sábado, junho 14, 2008

“Ainda há esperança!”

“1. Irremediavelmente, estou impressionado com a preocupação que os lisboetas manifestam com os atrasos de desenvolvimento do Alto-Minho, da Beira interior ou do Alentejo. Mais impressionado me confesso por essa preocupação, tão veemente, ser assumida em termos maioritários por gente tão ilustrada quanto o são os jornalistas e outros intelectuais com espaço reservado no «Expresso» e noutros órgãos de informação que se usa classificar de «grande difusão».
Apraz-me que o digam, e apraz-me tamanha veemência nesta particular ocasião em que se discute a devolução do poder às regiões e as virtualidades da regionalização enquanto instrumento de desenvolvimento. Provoca-me menos impacto esta expressão de solidariedade regional quando é proveniente de alguém do Minho ou de Trás-os-Montes.
Não fora os epítetos de imbecis ou de traidores da pátria que usam para qualificar os defensores da regionalização e nem se perceberia o imenso altruísmo que os faz movimentar.
Também a este respeito, é caso para reconhecer que o país sem Lisboa é uma ficção.”

J. C.

(reprodução parcial de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 96/06/01, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)

quinta-feira, junho 12, 2008

Momentos brancos

Não haja pressa
que o momento aguarda.
Não deixemos o morrer
de ansiedade acompanhar-nos,
sendo nosso par.
Sobretudo, recusemo-nos
a casar com ele para a vida.

Odiosamente, sinto falta
de momentos em branco,
no meio de uma multidão;
momentos apaixonados.

Enrolando o tempo
em amor
que mal me fez,
perdi momentos vazios.
Não tendo sabido parar o tempo,
deixei-os fugir.

José Pedro Cadima

segunda-feira, junho 09, 2008

Minha Querida Helena

Hoje não te escrevo. Estou tão cansado que me falta a energia para te exprimir o que sinto e para te gritar quanta falta me fases. No presente estado de alma, recolheria até energia de palavras desagradáveis que me dirigisses - à semelhança de tantas outras no passado, algumas vezes injustas. Daí haveria de retirar a força para dar o próximo passo e, quiçá, contributo para tornar menos doloroso este sentimento de perda que me assiste.
Há ocasiões em que o trabalho, pouco que seja, me esgota. Lembro-me de outras em que o trabalho se esgotava sem que lhe sentisse o peso. Não é, sei-o bem, apenas uma questão de esforço. É, muito mais, um problema de motivação, de crença que valha a pena enfrentar o dia seguinte, estado de espírito que me escapa nesta altura e de que não estou certo de ser capaz de libertar-me. A não ser... A não ser que...
Estou sem esperança. Estou sem ânimo. Sinto-me profundamente cansado, a ponto de me falhar a energia sequer para te gritar a falta que me fases. Por isso, hoje não te escrevo.
Não te farão falta, no entanto, as minhas palavras escritas. Porque se fizessem não te seria indiferente o meu cansaço. Porque se te faltassem, não me deixarias a agonizar. Por contrapartida, eu não tenho dúvida em dizer-te quanta falta me fases. Gritá-lo-ia, até, se tivesse energia para tal.
Hoje não te escrevo. Se recobrar forças para esse empreendimento, escrever-te-ei noutra ocasião, para te dizer quanta falta me fases e quão tamanho é este amor que te devoto. Se recobrar forças para tanto, gritar-te-ei até a falta que me fases, mesmo duvidando que venhas a escutar o meu grito.

Braga, 23 de Agosto de 2004

José Cadima

domingo, junho 08, 2008

Fez-se história

Fez-se história:
criámos o horror e a arte,
criámos os dois; unimo-los.
Separámos a vida e a morte.

José Pedro Cadima

sexta-feira, junho 06, 2008

Canibalismo

Que se retorne ao canibalismo.
Que seja hoje e depressa!
Já toda a carne se me sugere saber
àquela que o homem tem.

Com canibal desejo,
devoro aos poucos
a própria consciência.
Sabe-me na boca
e não me sabe mal.

José Pedro Cadima

quinta-feira, junho 05, 2008

Sem apelo

Sem apelo,
sem dó nem piedade,
volto à escrita, como volto ao amor,
mesmo que isso pareça coisa de fracos,
coisa dos que amam uma para sempre.

José Pedro Cadima

segunda-feira, junho 02, 2008

Na vida: sonhos

Jogando em frente
as insígnias conseguidas,
nota-se que há muitos sonhos
que são mais pequenos que a vida.

Reflexos em espelhos sem cantos
permitem a fuga da ilusão.
Tarefa árdua é também procurar
agulha em palheiro:
vemo-nos gregos.

Convirá alertar os homens de ambição
que o mundo não se conquista com talheres,
embora essa conquista possa
não dispensar a mesa.
Pelo menos, não se contam histórias,
em que tal tenha acontecido.

Às mulheres, rosas se oferecem
ao invés de alecrim,
talvez por causa do seu perfume.
Podem ser rosa,
podem ser brancas ou vermelhas,
vermelho-amante;
fazem-nos sempre sonhar
com o seu perfume de rosas,
o seu cheiro de mulher.

José Pedro Cadima

sábado, maio 31, 2008

Sonhos...

Sonhos...
Sonhar? Porque não?
... E a nuvem escura,
tremenda passou,
descarregou toda a água
e a raiva que a movia.
Depois, o sol raiou
e da terra emanou um cheiro suave e perfumado,
o cheiro da terra.
Senti-me leve, então,
capaz de voltar a sonhar.

José Cadima

quarta-feira, maio 28, 2008

Desespero...

E o momento da morte funde-se com o da vida formando uma camada de desespero incompreensível.
.
José Pedro Cadima

terça-feira, maio 27, 2008

Lábios

Lábios doces, leves;
doces, leves lábios.
Toque apaixonado
por despertar.
Imprevisto gesto de amor.

Flutuo-o levemente,
para lá dos sonhos
impostos pelo desejo de te beijar.

Doces…
Leves…
Lábios…

José Pedro Cadima

domingo, maio 25, 2008

Minha Querida Helena

Espero que te encontres bem, na companhia dos teus. Eu cá vou indo como posso, umas horas mais fresco outras carregando com esforço óbvio o meu cansaço. Os fins de tarde, de um modo geral, têm-se revelado bastante penosos. O pior é quando ao dia se junta uma noite de sobressalto. Tirando isso – como te dizia – cá vou andando.
Sobre os meninos, dir-te-ei que lá vão indo, também. Tenho andado um pouco preocupado com o José Pedro em razão da indicação que tenho de que algo não vai bem com os seus amores (tal qual se passa com o pai). Na verdade, fiquei algo alvoroçado quando há dias me mandou uma mensagem electrónica (vulgo, e-mail) dando-me indicação que retirasse a dedicatória à Maria do seu livro em projecto. Imaginei-o logo de volta aos seus poemas de desesperança, de que te falei vai para uns tempos, e que tanto desconforto me provocaram. Surpreendentemente, contudo - tanto quanto me apercebi – isso não terá acontecido. Em vez disso, partiu com o avô rumo a Leiria, primeiro, e a Lisboa, depois, de onde me deu notícias razoavelmente descontraídas de Sintra e de Queluz. Faço grande força para que assim continue.
Todavia, a serem válidos os sinais de que te falo no parágrafo precedente, tanta ou mais preocupação que o José Pedro dá-me o João Miguel. Imagina que criou uma espécie de pânico em relação ao regresso à Escola, ao ponto de uma destas madrugadas ter aparecido no quarto da mãe em choro aberto questionando se não podia ter antes aulas em casa. Confirmo assim a ideia com que tinha ficado de que o ano académico passado foi para ele um enorme pesadelo. E até nem me custa entender que como tal o tenha sentido a aquilatar pela impreparação que constatei nos professores que, em má hora, tive que contactar. Mas daí até este vale de lágrimas de um miúdo como aquele vai certa distância. Lá tenho procurado sossegá-lo o melhor que sei, mas a apreensão, essa, ninguém ma tira.
Como uso dizer – e sou inteiramente sincero nisso – só pensa ter filhos hoje em dia quem não tem nada mais com que se ocupar ou, o que é radicalmente pior, quem é muito ingénuo ou um grande irresponsável. Como sabes, eu encácho-me na categoria dos ingénuos. Feito o erro, vou ter que viver com ele, mesmo que isso me custe para além do que tenho e posso dar. É uma de entre várias fatalidades com que estou confrontado. Daí a expressão cá vou indo com que iniciei esta mensagem que decidi endereçar-te.
Ciente, no entanto, que a carta vai longa e que te macei já para além do razoável, mantendo embora presente a tua benevolência, despeço-me até à próxima.
Dá cumprimentos da minha parte ao teu filho, e não te esqueças de lhe dizer que não me julgue mal pela forma como não soube lidar com a sua mãe. Recebe um beijo deste que tanto te quer.

Braga, 31 de Agosto de 2004


José Cadima

sexta-feira, maio 23, 2008

Está tudo tão industrial

Está tudo tão industrial,
como se a vida
fosse mais uma peça de maquinaria.

Se assim é,
deixai-me ser seu manuseador,
deixai-me espaço para manipular
esta máquina que me pertence.

Quero poder rodar manivelas.
Quero saltar sobre os maus tempos.

José Pedro Cadima

Os deuses

Chorei toda a noite,
e hoje chove.
Incrível o que fazem os deuses
para que não me sinta só!

José Pedro Cadima

terça-feira, maio 20, 2008

O precipício no fim da vida

Não há razão para viver
se não se for Colombo.
Não há como dormir
se não se souber como.

De um feixe de luz,
compreender a velocidade.
De uma pedra no chão,
identificar aquela que se é.

Sabereis vós todos
que, na vida, só há vida
se soubermos porquê?

José Pedro Cadima

sábado, maio 17, 2008

“A saúde está pelas ruas da amargura”

“Alguém que me é próximo sugeriu que me ocupasse numa destas crónicas das temáticas da saúde e da segurança social. Chocou-me a sugestão. Na verdade, é difícil descortinar como é eu poderia trazer para uma rubrica votada à análise política de fundo e à cultura assuntos tão rasteiros.
Rasteiros, digo, pois é bem sabido que saúde e segurança social andam ambas pelas ruas da amargura. Em tempo de triunfo de liberalismos e liberais feitos à pressa, em tempo de glorificação de construtores de auto-estradas e de centros culturais de Belém e da Feira sobra pouco para garantir a assistência na doença e o bem-estar dos cidadãos.
É de certo modo compreensível que assim seja, posto que doença é coisa de que ninguém gosta de falar e que o aproximar da idade da reforma é também o aproximar do termo da vida. Muito mais atractivo é, em época de Verão, deitar o olho às mulheraças em «top less» espraiadas ao sol ou aos programas de férias propostos pelas agências de viagens. Infelizmente, meninas de maminhas ao léu continuam a aparecer pouco aqui pelas praias do Minho e, pelo que se reporta a férias tropicais, falta-nos, à maioria, o conforto dos milhões do Fundo Social Europeu e do PEDIP, versão Mira Amaral.
Há também outra faceta nesta coisa do investimento na saúde dos portugueses que não abona a favor do tema, que tem que ver com a circunstância deste tipo de aplicação de fundos cair na categoria do chamado investimento imaterial. Quer dizer, é dinheiro deitado à rua já que uma vez gasto não fica nem tabuleta comemorativa nem obra para a posteridade. Nisso tem, portanto, muito a perder relativamente a auto-estrada, ponte ou quartel de bombeiros.
Os cidadãos eleitores sabem isso, e é essa a razão profunda porque nutrem um especial desprezo pela vida. Sobretudo pela vida dos outros, como se prova pelas estatísticas de acidentes rodoviários e de trabalho. Outro indicador que vai em idêntico sentido é a forma afável como continuam a acolher nas suas terras os ministros da saúde e do emprego e segurança social.
Tratasse-se dos seus congéneres das obras públicas ou da indústria, por exemplo, e a coisa ficaria bem diferente: «fujam que aqui vai calhau!» .”

J. C.

(reprodução integral de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 95/08/05, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)

quinta-feira, maio 15, 2008

Voltar a viver

Apetece-me saltar de tão alto
que voltar ao chão seja impossível.
Apetece-me correr tão rápido
que parar pareça um sonho.
Apetece-me entrar num sono tão profundo
que acordar seja voltar a viver.
Apetece-me...

José Pedro Cadima

segunda-feira, maio 12, 2008

Imaginação

O vazio

escorre-me da mente.

Encho baldes

do que não existe.

De imaginação morta,

Deus só nos teria criado a nós.


José Pedro Cadima

sábado, maio 10, 2008

Algo que só tu sabes

Quando estamos juntos,
sinto que dançamos,
sinto algo no ar,
sinto que algo nos junta.

Quando estamos juntos,
sinto algo que me faz assim,
algo que te faz assim,
algo que...
Sinto algo que só tu sabes.

José Pedro Cadima

quinta-feira, maio 08, 2008

Meu achado(2)

Ai achado!
Meu coração-agulha, qual bússola,
aponta para ti.

Um traço teu
leva-me a amar-te,
como a agulha ao norte.

As tuas sardas-meninas,
luzentes ao sol e à luz,
invisíveis na noite
ou no meu quarto escuro,
iluminam-te a vergonha
por me pedires um beijo.

Prova-me nos lábios
o amor que lhes tomei!

José Pedro Cadima

terça-feira, maio 06, 2008

sábado, maio 03, 2008

O fim do mundo

O tempo é de trovoada:
durmo.
Há sempre um dia
para lá de amanhã.
De futuro, virão tempestades e inundações:
dormirei.
A pior das catástrofes levará vidas
e eu cá ficarei, a dormir.
Não te zangues comigo,
meu mundo, minha vida!
O teu medo não me dá descanso.

José Pedro Cadima

quinta-feira, maio 01, 2008

Minha Querida Helena

Depois de um enorme vale de lágrimas vertidas por ti e por mim, sigo neste comboio a caminho de Lisboa. A mente deixei-a contigo. Como é possível que o nosso amor incomode tanta gente? Que tem de especial o nosso amor? O ser muito, muito grande? Mas não é mesmo assim que devem ser os amores?
Percorrendo, em pensamento, as últimas palavras que me dirigistes e revendo tudo o que dissestes antes, pergunto-me, adicionalmente, porque é que o nosso amor tem que ser um amor proibido. Será por ser tão intenso que o desgaste a que estamos sujeitos nos extenua desta maneira? Como posso eu querer-te tanto e penalizar-te tanto?
Meu amor: a cabeça fervilha-me de pensamentos e de dúvidas. A única certeza que tenho é que já não sou capaz de conceber o meu dia-a-dia sem ter-te como refúgio e como ancoradouro. Desgraçada que é a minha vida, perderá o sentido que lhe resta sem as amarras que me lanças.
É irónico que num momento juntemos pertences tão simbólicos como o são um cravo do sul, um loureiro e um jarro roxo e no instante seguinte me digas que o xicoração que me deste, quase roubado, foi o último. Como pode ser o último se o nosso cravo do sul e o nosso loureiro permanecem viçosos? Dás por perdido o jarro roxo e, com ele, as demais plantas, símbolos preciosos da nossa união? Não dês, minha querida. Luta para que vivam, mesmo que seja para que nos sobrevivam. Essa será mais uma prova da força deste amor.
Neste comboio, a caminho de Lisboa e contigo como objecto único de pensamento, pergunto-me como será a seguir, logo, quando chegar ao hotel, ou amanhã à noite, quando regressar. Irei telefonar-te? Atenderás tu o telefone se eu tiver a coragem ou a fraqueza de te ligar? E depois?
E depois? Decidido está que 3ª feira comprarei bilhetes para o espectáculo com o José Mário Branco, a 24 de Abril, havendo bilhetes - ficaria muito frustrado se não os houvesse. Está decidido que comprarei dois bilhetes. Depois logo se verá se te terei a meu lado ou se o banco vizinho ficará vazio durante o espectáculo.
Não, não quero questionar-me sobre como resistirei à emoção daquele momento se não puder ter a força de te sentir a meu lado. Não, não quero imaginar como o nosso cravo do sul poderá resistir à minha ausência. Não, não quero pensar … Helena, minha querida.

José Cadima

terça-feira, abril 29, 2008

O que deixaste à porta

Se bem o deixaste à porta
escusado é voltar atrás.
Não está lá
nem pensa em depressa voltar.

Em retorno, desejo-te do coração
que não se alongue teu caminho.
Ficarias abandonado neste mundo,
outra vez.

Hás-de iludir-te
para a esperança procurar,
que também lá atrás ficou
pedindo ao bem que te espere.

Aqui, espera-te o mal,
carregando ironia vida adiante,
sempre erguido e com mãos largas,
alardeando alegria a tua expensas.

José Pedro Cadima

sábado, abril 26, 2008

Raiva

Há raiva que nada faz
e me deixa sempre em guerra.
Tropeço num vazo que caiu
do alto dos meios receios.
Pior era ter por lá ficado!

A gravidade é forte
e traz tudo para os nossos pés,
excepto os problemas.
Esses teimam em manter-se lá no alto,
ameaçando-nos a tranquilidade,
quando não alimentando-nos a raiva.

José Pedro Cadima

sexta-feira, abril 25, 2008

Escrito no preto

Escrito no preto
para não se ver;
escrito no preto
para não se perceber;
escrito no preto,
por mim;
escrito no preto,
para ti;
escrito no preto
para ser esquecido;
escrito no preto
para nunca tu dizer.
Que sentimento estranho
este de, ao mesmo tempo,
querer apagar-te da memória
e desejar correr para os teus braços!

José Pedro Cadima

terça-feira, abril 22, 2008

Um sitio distante de mim

Desejaria partir
em busca de isolamento
num lugar bem longe daqui,
num sítio distante de mim,
onde pudesse encontrar
as resposta que me faltam,
no relativismo absoluto
dos teus e dos meus sentimentos.

Nem em tudo eu meto sentimentos.
Eles é que se metem em mim!
Queria encontrar resposta para problema assim.

José Pedro Cadima

sábado, abril 19, 2008

E se eu morresse agora?

Já pensaste: e se eu morresse agora?
Virias à minha campa chorar?
Rezarias pela minha alma penada?
Acharias alguém para te amar como eu te amo?
Não! Não penses nisso.
Terás assuntos mais interessantes em que pensar
e, eu morrendo ou não morrendo,
não te faltarão homens a quem amar.
Menos seguro será encontrares alguém
que te venha a amar tanto quanto eu.
Não, não rezes por mim.
Não, não irás encontrar alguém
que te venha a amar mais intensamente que eu,
mas talvez possas achar alguém que te faça mais feliz
do que eu consegui que fosses comigo.

José Pedro Cadima

quinta-feira, abril 17, 2008

Lá fora

Olhas o quê, à janela?
Olha antes para mim.
Não repares na gente lá fora.

Fazem-nos mal, sabias?
Muito mal:
limam as arestas dos nossos erros;
lembram-nos desgraças
num nunca mais acabar.

Dá-me a mão!
Junta-te a mim!
Só abraçando-te sou capaz de afastar
o frio que vem lá de fora.

Não olhes quem vai lá fora.
Olha-me a mim.
Aqui também há
gente carente de afecto.

José Pedro Cadima

terça-feira, abril 15, 2008

Minha Querida Helena

Se há dias em que não devemos sair de casa, este foi para mim um deles. Só que tudo começou por correr mal em casa, do “periférico” do computador que avaria e que não parece ser possível adquirir em lado algum ao correio electrónico que se revela difícil de visualizar. Para terminar em desgraça completa, até o presente acabado de adquirir veio com defeito. Como saldo do dia, ficou cansaço e irritação e uma mão cheia de nada, se se considerar o trabalho que estava por fazer e o que efectivamente foi feito.
Em consonância com o demais, pelo telefone soube que te sentias doente, o que não se tratando de novidade, infelizmente, também em nada ajudou ao meu dia. Vou ficar a aguardar com ansiedade o dia em que me digas exactamente o oposto, isto é, que te sentes em boa forma e nada te apetece mais que sair à rua e deixar passar para quantos se cruzem contigo a alegria que se te estampa nos olhos e se percebe na leveza dos teus gestos.
Dentro do expectável, a deslocação a Lisboa até nem correu mal: uma noite calma no hotel, quer dizer, razoavelmente dormida; uma reunião com alguns pontos de interesse, sublinhada por duas intervenções na discussão dos dossiês em agenda que não deslustraram; uma viagem de combóio serena e no horário, na ida e no regresso; a comodidade dos novos comboios que circulam na linha renovada Braga-Lisboa (mais renovada em Braga que em Lisboa). Para ser melhor, bem melhor, teria que se ter concretizado a tua “promessa” de me acompanhares. Mas a “promessa”, desgraçadamente, não passou disso, de promessa. Fica para a próxima, não é minha querida?
Pela minha parte, não me esquecerei de te dirigir novamente o convite na vizinha oportunidade, e na oportunidade vizinha da vizinha e nas ocasiões seguintes, até que te canses de recusar os meus convites e decidas aceitar um.

Braga, 16 de Outubro de 2004

José Cadima

domingo, abril 13, 2008

Memória de uma data especial


Decidi publicar esta foto para comemorar uma ocasião muito especial.

Peço desculpa por ser parco nas palavras mas estou sem tempo.

"Ai achado!
Meu coração-agulha, qual bússola,
aponta para ti."

José Pedro Cadima

sábado, abril 12, 2008

De mãos dadas

De mãos dadas,
a noite nunca é fria.
As nossas almas
afastam qualquer frialdade.

O sentimento, o amor
são energias fortíssimas,
capazes de gerar calor
tanto mais intenso quanto o sejam os laços
que nos ligam.

O contacto, a proximidade
geram troca de energia e estimulam mais trocas
e a geração de mais calor.
Fria que pareça a noite,
parecer-nos-á sempre amena
se a cruzarmos entrelaçados.

José Pedro Cadima

quinta-feira, abril 10, 2008

Desenfastiando: “what else”?

Um dia depois de ter passado por Braga e na véspera de rumar às terras geladas da Sibéria, Alexandre Sousa, professor da Universidade de Aveiro e desinquietador de espíritos, perguntava-nos, e perguntava-nos bem (mal), “what else?”. Isso queríamos nós saber! É que os rumos do Ensino Superior Nacional são difíceis de descortinar, guiados por timoneiros tão temerários quanto o são os que temos tido, a começar pelo Zé Mariano, que antes foi Gago e só perdeu quando começou a abusar da palavra ganha.
“Como é que tu és a favor do RJIES?”, perguntava-lhe outro marinheiro. Mas como é que se pode ser marinheiro e, ao mesmo tempo, gostar de águas paradas? Escolhido que tenha sido ser-se marinheiro, há que marear nas águas que o mar traga, que nunca hão-de ser paradas e, muito menos, estagnadas. A escolha é ser-se marinheiro.
Feitos ao mar, pode-se ir a Bolonha? Pois concerteza, mas a Bolonha que se queria era bem condimentada, não esta piza sensaborona que nos calhou. Habilitado com o seu curso intensivo de marketing e imagem, o Zé Mariano nunca mais quis saber o que quer que fosse da qualidade da massa e dos ingredientes. Basta-lhe que a piza pareça luzidia, e se se pouparem uns cobres para ajudar as “reformas” de Sócrates e os coitados dos americanos tanto melhor. Foi assim que Barroso chegou a presidente da Europa e o Zé Mariano não é menos que ele, a não ser talvez no empenho com que Barroso abraçou a militância MRPPista doutros tempos.
E a bisca lambida? Essa é para ser lambida nos senados trazidos pelo RJIES (Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior) que, fazendo de conta, hão-de aplaudir esta Bolonha e todas quantas os senhores do marketing e da propaganda mandarem lamber, a bem das “reformas”. E se forem muitos, mais biscas lambem. Desde que possam preservar a sua parcela de protagonismo, porque não? A pequena dificuldade que subsiste é que pode restar só o papel de bobo da corte.
Tal qual George Clooney”, dizia-nos Alexandre Sousa, “também eu apareço sempre que posso em anúncios de vacas leiteiras". Pudera! Podendo escolher entre vacas leiteiras e vacas escanzeladas ou esbeltas (como lhes chamava um colega mais imaginativo, vai para pouco menos de uma dezena e meia de anos), quem não fica com as leiteiras. E então agora que o leite está caro. Não é por isso que deixa de haver utopias realizáveis. É preciso é batalhar mais por elas. Bolonha é já ali! Os americanos hão-de se envergonhar desta sopa dos pobres e quando isso acontecer restará ao Zé Mariano fazer outro curso intensivo de marketing e propaganda ou pedir ajuda a Barroso, para que lhe arranje um lugar de chefe de gabinete em Bruxelas. Não seria o primeiro e Barroso já não é o Durão que em tempos foi.
O processo em curso nas universidades e politécnicos não é, nem tem de ser, pacífico. “Processos pacíficos são aqueles que defrontamos com o Ministério da Finanças quando não pagamos o IRS”, retorquia Alexandre Sousa, outra vez. É entretanto diferente haver visões diferentes da universidade (e do politécnico) e uns quantos apresentarem-se como senhores do destino das Instituições de Ensino Superior (IES), para mais, conhecendo nós “a verdade” de que são mensageiros.
Como digo, o problema não são as leituras diversas que se façam das IES e dos caminhos a trilhar. Penoso é, isso sim, constatar o "estado gripal do (des)ensino superior", na caracterização de Vasco Eiriz, professor da EEG/Universidade do Minho, citando alguém que não importa trazer para aqui. Penoso é que haja professores a fazer xixi na tampa da sanita. Penoso é que em reuniões dos órgãos académicos herdados do anterior ordenamento jurídico, a grande maioria dos professores universitários mantenha um silêncio estrondoso em relação a tudo que tenha menos natureza de gestão corrente, porque têm medo.
Face ao beco sem saída do presente, qualquer debate só pode resultar rico, por mais caótico que pareça, desde que exista. Que se dane o Zé Mariano, que, ironicamente, até pode ser louvado por tê-lo provocado, e que se dane o Augustus. Que se dane o Augustus, que ainda por cima é daltónico e viu bandeiras vermelhas onde só havia lenços brancos. Se as vacas são escanzeladas, porque há-de o académico fingir que as achas gordas e leiteiras? Deve achá-lo só porque lhe matraqueiam quotidianamente o espírito com discursos da reforma, e das maravilhas que lhe hão-de chegar de Bolonha?
Vivam as vacas leiteiras! Viva a bisca lambida!
J. Cadima Ribeiro
(artigo de opinião publicado na edição de 08/04/10 do Jornal de Leiria)

terça-feira, abril 08, 2008

Um lugar neste Universo

Somam-se as energias no Universo.
São elas a força que nos une.
A conexão pessoa-lugar-tempo
que nos move
dá sentido à forma,
define-nos a identidade.

Busca-se uma pessoa:
és tu!
Procura-se um lugar:
és tu!
Questiona-se a ocasião:
és tu!
Tu és sempre o meu eu.

José Pedro Cadima

domingo, abril 06, 2008

Conselho a um artista

Qualquer artista que se preze
a extrema miséria deve visar.
A extrema felicidade, aparte inalcançável,
seria indicador seguro
de que nunca veria publicamente reconhecida
a valia da sua obra,
e um meio-termo deixaria o seu trabalho incompleto.

Claro que é o critério
para atingir o reconhecimento público,
facilitada está a vida de qualquer artista
que vise ir além da mediania:
resta-lhe prosseguir arduamente
o caminho da miséria material.
Terá assegurado um grandioso funeral.

José Pedro Cadima

quinta-feira, abril 03, 2008

Minha Querida Helena

Nestes altos e baixos de ânimo, por razões próximas que não sou capaz de descortinar, retorno ao ponto mais baixo do ciclo. É o ânimo e é o cansaço, que em mim se apresentam associados. Se a semana decorresse mais intensa em matéria de solicitações de trabalho, não haveria espaço para estes sinais exteriores de debilidade, isto é, teriam que aguardar oportunidade. As coisas são entretanto como são e, por assim ser, volto ao estado de agonia na sua dimensão mais embaraçosa.
Não ligo esta ressaca aos telefonemas (dois) recentes que me fizeste, nem à visita que te fiz. Não digo que não me tenham afectado mas, se concorrem para este meu momento psicológico, fá-lo-ão em adição de razões mais profundas. Aliás, hoje não me telefonaste, embora eu mantivesse a expectativa que o fizesses. Porventura o questionário com que me brindaste ontem ficou então preenchido, pelo que não permanecia justificação para contacto posterior. Tens que conceder, no entanto, que a interrupção abrupta da ligação (por força do esgotamento das moedas) não permitiu que me desses conta do sucesso ou insucesso das respostas.
Neste interregno de comunicação, fui processando os dados que me havias feito chegar. Desses, talvez te surpreenda que o que me mereceu maior ponderação tenha sido o que se exprime na circunstância de me teres visto movimentar em Braga, sendo seguro que eu não te vi. Não mereceria atenção particular não fora a coincidência de tal se ter passado de modo idêntico em diversas outras ocasiões, a crer nas tuas alegações. E, confesso-te: gostaria de te ter visto desta e das outras vezes, particularmente desta vez.
Não te vi - disso não me resta dúvida – e não entendo como pudeste tu ver-me sem que eu te visse. A verdade é que, se a minha vista não é o que já foi, a tua não me parece em melhor estado. Tu mesma o dizes. Resulta então, daqui, um mistério. O mistério adensa-se quando eu sou visto por “A” ou por “B”, acompanhado, neste e naquele sítio, mesmo que não o tenha frequentado em período recente ou lá tenha estado sozinho. Tens que admitir que estes são dados fortes o bastante para me prenderem a atenção. Tanto mais quanto me sabes um cultor da ficção científica e um adepto confesso dos efeitos especiais. Aliás, como costumo afirmar, para ensaio sobre as misérias do quotidiano basta o próprio quotidiano. Disso fazem espectáculo diário os media.
Eis, Helena querida, um retrato do meu estar psicológico. Será bastante fidedigno já que o que está escrito antes foi-o ao sabor do pensamento livre (outros diriam, ao sabor da pena), não antecipando este final de divã de psiquiatra. É bom que assim seja para que o retrato surja bem autêntico, sem maquilhagem e sem acerto de cabelo. Perante ti posso expor-me despido, segundo creio.
Não tenho conselhos para dar ao psiquiatra. Também não lhos peço. De ti também não os pretendo receber. Se fossem beijos...

Braga, 9 de Setembro de 2004

José Cadima

Ps: correndo o risco de ser acusado de uma súbita simpatia pelo Ps. (com um pontinho em vez de dois pontos – o “s” pequeno é para simbolizar o estado em que está o socialismo), que declaro não ter qualquer fundamento, sou obrigado a recorrer outra vez a esta figura para reparar os efeitos de uma gralha que pousou sobre a data da carta de ontem, fazendo aparecer um seis onde, em verdade, estava um oito. Embora a culpa seja toda da gralha, por uma questão de afinidade com aquela, venho assumir a responsabilidade do erro.

quarta-feira, abril 02, 2008

O mundo

Desço docemente, fazendo festas ao mundo,
não vá ele enfurecer-se.
Pressinto-o zangado,
deixando-me descrente de que tenhamos futuro.

Puxo das minhas forças e da coragem que me resta
e olho-o nos olhos.
Tento dizer-lhe que ele está no centro das minhas preocupações.
Procuro dar-lhe expressão do meu empenho
e falar-lhe de carinho.

Vejo-o rosnar, primeiro, sacudir-se, depois,
e aquietar-se, de seguida.
Questiono-me se acreditou no que lhe disse.
Deixou-me seguir o meu caminho.

José Pedro Cadima

segunda-feira, março 31, 2008

Carregar com palavras

Palavras ditas uma vez magoam para sempre.
É estranho e forte o poder das palavras.
Por isso, amiúde, a sabedoria está em ficar calado.

Produzida a ferida, não há como retroceder.
Permanecer calado pode, mesmo então, ser menos danoso
que voltar a fazer uso da palavra.
Falar, enterra-nos.

Levando ou atirando com palavras, resta-nos depois carregá-las.
É como uma cruz que se carrega pela vida.
É responsabilidade de cada um pôr-se na pele dos outros.
A humanidade de cada indivíduo revela-se também nisso.

José Pedro Cadima

sexta-feira, março 28, 2008

Querer mais

Há qualquer coisa
que não me deixa descansar.
Garanto-vos ver demónios
passearem-se por meus azares
e seus servos
por linhas do meu destino.
Será por eu querer demais?
É erro ter demais, sei-o.
Sei, também, que mais cansaço
traz mais aflição,
mas eu só corro por ti!

José Pedro Cadima

terça-feira, março 25, 2008

Indivíduo

Não peças a César
que te dê Roma
sendo tu exército!

Larga a lâmina
que essa orelha cortada
não te fará original!

Pousa a cruz!
Não podes ser mártir
se a causa for apenas tua.

José Pedro Cadima

domingo, março 23, 2008

Minha Querida Helena

Fazendo-me falta todos os dias, há dias em que sinto mais a tua falta. Hoje é um desses dias. Será porque lá fora corre um vento gelado? Ou será, antes, porque nos dois dias antecedentes voltei, muito brevemente, aos lugares da minha infância e às memórias de dias menos agrestes, misturadas com as de outros que não gosto de recordar? Interrogo-me e não encontro resposta alguma que não seja que me fazes falta hoje, particularmente hoje, meu amor.
De regresso a memórias e lugares de infância, já aí senti a tua ausência, se bem que a tua memória só longinquamente ecoe por essas paragens. Desejei ter-te lá comigo. Desejei que me ajudasses a reencontrar-me com o lado feliz desse reencontro. Talvez desse modo fosse capaz de deixar de estar por lá de fugida, como vem acontecendo há muitos anos. Porque será que esses lugares me atraem e repelem, simultaneamente? Será porque me sinto aí sem ti? Mas, e aqui, sem ti, como me devo sentir? Queres dizer-mo?
De volta a esta terra, agora também minha, julguei ficar mais próximo de ti. Pura ilusão: quanto mar a separar-nos, quanto vento gelado a tolher-nos os passos. Logo hoje, meu amor, em que só o calor do teu corpo poderia trazer-me algum conforto.
Olho em volta, tento descortinar por entre os raios de sol que rasgam o horizonte o calor que os raios do sol costumam trazer e a minha mente logo foge para ti, ansiando calor, procurando conforto. Olho em volto, vejo sinais teus em cada objecto que me rodeia, mas de ti nem sinal, nem aceno. Por onde andas tu, querida Helena, neste dia tão agreste. Sentirás tu o mesmo desconforto que eu sinto? Correste tu para mim com a mesma energia com que eu corri para ti, de modo a vencer a resistência deste vento de Inverno, quando a Primavera já se fez anunciar? Vou crer que sim. Vou crer que foi este vento que foi mais forte que a urgência que eu tinha que nos apertássemos nos braços.
Hoje, este vento gelado venceu. Amanhã preciso que vençam outras forças da natureza, sob pena que se extinga a réstia de energia que alimenta este meu corpo enregelado, trémulo, carente de ti.

José Cadima

sábado, março 22, 2008

Tempos glaciares

O cansaço enfraquece-me,
empurrando-me para o canto
mais sombrio da minha alma.
A insipidez do local abafa-me.
Já passaram por aqui desejos e sonhos deliciosos,
mas inverosímeis.
Agora, não são senão memórias,
imensos espaços gelados,
glaciares, diria.
Saudade! Arrependimento!
Sim, não os deveria ter deixado gelar!
Sim, acode-me a saudade de tempos menos sombrios,
que me culpo de não ter sabido preservar.

José Pedro Cadima

terça-feira, março 18, 2008

Escondido num novelo de lã

Num novelo de lã me quero esconder,
quietinho, aconchegado, a salvo;
a salvo do que vai lá fora,
a salvo do que ficar fora do meu novelo de lã.
Deixem-me procurar um lugar
onde possa permanecer recolhido,
longe da impiedosa lei
que, nos sonhos, traz a luz.

A opressão ataca os pobres
que querem sonhar,
encurrala-os em becos sem saída,
enche-nos a vida de medos.
Pressinto longe o meu novelo de lã.
Quem me dera tê-lo mais perto,
ali, ao alcance de uma mão.

José Pedro Cadima

sábado, março 15, 2008

Histórias de amor

A cada história que conto,
"Romeu e Julieta" lhe podia chamar.
A forma, o tempo,
as personagens mudam.
O tema é sempre o mesmo:
um amor interdito.

José Pedro Cadima

quinta-feira, março 13, 2008

Carisma

Não sou, de certo, uma figura das mais carismáticas.
Falta-me o “charme” que berra ao mundo.
Ninguém se recordará da minha cara,
salvo quem a reconhecer nas minhas palavras.

José Pedro Cadima

terça-feira, março 11, 2008

Meu achado

Ai achado!
Meu coração-agulha, qual bússola,
aponta para ti.

Um traço teu
leva-me a amar-te,
à semelhança do modo como a agulha
descobre o seu Norte.

José Pedro Cadima

sábado, março 08, 2008

Minha Querida Helena

Em tempo de confidências, quero falar-te hoje do sentimento que tive na passada semana quando, por feliz acaso, passei a noite em tua casa. O acaso a que me refiro releva dos nossos desencontros recentes, que verbalizei em mensagens anteriores.
Não me deterei sobre a tua receptividade em relação a gestos de carinho matinal; não me alongarei sobre a estranheza que para mim é a gestão que fazes das tuas horas nocturnas, onde parece não haver tempo para o sono – presumo que aches que outro tanto seja válido para os demais ou, pelo menos, para mim; não comentarei a quantidade de comida que sempre pões à minha frente, nem tão pouco a surpresa que sempre enuncias pelo pouco que – dizes tu – eu como. Tal qual digo, pretendo apenas dar-te notícia do sentimento que me invadiu, em tua casa, enquanto aguardava que acabasses de fazer o jantar, primeiro, ou te libertasses das arrumações da cozinha, depois.
Concretizando, digo-te, minha querida, que me vi na condição de um objecto que preenche a casa. Não digo um objecto mais, porque poderia parecer-te ofensivo, mas, em todo o caso, uma peça que ocupa um espaço, porventura preenche um vazio. Curiosamente, no teu dizer, alguém que se move sem ruído e que, por isso, ocasionalmente te surpreende e te assusta. Repara, o meu objectivo era estar contigo – sublinho: estar contigo – mas a ti satisfez-te ter-me no sofá da tua sala, enquanto tu te movimentavas pela cozinha, pela casa; satisfez-te saber-me deitado na tua cama, perdido de sono, enquanto te ocupavas da cozinha, da casa de banho, e do mais que julgaste ajustado para aquela hora tardia.
Em abono da verdade, devo dizer-te que não foi a primeira vez que pensei isto que agora te enuncio. Foi, no entanto, a primeira vez que o senti na sua expressão vivida, na exacta hora. Não to disse na ocasião porque não sabia como reagirias ou, melhor, receei que reagisses mal, e isso era a derradeira coisa que eu desejaria. Digo-to agora, num apelo à sinceridade, na expectativa de que entendas a bondade do que te transmito e me perdoes, nessa mesma medida
Seguramente, te surpreenderei com esta minha confissão. Tu sabes, no entanto, que és o meu único refúgio, pelo que não havia outrem a quem segredar este pensamento íntimo. É também isso que faz a diferença entre ter ou não ter alguém... meu amor.

Braga, 19 de Julho de 2004

José Cadima

quarta-feira, março 05, 2008

Teus caracóis

Caracóis. Caracóis.
Que lindos eram os teus caracóis!
Faziam lembrar um conto de fadas,
onde cavaleiros trepavam por eles
para atingir a tua janela.

Por onde subir
senão mesmo pelos caracóis do teu lindo cabelo?
Por onde subir,
para o céu alcançar,
senão pelos fios enrolados do teu cabelo?

José Pedro Cadima

segunda-feira, março 03, 2008

Muitos…

Muitas palavras que não chegaram a sê-lo.
Muitas ideias que não chegaram a realizações.
Muito amor que não encontrou
um coração aberto para o receber.
Muitas promessas de amor por cumprir
e outras que ficaram por fazer.
Muitos corações despedaçados.
Muitas amizades destruídas.
Muitos … Muitas coisas tristes para contar.
Mais seriam se ousasse falar
dos muitos medos que sinto!

José Pedro Cadima

sábado, março 01, 2008

“As meias e as pernas – I”

“Aos meus leitores mais atentos não surpreenderá que lhes diga que escrevi esta crónica na sala de espera de um aeroporto da Europa, nem talvez lhes estranhará que lhes deixe dito que o fiz como forma de usar o tempo (não sei se diga, de passar o tempo) de espera do avião que me deveria trazer de volta a Portugal. Já estou menos certo que se surpreendam se vos disser que me ocorreu fazê-lo a pretexto da leitura de um artigo de um semanário nacional em que o tema era estar ou não na moda o uso de meias brancas.
Para quem não tenha lido a prosa em questão, deixo dito que o articulista se referia ao uso de meias brancas masculinas (se é que as meias têm sexo) e sugeria que era tempo desta cor voltar a estar na moda, por forma a poder dar uso à colecção que o avô lhe foi oferecendo, ao longo dos anos. De uma leitura um pouco mais subtil, poderia o leitor tirar do artigo a sugestão que a moda é feita pelos fazedores de opinião, costureiros de muitos ofícios, ou poderia concluir que o seu autor passava por uma crise de imaginação, o que era, seguramente, o mais verosímil. Aliás, valha a verdade que se assinale que o articulista em causa não fazia qualquer esforço para que quem quer que fosse concluísse de outro modo.
Foi precisamente este último aspecto que mais me chamou a atenção pelo que traduz de honestidade intelectual e pelo que ela revela de personalidade da personagem, porque, concordem comigo, não haverá muitos que se disponham a admitir publicamente que atravessam um momento de crise (crise de imaginação, digo) e, simultaneamente, por dever de ofício e respeito de obrigações contratadas, se disponham ao esforço de persistir no seu trabalho. Louvo-lhe isso e louvo-lhe, ainda, a felicidade da e3scolha: as meias masculinas, um artefacto tão nobre e, eventualmente, tão descurado. Muito menor arrojo seria reter as meias femininas, tema que, para alem de muito badalado, deixaria nos seus leitores a dúvida sobre se seriam as meias ou as pernas que o articulista pretenderia relevar.
Por mim, congratulo-me por não ter sido jamais atingido por crise semelhante, já que receio bem não ter a arte e o saber que aqui exalto para a ultrapassar com a elegância necessária.”

J. C.

(reprodução integral de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 96/10/18, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Raiva

Raiva, tormento, desesperança.
Tudo isto me corre nas veias,
empurrando para que me mova
mas não me dando vida.
O meu amor esbraceja
para que não se afogue
nesta maré de sentimentos malditos.

Quanta raiva me alimenta.
Quisera que fosse bonança.
Desespero por que chegue maré baixa
ou alta, se for para consolar meu coração
em desespêro.

José Cadima

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Ao longe, o rio

Ao longe, o rio.
Tantas memórias;
tantos cravos.
Saudades…
Saudades só de ti,
dos teus voos rasantes,
das tuas aproximações picadas.

Ao longe, o rio,
referência viva de um tempo
em que as flores tinham cores vivas,
em que o nosso amor era só promessa
não sonhada.
Saudades…
Saudades só de ti, minha querida Helena.

Ao longe, ...

José Cadima

domingo, fevereiro 24, 2008

Escrito no preto

Escrito no preto
para que se não veja;
escrito no preto
para que se não perceba;
escrito no preto por mim;
escrito no preto para ti;
escrito no preto
por coerência com o estado de espírito
que me assiste;
escrito no preto
para que nunca te chegue.
Amanhã o dia há-de nascer cheio de luz.
Amanhã o preto será cor do arco-íris.

José Pedro Cadima

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

“As meias e as pernas – III”

“Posto que a hora do regresso se aproxima, é oportuno pôr termo à presente crónica e, posto que falo das escadas da Praça de Espanha, não será despropositado que deixe aqui o ponto de vista que as escadas do Bom Jesus, em Braga, são bem mais bonitas que as ditas escadas romanas. Têm contra si, obviamente, a circunstância de serem em Braga e não servirem de palco à exibição de modelos e de pernas ou de, pelo menos, as pernas que as pisam serem muito menos celebradas.
Assistindo pela televisão às passagens de modelos transmitidas a partir da romana Praça de Espanha, tem-se a oportunidade, como em poucas outras ocasiões, de perceber como a televisão molda as imagens e o mundo: francamente, só na televisão as celebradas escadas se sugerem tão luminosas e douradas. Descontando esse efeito, a única coisa dourada que resta são mesmo os modelos: a Naomi, a Claudinha, a Sharon,…”

J. C.

(reprodução integral de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 96/10/18, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Estranho

Estranho ser assim contigo.
Estranho seres assim comigo.
Estranho, muito estranho
sermos assim um com o outro,
como estranhos que somos,
embora talvez já o devêssemos ser menos.

José Pedro Cadima

domingo, fevereiro 17, 2008

“As meias e as pernas - II”

“Por incómodo que seja dirigir-me aos meus leitores de uma gare de um aeroporto, reconheço-lhe também vantagens, a menor das quais não será o exotismo da paisagem humana que vai circulando nos corredores. Admito, no entanto, que, desse ponto de vista, uma rua de Londres ou as celebradas escadas da Praça de Espanha, em Roma, podem ser mais exaltantes.
Perdoar-me-ão os meus leitores que dessa paisagem humana retenha sobretudo a componente feminina, mas há coisas que são mais poderosas que nós, quer dizer, que a componente consciente assumida das nossas vidas. Para além disso, que graça podem ter as meias (as meias e as pernas) de um escocês em trânsito? Olhando quem passa, acontece-me amiúde recordar outras mulheres, nomeadamente a(s) da minha própria vida, como se usa dizer; lembrar e sentir saudades. Talvez por isso não goste de partir sozinho; se bem que algumas vezes saia alimentado pela vontade de voltar a ganhar o espaço que me falta, e o desejo e entusiasmo que esmoreceram. Alguém terá escrito que são insondáveis os desígnios do homem. Nestes particulares momentos, só posso expressar o meu total acordo, se bem que noutras ocasiões me pareçam bastante mais sondáveis: concretamente, quando há mulheres interessantes por perto.”


J. C.

(reprodução parcial de texto do autor identificado, publicado no jornal Notícias do Minho, em 96/10/18, em coluna regular intitulada “Crónicas de Maldizer”)

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Querer e não ter

Eu não tenho que querer seja o for,
a não ser aquilo que resultar do meu esforço
e querer,
nem tu, nem ninguém!
Pois tudo querermos,
desde a nossa felicidade
ao sofrimento dos outros,
torna-nos mesquinhos e infelizes.

Somos maus ou julgamo-nos bons.
Num e noutro casos,
só é certa uma frustração sem termo.

José Pedro Cadima

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Minha Querida Helena

Vagueio pela minha memória, revejo imagens e sensações arquivadas e não compreendo: não entendo como foi possível desaguarmos neste mar de ninguém; escapa-me o sentido de um abandono à beira da praia. Acredito que haja uma explicação. Sou consciente que nadar em mar revolto é desgastante e que muitos não lhe resistem. Mas soçobrar à vista da praia?! Não o compreendo, mas o certo é que aconteceu.
Neste entretanto, questiono-me: e se por acaso, por mero acaso, um destes dias eu me cruzar numa qualquer rua com a minha Helena de Tróia, como vou eu ser capaz de conter as emoções, especialmente aquelas que não sei antecipar hoje? Serei porventura capaz de aguentar firme mesmo sabendo Tróia condenada e com ela tantos sonhos que alimentei. E como será Tróia sem a minha Helena, acaso a fortaleza possa algum dia ser reconstruída? Para já, recuso-me a admitir que Tróia possa existir sem a minha Helena. Se num hipotético futuro poderá ser diferente, não sei dizer. Permito-me duvidar, no entanto.
As Helenas são uma dimensão vital de mim. Sem elas, caminho sem destino. O tamanho do amor que dediquei a cada uma que o destino, o vento ou qualquer força que não sei entender colocou no meu trajecto só é comparável ao vazio imenso que a sua perda me traz. E uma após outra desaparecem como emergiram: subitamente, levadas pelo vento, pelo destino ou por qualquer força obscura de que só sei que mas rouba para deixar no seu lugar um imenso vazio. Como eu as amei!
Numa certa acepção, descansa-me sentir o aproximar do fim do trajecto. Pelo menos sei que não haverá mais Helena alguma a dar-me num dia o que me vai tirar no dia seguinte, deixando ao meu redor e, sobretudo, dentro de mim um enorme vazio. Nessa medida, sinto maior tranquilidade que a que experimentei em situações transatas, mesmo sendo tão grande quanto qualquer outro que já experimentei este vazio que deixaste em mim.

Braga, 3 de Setembro de 2004

José Cadima

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Obviamente que sofri

Quando olho para ti,
lembro-me do que senti
da primeira vez que nos cruzámos,
lembro-me da intensidade dos nossos olhares.

Lembro-me, depois, do sentimento de perda
quando partiste,
sem horizonte de retorno.
Sofri, obviamente que sofri
mas estava longe de imaginar
o sofrimento que nos trouxe o reecontro.

Lembro-me de tudo
e, pese isso embora, anseio o teu retorno
de modo cada vez mais intenso.
Sofri, obviamente que sofri
mas mais penoso é passar sem ti.

José Cadima

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Dá-me algo!

Dá-me algo que amar.
Dá-me o teu corpo
e, com ele, a tua alma.
Dá-me algo que vá ao encontro
da minha ânsia profunda,
algo que possamos partilhar.
Dá-me algo!

José Pedro Cadima

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Minha Querida Helena

Temerosamente, digitei o teu número. Respondeste-me questionando porque não te tinha ligado antes. O meu coração estremeceu de alegria, embora, crendo não te ter ouvido bem, a tenha silenciado. Fiquei na expectativa doutros sinais. Perguntaste-me porque não toquei à tua companhia, quando, deambulando, acabei por me achar ontem em Viseu, visitando a feira do livro. Acreditei então ter-te entendido bem.
Disseste-me, também, que tinhas estado a arrumar os teus papéis e a casa. Pretendi ver nisso um sinal de retorno à vida, um indício de que posso ter esperança de ver novamente balouçar-te nos lábios um sorriso. Desejaria antes uma gargalhada mas um sorriso é sempre um sorriso ... meu amor.
Envolvido nos meus pensamentos, de coração aliviado, interrogo-me sobre se o que percebi em ti será um momento de acalmia ou o emergir de um novo ciclo. Desejaria que as nuvens tivessem descarregado tudo quanto houvessem que largar e o azul do céu se afirmasse com todo o brilho próprio desta Europa do sul. Assiste-me a esperança de que retomes a rua, os livros, os teus poemas, a força que ousavas pôr nas tuas atitudes e convicções. Se, nesse frémito de vida, quiseres buscar repouso nos meus braços tanto melhor para mim mas importante, importante mesmo é ter-te de regresso à luta.
Li no jornal de hoje as desventuras de um país à espera de ter Governo e as acrimónias dos que, na sua segurança, não perdoam a insegurança do Presidente da República e, mais do que a insegurança, a generosidade posta por ele na sua decisão de entregar a formação do governo a um macaqueador da política. Não tenho a este propósito a segurança dos que aqui invoco e, tenho, por contrapartida, grande consideração pelos que conseguem pôr bondade onde a maioria põe interesses, hipocrisia, mesquinhez. Vou ficar a aguardar. Vou esperar pelo que dá este macaquear da política americana no melhor estilo reaganiano. A necessidade de eleições parece-me também a mim certa, mas lá para a primavera do próximo ano. Até lá, vou ficar na expectativa (desejara que fora a expectativa de termos um governo e um projecto económico para Portugal mas, por esses, vamos ter que aguardar muito mais).
Li o jornal embora o meu pensamento estivesse centrado em ti, nesta esperança de um sorriso teu, meu amor.

Braga, 11 de Julho de 2004


José Cadima

terça-feira, janeiro 29, 2008

“Farpas que doem”

“Como vem sendo habitual, reuni clandestinamente, há dias, com o director do jornal para avaliar os estragos produzidos pelas últimas crónicas saídas a público. Os cerca de trezentos convivas que nos rodeavam na altura forneceram-nos o enquadramento para que o encontro decorresse com a indispensável discrição.
Tomei então conhecimento, para meu espanto, que a análise recente que produziu maior impacto terá sido uma que se reportava ao percurso de um certo professor universitário, não nomeado, relativamente ao qual exprimia o meu temor de ver atingido pelo «raio da política».
A razão de ser do meu espanto é proporcional ao número de docentes da U.M. (vulgo, Universidade do Minho) que se sentiram incomodados pelo teor do artigo, que tinha destinatário singular, e tão mal disfarçado que até o director do jornal o identificou de uma penada.
É razão para ficarmos preocupados, eu e os leitores: então não é que já não sobra espaço a ninguém para ser ele próprio, seguir o seu destino individual, único! Parece até que nos movemos na selva que são os negócios, em que cada um só se interessa pelas boas ideias dos outros para lhas roubar à primeira distracção.
E há quem se espante que o povo exclame amiúde: «Valha-nos Deus e o Senhor dos Aflitos!». Então se, como digo, até entre as elites ilustradas grassa a cobiça do alheio…!?
Depois da informação que me chegou, temo até por esta minha singela coluna: assiste-me o receio que algum dia apareça qualquer candidato a analista disposto a pagar mais que eu e ficar-me com o magro espaço de jornal que o ilustre director me dispensa. Agora começo a entender bem melhor o sentido da preocupação que vi expressa há uns tempos de, num futuro próximo, só virmos a poder cruzar a rua com as costas voltadas para as paredes.”


J. C.

(reprodução integral de texto do autor identificado, publicado no jornal Notícias do Minho, em 95/08/26, em coluna regular intitulada “Crónicas de Maldizer”)

domingo, janeiro 27, 2008

Porque me sinto assim?

Porquê esta angústia
que não me abandona?
Porque me sinto assim,
inseguro, perdido?
Seguramente, por causa do amor.
Mas não serei eu cobarde
por culpar o amor?
Culpar o amor já todo o poeta culpou.
Não devo, antes, culpar-me a mim
por esperar do amor
algo que ele não pode dar-me?
Aconchego. Serenidade.
Porque me sinto assim?

José Pedro Cadima

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Estranho

Algo feliz para variar?
Nem pensar!
É... Não é... Não foi… Foi…
Nunca aconteceu…
Não sei o que hei-de pensar.
Festejar? Lamentar?
Só sei que te quero.
Só estou seguro de quanto sinto a tua falta.

É estranho
o que acontece entre nós.
Estranho, mas... Muito estranho.
Viva o estranho e o absurdo,
pois são eles que me trazem alguma felicidade,
de quando em quando.

José Pedro Cadima

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Proibi-me de te amar

Sei que não devo alimentar a esperança
de alcançar o teu amor,
mas queres proibir-me de sonhar?
Sei que o teu pensamento
tem vagueado por outras paragens,
mas queres também proibir-me de desejar
que os teus olhos se cruzem com os meus?
Não podes!
Eu próprio me proibi de te amar
e nada consegui.

José Pedro Cadima

domingo, janeiro 20, 2008

Chora no meu ombro

Chora! Chora no meu ombro.
Chora no meu ombro, por favor!
Sou incapaz de ver-te chorar
sem nada fazer.
Sou incapaz de ignorar teu choro.
Diz-me o que te vai na alma!
Diz-me como posso acabar com teu choro.
Toma o meu ombro para teu amparo
ou recolhe-te nos meus braços!
Chora! Chora se isso te permitir afugentar
teus fantasmas.
Chora! Chora, meu amor,
mas deixa-me chorar contigo.

José Pedro Cadima

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Minha Querida Helena

Venho agora mesmo de te ligar. Tinha uma razoável expectativa de poder estar contigo esta tarde e matar saudades de um beijo mais demorado. Tinhas-me dito ontem para te telefonar pelo fim da manhã. Foi essa circunstância que alimentou a esperança de que te falo. Infelizmente, tinhas-te esquecido do telefonema e, presumo, da oportunidade de, num horizonte de 10 dias a contar de hoje, trocarmos um abraço apertado e, porventura, um beijo mais demorado...

Foi pena, meu amor. Foi pena porque esse beijo faz-me uma falta imensa: aquece-me o corpo e dá-me energia para os dias que se sucedem ... até ao próximo beijo. Privado desse beijo, desfalecem-me a alma e o corpo, e o frio toma conta dele. Ficar sem ti significa ficar sem defesas.

Perdido, acantono-me no meu estúdio, fecho-me na minha concha tendo por companhia a música que me chega do rádio ou do CD que roda, os ruídos abafados provenientes da rua ou dos apartamentos vizinhos, o computador com que desabafo ... e uma imensa saudade de ti.

Nesta familiaridade com o meu computador – que herdei do meu filho mais velho por já lhe ser inútil de desactualizado nas funcionalidades e memória – nem parece termos travado contacto há tão pouco tempo: num quadro de absoluta urgência, comecei por digitar umas mensagens de correio electrónico há cerca de 23 meses. Não é que fossemos de todo desconhecidos até então: cruzámo-nos amiúde antes, desde há quase vinte anos, mas as circunstâncias não nos tinham ditado uma relação táctil até esse momento que refiro. A verdade é que não foi necessário muito tempo para que nos identificássemos como se nos houvéssemos conhecido desde o berço, tal como tu e eu, minha querida. Assim, quando me faltas, o computador converteu-se no meu único confidente, para o qual não guardo segredos.

Nesta intimidade, tenho apenas atravessado o desconforto de saber que o meu computador não me confia os seus segredos de modo idêntico ao que eu faço com ele. Isso tem já sido motivo de desencontro entre nós mas, em razão do meu nível de carência e/ou, talvez, em expressão da benevolência que me é própria, sempre temos sido capazes de superar os desentendimentos de ocasião; diria mesmo, Helena querida, que com maior facilidade com que, algumas vezes, temos superado os nossos.

Braga, 14 de Novembro de 2004


José Cadima

terça-feira, janeiro 15, 2008

Quando vejo a chuva cair

Vejo a chuva cair
e interrogo-me se, com ela,
não vão as minhas próprias lágrimas,
lágrimas de desconsolo e de desencanto.
Olho a chuva, lá fora,
e vejo as minhas próprias lágrimas,
que já foram de amor e, agora, são só de dor.
Olho a chuva lá fora, que cai grossa,
e vejo o meu mundo desfazer-se,
agora que sinto que o amor não alcanço.

José Pedro Cadima

domingo, janeiro 13, 2008

Minha Querida Helena

É irónico, não é, como um amor tão intenso e tão sofrido desagua assim, de repente, num vazio absoluto? Nem uma palavra, nem uma letra, nem um aceno. Confrontado com tamanho vazio, questiono-me: mas esse amor existiu? O objecto desse amor foi um ser de carne e osso, com sentimentos? Ou tudo não passou de um sonho? Ou, se não um sonho (para ficar a par da pós-modernidade), uma elaboração mental de um espírito já incapaz de diferenciar o real do virtual.
Não queres tu, num gesto piedoso (se disso és capaz), trazer-me a luz em relação a esta dúvida que ameaça instalar-se definitivamente na minha mente?
Repara: lendo Camões ou Bocage (naquilo que deles me recordo) retirava-se a ilação que na génese de cada verso estavam grandes paixões, fossem elas a pátria ou sereias encantadas, também chamadas musas. Mas eu, na minha ingenuidade de então, atrevia-me a pôr sempre uma Helena de carne e osso, a transpirar sensualidade, no corpo de cada uma dessas musas. Vejo agora quão ingénuo era: eram mesmo sereias encantadas que, transportadas para os dias de hoje, não passariam de seres virtuais; perfeitas, sim, mas desprovidas de sentidos e, logo, de sentimentos e de qualquer arremedo de sensualidade.
Pobres deles. Pobres de tantos depois deles que julgaram descobrir sereias encantadas em “simples” criações digitais. Pobre de mim que, seguindo-lhes os passos -, a distancia considerável - sorvendo-lhes os versos, me deixei ludibriar pelas lucubrações de uma mente carente de afecto, desgastada pela luta da sobrevivência quotidiana, tal qual a deles, porventura.
Daqui, podes tu, criatura real ou virtual, inferir sobre o nível de debilidade em que estou. Se real, um aceno teu, uma letra, uma palavra poderá ainda ajudar a devolver-me ao mundo dos que são capazes de destrinçar o que é verdadeiro do que não passa de imaginário. Se não o és, não me assiste qualquer esperança: parecendo-o embora, já não sou deste mundo; não tendo talvez alcançado ainda o outro. Estarei no caminho.
Ao que chegámos, minha deusa!

Braga, 20 de Agosto de 2004


José Cadima

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Dor de amor

Alguém escreveu que “é preciso ter calma”
para que não se perca corpo e alma.
Eu digo, também, que tem que se ir com calma,
pois apenas para o nada
eu me sinto ajustado.
Para tudo o mais sinto-me um menino de colo
que ensaia os primeiros passos.

Amor. Raiva. Frustração.
São tudo sentimentos tremendos,
para os quais me sinto impreparado.
E não há como fugir-lhes
pois até o amor
não parece existir sem dor.

José Pedro Cadima

terça-feira, janeiro 08, 2008

O parque

Lembraste do parque?
Aquele com vista para o Tejo?
Nós os dois, sentados num banco,
trocando olhares e tímidos beijos de amor.
Em momentos como esse,
tudo parece estar ao nosso alcance.
E porque não, dados os nossos verdes anos?
Só quero reviver esse doce instante!

José Pedro Cadima

domingo, janeiro 06, 2008

Parabéns!

Parabéns,
nesta data deprimida,
nesta hora esquecida,
neste dia desgraçado.
Parabéns para ti,
tão presente na minha memória,
tão ausente do meu convívio.
Parabéns pela capacidade que mostras
de fazer com que me afogue em lágrimas,
que só não são cristalinas
porque a choro repetido até a fonte secou.
Parabéns!

José Pedro Cadima

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Dizer-te tudo o que sinto...

Aproveito esta caneta,
este computador, digo,
para te transmitir
tudo o que sinto.

Amo-te!
Isto dizendo, fica tudo dito,
porque o amor é, ao mesmo tempo,
um complexo de emoções
e o supremo dos sentimentos.

José Pedro Cadima

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Minha Querida Helena

É 1 de Janeiro de 2008. Sentado em frente ao computador, de pernas embrulhadas num pequeno cobertor, tento não enregelar de corpo e alma. Penso em ti. Penso em ti e na falta que me fizeste na noite passada e, antes dela, em todas as noites em que me faltaste. Se não sou capaz de viver contigo, mais penoso me é viver sem ti.
Não fazendo sentido alimentar esperança distinta da que me trouxe até aqui, por força do simbolismo gerado em torno da data, interrogo-me sobre a possibilidade deste ano novo nos trazer a diferença, isto é, me devolver a esperança. Interrogação tão insensata quanto insensata é a ideia de que é o curso das estações que nos renova ou empalidece a vida e não o ânimo que pomos nos nossos gestos e quereres, num trilho que todos os dias nos aproxima da morte. Interrogação tão insensata quanto insensata é a nossa busca de reencontro. Como se fosse possível que o nosso destino nos traga algo diferente da realidade desta inviabilidade paradoxal de não poder viver contigo e não ser capaz de viver sem ti.
É 1 de Janeiro de 2008 e a tua imagem não me abandona a mente. Talvez seja por o cobertor que me embrulha as pernas ter sido oferta tua, em data que creio já longínqua. Talvez seja por força do simbolismo da data, que se usa dizer ser de renovação de esperança, ou porque a tua lembrança me aquece a alma, trazendo-me à memória o conforto que me dá apertar-te nos meus braços em dias gélidos como o de hoje, e nos outros todos. Porque me falta hoje o teu calor? Porque foste para tão longe que os meus braços não te alcançam mais, agora que só o calor da tua presença poderia sossegar-me o pensamento e dar alento à ficção deste ser um ano novo.
Minha querida Helena, Helena do meu sonho: diz-me que este é um ano novo; promete-me que o frio que me tolhe será passageiro porque passageira é a tua ausência e tu logo virás enlear o teu corpo no meu; diz-me que o meu sono sobressaltado da última noite não tornará porque a segurança da tua presença afastará os fantasmas que me assaltam a mente à noite; diz-me que posso sonhar. Mente-me, minha querida!

Braga, 1 de Janeiro de 2008

José Cadima

segunda-feira, dezembro 31, 2007

“Adeus tristeza. Viva 1997!”

“É habitual nesta ocasião proceder-se ao balanço do ano findo. Não querendo ir contra a tradição, também eu me proponho, nesta edição, proceder à eleição dos mais e dos menos de 1996, quer dizer, dos acontecimentos e dos personagens que mais cativaram a minha atenção, se bem que nem sempre pelas melhores razões.
A listagem é comprida, pelo que a economia de esforço e a gestão criteriosa de espaço no jornal obrigam-me a ser parco na justificação dos destaques.
Seguindo o velho princípio, cultivado no cinema e nas telenovelas, de reservar para o último episódio as boas novas, isto é, o casamento do herói com a princesa e a reconciliação das famílias desavindas, começarei pela nomeação dos destaques de sinal menos. A esse título retenho:
i) a prestação medíocre do Partido Socialista e do Eng.º Guterres no seu primeiro ano de governo; em razão disso, temo o pior pelo que se reporta ao segundo;
ii) a postura do eleitorado que votou Guterres que, colocado perante a evidência de um governo sem arte nem saber, se recusa a admitir que só as moscas mudaram (pelo menos, a atentar nas sondagens eleitorais);
iii) o comportamento desbocado e deslocado do Dr. Mário Soares, permanentemente disponível para falar do que não sabe e fazer corpo com amigos da onça, chame-se ela como se chamar;
iv) o despudor do Prof. Cavaco Silva que, de cima do seu altar de pretensão, descorre sobre a regionalização e sobre o mundo com o mesmo à-vontade com que no passado afirmou que nunca se enganava. Assemelha-se nisso muito ao seu conviva dos velhos tempos de governo, o Dr. Mário Soares;
v) a desventura de Diana de Inglaterra, que não vai descalça mas nem por isso vai mais segura (pelo que se afigura, o tempo não vai de feição para príncipes e princesas, daí talvez a afirmação de que a tradição já não é o que era);
vi) a prestação miserável do PSD de Braga, ao falhar mais uma vez a oportunidade de concorrer à Câmara Municipal de Braga; depois vão admirar-se que alguém diga que mantêm um pacto secreto com o Engº Mesquita Machado para a perpetuação deste no poder;
vii) a desvergonha de um PIDDAC para 1997 que esconde o eleitoralismo rasteiro sob o manto diáfano da ausência de estratégia para o país (contra a força da ideia de que «mama quem berra», que vi proposta num jornal de Leiria, o que marca presença mesmo é a bajulação miudinha dos votos dos eleitores de Lisboa e Porto);
viii) a navegação à vista do Presidente da Câmara Municipal de Braga, bem evidenciada no caos em que se transformou o trânsito citadino e na procura de resolução sobre pressão dos acontecimentos e da peleja que se aproxima; obviamente que o Eng.º Mesquita Machado sempre poderá queixar-se da falta de civismo dos habitantes da urbe, mas estou em crer que os demais portugueses não serão menos bárbaros que os bracarenses;
ix) a infelicidade da Rute, que se deixou levar pela cantiga do bandido e se vê agora obrigada a vender por boa a paixão de António Guterres pela educação.
Os destaques mais, como seria de prever, são bem menos. Não fora assim e as novas seitas e religiões teriam muito menos cultores; presumo que o mesmo sucederia com as mais antigas. Seja como for, assinale-se a esse título:
i) o razoável comportamento do ano económico, pese embora o governo socialista tudo tenha feito para que a dinâmica económica não fosse além da prestação do próprio governo; fica-se na dúvida, nas presentes circunstâncias, se não seria mais benéfico para a evolução do PIB a ausência de gestão administrativa pública;
ii) o descrédito em que caíram alguns dos «senhores do Norte»: Fernando Gomes, Narciso Miranda, Ludgero Marques; tal qual como acontece com as senhoras quando se baixam, também neste caso tudo ficou mais à vista quando, para se fazerem ouvir, tiveram que passar a usar os bicos dos pés;
iii) o alvorecer de um novo ano, que sempre permite recriar a ideia, ingénua, que neste ano tudo vai ser diferente; quer dizer, desta vez é que é para valer: adeus tristeza!”

J. C.

(reprodução integral de texto do autor identificado, publicado no jornal Notícias do Minho, em 97/01/10, em coluna regular intitulada “Crónicas de Maldizer”)

domingo, dezembro 30, 2007

Mortos …

“Eu morro;
tu morres;
ele morre.”
Assim se esgota a vida
e, mesmo vivos,
de certa forma não estamos senão mortos:
amiúde, mortos de raiva;
algumas vezes, mortos de vontade;
aqui e ali, mortos de tédio;
muitas vezes, mortos de desejo
ou, desesperadamente, carentes de afecto;
ocasionalmente, mortos de paixão.
Assim se vive a vida!

José Pedro Cadima

quinta-feira, dezembro 27, 2007

No fundo

É usual dizer-se que, no fundo,
esta ou aquela pessoa ainda gosta de nós.
Mas, no fundo,
no caso do poço, está a água
e, no vulcão, está a lava.
Para mim, tanto faz morrer afogado
ou por lava queimado.

José Pedro Cadima

terça-feira, dezembro 25, 2007

“Este Minho é uma festa”

“1. Só quem alguma vez viveu no Minho pode entender quanto a gente se diverte: são as festas; são as romarias; são as excursões ao S. Bentinho e ao Corte Inglês, em Vigo; são, enfim, as declarações dos nossos políticos a respeito da construção da ponte do Prado, anunciada para ocorrer a curto-prazo. É o sentido da festa, da romaria que aí pulula e que encontra maneira de se exprimir em gestos tão simples como a promessa de disponibilização de 100.000 contos do PIDDAC do próximo ano para a construção da dita ponte, solenemente veiculada pelo Dr. Martinho Gonçalves.
2. Este espírito que refiro é tão intrínseco é tão contagioso que atinge mesmo os estudantes de passagem pela Universidade do Minho, oriundos das mais distintas parcelas do território nacional. É vê-los, daí, na semana de recepção ao caloiro ou por ocasião do enterro da gata – e, tirando estas datas, todo o restante ano – a trautear os últimos êxitos do Quim Barreiros ou a canção do bandido, em versão livre.
Deste estilo musical, retenho como expressão suprema uma canção que usa no refrão uma frase que reclama a melhoria da qualidade do ensino ministrado, e uma outra, entoada ao jeito de palavra de ordem, que exige o alargamento da época de exames a um total de três meses.
Desta forma, deduz-se, do semestre lectivo ficaria ainda uma semana, período mais que suficiente para a apresentação das matérias que é importante que os estudantes aprendam.
3. Como nota dissonante deste culto oferece-se o esfriamento que atravessa a «noite bracarense» que, como é bem conhecido, chegou a ser a mais badalada do país. Ficaram, deste modo, os estudantes com um problema mais a tolher-lhes as vidas (o preenchimento das noites), já que, por obstinação do reitor da U.M., não são viabilizadas actividades nocturnas nos complexos pedagógicos existentes. Reduz-se assim, consideravelmente, a possibilidade de multiplicar as chamadas dos exames de fim de época e, portanto, o sucesso escolar.
4. Posto que, mesmo sem querer, acabei por desembocar na questão da política educativa, deixem que exprima o meu apreço pelo Secretário de Estado do Ensino Superior, visto que será o único ser na terra capaz de viver uma paixão a frio, conforme exprimiu recentemente a propósito da sua (e do governo, no seu conjunto) paixão pela educação. Num tempo em que a inovação tem importância tão estratégica, nunca é demais sublinhar esta singularidade. Será caso para dizer, doravante, que as grandes paixões servem-se frias.”

J. C.

(reprodução integral de crónica do autor identificado, publicada no jornal Notícias do Minho, em 96/12/20, em coluna regular intitulada “Crónicas de Maldizer”)

domingo, dezembro 23, 2007

Sou aquilo que sou

“Não sou um anjo,
nem sou um querido”,
descontadas as vezes em que, de mão dada,
vagueamos, sem tempo contado,
entre nuvens de algodão.
Sou apenas aquilo que sou.
Sou a verdade,
a tristeza, a dor que sinto.
Sou a esperança que teima
em não desistir,
morrendo de saudade do tempo
em que o sonho ainda era possível.
Sou aquilo que sou.

José Cadima

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Mais um grito

É noite e está frio.
Sinto mais um arrepio.
Faltam-me palavras para expressar
sentimentos que alguém ousou roubar.

De olhos quase vidrados,
através da janela aberta, olho para fora,
prescrutando no horizonte algum sinal ou estrela
que me indique não ser vão o esforço que faço
para preservar a minha alma,
que ameaça ir-se embora.

Sinto medo.
Não encontro mais consistência nas palavras.
Seguro, seguro
é que perco proximidade a um qualquer conto de fadas.
A certo passo, solto um grito,
tentando fazer sair tudo de mim:
o frio, o medo e, até, pozinhos de perlim-pim-pim.

José Pedro Cadima

terça-feira, dezembro 18, 2007

Poemas

Queria escrever algo
de corpo e alma,
que ganhasse asas,
que pudesse voar.
Queria escrever algo
que me transportasse para lá do efémero,
mas fui apenas capaz de alimentar pensamentos
que me lembram abandono
e trazem tormento.

José Pedro Cadima

domingo, dezembro 16, 2007

Respirar a teu lado

Desde que te conheço,
tenho outro sorriso,
outro sofrimento,
outra tristeza,
outra dor.
O desespero é maior,
mas também o é a esperança
e a luz que ilumina os meus passos.
Até a minha forma de respirar é diferente.

José Pedro Cadima

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Destróis tudo

Destróis tudo, até mesmo aqueles laços
que, tecidos numa ternura imensa,
pareciam estar a salvo de todas as tempestades.
Embora, dizendo que não me queres atormentar,
na afirmação que prossegues da tua autonomia
vais cavando entre nós um fosso
que a cada momento se me sugere mais largo,
mais dificil de transpor.
Afirmo-to, abertamente:
a tua obstinação ameaça destruir tudo!
Pareces não perceber o que sinto,
a não ser nos momentos em que fica mais cruelmente exposto
o meu enorme sofrimento.
Esses são, entretanto, os instantes
em que o reencontro fica mais distante.

José Pedro Cadima

terça-feira, dezembro 11, 2007

O meu amor por ti

Se o meu amor por ti
fosse o responsável pelo girar dos planetas,
um ano duraria menos que um segundo.

Se o meu amor por ti
fosse a energia que alimenta as estrelas,
seria sempre dia.

Se o meu amor por ti
fossem apenas palavras,
este poema não teria fim.

José Pedro Cadima

sábado, dezembro 08, 2007

Sonhos

"Ainda me lembro dos tempos
em que tudo isto não passava de sonhos...".
Ainda me lembro...
Ainda me lembro dos tempos
em que era capaz de sonhar.

José Cadima

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Silêncio

O silêncio que se faz em meu redor
contrasta com a agitação que me vai na cabeça.
É sempre assim quando algo me inquieta,
sendo bem certo que não tenho já memória
de quando o sossego, por inteiro, me assistiu pela última vez.
Que foi há muito tempo, isso dou-o por certo.
Na minha inquietude, umas vezes desabafo no papel,
outras permaneço quieto até ao limite da imobilidade possível.
Só os pensamentos em turbilhão me não deixam quietar
e, quando a resistência cede,
resta-me explodir em palavras
ou fluir pela rua, tentando correr mais que os meus pensamentos.
Quem me dera o silêncio autêntico!
Quem me dera não ter que fugir
dos pensamentos que me assaltam!

José Cadima

terça-feira, dezembro 04, 2007

As minhas luvas pretas

Uso luvas para não sentir,
para não te sentir:
à tua pele,
ao teu cabelo,
ao teu amor fugidio.
Essas luvas são pretas
para te mostrar que estou de luto,
que o meu coração está de luto.

José Pedro Cadima

sábado, dezembro 01, 2007

“O calor humano: estudo de caso”

“Não restam dúvidas que o frio transforma os seres humanos; transforma-os, transtorna-os tanto que não há coisa que mais anseiem que o calor: o calor humano, está bom de ver.
Radica a ideia que aqui avanço na observação sistemática que venho prosseguindo do comportamento do cidadão europeu mais a norte, isto é, de latitudes onde o sol é mais avaro. E, se bem que este não seja campo de investigação para que me reconheça particularmente preparado, procuro compensar a falta de domínio dos instrumentos de pesquisa com empenhamento redobrado na contemplação do objecto.
O despontar do meu interesse por este prometedor campo de trabalho remonta a data já algo remota, quando as parabólicas instaladas no Picoto permitiam ao comum habitante desta augusta cidade aceder às imagens da RTL. Chamou-me na ocasião a atenção, particularmente, um programa designado, sem grande fundamento, «a fruta toda» (em tradução livre para português). Impropriamente, digo, porque embora trouxesse para a luz das câmaras muita fruta, não mostrava a fruta toda, como a designação sugeria.
A fruta toda, propriamente dita, estava à vista em filme que vi bastante mais tarde no «Canal +», por ocasião de uma digressão por terras francesas. Os mesmos valores, as mesmas referências voltei a ver há dias, quando o acaso me fez pernoitar na cidade alemã de Frankfurt. Na circunstância, não era qualquer canal de difusão pública de TV por cabo que procedia à distribuição das imagens mas o circuito vídeo do hotel (de luxo, por sinal); aliás, oferecendo séries alternativas.
Posta a formação conservadora que me foi veiculada, admito ter sentido algum embaraço face às expressões de calor que transpiravam das imagens a que me reporto. Não fora o interesse científico da observação, por certo teria desligado o aparelho. Prevaleceu, entretanto, a motivação científica, e é em razão disso que vos posso chegar agora algumas conclusões preliminares deste estudo de caso.
A primeira dessas conclusões, e porventura a mais portadora, é exactamente aquela que anotei na introdução deste «paper». Outras há, no entanto, de que vale a pena dar conta, concretamente: i) a curiosa circunstância de estas efervescências tenderem a manifestar-se no términos da semana; ii) o carácter democrático, participativo destas trocas de calor; e, finalmente, iii) a aparente ausência de barreiras étnicas, que cumpre saudar, especialmente sabidos os tempos de intolerância que correm.
Embora devendo ser tidas a título preliminar, estas conclusões parecem-me ser portadoras para justificar que me possa considerar plenamente compensado pelo esforço dispendido na investigação e daí, que não tenha dúvidas em assumir, desde já, o compromisso de dar continuidade à pesquisa. Sendo, no entanto, vasto o objecto de análise, bom seria que outras vontades se mobilizassem por forma a este estimulante campo de investigação vir a recolher a atenção que merece.

J. C.

(reprodução integral de texto do autor identificado, publicado no jornal Notícias do Minho, em 95/07/29, em coluna regular intitulada “Crónicas de Maldizer”)

quinta-feira, novembro 29, 2007

Meu peixe…

As aventuras são um mal.
Só as tem quem não as quer!
As imagens do meu último momento heróico
estão já estilhaçadas:
subi montanhas, saltei vales,
nadei com piranhas e outros males.
Um peixe quase me comeu!
Era grande, era forte
a minha vontade de te amar;
até os ossos me roeu.

José Pedro Cadima

terça-feira, novembro 27, 2007

O meu coração está na tua mão

O meu coração está na tua mão.
Da esquerda para a direita,
da direita para esquerda,
olha como ele balança.
Não o deixes cair,
senão esgotar-se-á o meu sorriso.

José Pedro Cadima

sábado, novembro 24, 2007

Sinto-me assim

Só.
Triste.
Descrente
de ser amado.
Sinto-me assim.

Onde estão os braços
em que disseste que me poderia sempre recolher?
Onde está o peito
em que posso repousar minha cabeça
e sonhar que o mundo é só o aconchego que daí me vem?

José Pedro Cadima
e
José Cadima

quinta-feira, novembro 22, 2007

Minha Querida Helena

Ter-te-ás dado conta que as duas mais recentes cartas que te dirigi iam com as datas gralhadas: em vez do que aparece, deveria estar 17 e 18 de Agosto, respectivamente. Vais ter que me perdoar isso, que outra coisa não é que a expressão de uma mente cansada e baralhada. A gravidade da falta deverá ser compatível com o nível de tolerância que tu manténs em relação aos meus erros – assim o creio.
Na verdade, escrevi-te quase só para te transmitir isso e deixar este apelo. Não fora este pretexto, não querendo, por outro lado, repetir-me nos meus lamentos, não teria assunto para esta mensagem. Como bem sabes, não é assunto com que se mace quem quer que seja, muito menos alguém de que muito se gosta, dar notícia de um dia de trabalho cinzento após outro de idêntico tom, de um arrastar de pés dia após dia sem alegria nem esperança.
Assim sucedendo, dando corpo ao pensamento que me assiste, e também como forma de preencher esta página, ouso citar o meu filho num dos seus versos tão forte nos sentimentos que transmite quanto impressionante nos termos de que se socorre; a saber:

Demónio da minha paixão

Rio de sangue,
que transportas o meu demónio,

permite que eu aceda
ao favor de um beijo
que me faça sorrir.


Demónio de sangue,
demónio esbanjador,
faz-me um favor:
espeta-me um beijo e sorri.

Demónio de escolta,

meu segurança
dos demónios à solta,
espeta-me um beijo e sorri.

Demónio da sorte,

transportador da minha felicidade
ou morte,
espeta-me um beijo e sorri.

Demónio alimentador

da minha paixão grande e assombrosa,
espeta-me um beijo e sorri.

Demónio sugador

de toda a minha atenção;
demónio que me arrebata o coração;
espeta-me um beijo e sorri.

Demónio do amor,
rainha da beleza,
só tu fazes a minha dor.
Por assim ser,
espeta-me um beijo e sorri.

Demónio da minha vida

e da minha glória,
nem tu sabes o quanto
te quero arrancar um sorriso;
pois, meu amor,

tu és o meu demónio
e eu não sei viver sem ti.
(Cadima, José Pedro; 2004)

Sem mais palavras, quase sem palavras, despeço-me de ti, “demónio da minha vida”.

Braga, 19 de Agosto de 2004


José Cadima

terça-feira, novembro 20, 2007

Afogo-me em pensamentos

Afogo-me em pensamentos
sobre o que é e o que não é,
e não encontro a resposta.

Há tanto tempo que me interrogo
que perdi a pergunta
num monte de respostas falhadas.

José Pedro Cadima

sábado, novembro 17, 2007

A ironia

Odeio a ironia,
apesar da usar.
Odeio-a tanto, talvez, por ser das poucas armas
de que sou capaz de valer-me.
Odeio a ironia
e, em razão disso, odeio aqueles que dela se valem
para me atormentar.
Odeio a ironia tanto quanto aprecio um sorriso aberto
e a transparência que, de quando em quando,
reconheço no teu olhar.

José Pedro Cadima

quarta-feira, novembro 14, 2007

Sonho contigo

Olho-te
e, enquanto repouso meus olhos em ti,
a minha mente vagueia
pelo terreno do sonho
que seria saber seguro o teu amor.
Depois, à noite, a memória desses pensamentos
perturba-me o sono.

Toco-te
e, ao tocar-te, mais me cresce o desejo de abraçar-te
e a vontade de apertar-te contra mim
a ponto de parecermos um só.
Depois, à noite, falta-me a suavidade da tua pele
e, por isso, não durmo.

Beijo-te,
esparsamente, mas beijo-te.
Por serem tão esparsos os beijos que trocamos,
passo o tempo todo à procura de mais um beijo
e a ansiedade que daí me vem
faz-me permanecer acordado, à noite.

Sonho contigo,
e esse sonho de conquistar o teu amor
impede-me de dormir
e sonhar contigo.

José Cadima
(adptado de Cadima, José Pedro , Poesia 2005)

segunda-feira, novembro 12, 2007

Minha Querida Helena

“As horas passam,
o tempo voa,
e eu continuo aqui
sem amor,
sem ti.

Só no meu coração
te vejo,
te beijo
e te abraço.”
(Cadima, José Pedro; 2004).

Leio este versos, releio-os e pergunto-me: do que dizem, referido a um tempo que é passado mas ainda presente, o que sobrou para o dia de hoje? Transfigurando-me na pessoa do autor – e tal não se me afigura nada complicado - quero eu dizer:

As horas passam,
nalgumas ocasiões mais céleres que noutras,
e eu continuo aqui
sem amor,
e sem ti.

O meu coração
ainda te pressente,
os teus beijos são doces recordações
e a lembrança do teu xicoração sugere-se-me uma expressão de afecto
que resistirá a todas as desventuras deste romance.

Entretanto, começo a descrer
da força que parecia alimentar esse amor.
E descreio mais ainda
que os beijos que me davas
tivessem génese inteira no teu coração
porque, se assim fora, não te teria sido possível ignorar
durante todas estas semanas o meu lancinante grito de dor.

Duvido, bem assim, que o nosso xicoração tivesse o mesmo significado de entrega para ti que para mim porque, se assim fosse, ter-me-ias estendido o braço quando pressentiste que começava a afogar-me em desespero e em solidão. Não o fizeste e nada disso pode ser lido como expressão de acaso. Não o quiseste fazer. É tudo!
Repara: poderia ter-me afogado do mesmo modo. Mas terias tentado; terias dado sinal de humanidade e terias afirmado uma memória de afectividade, de entrega que estaria para além dos desencontros de percursos cruzados que não foram capazes de fazer do lugar do encontro o lugar de uma vida plenamente preenchida.
Posso estar a ser injusto contigo como, noutras alturas, tu terás sido injusta comigo. A verdade, porém, é que, nesta altura, descreio que tudo não tivesse passado de uma desatenção ou deficiência de percepção da tua parte do apelo de socorro que te dirigi repetidamente. Face à gritante evidência dos dados que estão à vista, manda a razoabilidade que conclua que, simplesmente, me ignoraste.
Minha querida Helena: a minha ferida é profunda; talvez não tão profunda, todavia, quanto o meu desapontamento.
Um beijo para ti ou, talvez, um até sempre.

Braga, 1 de Setembro de 2004

José Cadima

sábado, novembro 10, 2007

A solidão como meio de encontro

A solidão também pode ser um estado de alma.
A solidão também pode ser boa,
uma oportunidade de reencontro,
um momento de purificação da alma.

Momentos há em que essa é solução única
para sossegar o espírito, apaziguar fantasmas,
recuperar a energia de que necessito para o dia seguinte.
Nessas alturas, a solidão é uma benesse.

A solidão também pode ser uma viagem solitária de automóvel,
percorrendo uma estrada que não me leva a outro qualquer lugar
que não seja ao retorno a mim mesmo.

A solidão também pode ser um desfilar apressado de imagens
que são, simplesmente, cenários do percurso
que me deve reconduzir à minha essência profunda.

Só, penso em ti
e nos momentos felizes que passámos,
de que tenho saudade tão intensa que só resisto a ela
retomando um estado de solidão tão sereno
que nada mais conta senão tu e eu.

José Cadima

quarta-feira, novembro 07, 2007

Duvidar

Quando duvido não é por ter falta de evidências,
mas sim por elas estarem ali tão obviamente à minha frente.
É que, quando tudo me sorri,
não sou capaz de deixar de me questionar
sobre quanto tempo vai levar
até que me venha, de novo, a vontade de chorar.
Quando duvido …

José Pedro Cadima

domingo, novembro 04, 2007

“Vão passar anos até que eu me perdoe”

“Pois é verdade: há dias levantei-me às quatro e meia da noite! Vá lá, censurem-me o mau gosto, que bem mereço.
Seria bastante mais razoável que me tivesse deitado a essa hora, salvaguardado que isso se ficasse a dever a uma noite bem passada. A vida, todavia, tem destas coisas, e não é por acaso que o prémio Nobel da Economia foi atribuído a autores de contribuições teóricas que enfatizam a racionalidade limitada dos agentes económicos; o que é paradoxal, por seu turno. Consistente seria mesmo que o ponto de partida fosse a irracionalidade com que os homens conduzem as suas vidas, incluindo a vertente económica destas. Mas não; entendeu-se partir do princípio oposto e foram precisos cerca de dois séculos desde que a Economia adquiriu estatuto científico para ver o óbvio.
É bem apropriado neste caso o dito que afirma que «o que está à vista é o mais difícil de ver». Nesta situação, nem a circunstância do gato ter o rabo de fora ajudou. Não nos desviemos entretanto do que importa.
Na ocasião, o que verdadeiramente é relevante é que me levantei a meio da noite, isto é, a horas que só deveriam ser usadas para o sono ou para outros prazeres da vida. Daí que seja bem feito que me censurem, como eu me censuro. Pensando bem no assunto, julgo que vão passar alguns anos até que eu me perdoe”

J.C.

(reprodução parcial de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 96/11/01, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)

sábado, novembro 03, 2007

Por querer-te tanto

Por querer-te tanto
É que não te quero!
E sobre as folhas de Nenúfar
Silencio o coaxar
Que chama
O teu corpo,
O teu cheiro,
As tuas mãos,
O teu olhar.
E vagueando no meu grito,
Sinto a raiva de já não te poder
Oferecer-me por inteira.

Helena, MC

sexta-feira, novembro 02, 2007

Ao Acordar

Acordei com uma dorzinha miúda. Quem ma trouxera tinha sido o frio da manhã, que me fazia cócegas nos pés. Acreditava que o dia me correria bem; acreditava que a ilusão me cobriria de flores luminescente, num dia nublado de Outono.

Vi-te ao longe, dos pés à cabeça. A utopia me dizia que a tua companhia me levaria a um lugar pelo qual doutra forma teria eu que lutar. Tua boca abriu-se. De lá saíram tantas palavras que… se desfez a utopia, se desfez a mais pequena ilusão deste dia ser diferente dos outros. Mais um dia em que teria que me controlar. Mais um dia em que teria de ser menos eu para ser mais forte. Talvez um dia pudesse sentir-me forte, mas, por agora, seria apenas mais um dia em que não seria eu.

Senti dor. Acordei com um picar na espinha. A dor era causada por um dos lados da cama onde me encostara incorrectamente. Olhei a janela e aceitei que o dia seria como o de ontem e não iria ser eu quem te amaria.

Vi-te; falaste-me; beijaste-me. Aos poucos, senti-me um pouco mais eu. Protegido pelo teu carinho, confortado pelas tuas palavras doces e serenas, fui-me encontrando. A utopia cresceu e do nada fez-se o momento mais perfeito que poderia acontecer. Fui feliz.

Acordei de barriga para o ar. Não havia dor. Não havia felicidade. Chovia.

Vi-te… Pensei que tudo isto seria antipatia. Pensei que seria um eu diferente, não forte por ter que ser forte. Não confortável, porque assim me sentia. O peito doeu-me. Sabia o que era: era tudo o que se tinha passado lá dentro, em revolta. Estava confuso.

Acordei na mais pura das dores, uma dor psicológica forte que se fazia sentir deste lado. Tive vómitos e, cá dentro, o corpo apertava-se para sobreviver. Estava assim fisicamente. Psicologicamente estava pior.

Imagina agulhas debaixo das unhas, vidros estilhaçados nas gengivas e olhos perfurados. Imagina só a dor de tudo isso. Entenderás a analogia se imaginares um corpo desencontrado da respectiva alma. Apenas, assim, fisicamente te posso transmitir a dor que sinto a cada palavra que ousas pronunciar sobre um passado teu tão recente que chega a parecer presente. Porque foi o que tu disseste que germinou cá dentro e agora cresce, agora ganha vida, alimentando-se da minha.

José Pedro Cadima