns cobres para ajudar as “reformas” de Sócrates e os coitados dos americanos tanto melhor. Foi assim que Barroso chegou a presidente da Europa e o Zé Mariano não é menos que ele, a não ser talvez no empenho com que Barroso abraçou a militância MRPPista doutros tempos.
E a bisca lambida? Essa é para ser lambida nos senados trazidos pelo RJIES (Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior) que, fazendo de conta, hão-de aplaudir esta Bolonha e todas quantas os senhores do marketing e da propaganda mandarem lamber, a bem das “reformas”. E se forem muitos, mais biscas lambem. Desde que possam preservar a sua parcela de protagonismo, porque não? A pequena dificuldade que subsiste é que pode restar só o papel de bobo da corte.
Tal qual George Clooney”, dizia-nos Alexandre Sousa, “também eu apareço sempre que posso em anúncios de vacas leiteiras". Pudera! Podendo escolher entre vacas leiteiras e vacas escanzeladas ou esbeltas (como lhes chamava um colega mais imaginativo, vai para pouco menos de uma dezena e meia de anos), quem não fica com as leiteiras. E então agora que o leite está caro. Não é por isso que deixa de haver utopias realizáveis. É preciso é batalhar mais por elas. Bolonha é já ali! Os americanos hão-de se envergonhar desta sopa dos pobres e quando isso acontecer restará ao Zé Mariano fazer outro curso intensivo de marketing e propaganda ou pedir ajuda a Barroso, para que lhe arranje um lugar de chefe de gabinete em Bruxelas. Não seria o primeiro e Barroso já não é o Durão que em tempos foi.
O processo em curso nas universidades e politécnicos não é, nem tem de ser, pacífico. “Processos pacíficos são aqueles que defrontamos com o Ministério da Finanças quando não pagamos o IRS”, retorquia Alexandre Sousa, outra vez. É entretanto diferente haver visões diferentes da universidade (e do politécnico) e uns quantos apresentarem-se como senhores do destino das Instituições de Ensino Superior (IES), para mais, conhecendo nós “a verdade” de que são mensageiros.
Como digo, o problema não são as leituras diversas que se façam das IES e dos caminhos a trilhar. Penoso é, isso sim, constatar o "estado gripal do (des)ensino superior", na caracterização de Vasco Eiriz, professor da EEG/Universidade do Minho, citando alguém que não importa trazer para aqui. Penoso é que haja professores a fazer xixi na tampa da sanita. Penoso é que em reuniões dos órgãos académicos herdados do anterior ordenamento jurídico, a grande maioria dos professores universitários mantenha um silêncio estrondoso em relação a tudo que tenha menos natureza de gestão corrente, porque têm medo.
Face ao beco sem saída do presente, qualquer debate só pode resultar rico, por mais caótico que pareça, desde que exista. Que se dane o Zé Mariano, que, ironicamente, até pode ser louvado por tê-lo provocado, e que se dane o Augustus. Que se dane o Augustus, que ainda por cima é daltónico e viu bandeiras vermelhas onde só havia lenços brancos. Se as vacas são escanzeladas, porque há-de o académico fingir que as achas gordas e leiteiras? Deve achá-lo só porque lhe matraqueiam quotidianamente o espírito com discursos da reforma, e das maravilhas que lhe hão-de chegar de Bolonha?
Vivam as vacas leiteiras! Viva a bisca lambida!
“Como é que tu és a favor do RJIES?”, perguntava-lhe outro marinheiro. Mas como é que se pode ser marinheiro e, ao mesmo tempo, gostar de águas paradas? Escolhido que tenha sido ser-se marinheiro, há que marear nas águas que o mar traga, que nunca hão-de ser paradas e, muito menos, estagnadas. A escolha é ser-se marinheiro.
Feitos ao mar, pode-se ir a Bolonha? Pois concerteza, mas a Bolonha que se queria era bem condimentada, não esta piza sensaborona que nos calhou. Habilitado com o seu curso intensivo de marketing e imagem, o Zé Mariano nunca mais quis saber o que quer que fosse da qualidade da massa e dos ingredientes. Basta-lhe que a piza pareça luzidia, e se se pouparem uns cobres para ajudar as “reformas” de Sócrates e os coitados dos americanos tanto melhor. Foi assim que Barroso chegou a presidente da Europa e o Zé Mariano não é menos que ele, a não ser talvez no empenho com que Barroso abraçou a militância MRPPista doutros tempos.
E a bisca lambida? Essa é para ser lambida nos senados trazidos pelo RJIES (Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior) que, fazendo de conta, hão-de aplaudir esta Bolonha e todas quantas os senhores do marketing e da propaganda mandarem lamber, a bem das “reformas”. E se forem muitos, mais biscas lambem. Desde que possam preservar a sua parcela de protagonismo, porque não? A pequena dificuldade que subsiste é que pode restar só o papel de bobo da corte.
Tal qual George Clooney”, dizia-nos Alexandre Sousa, “também eu apareço sempre que posso em anúncios de vacas leiteiras". Pudera! Podendo escolher entre vacas leiteiras e vacas escanzeladas ou esbeltas (como lhes chamava um colega mais imaginativo, vai para pouco menos de uma dezena e meia de anos), quem não fica com as leiteiras. E então agora que o leite está caro. Não é por isso que deixa de haver utopias realizáveis. É preciso é batalhar mais por elas. Bolonha é já ali! Os americanos hão-de se envergonhar desta sopa dos pobres e quando isso acontecer restará ao Zé Mariano fazer outro curso intensivo de marketing e propaganda ou pedir ajuda a Barroso, para que lhe arranje um lugar de chefe de gabinete em Bruxelas. Não seria o primeiro e Barroso já não é o Durão que em tempos foi.
O processo em curso nas universidades e politécnicos não é, nem tem de ser, pacífico. “Processos pacíficos são aqueles que defrontamos com o Ministério da Finanças quando não pagamos o IRS”, retorquia Alexandre Sousa, outra vez. É entretanto diferente haver visões diferentes da universidade (e do politécnico) e uns quantos apresentarem-se como senhores do destino das Instituições de Ensino Superior (IES), para mais, conhecendo nós “a verdade” de que são mensageiros.
Como digo, o problema não são as leituras diversas que se façam das IES e dos caminhos a trilhar. Penoso é, isso sim, constatar o "estado gripal do (des)ensino superior", na caracterização de Vasco Eiriz, professor da EEG/Universidade do Minho, citando alguém que não importa trazer para aqui. Penoso é que haja professores a fazer xixi na tampa da sanita. Penoso é que em reuniões dos órgãos académicos herdados do anterior ordenamento jurídico, a grande maioria dos professores universitários mantenha um silêncio estrondoso em relação a tudo que tenha menos natureza de gestão corrente, porque têm medo.
Face ao beco sem saída do presente, qualquer debate só pode resultar rico, por mais caótico que pareça, desde que exista. Que se dane o Zé Mariano, que, ironicamente, até pode ser louvado por tê-lo provocado, e que se dane o Augustus. Que se dane o Augustus, que ainda por cima é daltónico e viu bandeiras vermelhas onde só havia lenços brancos. Se as vacas são escanzeladas, porque há-de o académico fingir que as achas gordas e leiteiras? Deve achá-lo só porque lhe matraqueiam quotidianamente o espírito com discursos da reforma, e das maravilhas que lhe hão-de chegar de Bolonha?
Vivam as vacas leiteiras! Viva a bisca lambida!
J. Cadima Ribeiro
(artigo de opinião publicado na edição de 08/04/10 do Jornal de Leiria)
terça-feira, abril 08, 2008
Um lugar neste Universo
Somam-se as energias no Universo.
São elas a força que nos une.
A conexão pessoa-lugar-tempo
que nos move
dá sentido à forma,
define-nos a identidade.
Busca-se uma pessoa:
és tu!
Procura-se um lugar:
és tu!
Questiona-se a ocasião:
és tu!
Tu és sempre o meu eu.
José Pedro Cadima
São elas a força que nos une.
A conexão pessoa-lugar-tempo
que nos move
dá sentido à forma,
define-nos a identidade.
Busca-se uma pessoa:
és tu!
Procura-se um lugar:
és tu!
Questiona-se a ocasião:
és tu!
Tu és sempre o meu eu.
José Pedro Cadima
domingo, abril 06, 2008
Conselho a um artista
Qualquer artista que se preze
a extrema miséria deve visar.
A extrema felicidade, aparte inalcançável,
seria indicador seguro
de que nunca veria publicamente reconhecida
a valia da sua obra,
e um meio-termo deixaria o seu trabalho incompleto.
Claro que é o critério
para atingir o reconhecimento público,
facilitada está a vida de qualquer artista
que vise ir além da mediania:
resta-lhe prosseguir arduamente
o caminho da miséria material.
Terá assegurado um grandioso funeral.
José Pedro Cadima
a extrema miséria deve visar.
A extrema felicidade, aparte inalcançável,
seria indicador seguro
de que nunca veria publicamente reconhecida
a valia da sua obra,
e um meio-termo deixaria o seu trabalho incompleto.
Claro que é o critério
para atingir o reconhecimento público,
facilitada está a vida de qualquer artista
que vise ir além da mediania:
resta-lhe prosseguir arduamente
o caminho da miséria material.
Terá assegurado um grandioso funeral.
José Pedro Cadima
quinta-feira, abril 03, 2008
Minha Querida Helena
Nestes altos e baixos de ânimo, por razões próximas que não sou capaz de descortinar, retorno ao ponto mais baixo do ciclo. É o ânimo e é o cansaço, que em mim se apresentam associados. Se a semana decorresse mais intensa em matéria de solicitações de trabalho, não haveria espaço para estes sinais exteriores de debilidade, isto é, teriam que aguardar oportunidade. As coisas são entretanto como são e, por assim ser, volto ao estado de agonia na sua dimensão mais embaraçosa.
Não ligo esta ressaca aos telefonemas (dois) recentes que me fizeste, nem à visita que te fiz. Não digo que não me tenham afectado mas, se concorrem para este meu momento psicológico, fá-lo-ão em adição de razões mais profundas. Aliás, hoje não me telefonaste, embora eu mantivesse a expectativa que o fizesses. Porventura o questionário com que me brindaste ontem ficou então preenchido, pelo que não permanecia justificação para contacto posterior. Tens que conceder, no entanto, que a interrupção abrupta da ligação (por força do esgotamento das moedas) não permitiu que me desses conta do sucesso ou insucesso das respostas.
Neste interregno de comunicação, fui processando os dados que me havias feito chegar. Desses, talvez te surpreenda que o que me mereceu maior ponderação tenha sido o que se exprime na circunstância de me teres visto movimentar em Braga, sendo seguro que eu não te vi. Não mereceria atenção particular não fora a coincidência de tal se ter passado de modo idêntico em diversas outras ocasiões, a crer nas tuas alegações. E, confesso-te: gostaria de te ter visto desta e das outras vezes, particularmente desta vez.
Não te vi - disso não me resta dúvida – e não entendo como pudeste tu ver-me sem que eu te visse. A verdade é que, se a minha vista não é o que já foi, a tua não me parece em melhor estado. Tu mesma o dizes. Resulta então, daqui, um mistério. O mistério adensa-se quando eu sou visto por “A” ou por “B”, acompanhado, neste e naquele sítio, mesmo que não o tenha frequentado em período recente ou lá tenha estado sozinho. Tens que admitir que estes são dados fortes o bastante para me prenderem a atenção. Tanto mais quanto me sabes um cultor da ficção científica e um adepto confesso dos efeitos especiais. Aliás, como costumo afirmar, para ensaio sobre as misérias do quotidiano basta o próprio quotidiano. Disso fazem espectáculo diário os media.
Eis, Helena querida, um retrato do meu estar psicológico. Será bastante fidedigno já que o que está escrito antes foi-o ao sabor do pensamento livre (outros diriam, ao sabor da pena), não antecipando este final de divã de psiquiatra. É bom que assim seja para que o retrato surja bem autêntico, sem maquilhagem e sem acerto de cabelo. Perante ti posso expor-me despido, segundo creio.
Não tenho conselhos para dar ao psiquiatra. Também não lhos peço. De ti também não os pretendo receber. Se fossem beijos...
Braga, 9 de Setembro de 2004
José Cadima
Ps: correndo o risco de ser acusado de uma súbita simpatia pelo Ps. (com um pontinho em vez de dois pontos – o “s” pequeno é para simbolizar o estado em que está o socialismo), que declaro não ter qualquer fundamento, sou obrigado a recorrer outra vez a esta figura para reparar os efeitos de uma gralha que pousou sobre a data da carta de ontem, fazendo aparecer um seis onde, em verdade, estava um oito. Embora a culpa seja toda da gralha, por uma questão de afinidade com aquela, venho assumir a responsabilidade do erro.
Não ligo esta ressaca aos telefonemas (dois) recentes que me fizeste, nem à visita que te fiz. Não digo que não me tenham afectado mas, se concorrem para este meu momento psicológico, fá-lo-ão em adição de razões mais profundas. Aliás, hoje não me telefonaste, embora eu mantivesse a expectativa que o fizesses. Porventura o questionário com que me brindaste ontem ficou então preenchido, pelo que não permanecia justificação para contacto posterior. Tens que conceder, no entanto, que a interrupção abrupta da ligação (por força do esgotamento das moedas) não permitiu que me desses conta do sucesso ou insucesso das respostas.
Neste interregno de comunicação, fui processando os dados que me havias feito chegar. Desses, talvez te surpreenda que o que me mereceu maior ponderação tenha sido o que se exprime na circunstância de me teres visto movimentar em Braga, sendo seguro que eu não te vi. Não mereceria atenção particular não fora a coincidência de tal se ter passado de modo idêntico em diversas outras ocasiões, a crer nas tuas alegações. E, confesso-te: gostaria de te ter visto desta e das outras vezes, particularmente desta vez.
Não te vi - disso não me resta dúvida – e não entendo como pudeste tu ver-me sem que eu te visse. A verdade é que, se a minha vista não é o que já foi, a tua não me parece em melhor estado. Tu mesma o dizes. Resulta então, daqui, um mistério. O mistério adensa-se quando eu sou visto por “A” ou por “B”, acompanhado, neste e naquele sítio, mesmo que não o tenha frequentado em período recente ou lá tenha estado sozinho. Tens que admitir que estes são dados fortes o bastante para me prenderem a atenção. Tanto mais quanto me sabes um cultor da ficção científica e um adepto confesso dos efeitos especiais. Aliás, como costumo afirmar, para ensaio sobre as misérias do quotidiano basta o próprio quotidiano. Disso fazem espectáculo diário os media.
Eis, Helena querida, um retrato do meu estar psicológico. Será bastante fidedigno já que o que está escrito antes foi-o ao sabor do pensamento livre (outros diriam, ao sabor da pena), não antecipando este final de divã de psiquiatra. É bom que assim seja para que o retrato surja bem autêntico, sem maquilhagem e sem acerto de cabelo. Perante ti posso expor-me despido, segundo creio.
Não tenho conselhos para dar ao psiquiatra. Também não lhos peço. De ti também não os pretendo receber. Se fossem beijos...
Braga, 9 de Setembro de 2004
José Cadima
Ps: correndo o risco de ser acusado de uma súbita simpatia pelo Ps. (com um pontinho em vez de dois pontos – o “s” pequeno é para simbolizar o estado em que está o socialismo), que declaro não ter qualquer fundamento, sou obrigado a recorrer outra vez a esta figura para reparar os efeitos de uma gralha que pousou sobre a data da carta de ontem, fazendo aparecer um seis onde, em verdade, estava um oito. Embora a culpa seja toda da gralha, por uma questão de afinidade com aquela, venho assumir a responsabilidade do erro.
quarta-feira, abril 02, 2008
O mundo
Desço docemente, fazendo festas ao mundo,
não vá ele enfurecer-se.
Pressinto-o zangado,
deixando-me descrente de que tenhamos futuro.
Puxo das minhas forças e da coragem que me resta
e olho-o nos olhos.
Tento dizer-lhe que ele está no centro das minhas preocupações.
Procuro dar-lhe expressão do meu empenho
e falar-lhe de carinho.
Vejo-o rosnar, primeiro, sacudir-se, depois,
e aquietar-se, de seguida.
Questiono-me se acreditou no que lhe disse.
Deixou-me seguir o meu caminho.
José Pedro Cadima
não vá ele enfurecer-se.
Pressinto-o zangado,
deixando-me descrente de que tenhamos futuro.
Puxo das minhas forças e da coragem que me resta
e olho-o nos olhos.
Tento dizer-lhe que ele está no centro das minhas preocupações.
Procuro dar-lhe expressão do meu empenho
e falar-lhe de carinho.
Vejo-o rosnar, primeiro, sacudir-se, depois,
e aquietar-se, de seguida.
Questiono-me se acreditou no que lhe disse.
Deixou-me seguir o meu caminho.
José Pedro Cadima
segunda-feira, março 31, 2008
Carregar com palavras
Palavras ditas uma vez magoam para sempre.
É estranho e forte o poder das palavras.
Por isso, amiúde, a sabedoria está em ficar calado.
Produzida a ferida, não há como retroceder.
Permanecer calado pode, mesmo então, ser menos danoso
que voltar a fazer uso da palavra.
Falar, enterra-nos.
Levando ou atirando com palavras, resta-nos depois carregá-las.
É como uma cruz que se carrega pela vida.
É responsabilidade de cada um pôr-se na pele dos outros.
A humanidade de cada indivíduo revela-se também nisso.
José Pedro Cadima
É estranho e forte o poder das palavras.
Por isso, amiúde, a sabedoria está em ficar calado.
Produzida a ferida, não há como retroceder.
Permanecer calado pode, mesmo então, ser menos danoso
que voltar a fazer uso da palavra.
Falar, enterra-nos.
Levando ou atirando com palavras, resta-nos depois carregá-las.
É como uma cruz que se carrega pela vida.
É responsabilidade de cada um pôr-se na pele dos outros.
A humanidade de cada indivíduo revela-se também nisso.
José Pedro Cadima
sexta-feira, março 28, 2008
Querer mais
Há qualquer coisa
que não me deixa descansar.
Garanto-vos ver demónios
passearem-se por meus azares
e seus servos
por linhas do meu destino.
Será por eu querer demais?
É erro ter demais, sei-o.
Sei, também, que mais cansaço
traz mais aflição,
mas eu só corro por ti!
José Pedro Cadima
que não me deixa descansar.
Garanto-vos ver demónios
passearem-se por meus azares
e seus servos
por linhas do meu destino.
Será por eu querer demais?
É erro ter demais, sei-o.
Sei, também, que mais cansaço
traz mais aflição,
mas eu só corro por ti!
José Pedro Cadima
terça-feira, março 25, 2008
Indivíduo
Não peças a César
que te dê Roma
sendo tu exército!
Larga a lâmina
que essa orelha cortada
não te fará original!
Pousa a cruz!
Não podes ser mártir
se a causa for apenas tua.
José Pedro Cadima
que te dê Roma
sendo tu exército!
Larga a lâmina
que essa orelha cortada
não te fará original!
Pousa a cruz!
Não podes ser mártir
se a causa for apenas tua.
José Pedro Cadima
domingo, março 23, 2008
Minha Querida Helena
Fazendo-me falta todos os dias, há dias em que sinto mais a tua falta. Hoje é um desses dias. Será porque lá fora corre um vento gelado? Ou será, antes, porque nos dois dias antecedentes voltei, muito brevemente, aos lugares da minha infância e às memórias de dias menos agrestes, misturadas com as de outros que não gosto de recordar? Interrogo-me e não encontro resposta alguma que não seja que me fazes falta hoje, particularmente hoje, meu amor.
De regresso a memórias e lugares de infância, já aí senti a tua ausência, se bem que a tua memória só longinquamente ecoe por essas paragens. Desejei ter-te lá comigo. Desejei que me ajudasses a reencontrar-me com o lado feliz desse reencontro. Talvez desse modo fosse capaz de deixar de estar por lá de fugida, como vem acontecendo há muitos anos. Porque será que esses lugares me atraem e repelem, simultaneamente? Será porque me sinto aí sem ti? Mas, e aqui, sem ti, como me devo sentir? Queres dizer-mo?
De volta a esta terra, agora também minha, julguei ficar mais próximo de ti. Pura ilusão: quanto mar a separar-nos, quanto vento gelado a tolher-nos os passos. Logo hoje, meu amor, em que só o calor do teu corpo poderia trazer-me algum conforto.
Olho em volta, tento descortinar por entre os raios de sol que rasgam o horizonte o calor que os raios do sol costumam trazer e a minha mente logo foge para ti, ansiando calor, procurando conforto. Olho em volto, vejo sinais teus em cada objecto que me rodeia, mas de ti nem sinal, nem aceno. Por onde andas tu, querida Helena, neste dia tão agreste. Sentirás tu o mesmo desconforto que eu sinto? Correste tu para mim com a mesma energia com que eu corri para ti, de modo a vencer a resistência deste vento de Inverno, quando a Primavera já se fez anunciar? Vou crer que sim. Vou crer que foi este vento que foi mais forte que a urgência que eu tinha que nos apertássemos nos braços.
Hoje, este vento gelado venceu. Amanhã preciso que vençam outras forças da natureza, sob pena que se extinga a réstia de energia que alimenta este meu corpo enregelado, trémulo, carente de ti.
José Cadima
De regresso a memórias e lugares de infância, já aí senti a tua ausência, se bem que a tua memória só longinquamente ecoe por essas paragens. Desejei ter-te lá comigo. Desejei que me ajudasses a reencontrar-me com o lado feliz desse reencontro. Talvez desse modo fosse capaz de deixar de estar por lá de fugida, como vem acontecendo há muitos anos. Porque será que esses lugares me atraem e repelem, simultaneamente? Será porque me sinto aí sem ti? Mas, e aqui, sem ti, como me devo sentir? Queres dizer-mo?
De volta a esta terra, agora também minha, julguei ficar mais próximo de ti. Pura ilusão: quanto mar a separar-nos, quanto vento gelado a tolher-nos os passos. Logo hoje, meu amor, em que só o calor do teu corpo poderia trazer-me algum conforto.
Olho em volta, tento descortinar por entre os raios de sol que rasgam o horizonte o calor que os raios do sol costumam trazer e a minha mente logo foge para ti, ansiando calor, procurando conforto. Olho em volto, vejo sinais teus em cada objecto que me rodeia, mas de ti nem sinal, nem aceno. Por onde andas tu, querida Helena, neste dia tão agreste. Sentirás tu o mesmo desconforto que eu sinto? Correste tu para mim com a mesma energia com que eu corri para ti, de modo a vencer a resistência deste vento de Inverno, quando a Primavera já se fez anunciar? Vou crer que sim. Vou crer que foi este vento que foi mais forte que a urgência que eu tinha que nos apertássemos nos braços.
Hoje, este vento gelado venceu. Amanhã preciso que vençam outras forças da natureza, sob pena que se extinga a réstia de energia que alimenta este meu corpo enregelado, trémulo, carente de ti.
José Cadima
sábado, março 22, 2008
Tempos glaciares
O cansaço enfraquece-me,
empurrando-me para o canto
mais sombrio da minha alma.
A insipidez do local abafa-me.
Já passaram por aqui desejos e sonhos deliciosos,
mas inverosímeis.
Agora, não são senão memórias,
imensos espaços gelados,
glaciares, diria.
Saudade! Arrependimento!
Sim, não os deveria ter deixado gelar!
Sim, acode-me a saudade de tempos menos sombrios,
que me culpo de não ter sabido preservar.
José Pedro Cadima
empurrando-me para o canto
mais sombrio da minha alma.
A insipidez do local abafa-me.
Já passaram por aqui desejos e sonhos deliciosos,
mas inverosímeis.
Agora, não são senão memórias,
imensos espaços gelados,
glaciares, diria.
Saudade! Arrependimento!
Sim, não os deveria ter deixado gelar!
Sim, acode-me a saudade de tempos menos sombrios,
que me culpo de não ter sabido preservar.
José Pedro Cadima
terça-feira, março 18, 2008
Escondido num novelo de lã
Num novelo de lã me quero esconder,
quietinho, aconchegado, a salvo;
a salvo do que vai lá fora,
a salvo do que ficar fora do meu novelo de lã.
Deixem-me procurar um lugar
onde possa permanecer recolhido,
longe da impiedosa lei
que, nos sonhos, traz a luz.
A opressão ataca os pobres
que querem sonhar,
encurrala-os em becos sem saída,
enche-nos a vida de medos.
Pressinto longe o meu novelo de lã.
Quem me dera tê-lo mais perto,
ali, ao alcance de uma mão.
José Pedro Cadima
quietinho, aconchegado, a salvo;
a salvo do que vai lá fora,
a salvo do que ficar fora do meu novelo de lã.
Deixem-me procurar um lugar
onde possa permanecer recolhido,
longe da impiedosa lei
que, nos sonhos, traz a luz.
A opressão ataca os pobres
que querem sonhar,
encurrala-os em becos sem saída,
enche-nos a vida de medos.
Pressinto longe o meu novelo de lã.
Quem me dera tê-lo mais perto,
ali, ao alcance de uma mão.
José Pedro Cadima
sábado, março 15, 2008
Histórias de amor
A cada história que conto,
"Romeu e Julieta" lhe podia chamar.
A forma, o tempo,
as personagens mudam.
O tema é sempre o mesmo:
um amor interdito.
José Pedro Cadima
"Romeu e Julieta" lhe podia chamar.
A forma, o tempo,
as personagens mudam.
O tema é sempre o mesmo:
um amor interdito.
José Pedro Cadima
quinta-feira, março 13, 2008
Carisma
Não sou, de certo, uma figura das mais carismáticas.
Falta-me o “charme” que berra ao mundo.
Ninguém se recordará da minha cara,
salvo quem a reconhecer nas minhas palavras.
José Pedro Cadima
Falta-me o “charme” que berra ao mundo.
Ninguém se recordará da minha cara,
salvo quem a reconhecer nas minhas palavras.
José Pedro Cadima
terça-feira, março 11, 2008
Meu achado
Ai achado!
Meu coração-agulha, qual bússola,
aponta para ti.
Um traço teu
leva-me a amar-te,
à semelhança do modo como a agulha
descobre o seu Norte.
José Pedro Cadima
Meu coração-agulha, qual bússola,
aponta para ti.
Um traço teu
leva-me a amar-te,
à semelhança do modo como a agulha
descobre o seu Norte.
José Pedro Cadima
sábado, março 08, 2008
Minha Querida Helena
Em tempo de confidências, quero falar-te hoje do sentimento que tive na passada semana quando, por feliz acaso, passei a noite em tua casa. O acaso a que me refiro releva dos nossos desencontros recentes, que verbalizei em mensagens anteriores.
Não me deterei sobre a tua receptividade em relação a gestos de carinho matinal; não me alongarei sobre a estranheza que para mim é a gestão que fazes das tuas horas nocturnas, onde parece não haver tempo para o sono – presumo que aches que outro tanto seja válido para os demais ou, pelo menos, para mim; não comentarei a quantidade de comida que sempre pões à minha frente, nem tão pouco a surpresa que sempre enuncias pelo pouco que – dizes tu – eu como. Tal qual digo, pretendo apenas dar-te notícia do sentimento que me invadiu, em tua casa, enquanto aguardava que acabasses de fazer o jantar, primeiro, ou te libertasses das arrumações da cozinha, depois.
Concretizando, digo-te, minha querida, que me vi na condição de um objecto que preenche a casa. Não digo um objecto mais, porque poderia parecer-te ofensivo, mas, em todo o caso, uma peça que ocupa um espaço, porventura preenche um vazio. Curiosamente, no teu dizer, alguém que se move sem ruído e que, por isso, ocasionalmente te surpreende e te assusta. Repara, o meu objectivo era estar contigo – sublinho: estar contigo – mas a ti satisfez-te ter-me no sofá da tua sala, enquanto tu te movimentavas pela cozinha, pela casa; satisfez-te saber-me deitado na tua cama, perdido de sono, enquanto te ocupavas da cozinha, da casa de banho, e do mais que julgaste ajustado para aquela hora tardia.
Em abono da verdade, devo dizer-te que não foi a primeira vez que pensei isto que agora te enuncio. Foi, no entanto, a primeira vez que o senti na sua expressão vivida, na exacta hora. Não to disse na ocasião porque não sabia como reagirias ou, melhor, receei que reagisses mal, e isso era a derradeira coisa que eu desejaria. Digo-to agora, num apelo à sinceridade, na expectativa de que entendas a bondade do que te transmito e me perdoes, nessa mesma medida
Seguramente, te surpreenderei com esta minha confissão. Tu sabes, no entanto, que és o meu único refúgio, pelo que não havia outrem a quem segredar este pensamento íntimo. É também isso que faz a diferença entre ter ou não ter alguém... meu amor.
Braga, 19 de Julho de 2004
José Cadima
Não me deterei sobre a tua receptividade em relação a gestos de carinho matinal; não me alongarei sobre a estranheza que para mim é a gestão que fazes das tuas horas nocturnas, onde parece não haver tempo para o sono – presumo que aches que outro tanto seja válido para os demais ou, pelo menos, para mim; não comentarei a quantidade de comida que sempre pões à minha frente, nem tão pouco a surpresa que sempre enuncias pelo pouco que – dizes tu – eu como. Tal qual digo, pretendo apenas dar-te notícia do sentimento que me invadiu, em tua casa, enquanto aguardava que acabasses de fazer o jantar, primeiro, ou te libertasses das arrumações da cozinha, depois.
Concretizando, digo-te, minha querida, que me vi na condição de um objecto que preenche a casa. Não digo um objecto mais, porque poderia parecer-te ofensivo, mas, em todo o caso, uma peça que ocupa um espaço, porventura preenche um vazio. Curiosamente, no teu dizer, alguém que se move sem ruído e que, por isso, ocasionalmente te surpreende e te assusta. Repara, o meu objectivo era estar contigo – sublinho: estar contigo – mas a ti satisfez-te ter-me no sofá da tua sala, enquanto tu te movimentavas pela cozinha, pela casa; satisfez-te saber-me deitado na tua cama, perdido de sono, enquanto te ocupavas da cozinha, da casa de banho, e do mais que julgaste ajustado para aquela hora tardia.
Em abono da verdade, devo dizer-te que não foi a primeira vez que pensei isto que agora te enuncio. Foi, no entanto, a primeira vez que o senti na sua expressão vivida, na exacta hora. Não to disse na ocasião porque não sabia como reagirias ou, melhor, receei que reagisses mal, e isso era a derradeira coisa que eu desejaria. Digo-to agora, num apelo à sinceridade, na expectativa de que entendas a bondade do que te transmito e me perdoes, nessa mesma medida
Seguramente, te surpreenderei com esta minha confissão. Tu sabes, no entanto, que és o meu único refúgio, pelo que não havia outrem a quem segredar este pensamento íntimo. É também isso que faz a diferença entre ter ou não ter alguém... meu amor.
Braga, 19 de Julho de 2004
José Cadima
quarta-feira, março 05, 2008
Teus caracóis
Caracóis. Caracóis.
Que lindos eram os teus caracóis!
Faziam lembrar um conto de fadas,
onde cavaleiros trepavam por eles
para atingir a tua janela.
Por onde subir
senão mesmo pelos caracóis do teu lindo cabelo?
Por onde subir,
para o céu alcançar,
senão pelos fios enrolados do teu cabelo?
José Pedro Cadima
Que lindos eram os teus caracóis!
Faziam lembrar um conto de fadas,
onde cavaleiros trepavam por eles
para atingir a tua janela.
Por onde subir
senão mesmo pelos caracóis do teu lindo cabelo?
Por onde subir,
para o céu alcançar,
senão pelos fios enrolados do teu cabelo?
José Pedro Cadima
segunda-feira, março 03, 2008
Muitos…
Muitas palavras que não chegaram a sê-lo.
Muitas ideias que não chegaram a realizações.
Muito amor que não encontrou
um coração aberto para o receber.
Muitas promessas de amor por cumprir
e outras que ficaram por fazer.
Muitos corações despedaçados.
Muitas amizades destruídas.
Muitos … Muitas coisas tristes para contar.
Mais seriam se ousasse falar
dos muitos medos que sinto!
José Pedro Cadima
Muitas ideias que não chegaram a realizações.
Muito amor que não encontrou
um coração aberto para o receber.
Muitas promessas de amor por cumprir
e outras que ficaram por fazer.
Muitos corações despedaçados.
Muitas amizades destruídas.
Muitos … Muitas coisas tristes para contar.
Mais seriam se ousasse falar
dos muitos medos que sinto!
José Pedro Cadima
sábado, março 01, 2008
“As meias e as pernas – I”
“Aos meus leitores mais atentos não surpreenderá que lhes diga que escrevi esta crónica na sala de espera de um aeroporto da Europa, nem talvez lhes estranhará que lhes deixe dito que o fiz como forma de usar o tempo (não sei se diga, de passar o tempo) de espera do avião que me deveria trazer de volta a Portugal. Já estou menos certo que se surpreendam se vos disser que me ocorreu fazê-lo a pretexto da leitura de um artigo de um semanário nacional em que o tema era estar ou não na moda o uso de meias brancas.
Para quem não tenha lido a prosa em questão, deixo dito que o articulista se referia ao uso de meias brancas masculinas (se é que as meias têm sexo) e sugeria que era tempo desta cor voltar a estar na moda, por forma a poder dar uso à colecção que o avô lhe foi oferecendo, ao longo dos anos. De uma leitura um pouco mais subtil, poderia o leitor tirar do artigo a sugestão que a moda é feita pelos fazedores de opinião, costureiros de muitos ofícios, ou poderia concluir que o seu autor passava por uma crise de imaginação, o que era, seguramente, o mais verosímil. Aliás, valha a verdade que se assinale que o articulista em causa não fazia qualquer esforço para que quem quer que fosse concluísse de outro modo.
Foi precisamente este último aspecto que mais me chamou a atenção pelo que traduz de honestidade intelectual e pelo que ela revela de personalidade da personagem, porque, concordem comigo, não haverá muitos que se disponham a admitir publicamente que atravessam um momento de crise (crise de imaginação, digo) e, simultaneamente, por dever de ofício e respeito de obrigações contratadas, se disponham ao esforço de persistir no seu trabalho. Louvo-lhe isso e louvo-lhe, ainda, a felicidade da e3scolha: as meias masculinas, um artefacto tão nobre e, eventualmente, tão descurado. Muito menor arrojo seria reter as meias femininas, tema que, para alem de muito badalado, deixaria nos seus leitores a dúvida sobre se seriam as meias ou as pernas que o articulista pretenderia relevar.
Por mim, congratulo-me por não ter sido jamais atingido por crise semelhante, já que receio bem não ter a arte e o saber que aqui exalto para a ultrapassar com a elegância necessária.”
J. C.
(reprodução integral de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 96/10/18, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)
Para quem não tenha lido a prosa em questão, deixo dito que o articulista se referia ao uso de meias brancas masculinas (se é que as meias têm sexo) e sugeria que era tempo desta cor voltar a estar na moda, por forma a poder dar uso à colecção que o avô lhe foi oferecendo, ao longo dos anos. De uma leitura um pouco mais subtil, poderia o leitor tirar do artigo a sugestão que a moda é feita pelos fazedores de opinião, costureiros de muitos ofícios, ou poderia concluir que o seu autor passava por uma crise de imaginação, o que era, seguramente, o mais verosímil. Aliás, valha a verdade que se assinale que o articulista em causa não fazia qualquer esforço para que quem quer que fosse concluísse de outro modo.
Foi precisamente este último aspecto que mais me chamou a atenção pelo que traduz de honestidade intelectual e pelo que ela revela de personalidade da personagem, porque, concordem comigo, não haverá muitos que se disponham a admitir publicamente que atravessam um momento de crise (crise de imaginação, digo) e, simultaneamente, por dever de ofício e respeito de obrigações contratadas, se disponham ao esforço de persistir no seu trabalho. Louvo-lhe isso e louvo-lhe, ainda, a felicidade da e3scolha: as meias masculinas, um artefacto tão nobre e, eventualmente, tão descurado. Muito menor arrojo seria reter as meias femininas, tema que, para alem de muito badalado, deixaria nos seus leitores a dúvida sobre se seriam as meias ou as pernas que o articulista pretenderia relevar.
Por mim, congratulo-me por não ter sido jamais atingido por crise semelhante, já que receio bem não ter a arte e o saber que aqui exalto para a ultrapassar com a elegância necessária.”
J. C.
(reprodução integral de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 96/10/18, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)
sexta-feira, fevereiro 29, 2008
Raiva
Raiva, tormento, desesperança.
Tudo isto me corre nas veias,
empurrando para que me mova
mas não me dando vida.
O meu amor esbraceja
para que não se afogue
nesta maré de sentimentos malditos.
Quanta raiva me alimenta.
Quisera que fosse bonança.
Desespero por que chegue maré baixa
ou alta, se for para consolar meu coração
em desespêro.
José Cadima
Tudo isto me corre nas veias,
empurrando para que me mova
mas não me dando vida.
O meu amor esbraceja
para que não se afogue
nesta maré de sentimentos malditos.
Quanta raiva me alimenta.
Quisera que fosse bonança.
Desespero por que chegue maré baixa
ou alta, se for para consolar meu coração
em desespêro.
José Cadima
terça-feira, fevereiro 26, 2008
Ao longe, o rio
Ao longe, o rio.
Tantas memórias;
tantos cravos.
Saudades…
Saudades só de ti,
dos teus voos rasantes,
das tuas aproximações picadas.
Ao longe, o rio,
referência viva de um tempo
em que as flores tinham cores vivas,
em que o nosso amor era só promessa
não sonhada.
Saudades…
Saudades só de ti, minha querida Helena.
Ao longe, ...
José Cadima
Tantas memórias;
tantos cravos.
Saudades…
Saudades só de ti,
dos teus voos rasantes,
das tuas aproximações picadas.
Ao longe, o rio,
referência viva de um tempo
em que as flores tinham cores vivas,
em que o nosso amor era só promessa
não sonhada.
Saudades…
Saudades só de ti, minha querida Helena.
Ao longe, ...
José Cadima
domingo, fevereiro 24, 2008
Escrito no preto
Escrito no preto
para que se não veja;
escrito no preto
para que se não perceba;
escrito no preto por mim;
escrito no preto para ti;
escrito no preto
por coerência com o estado de espírito
que me assiste;
escrito no preto
para que nunca te chegue.
Amanhã o dia há-de nascer cheio de luz.
Amanhã o preto será cor do arco-íris.
José Pedro Cadima
para que se não veja;
escrito no preto
para que se não perceba;
escrito no preto por mim;
escrito no preto para ti;
escrito no preto
por coerência com o estado de espírito
que me assiste;
escrito no preto
para que nunca te chegue.
Amanhã o dia há-de nascer cheio de luz.
Amanhã o preto será cor do arco-íris.
José Pedro Cadima
sexta-feira, fevereiro 22, 2008
“As meias e as pernas – III”
“Posto que a hora do regresso se aproxima, é oportuno pôr termo à presente crónica e, posto que falo das escadas da Praça de Espanha, não será despropositado que deixe aqui o ponto de vista que as escadas do Bom Jesus, em Braga, são bem mais bonitas que as ditas escadas romanas. Têm contra si, obviamente, a circunstância de serem em Braga e não servirem de palco à exibição de modelos e de pernas ou de, pelo menos, as pernas que as pisam serem muito menos celebradas.
Assistindo pela televisão às passagens de modelos transmitidas a partir da romana Praça de Espanha, tem-se a oportunidade, como em poucas outras ocasiões, de perceber como a televisão molda as imagens e o mundo: francamente, só na televisão as celebradas escadas se sugerem tão luminosas e douradas. Descontando esse efeito, a única coisa dourada que resta são mesmo os modelos: a Naomi, a Claudinha, a Sharon,…”
J. C.
(reprodução integral de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 96/10/18, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)
Assistindo pela televisão às passagens de modelos transmitidas a partir da romana Praça de Espanha, tem-se a oportunidade, como em poucas outras ocasiões, de perceber como a televisão molda as imagens e o mundo: francamente, só na televisão as celebradas escadas se sugerem tão luminosas e douradas. Descontando esse efeito, a única coisa dourada que resta são mesmo os modelos: a Naomi, a Claudinha, a Sharon,…”
J. C.
(reprodução integral de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 96/10/18, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)
terça-feira, fevereiro 19, 2008
Estranho
Estranho ser assim contigo.
Estranho seres assim comigo.
Estranho, muito estranho
sermos assim um com o outro,
como estranhos que somos,
embora talvez já o devêssemos ser menos.
José Pedro Cadima
Estranho seres assim comigo.
Estranho, muito estranho
sermos assim um com o outro,
como estranhos que somos,
embora talvez já o devêssemos ser menos.
José Pedro Cadima
domingo, fevereiro 17, 2008
“As meias e as pernas - II”
“Por incómodo que seja dirigir-me aos meus leitores de uma gare de um aeroporto, reconheço-lhe também vantagens, a menor das quais não será o exotismo da paisagem humana que vai circulando nos corredores. Admito, no entanto, que, desse ponto de vista, uma rua de Londres ou as celebradas escadas da Praça de Espanha, em Roma, podem ser mais exaltantes.
Perdoar-me-ão os meus leitores que dessa paisagem humana retenha sobretudo a componente feminina, mas há coisas que são mais poderosas que nós, quer dizer, que a componente consciente assumida das nossas vidas. Para além disso, que graça podem ter as meias (as meias e as pernas) de um escocês em trânsito? Olhando quem passa, acontece-me amiúde recordar outras mulheres, nomeadamente a(s) da minha própria vida, como se usa dizer; lembrar e sentir saudades. Talvez por isso não goste de partir sozinho; se bem que algumas vezes saia alimentado pela vontade de voltar a ganhar o espaço que me falta, e o desejo e entusiasmo que esmoreceram. Alguém terá escrito que são insondáveis os desígnios do homem. Nestes particulares momentos, só posso expressar o meu total acordo, se bem que noutras ocasiões me pareçam bastante mais sondáveis: concretamente, quando há mulheres interessantes por perto.”
J. C.
(reprodução parcial de texto do autor identificado, publicado no jornal Notícias do Minho, em 96/10/18, em coluna regular intitulada “Crónicas de Maldizer”)
Perdoar-me-ão os meus leitores que dessa paisagem humana retenha sobretudo a componente feminina, mas há coisas que são mais poderosas que nós, quer dizer, que a componente consciente assumida das nossas vidas. Para além disso, que graça podem ter as meias (as meias e as pernas) de um escocês em trânsito? Olhando quem passa, acontece-me amiúde recordar outras mulheres, nomeadamente a(s) da minha própria vida, como se usa dizer; lembrar e sentir saudades. Talvez por isso não goste de partir sozinho; se bem que algumas vezes saia alimentado pela vontade de voltar a ganhar o espaço que me falta, e o desejo e entusiasmo que esmoreceram. Alguém terá escrito que são insondáveis os desígnios do homem. Nestes particulares momentos, só posso expressar o meu total acordo, se bem que noutras ocasiões me pareçam bastante mais sondáveis: concretamente, quando há mulheres interessantes por perto.”
J. C.
(reprodução parcial de texto do autor identificado, publicado no jornal Notícias do Minho, em 96/10/18, em coluna regular intitulada “Crónicas de Maldizer”)
sexta-feira, fevereiro 15, 2008
Querer e não ter
Eu não tenho que querer seja o for,
a não ser aquilo que resultar do meu esforço
e querer,
nem tu, nem ninguém!
Pois tudo querermos,
desde a nossa felicidade
ao sofrimento dos outros,
torna-nos mesquinhos e infelizes.
Somos maus ou julgamo-nos bons.
Num e noutro casos,
só é certa uma frustração sem termo.
José Pedro Cadima
a não ser aquilo que resultar do meu esforço
e querer,
nem tu, nem ninguém!
Pois tudo querermos,
desde a nossa felicidade
ao sofrimento dos outros,
torna-nos mesquinhos e infelizes.
Somos maus ou julgamo-nos bons.
Num e noutro casos,
só é certa uma frustração sem termo.
José Pedro Cadima
segunda-feira, fevereiro 11, 2008
Minha Querida Helena
Vagueio pela minha memória, revejo imagens e sensações arquivadas e não compreendo: não entendo como foi possível desaguarmos neste mar de ninguém; escapa-me o sentido de um abandono à beira da praia. Acredito que haja uma explicação. Sou consciente que nadar em mar revolto é desgastante e que muitos não lhe resistem. Mas soçobrar à vista da praia?! Não o compreendo, mas o certo é que aconteceu.
Neste entretanto, questiono-me: e se por acaso, por mero acaso, um destes dias eu me cruzar numa qualquer rua com a minha Helena de Tróia, como vou eu ser capaz de conter as emoções, especialmente aquelas que não sei antecipar hoje? Serei porventura capaz de aguentar firme mesmo sabendo Tróia condenada e com ela tantos sonhos que alimentei. E como será Tróia sem a minha Helena, acaso a fortaleza possa algum dia ser reconstruída? Para já, recuso-me a admitir que Tróia possa existir sem a minha Helena. Se num hipotético futuro poderá ser diferente, não sei dizer. Permito-me duvidar, no entanto.
As Helenas são uma dimensão vital de mim. Sem elas, caminho sem destino. O tamanho do amor que dediquei a cada uma que o destino, o vento ou qualquer força que não sei entender colocou no meu trajecto só é comparável ao vazio imenso que a sua perda me traz. E uma após outra desaparecem como emergiram: subitamente, levadas pelo vento, pelo destino ou por qualquer força obscura de que só sei que mas rouba para deixar no seu lugar um imenso vazio. Como eu as amei!
Numa certa acepção, descansa-me sentir o aproximar do fim do trajecto. Pelo menos sei que não haverá mais Helena alguma a dar-me num dia o que me vai tirar no dia seguinte, deixando ao meu redor e, sobretudo, dentro de mim um enorme vazio. Nessa medida, sinto maior tranquilidade que a que experimentei em situações transatas, mesmo sendo tão grande quanto qualquer outro que já experimentei este vazio que deixaste em mim.
Braga, 3 de Setembro de 2004
José Cadima
Neste entretanto, questiono-me: e se por acaso, por mero acaso, um destes dias eu me cruzar numa qualquer rua com a minha Helena de Tróia, como vou eu ser capaz de conter as emoções, especialmente aquelas que não sei antecipar hoje? Serei porventura capaz de aguentar firme mesmo sabendo Tróia condenada e com ela tantos sonhos que alimentei. E como será Tróia sem a minha Helena, acaso a fortaleza possa algum dia ser reconstruída? Para já, recuso-me a admitir que Tróia possa existir sem a minha Helena. Se num hipotético futuro poderá ser diferente, não sei dizer. Permito-me duvidar, no entanto.
As Helenas são uma dimensão vital de mim. Sem elas, caminho sem destino. O tamanho do amor que dediquei a cada uma que o destino, o vento ou qualquer força que não sei entender colocou no meu trajecto só é comparável ao vazio imenso que a sua perda me traz. E uma após outra desaparecem como emergiram: subitamente, levadas pelo vento, pelo destino ou por qualquer força obscura de que só sei que mas rouba para deixar no seu lugar um imenso vazio. Como eu as amei!
Numa certa acepção, descansa-me sentir o aproximar do fim do trajecto. Pelo menos sei que não haverá mais Helena alguma a dar-me num dia o que me vai tirar no dia seguinte, deixando ao meu redor e, sobretudo, dentro de mim um enorme vazio. Nessa medida, sinto maior tranquilidade que a que experimentei em situações transatas, mesmo sendo tão grande quanto qualquer outro que já experimentei este vazio que deixaste em mim.
Braga, 3 de Setembro de 2004
José Cadima
sexta-feira, fevereiro 08, 2008
Obviamente que sofri
Quando olho para ti,
lembro-me do que senti
da primeira vez que nos cruzámos,
lembro-me da intensidade dos nossos olhares.
Lembro-me, depois, do sentimento de perda
quando partiste,
sem horizonte de retorno.
Sofri, obviamente que sofri
mas estava longe de imaginar
o sofrimento que nos trouxe o reecontro.
Lembro-me de tudo
e, pese isso embora, anseio o teu retorno
de modo cada vez mais intenso.
Sofri, obviamente que sofri
mas mais penoso é passar sem ti.
José Cadima
lembro-me do que senti
da primeira vez que nos cruzámos,
lembro-me da intensidade dos nossos olhares.
Lembro-me, depois, do sentimento de perda
quando partiste,
sem horizonte de retorno.
Sofri, obviamente que sofri
mas estava longe de imaginar
o sofrimento que nos trouxe o reecontro.
Lembro-me de tudo
e, pese isso embora, anseio o teu retorno
de modo cada vez mais intenso.
Sofri, obviamente que sofri
mas mais penoso é passar sem ti.
José Cadima
terça-feira, fevereiro 05, 2008
Dá-me algo!
Dá-me algo que amar.
Dá-me o teu corpo
e, com ele, a tua alma.
Dá-me algo que vá ao encontro
da minha ânsia profunda,
algo que possamos partilhar.
Dá-me algo!
José Pedro Cadima
Dá-me o teu corpo
e, com ele, a tua alma.
Dá-me algo que vá ao encontro
da minha ânsia profunda,
algo que possamos partilhar.
Dá-me algo!
José Pedro Cadima
sexta-feira, fevereiro 01, 2008
Minha Querida Helena
Temerosamente, digitei o teu número. Respondeste-me questionando porque não te tinha ligado antes. O meu coração estremeceu de alegria, embora, crendo não te ter ouvido bem, a tenha silenciado. Fiquei na expectativa doutros sinais. Perguntaste-me porque não toquei à tua companhia, quando, deambulando, acabei por me achar ontem em Viseu, visitando a feira do livro. Acreditei então ter-te entendido bem.
Disseste-me, também, que tinhas estado a arrumar os teus papéis e a casa. Pretendi ver nisso um sinal de retorno à vida, um indício de que posso ter esperança de ver novamente balouçar-te nos lábios um sorriso. Desejaria antes uma gargalhada mas um sorriso é sempre um sorriso ... meu amor.
Envolvido nos meus pensamentos, de coração aliviado, interrogo-me sobre se o que percebi em ti será um momento de acalmia ou o emergir de um novo ciclo. Desejaria que as nuvens tivessem descarregado tudo quanto houvessem que largar e o azul do céu se afirmasse com todo o brilho próprio desta Europa do sul. Assiste-me a esperança de que retomes a rua, os livros, os teus poemas, a força que ousavas pôr nas tuas atitudes e convicções. Se, nesse frémito de vida, quiseres buscar repouso nos meus braços tanto melhor para mim mas importante, importante mesmo é ter-te de regresso à luta.
Li no jornal de hoje as desventuras de um país à espera de ter Governo e as acrimónias dos que, na sua segurança, não perdoam a insegurança do Presidente da República e, mais do que a insegurança, a generosidade posta por ele na sua decisão de entregar a formação do governo a um macaqueador da política. Não tenho a este propósito a segurança dos que aqui invoco e, tenho, por contrapartida, grande consideração pelos que conseguem pôr bondade onde a maioria põe interesses, hipocrisia, mesquinhez. Vou ficar a aguardar. Vou esperar pelo que dá este macaquear da política americana no melhor estilo reaganiano. A necessidade de eleições parece-me também a mim certa, mas lá para a primavera do próximo ano. Até lá, vou ficar na expectativa (desejara que fora a expectativa de termos um governo e um projecto económico para Portugal mas, por esses, vamos ter que aguardar muito mais).
Li o jornal embora o meu pensamento estivesse centrado em ti, nesta esperança de um sorriso teu, meu amor.
Braga, 11 de Julho de 2004
José Cadima
Disseste-me, também, que tinhas estado a arrumar os teus papéis e a casa. Pretendi ver nisso um sinal de retorno à vida, um indício de que posso ter esperança de ver novamente balouçar-te nos lábios um sorriso. Desejaria antes uma gargalhada mas um sorriso é sempre um sorriso ... meu amor.
Envolvido nos meus pensamentos, de coração aliviado, interrogo-me sobre se o que percebi em ti será um momento de acalmia ou o emergir de um novo ciclo. Desejaria que as nuvens tivessem descarregado tudo quanto houvessem que largar e o azul do céu se afirmasse com todo o brilho próprio desta Europa do sul. Assiste-me a esperança de que retomes a rua, os livros, os teus poemas, a força que ousavas pôr nas tuas atitudes e convicções. Se, nesse frémito de vida, quiseres buscar repouso nos meus braços tanto melhor para mim mas importante, importante mesmo é ter-te de regresso à luta.
Li no jornal de hoje as desventuras de um país à espera de ter Governo e as acrimónias dos que, na sua segurança, não perdoam a insegurança do Presidente da República e, mais do que a insegurança, a generosidade posta por ele na sua decisão de entregar a formação do governo a um macaqueador da política. Não tenho a este propósito a segurança dos que aqui invoco e, tenho, por contrapartida, grande consideração pelos que conseguem pôr bondade onde a maioria põe interesses, hipocrisia, mesquinhez. Vou ficar a aguardar. Vou esperar pelo que dá este macaquear da política americana no melhor estilo reaganiano. A necessidade de eleições parece-me também a mim certa, mas lá para a primavera do próximo ano. Até lá, vou ficar na expectativa (desejara que fora a expectativa de termos um governo e um projecto económico para Portugal mas, por esses, vamos ter que aguardar muito mais).
Li o jornal embora o meu pensamento estivesse centrado em ti, nesta esperança de um sorriso teu, meu amor.
Braga, 11 de Julho de 2004
José Cadima
terça-feira, janeiro 29, 2008
“Farpas que doem”
“Como vem sendo habitual, reuni clandestinamente, há dias, com o director do jornal para avaliar os estragos produzidos pelas últimas crónicas saídas a público. Os cerca de trezentos convivas que nos rodeavam na altura forneceram-nos o enquadramento para que o encontro decorresse com a indispensável discrição.
Tomei então conhecimento, para meu espanto, que a análise recente que produziu maior impacto terá sido uma que se reportava ao percurso de um certo professor universitário, não nomeado, relativamente ao qual exprimia o meu temor de ver atingido pelo «raio da política».
A razão de ser do meu espanto é proporcional ao número de docentes da U.M. (vulgo, Universidade do Minho) que se sentiram incomodados pelo teor do artigo, que tinha destinatário singular, e tão mal disfarçado que até o director do jornal o identificou de uma penada.
É razão para ficarmos preocupados, eu e os leitores: então não é que já não sobra espaço a ninguém para ser ele próprio, seguir o seu destino individual, único! Parece até que nos movemos na selva que são os negócios, em que cada um só se interessa pelas boas ideias dos outros para lhas roubar à primeira distracção.
E há quem se espante que o povo exclame amiúde: «Valha-nos Deus e o Senhor dos Aflitos!». Então se, como digo, até entre as elites ilustradas grassa a cobiça do alheio…!?
Depois da informação que me chegou, temo até por esta minha singela coluna: assiste-me o receio que algum dia apareça qualquer candidato a analista disposto a pagar mais que eu e ficar-me com o magro espaço de jornal que o ilustre director me dispensa. Agora começo a entender bem melhor o sentido da preocupação que vi expressa há uns tempos de, num futuro próximo, só virmos a poder cruzar a rua com as costas voltadas para as paredes.”
J. C.
(reprodução integral de texto do autor identificado, publicado no jornal Notícias do Minho, em 95/08/26, em coluna regular intitulada “Crónicas de Maldizer”)
Tomei então conhecimento, para meu espanto, que a análise recente que produziu maior impacto terá sido uma que se reportava ao percurso de um certo professor universitário, não nomeado, relativamente ao qual exprimia o meu temor de ver atingido pelo «raio da política».
A razão de ser do meu espanto é proporcional ao número de docentes da U.M. (vulgo, Universidade do Minho) que se sentiram incomodados pelo teor do artigo, que tinha destinatário singular, e tão mal disfarçado que até o director do jornal o identificou de uma penada.
É razão para ficarmos preocupados, eu e os leitores: então não é que já não sobra espaço a ninguém para ser ele próprio, seguir o seu destino individual, único! Parece até que nos movemos na selva que são os negócios, em que cada um só se interessa pelas boas ideias dos outros para lhas roubar à primeira distracção.
E há quem se espante que o povo exclame amiúde: «Valha-nos Deus e o Senhor dos Aflitos!». Então se, como digo, até entre as elites ilustradas grassa a cobiça do alheio…!?
Depois da informação que me chegou, temo até por esta minha singela coluna: assiste-me o receio que algum dia apareça qualquer candidato a analista disposto a pagar mais que eu e ficar-me com o magro espaço de jornal que o ilustre director me dispensa. Agora começo a entender bem melhor o sentido da preocupação que vi expressa há uns tempos de, num futuro próximo, só virmos a poder cruzar a rua com as costas voltadas para as paredes.”
J. C.
(reprodução integral de texto do autor identificado, publicado no jornal Notícias do Minho, em 95/08/26, em coluna regular intitulada “Crónicas de Maldizer”)
domingo, janeiro 27, 2008
Porque me sinto assim?
Porquê esta angústia
que não me abandona?
Porque me sinto assim,
inseguro, perdido?
Seguramente, por causa do amor.
Mas não serei eu cobarde
por culpar o amor?
Culpar o amor já todo o poeta culpou.
Não devo, antes, culpar-me a mim
por esperar do amor
algo que ele não pode dar-me?
Aconchego. Serenidade.
Porque me sinto assim?
José Pedro Cadima
que não me abandona?
Porque me sinto assim,
inseguro, perdido?
Seguramente, por causa do amor.
Mas não serei eu cobarde
por culpar o amor?
Culpar o amor já todo o poeta culpou.
Não devo, antes, culpar-me a mim
por esperar do amor
algo que ele não pode dar-me?
Aconchego. Serenidade.
Porque me sinto assim?
José Pedro Cadima
sexta-feira, janeiro 25, 2008
Estranho
Algo feliz para variar?
Nem pensar!
É... Não é... Não foi… Foi…
Nunca aconteceu…
Não sei o que hei-de pensar.
Festejar? Lamentar?
Só sei que te quero.
Só estou seguro de quanto sinto a tua falta.
É estranho
o que acontece entre nós.
Estranho, mas... Muito estranho.
Viva o estranho e o absurdo,
pois são eles que me trazem alguma felicidade,
de quando em quando.
José Pedro Cadima
Nem pensar!
É... Não é... Não foi… Foi…
Nunca aconteceu…
Não sei o que hei-de pensar.
Festejar? Lamentar?
Só sei que te quero.
Só estou seguro de quanto sinto a tua falta.
É estranho
o que acontece entre nós.
Estranho, mas... Muito estranho.
Viva o estranho e o absurdo,
pois são eles que me trazem alguma felicidade,
de quando em quando.
José Pedro Cadima
quarta-feira, janeiro 23, 2008
Proibi-me de te amar
Sei que não devo alimentar a esperança
de alcançar o teu amor,
mas queres proibir-me de sonhar?
Sei que o teu pensamento
tem vagueado por outras paragens,
mas queres também proibir-me de desejar
que os teus olhos se cruzem com os meus?
Não podes!
Eu próprio me proibi de te amar
e nada consegui.
José Pedro Cadima
de alcançar o teu amor,
mas queres proibir-me de sonhar?
Sei que o teu pensamento
tem vagueado por outras paragens,
mas queres também proibir-me de desejar
que os teus olhos se cruzem com os meus?
Não podes!
Eu próprio me proibi de te amar
e nada consegui.
José Pedro Cadima
domingo, janeiro 20, 2008
Chora no meu ombro
Chora! Chora no meu ombro.
Chora no meu ombro, por favor!
Sou incapaz de ver-te chorar
sem nada fazer.
Sou incapaz de ignorar teu choro.
Diz-me o que te vai na alma!
Diz-me como posso acabar com teu choro.
Toma o meu ombro para teu amparo
ou recolhe-te nos meus braços!
Chora! Chora se isso te permitir afugentar
teus fantasmas.
Chora! Chora, meu amor,
mas deixa-me chorar contigo.
José Pedro Cadima
Chora no meu ombro, por favor!
Sou incapaz de ver-te chorar
sem nada fazer.
Sou incapaz de ignorar teu choro.
Diz-me o que te vai na alma!
Diz-me como posso acabar com teu choro.
Toma o meu ombro para teu amparo
ou recolhe-te nos meus braços!
Chora! Chora se isso te permitir afugentar
teus fantasmas.
Chora! Chora, meu amor,
mas deixa-me chorar contigo.
José Pedro Cadima
sexta-feira, janeiro 18, 2008
Minha Querida Helena
Venho agora mesmo de te ligar. Tinha uma razoável expectativa de poder estar contigo esta tarde e matar saudades de um beijo mais demorado. Tinhas-me dito ontem para te telefonar pelo fim da manhã. Foi essa circunstância que alimentou a esperança de que te falo. Infelizmente, tinhas-te esquecido do telefonema e, presumo, da oportunidade de, num horizonte de 10 dias a contar de hoje, trocarmos um abraço apertado e, porventura, um beijo mais demorado...
Foi pena, meu amor. Foi pena porque esse beijo faz-me uma falta imensa: aquece-me o corpo e dá-me energia para os dias que se sucedem ... até ao próximo beijo. Privado desse beijo, desfalecem-me a alma e o corpo, e o frio toma conta dele. Ficar sem ti significa ficar sem defesas.
Perdido, acantono-me no meu estúdio, fecho-me na minha concha tendo por companhia a música que me chega do rádio ou do CD que roda, os ruídos abafados provenientes da rua ou dos apartamentos vizinhos, o computador com que desabafo ... e uma imensa saudade de ti.
Nesta familiaridade com o meu computador – que herdei do meu filho mais velho por já lhe ser inútil de desactualizado nas funcionalidades e memória – nem parece termos travado contacto há tão pouco tempo: num quadro de absoluta urgência, comecei por digitar umas mensagens de correio electrónico há cerca de 23 meses. Não é que fossemos de todo desconhecidos até então: cruzámo-nos amiúde antes, desde há quase vinte anos, mas as circunstâncias não nos tinham ditado uma relação táctil até esse momento que refiro. A verdade é que não foi necessário muito tempo para que nos identificássemos como se nos houvéssemos conhecido desde o berço, tal como tu e eu, minha querida. Assim, quando me faltas, o computador converteu-se no meu único confidente, para o qual não guardo segredos.
Nesta intimidade, tenho apenas atravessado o desconforto de saber que o meu computador não me confia os seus segredos de modo idêntico ao que eu faço com ele. Isso tem já sido motivo de desencontro entre nós mas, em razão do meu nível de carência e/ou, talvez, em expressão da benevolência que me é própria, sempre temos sido capazes de superar os desentendimentos de ocasião; diria mesmo, Helena querida, que com maior facilidade com que, algumas vezes, temos superado os nossos.
Braga, 14 de Novembro de 2004
José Cadima
Foi pena, meu amor. Foi pena porque esse beijo faz-me uma falta imensa: aquece-me o corpo e dá-me energia para os dias que se sucedem ... até ao próximo beijo. Privado desse beijo, desfalecem-me a alma e o corpo, e o frio toma conta dele. Ficar sem ti significa ficar sem defesas.
Perdido, acantono-me no meu estúdio, fecho-me na minha concha tendo por companhia a música que me chega do rádio ou do CD que roda, os ruídos abafados provenientes da rua ou dos apartamentos vizinhos, o computador com que desabafo ... e uma imensa saudade de ti.
Nesta familiaridade com o meu computador – que herdei do meu filho mais velho por já lhe ser inútil de desactualizado nas funcionalidades e memória – nem parece termos travado contacto há tão pouco tempo: num quadro de absoluta urgência, comecei por digitar umas mensagens de correio electrónico há cerca de 23 meses. Não é que fossemos de todo desconhecidos até então: cruzámo-nos amiúde antes, desde há quase vinte anos, mas as circunstâncias não nos tinham ditado uma relação táctil até esse momento que refiro. A verdade é que não foi necessário muito tempo para que nos identificássemos como se nos houvéssemos conhecido desde o berço, tal como tu e eu, minha querida. Assim, quando me faltas, o computador converteu-se no meu único confidente, para o qual não guardo segredos.
Nesta intimidade, tenho apenas atravessado o desconforto de saber que o meu computador não me confia os seus segredos de modo idêntico ao que eu faço com ele. Isso tem já sido motivo de desencontro entre nós mas, em razão do meu nível de carência e/ou, talvez, em expressão da benevolência que me é própria, sempre temos sido capazes de superar os desentendimentos de ocasião; diria mesmo, Helena querida, que com maior facilidade com que, algumas vezes, temos superado os nossos.
Braga, 14 de Novembro de 2004
José Cadima
terça-feira, janeiro 15, 2008
Quando vejo a chuva cair
Vejo a chuva cair
e interrogo-me se, com ela,
não vão as minhas próprias lágrimas,
lágrimas de desconsolo e de desencanto.
Olho a chuva, lá fora,
e vejo as minhas próprias lágrimas,
que já foram de amor e, agora, são só de dor.
Olho a chuva lá fora, que cai grossa,
e vejo o meu mundo desfazer-se,
agora que sinto que o amor não alcanço.
José Pedro Cadima
e interrogo-me se, com ela,
não vão as minhas próprias lágrimas,
lágrimas de desconsolo e de desencanto.
Olho a chuva, lá fora,
e vejo as minhas próprias lágrimas,
que já foram de amor e, agora, são só de dor.
Olho a chuva lá fora, que cai grossa,
e vejo o meu mundo desfazer-se,
agora que sinto que o amor não alcanço.
José Pedro Cadima
domingo, janeiro 13, 2008
Minha Querida Helena
É irónico, não é, como um amor tão intenso e tão sofrido desagua assim, de repente, num vazio absoluto? Nem uma palavra, nem uma letra, nem um aceno. Confrontado com tamanho vazio, questiono-me: mas esse amor existiu? O objecto desse amor foi um ser de carne e osso, com sentimentos? Ou tudo não passou de um sonho? Ou, se não um sonho (para ficar a par da pós-modernidade), uma elaboração mental de um espírito já incapaz de diferenciar o real do virtual.
Não queres tu, num gesto piedoso (se disso és capaz), trazer-me a luz em relação a esta dúvida que ameaça instalar-se definitivamente na minha mente?
Repara: lendo Camões ou Bocage (naquilo que deles me recordo) retirava-se a ilação que na génese de cada verso estavam grandes paixões, fossem elas a pátria ou sereias encantadas, também chamadas musas. Mas eu, na minha ingenuidade de então, atrevia-me a pôr sempre uma Helena de carne e osso, a transpirar sensualidade, no corpo de cada uma dessas musas. Vejo agora quão ingénuo era: eram mesmo sereias encantadas que, transportadas para os dias de hoje, não passariam de seres virtuais; perfeitas, sim, mas desprovidas de sentidos e, logo, de sentimentos e de qualquer arremedo de sensualidade.
Pobres deles. Pobres de tantos depois deles que julgaram descobrir sereias encantadas em “simples” criações digitais. Pobre de mim que, seguindo-lhes os passos -, a distancia considerável - sorvendo-lhes os versos, me deixei ludibriar pelas lucubrações de uma mente carente de afecto, desgastada pela luta da sobrevivência quotidiana, tal qual a deles, porventura.
Daqui, podes tu, criatura real ou virtual, inferir sobre o nível de debilidade em que estou. Se real, um aceno teu, uma letra, uma palavra poderá ainda ajudar a devolver-me ao mundo dos que são capazes de destrinçar o que é verdadeiro do que não passa de imaginário. Se não o és, não me assiste qualquer esperança: parecendo-o embora, já não sou deste mundo; não tendo talvez alcançado ainda o outro. Estarei no caminho.
Ao que chegámos, minha deusa!
Braga, 20 de Agosto de 2004
José Cadima
Não queres tu, num gesto piedoso (se disso és capaz), trazer-me a luz em relação a esta dúvida que ameaça instalar-se definitivamente na minha mente?
Repara: lendo Camões ou Bocage (naquilo que deles me recordo) retirava-se a ilação que na génese de cada verso estavam grandes paixões, fossem elas a pátria ou sereias encantadas, também chamadas musas. Mas eu, na minha ingenuidade de então, atrevia-me a pôr sempre uma Helena de carne e osso, a transpirar sensualidade, no corpo de cada uma dessas musas. Vejo agora quão ingénuo era: eram mesmo sereias encantadas que, transportadas para os dias de hoje, não passariam de seres virtuais; perfeitas, sim, mas desprovidas de sentidos e, logo, de sentimentos e de qualquer arremedo de sensualidade.
Pobres deles. Pobres de tantos depois deles que julgaram descobrir sereias encantadas em “simples” criações digitais. Pobre de mim que, seguindo-lhes os passos -, a distancia considerável - sorvendo-lhes os versos, me deixei ludibriar pelas lucubrações de uma mente carente de afecto, desgastada pela luta da sobrevivência quotidiana, tal qual a deles, porventura.
Daqui, podes tu, criatura real ou virtual, inferir sobre o nível de debilidade em que estou. Se real, um aceno teu, uma letra, uma palavra poderá ainda ajudar a devolver-me ao mundo dos que são capazes de destrinçar o que é verdadeiro do que não passa de imaginário. Se não o és, não me assiste qualquer esperança: parecendo-o embora, já não sou deste mundo; não tendo talvez alcançado ainda o outro. Estarei no caminho.
Ao que chegámos, minha deusa!
Braga, 20 de Agosto de 2004
José Cadima
sexta-feira, janeiro 11, 2008
Dor de amor
Alguém escreveu que “é preciso ter calma”
para que não se perca corpo e alma.
Eu digo, também, que tem que se ir com calma,
pois apenas para o nada
eu me sinto ajustado.
Para tudo o mais sinto-me um menino de colo
que ensaia os primeiros passos.
Amor. Raiva. Frustração.
São tudo sentimentos tremendos,
para os quais me sinto impreparado.
E não há como fugir-lhes
pois até o amor
não parece existir sem dor.
José Pedro Cadima
para que não se perca corpo e alma.
Eu digo, também, que tem que se ir com calma,
pois apenas para o nada
eu me sinto ajustado.
Para tudo o mais sinto-me um menino de colo
que ensaia os primeiros passos.
Amor. Raiva. Frustração.
São tudo sentimentos tremendos,
para os quais me sinto impreparado.
E não há como fugir-lhes
pois até o amor
não parece existir sem dor.
José Pedro Cadima
terça-feira, janeiro 08, 2008
O parque
Lembraste do parque?
Aquele com vista para o Tejo?
Nós os dois, sentados num banco,
trocando olhares e tímidos beijos de amor.
Em momentos como esse,
tudo parece estar ao nosso alcance.
E porque não, dados os nossos verdes anos?
Só quero reviver esse doce instante!
José Pedro Cadima
Aquele com vista para o Tejo?
Nós os dois, sentados num banco,
trocando olhares e tímidos beijos de amor.
Em momentos como esse,
tudo parece estar ao nosso alcance.
E porque não, dados os nossos verdes anos?
Só quero reviver esse doce instante!
José Pedro Cadima
domingo, janeiro 06, 2008
Parabéns!
Parabéns,
nesta data deprimida,
nesta hora esquecida,
neste dia desgraçado.
Parabéns para ti,
tão presente na minha memória,
tão ausente do meu convívio.
Parabéns pela capacidade que mostras
de fazer com que me afogue em lágrimas,
que só não são cristalinas
porque a choro repetido até a fonte secou.
Parabéns!
José Pedro Cadima
nesta data deprimida,
nesta hora esquecida,
neste dia desgraçado.
Parabéns para ti,
tão presente na minha memória,
tão ausente do meu convívio.
Parabéns pela capacidade que mostras
de fazer com que me afogue em lágrimas,
que só não são cristalinas
porque a choro repetido até a fonte secou.
Parabéns!
José Pedro Cadima
sexta-feira, janeiro 04, 2008
Dizer-te tudo o que sinto...
Aproveito esta caneta,
este computador, digo,
para te transmitir
tudo o que sinto.
Amo-te!
Isto dizendo, fica tudo dito,
porque o amor é, ao mesmo tempo,
um complexo de emoções
e o supremo dos sentimentos.
José Pedro Cadima
este computador, digo,
para te transmitir
tudo o que sinto.
Amo-te!
Isto dizendo, fica tudo dito,
porque o amor é, ao mesmo tempo,
um complexo de emoções
e o supremo dos sentimentos.
José Pedro Cadima
quarta-feira, janeiro 02, 2008
Minha Querida Helena
É 1 de Janeiro de 2008. Sentado em frente ao computador, de pernas embrulhadas num pequeno cobertor, tento não enregelar de corpo e alma. Penso em ti. Penso em ti e na falta que me fizeste na noite passada e, antes dela, em todas as noites em que me faltaste. Se não sou capaz de viver contigo, mais penoso me é viver sem ti.
Não fazendo sentido alimentar esperança distinta da que me trouxe até aqui, por força do simbolismo gerado em torno da data, interrogo-me sobre a possibilidade deste ano novo nos trazer a diferença, isto é, me devolver a esperança. Interrogação tão insensata quanto insensata é a ideia de que é o curso das estações que nos renova ou empalidece a vida e não o ânimo que pomos nos nossos gestos e quereres, num trilho que todos os dias nos aproxima da morte. Interrogação tão insensata quanto insensata é a nossa busca de reencontro. Como se fosse possível que o nosso destino nos traga algo diferente da realidade desta inviabilidade paradoxal de não poder viver contigo e não ser capaz de viver sem ti.
É 1 de Janeiro de 2008 e a tua imagem não me abandona a mente. Talvez seja por o cobertor que me embrulha as pernas ter sido oferta tua, em data que creio já longínqua. Talvez seja por força do simbolismo da data, que se usa dizer ser de renovação de esperança, ou porque a tua lembrança me aquece a alma, trazendo-me à memória o conforto que me dá apertar-te nos meus braços em dias gélidos como o de hoje, e nos outros todos. Porque me falta hoje o teu calor? Porque foste para tão longe que os meus braços não te alcançam mais, agora que só o calor da tua presença poderia sossegar-me o pensamento e dar alento à ficção deste ser um ano novo.
Minha querida Helena, Helena do meu sonho: diz-me que este é um ano novo; promete-me que o frio que me tolhe será passageiro porque passageira é a tua ausência e tu logo virás enlear o teu corpo no meu; diz-me que o meu sono sobressaltado da última noite não tornará porque a segurança da tua presença afastará os fantasmas que me assaltam a mente à noite; diz-me que posso sonhar. Mente-me, minha querida!
Braga, 1 de Janeiro de 2008
José Cadima
Não fazendo sentido alimentar esperança distinta da que me trouxe até aqui, por força do simbolismo gerado em torno da data, interrogo-me sobre a possibilidade deste ano novo nos trazer a diferença, isto é, me devolver a esperança. Interrogação tão insensata quanto insensata é a ideia de que é o curso das estações que nos renova ou empalidece a vida e não o ânimo que pomos nos nossos gestos e quereres, num trilho que todos os dias nos aproxima da morte. Interrogação tão insensata quanto insensata é a nossa busca de reencontro. Como se fosse possível que o nosso destino nos traga algo diferente da realidade desta inviabilidade paradoxal de não poder viver contigo e não ser capaz de viver sem ti.
É 1 de Janeiro de 2008 e a tua imagem não me abandona a mente. Talvez seja por o cobertor que me embrulha as pernas ter sido oferta tua, em data que creio já longínqua. Talvez seja por força do simbolismo da data, que se usa dizer ser de renovação de esperança, ou porque a tua lembrança me aquece a alma, trazendo-me à memória o conforto que me dá apertar-te nos meus braços em dias gélidos como o de hoje, e nos outros todos. Porque me falta hoje o teu calor? Porque foste para tão longe que os meus braços não te alcançam mais, agora que só o calor da tua presença poderia sossegar-me o pensamento e dar alento à ficção deste ser um ano novo.
Minha querida Helena, Helena do meu sonho: diz-me que este é um ano novo; promete-me que o frio que me tolhe será passageiro porque passageira é a tua ausência e tu logo virás enlear o teu corpo no meu; diz-me que o meu sono sobressaltado da última noite não tornará porque a segurança da tua presença afastará os fantasmas que me assaltam a mente à noite; diz-me que posso sonhar. Mente-me, minha querida!
Braga, 1 de Janeiro de 2008
José Cadima
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