sexta-feira, julho 27, 2007

A Lua

Para onde foi a lua
que me passeou,
que me iluminou o espírito?

Terá ido, porventura, passear outro alguém,
encontrar-lhe um caminho
e, quem sabe, …
provocar também nele
saudades daquele passeio que fizemos juntos,
eu, a lua e tu.

José Pedro Cadima

quarta-feira, julho 25, 2007

Pérfido

Destituída minha alma,
ficou um vazio
que me penaliza mais a mim que aos outros.
Nenhum clarão me invade,
mas também nada me detém.
Fico um passo à frente.

Porque se dantes tudo era mentira,
agora também o é…
mas, agora, é-o
porque estou um passo à frente da verdade.

José Pedro Cadima

segunda-feira, julho 23, 2007

Outono…

As folhas têm tantas cores
e caem tão depressa…
Noutra estação,
vi-as cair mais devagar.
Talvez a gravidade
ache estas mais bonitas…

José Pedro Cadima

sexta-feira, julho 20, 2007

Também já tive catorze anos

"Prefácio
Podendo sugerir-se irónico assim dito, di-lo-ei na mesma: também já tive catorze anos; também já escrevi poemas. Se calhar, ocasionalmente, ainda os escrevo. Serão, todavia, mais amargos que os que escrevi então, cujo rasto perdi.
Sei de quem não os escreveu porque, simplesmente, nunca chegou aos catorze anos. A tristeza que me assiste hoje vai buscar muito do seu fundamento a essa história infeliz. Importa, entretanto, celebrar a vida. Essa oferece-se-me a forma mais nobre de honrar os nossos mortos, como suas memórias vivas que somos.
Como recusar então dar forma a um sonho? Como não me reconhecer no jovem que tem um projecto? O projecto de escrever poesia, de escrever um livro; muitos sonhos para o futuro (e, mesmo, já algumas desilusões - aos catorze anos).
Reflectindo sobre os termos da resposta a dar, buscando a ironia de que às vezes sou capaz, ocasionalmente ocorreu-me a trilogia popular do livro, da árvore e do filho. A permanecer próprio dos tempos que correm este conceito de realização pessoal, oferecia-se-me clara a precocidade do meu filho. Descansava-me, todavia, a pouca apetência que este vem revelando pelas práticas de jardinagem. Como dizer não a um projecto tão bonito na sua inocência, na manifestação de ousadia e de sentimento, de vida que transporta?
Não havia, de facto, forma de recusar a cumplicidade com este projecto. Isso mo disse, desde o primeiro momento, uma poetisa, de corpo inteiro, que por viver a poesia tão intensamente não é mais capaz de viver o quotidiano que a vida nos reserva, quase sempre tristonho e mesquinho; quer dizer, insensível à dor dos que sofrem em silêncio, dos que escolheram celebrar o amor em vez de tantas outras coisas que se celebram por aí nas curvas e esquinas da nossa sociedade, que não sei se classificar de pós-moderna ou “gótica”.
Sobre a obra, em concreto, direi que é um trabalho cuja leitura e revisão de textos ora se me sugeriram gratificantes ora me foram penosas. A penosidade não relevou do esforço, em si, mas dos conteúdos com que fui deparando, demasiado sofridos, denunciando uma violência de sentimentos que me surpreendeu. Sobretudo, na dimensão desesperança da mensagem. Reparem: são só catorze anos; catorze anos de uma vida a que eu fui sempre dando o amparo que fui capaz. Podia ter sido mais, consinto, mas eu, que o não tive maior, não me recordo de ter escrito mensagens de tamanha mágoa e desapontamento, nessa idade. Os tempos são outros, sem dúvida, e talvez daí venha a diferença entre duas personalidades íntimas que eu pressinto tão próximas. É bem certo que, nessa idade, eu não tinha ainda uma namorada, no sentido comum do termo, pese embora as Helenas que se foram cruzando na minha vida. Teria sido mais feliz se a tivesse, especulo eu agora. Mas as Helenas sempre me foram esquivas. E quanto eu as amei!
Também eu escrevi poemas, sabem!? Talvez ainda escreva, mas já não canto a vida como usava cantar. Exprimem a mesma carência de amor. Isso é certo!

Braga, 9 de Agosto de 2004"

José Cadima
(reprodução do Prefácio do livro "Poemas ou um grito de vida", de José Pedro Cadima; edição de autor, Braga, 2004)

segunda-feira, julho 16, 2007

Raios de sol

Abriste as janelas.
Entraram múltiplos raios de sol;
tantos quanto os homens da tua vida,
mas até estes irradiavam mais calor.

José Pedro Cadima

sábado, julho 14, 2007

Mudança de ares

De sorriso na cara,
com o meu livro na mão,
estou eufórico,
transbordo alegria.
Milhares de palavras
tenho escrito,
dando expressão do que sinto,
dando notícia de tudo
que me falta.

José Pedro Cadima

quinta-feira, julho 12, 2007

Figura feminina

Olha para ti…
Olha para a tua figura feminina!
As curvas…
A estrutura…
Ainda questionas a incontornável expressividade
do teu corpo de mulher?
Eu acho-te perfeita!

José Pedro Cadima

segunda-feira, julho 09, 2007

Segredo melancólico

Sendo eu um indivíduo melancólico, talvez agora não o seja tanto como já fui.
Fui um ser mais melancólico, capaz de chorar pelos cantos que nem um chorão, mas nunca deixei que alguém visse: escondia cada lágrima para depois a atirar à cara daqueles que, olhando-me ao longe, se questionavam sobre o que sentia.
Não lhes dei o prazer de ver uma lágrima que fosse, mas satisfaço-lhes agora a vontade de saberem se chorava em silêncio.

José Pedro Cadima

sábado, julho 07, 2007

quarta-feira, julho 04, 2007

Inspiração vinda de ti

A inspiração bate em mim
como o vento.
Levanta, até, folhas
à minha volta.
A inspiração bate em mim
e levanta folhas
com poemas de amor que eu teria escrito
se tu fosses minha.

José Pedro Cadima

segunda-feira, julho 02, 2007

domingo, julho 01, 2007

Luz…

Luz da minha paixão,
desce do céu,
vem iluminar meu coração,
sufoca-me com beijos,
enche-me de desejos.
Ah luz como és bela!
Quão reconfortante é olhar para ti.
Apetece-me abraçar-te, beijar-te,
deixar-te penetrar meu coração.
Não sei, no entanto, se não me cegarias
de ilusão.

José Pedro Cadima

quinta-feira, junho 28, 2007

Adorar e não adorar

Vi uns poucos, em acto de adoração,
a chamar de rei e senhor
a alguém em que apenas reconheci um homem comum.
Porquê esta necessidade de encontrar alguém a quem idolatrar?
Porquê esta necessidade de alguém que os guie?
Não saberão eles guiar-se a si próprios?
Sentir-se-ão fracos ou é essa postura que os torna fracos?
Eu? Nunca fui de adorações!

José Pedro Cadima

terça-feira, junho 26, 2007

O meu amor por ti

Se o meu amor por ti
fosse o responsável pelo girar dos planetas,
um ano duraria menos que um segundo.

Se o meu amor por ti
fosse aquilo que alimenta a luz das estrelas,
seria sempre dia.

Se o meu amor por ti
se exprimisse apenas por palavras,
então este poema não teria fim.

José Pedro Cadima

domingo, junho 24, 2007

O caminho do conhecimento

Conhecimento é riqueza.
Cada caminho percorrido
é algo mais que conhecemos,
que é suposto deixar-nos mais ricos.

Cada pessoa, cada opinião
dão-nos uma força diferente.
Nem sempre temos as que precisamos;
as que necessitamos, temos que procurar por elas!

Cada experiência acrescenta riqueza,
se bem que haja quem a encontre sem procurar por ela.
Eu preciso de ajuda para fazer o meu caminho.
Serás tu capaz de me ajudar a encontrá-lo?

José Pedro Cadima

sexta-feira, junho 22, 2007

A tua companhia

Sinto-me sozinho
e com falta de carinho.
Só a tua companhia
me acalmaria
e me faria sentir o carinho
que tanta falta me faz.
Por isso, anseio estar contigo;
por isso, anseio reencontrar-te
para me reencontrar.

José Pedro Cadima

quinta-feira, junho 21, 2007

Amores deste dia

A água quente está em falta.
Tenho as cuecas favoritas por lavar.
O pão da manhã estava frio
e, pior ainda, tinha chovido e estava molhado.
Morreu-me o cão!
Não me fujas tu também,
senão perco amores a mais, num dia…

José Pedro Cadima

segunda-feira, junho 18, 2007

Pensei que existisse!

Pensei que existisse.
Cheguei a ver em mim alguém.
Subitamente, percebi que não o era,
estava longe do ser;
o sentimento que de ti vinha
era mais por ele do que por mim. Não era?
Quis o demónio dar-me esta penitência
para ver quanto aguentava eu
sem renunciar à minha crença no amor.
Viverei, também eu, para lá dos cem anos?
Às vezes penso que sou inútil,
outras vezes aceito o facto…
Pensei que existisse.
Cheguei a ver em mim alguém.

José Pedro Cadima

sábado, junho 16, 2007

O amanhã de amanhã

Deito-me ainda com lágrimas.
Tento esquecer o meu dia
e procurar que o amanhã seja diferente,
seja melhor.
Mas nunca o é,
e, amanhã, irei, com lágrimas nos olhos,
pedir que o amanhã de amanhã
seja melhor do que o de hoje.

José Pedro Cadima

quinta-feira, junho 14, 2007

Os sonhos

Quando se tem muitos sonhos,
há que esperar ter muitas desilusões.
Onde eles se formam
crescem flores que as desilusões
fazem murchar.
Os rios dos sonhadores
são coloridos de vermelho:
o vermelho do sangue
de um coração ferido.

José Pedro Cadima

terça-feira, junho 12, 2007

Vejo-o em teus olhos

Em teus olhos vejo
a próxima resposta.
Nem precisas de falar;
já está tudo dito!

Vejo o que estás a sentir.
Sei-o até melhor que tu.
Vejo o que estás a pensar.
Incrível não é?

Dói-me ver a tua resposta,
e fico com medo de perguntar.
Dói-me saber em quem tu pensas;
dói-me saber que não é em mim.

José Pedro Cadima

domingo, junho 10, 2007

A minha explosão

Estoiro só mais uma vez.
Já estava farto de ter tanta coisa dentro de mim.
Destruo tudo à minha passagem,
como uma ogiva nuclear.
Caio em mim e expludo.
Uma nuvem de poeira faço
e tudo em minha volta desfaço.

José Pedro Cadima

sexta-feira, junho 08, 2007

Amor, mas não por mim

O mal-estar aproxima-se.
Apresenta-se mais forte que um vendaval.
Até as lágrimas se escondem.
Os momentos, esses, não valem nada,
pelo menos os meus.
És tu que me fazes sentir mal.
Falas de amor, mas não será por mim.
O mal-estar aproxima-se, célere.

José Pedro Cadima

quarta-feira, junho 06, 2007

Corre para mim!

Uma lágrima, duas lágrimas;
a luz, vejo a luz, ouço a tua voz
e o coração bate mais rápido.
É a felicidade a correr para mim!

Às vezes, sempre, preciso disto,
preciso sentir cá dentro algo,
algo grande e forte.
É a evidência, o sinal, de que o amor está de volta.

Penso, então, que a felicidade
volta a chamar por mim.
Aqui chegado, não dá mais para fugir.
Há que ir em frente, de coração aberto.

José Pedro Cadima

segunda-feira, junho 04, 2007

sexta-feira, junho 01, 2007

Descrença

Quem passa fome, tem fé,
fé num futuro melhor, num deus que o ajude.
Quem está à beira da morte, tem esperança,
esperança que deus lhe providencie saúde ou o céu.

Mas eu não tenho fé, não tenho fome,
nem vejo ao longe a morte;
não tenho fome mas preferia ter ou perscrutar a morte,
a ver-te nos braços de outro.

Não imaginas como, nessa altura, quis ser crente,
quis sentir fome, sentir a morte ceifar-me
e ter esperança de ir para outro lugar, para um lugar melhor.
Mas não, não me restou senão ver-te nos braços de outro.

José Pedro Cadima

quarta-feira, maio 30, 2007

Preciso de ti

Tinha eu tantos planos,
planos para toda a eternidade,
mas parece que tudo acaba amanhã.

Tenho tanto medo disso.
Tenho medo de,
quanto mais me aproxime de ti,
mais tu me faças chorar.

Preciso ouvir-te dizer que me amas.
Sei que é mentira
mas, mesmo assim, anseio as tuas palavras.

Preciso que o digas;
preciso que mo faças acreditar.
Preciso que me mintas,
como se da mais imaculada verdade se tratasse.

José Pedro Cadima

segunda-feira, maio 28, 2007

O Porto

Neste rio de água suja
dos crimes humanos,
vejo uma cidade de prédios velhos
ou de monumentos?
Neste rio, vejo uma cidade de pedra já podre
ou serão, apenas, os meus olhos a vê-la assim?
Pode dizer-se que é antiga
ou será mais uma velharia de um país velho,
que já foi grande
e agora é pequeno
e velho, como esta cidade?

José Pedro Cadima

sábado, maio 26, 2007

As quatro estações do ano

Tu és como as quatro estações:
és a minha branca
e linda neve do Inverno;
és a minha suave
e virgem flor de Primavera;
és o meu doce
e suculento fruto de Verão;
és o meu belo
e magnifico pôr-do-sol de Outono.

José Pedro Cadima

quinta-feira, maio 24, 2007

Um namoro de Abril

Foi dia dois de Abril,
porque tudo antes era mentira
ou desejava eu que fosse.

Foi dia dois de Abril,
porque eu te desejei
e tu me disseste que me desejavas mais, ainda.

Foi dia dois de Abril,
porque depois seria demasiado tarde,
que te fiz jura de amor eterno.

Foi dia dois de Abril,
porque tu assim quiseste
e eu loucamente desejei este namoro.

José Pedro Cadima

terça-feira, maio 22, 2007

O meu coração

Se me perguntarem
quem é que em mim manda,
responderei apenas “o meu coração”,
pois é ele e só ele
que escolhe quem amo.

José Pedro Cadima

domingo, maio 20, 2007

Gritei

Eu gritei, não ouviste?

Fizeste-me apenas ruído de mosca.
Quem me dera ser importante.

Pisaste-me, passaste-me por cima,
sobrepuseste o teu querer ao meu
(o meu sempre foi melhor, não duvides)
e, agora, como uma criança
imatura e com remorso,
questionas-me sobre o que quero.

Quem me dera ser importante para ti!

José Pedro Cadima

quinta-feira, maio 17, 2007

Podias ter tido a lua

A lua cheia acordou mais cedo
e a primavera correu para chegar a tempo
mas, mesmo assim, foi tarde:
quando chegou, já tu tinhas destruído tudo.

Para trás pouco ficou.
Eu gostava tanto, mas tanto de ti
que o que ficou foi um pouco de muito,
desse muito que, sendo tão pouco,
era, mesmo assim, demasiado.

Agora, tenho pouco para te dar;
agora, apenas como namorado me podes ter.
Podias ter-me tido como escravo, adepto e fanático.
Podias ter-me tido como teu adorador, dedicado e carinhoso.
Podias ter tido a lua, o sol e, até, o meu amor!

A lua cheia acordou mais cedo
e a primavera correu para chegar a tempo
mas, mesmo assim, foi tarde:
agora, tenho pouco para te dar!

José Pedro Cadima

terça-feira, maio 15, 2007

O tempo

Houve tempos em que o tempo
passava para de comer nos dar.
Passava do frio para o calor,
do calor para o frio, sempre a variar.

Havia alturas em que o tempo
passava para matar ou curar;
passava devagar, para nos ver sofrer.
É sádico, o tempo, o nosso tempo.

Houve tempos em o tempo saltitava.
Ás vezes, chegava até o tempo do amor.
Esclareça-se: não era o tempo que amava!

Agora, o tempo passa sem razão;
quer dizer, passa por passar,
dá passos em frente sem saber por onde caminhar.

José Pedro Cadima

domingo, maio 13, 2007

A vida pára

Não há nada que eu te possa dizer
para que te sintas melhor.
E seria estúpido dizer-te
que a vida continua,
pois tu sabes tão bem como eu
que a vida pára
naquele exacto momento
em que se deixa de amar alguém.

José Pedro Cadima

sábado, maio 12, 2007

O raiar do sol (2)

Cheguei à rua, irado com a vida, com as minhas escolhas, com as escolhas dos outros. Tinham sido feitos estragos na minha pessoa, no meu orgulho e coração.
- Toma atenção!
Não tomei, fingi não ouvir. As manchas de dor estragavam a camisa branca reflectora daquilo que não era digno. Eu não era digno.
Tombei por fim a cabeça para traz, aproveitando o sol que raiava.
- Vejo que te decides por fim a ouvir-me!
- Desde que me tires estas ideias da cabeça, ouço-te sempre que quiseres.
- Muito bem. Cumprirás essa promessa?
- E porque não?
- Está feito! Virás ouvir a minha mensagem de tempos a tempos, e verás que te faço sentir melhor – disse o sol raiando de felicidade.
- Que tal começar já hoje?
- As pessoas olham o chão – e começou, sem dizer se ia realmente começar. Sem explicação, começou de imediato embalado em minha pressa – cada uma delas preocupada com uma pedra, com o padrão dela.
“Olham uma flor e vêem o insecto que se alimenta dela. Faz-lhes nojo… e pena: nojo de ter um insecto a tocar-lhe, dai a nossa reticência em tocar-lhe, até mesmo quando o insecto já saiu; pena pela falta de escolha da flor que se viu obrigada àquela associação quando uma imatura semente se decidiu cair ali.”
Olhei o sol. Queimaram-se-me os olhos.
- Presta atenção ao que digo mas não ao que sou. O mesmo não deverás fazer com os que te rodeiam. Continuando a mensagem de hoje, podem até tocar na flor, acariciá-la, mas parecem-me piores que insectos. Tiram-lhe toda a vida ao arrancá-la, de uma só vez.
- A tua mensagem parece-me mais um julgamento!
- E é... Mas não passa de uma introdução, de um discurso entre o bem e o mal. Uma análise às más decisões. Todos temos que saber distinguir para, por fim, percebermos a individualidade de cada escolha. Como a da própria mensagem que te transmito aqui.
- Sol... Raia-me apenas silêncio na face!
José Pedro Cadima
(16 de Abril de 2007)

sexta-feira, maio 11, 2007

Tu e eu

Teu contacto era tão distante,
tuas palavras, afónicas,
teu toque, inexistente…

Meu pensamento, frustrado,
minhas lágrimas, dolorosas,
meu sentimento, tristeza…

Tu e eu!

José Pedro Cadima

quarta-feira, maio 09, 2007

A parede não chora

Não me encosto em ninguém.
Encosto-me à fria parede,
que me ensinou tudo o que sei.

Mas desonro seus ensinamentos
já que a parede não chora,
enquanto eu me desfaço em lágrimas.

Com ela, tudo aprendi:
a ignorar a passagem do tempo;
a achar o frio agradável.

Quero ser uma parede,
uma parede grande,
para que se encostem em mim,
e eu… em ninguém!

José Pedro Cadima

segunda-feira, maio 07, 2007

Choro o que tenho que chorar

Por momentos,
apago-me do mundo.
Não choro muito,
nem choro pouco.
Choro só o que tenho que chorar.

José Pedro Cadima

sábado, maio 05, 2007

O homenzinho cor-de-rosa

Existia um homenzinho cor-de-rosa
que reflectia uma luz esplendorosa.
Na medicina, do cancro achou a cura.
Na pastelaria, deu nome à doçura.

Um dia, encontrou o amor.
Ela era comparável à mais bela flor.
Então, a mais bela flor ele foi procurar;
no bosque mais escuro foi penetrar.

Enfrentou árvores monstruosas,
esquivou-se do maior gigante,
enganou bruxas horrorosas,
e saiu de lá com a flor, triunfante.

A ela lhe deu a flor, única e bela.
A flor era quase tão deslumbrante quanto ela.
Mas ela rejeitou-a, e no chão a flor caiu
e, desse gesto, o coração do homem se partiu…

José Pedro Cadima

quinta-feira, maio 03, 2007

Os deuses

Chorei toda a noite,
e hoje chove.

Incrível o que fazem os deuses
para que não me sinta só!

José Pedro Cadima

segunda-feira, abril 30, 2007

Momentos rosa

Momentos rosa,
pores-do-sol amarelos
e arco-íris brancos…
Onde se escondem?

As abelhas nas flores os procuram,
as toupeiras no solo
e as baleias no fundo do oceano.
O homem? Esse procura-os na lua…

José Pedro Cadima

sábado, abril 28, 2007

Não te sou nada

Eu a ti, não te sou nada;
nem amor, nem desconhecido,
nem ódio, nem amigo…
Eu a ti, não te faço chorar;
não sou chuva, nem neve,
não sou o dia, nem a noite.
Eu a ti, não te faço feliz;
não sou hábito, nem vicio,
não sou encontrado, nem procurado.
Eu a ti, não te sou nada,
nem o mais suave tocar de teus lábios…

José Pedro Cadima

quinta-feira, abril 26, 2007

Havia algo

Havia algo de errado:
era apenas o erro…
Havia algo de certo:
era apenas o sentimento…
Havia algo de fantástico:
eras tu!

José Pedro Cadima

terça-feira, abril 24, 2007

Estrelas no céu

Olha as estrelas no céu!
Parecem-me ser cada vez menos.

Serão elas os nossos sonhos?

José Pedro Cadima

Um certo mundo

Num mundo descoberto
por todos nós,
cada um descobre-o
à sua maneira.

Para uma honra
pouco vista,
com papel ou guitarra,
é necessária alma de artista.

Paradoxal que pareça,
se uma beleza
nos deixa quase sem fala,
é por ela que se chora e grita.

José Pedro Cadima

domingo, abril 22, 2007

Somos todos o mesmo

Somos todos o mesmo:
o mesmo sangue,
a mesma ideia.

Somos todos o mesmo:
o que aprende,
o que ensina.

Somos todos o mesmo:
o que sofre, o que chora;
o que desilude, o que ignora.
Somos todos o mesmo!

José Pedro Cadima

sexta-feira, abril 20, 2007

Exercício de escrita: o raiar do Sol

Em muitos momentos da minha vida fui levado a fazer “exercícios de escrita”. Primeiramente, para aprender a escrever; mais tarde, para dar sentido àquilo que escrevia. Depois do primeiro passo, aprende-se a andar, e na escrita acontece o mesmo. Fiz exercícios de escrita para me corrigir e aperfeiçoar; fi-los no sentido de me divertir. Cheguei a escrever para não deixar crescer desespero em mim.
Chegou a Primavera. Está sem sol e depressa o excesso de tempo livre da Páscoa me deu tempo para pensar e gerar ideias que, por sua vez, me fizeram desesperar. Recorri ao meu exterior, reordenei as ideias e continuei apoiado por algo que não era eu. Precisava de um exercício de escrita, mas algo novo. Fartara-me daquilo que eu no passado fazia: das desculpas momentâneas; das soluções temporárias.
Deu-se-me um furo no hórario escolar e aproveitei para ler (de novo o exterior). Fiz, então, um intervalo para o pensamento, o mesmo que me tinha feito desesperar, e fui para a rua. O sol raiava-me na cara. Sentindo assim os raios, veio-me à cabeça um novo impulso, ainda que narcisista.O sol transmitia-me paz, desejo de paz. O presente é de agora para a frente. O agora é tudo o mais que se possa controlar. O passado é o incontrolável. O futuro, aquilo que não deixamos escapar.
A mensagem só me chegou a mim. Provavelmente, não terá chegado aos outros em razão de simples falta de atenção. Sim, à minha volta ou do outro lado do mundo, estavam todos agarrados a circunstâncias fortuítas. Em nenhum caso, com a excepção do meu, a atenção se dirigiu para o imenso e belo sol que se decidiu a raiar-me com a sua mensagem.
Proponho então a todos os leitores (se, porventura, houver algum), que sigam o meu exercício de escrita, lendo, olhando, ouvindo, cheirando, tocando. Ficam também a saber que este exercício não está destinado a ter um fim (nem todos os textos precisam de um), pois só publicarei um quando tiver o seguinte completo, e assim sucessivamente.
O leitor terá de se ficar pelo penúltimo e fechá-lo com a própria visão de tudo o que ler. Eu farei o mesmo.

José Pedro Cadima

quarta-feira, abril 18, 2007

Odeio-te!

O mais belo poema que alguma vez fiz
procurava a perfeição.
Este que escrevo agora
foi inspirado na tua rejeição.

Uma vez (ou mesmo muitas)
disseram-me (como toda a gente costuma dizer)
que um poema é algo
para mostrar os sentimentos...
Pois bem, aqui está o meu poema:
odeio-te!

José Pedro Cadima

segunda-feira, abril 16, 2007

Lábios no cabelo

No cabelo estão as mãos;
nos olhares, os olhares;
nos lábios, os lábios.
Há beijos para dar.

É assim que deve ser.
É assim que se deve conservar.
Arde em mim
uma paixão.

Arde em mim uma paixão
que me faz beijar teus olhares,
que me faz com os lábios tocar teu cabelo;
uma paixão que me faz ter medo
de aproximar as minhas mãos do teu corpo.

José Pedro Cadima

domingo, abril 15, 2007

Onde se esconde o amor?

Como um tiro,
furou meu peito
e meu coração.

Como uma lança,
trespassou-me,
decepando a fonte da minha inspiração.

Como um machado,
cortou uma artéria
que bombeia o meu sangue.

Como um canibal,
comeu o sentimento
que se esconde no último verso de cada terceto.

José Pedro Cadima

quinta-feira, abril 12, 2007

Chamam-lhes histórias

Dizem eles que são histórias,
mas eu vi-a gerar uma luz na tempestade.
No solo, essa luz criou vida;
no céu, essa luz criou liberdade.

Dizem eles que são histórias,
mas eu vi-a! Como vejo escrever,
eu vi-a! Olhei para ela até doer.
Ainda dói, mas são saudades.

Dizem eles que são histórias,
e ninguém em mim acredita.
Fundam-se em velhas glórias.
Seja a sorte maldita!

Teimam eles serem histórias,
mas aquela luz era bela
e com ela vinha a mais bela donzela,
que até a lua fazia derreter.

Não! Não são histórias.
São desejos… São fantasias.
Mas havia luz.
Eram meus olhos a brilhar!

José Pedro Cadima

terça-feira, abril 10, 2007

Proibi-me de te amar

Sei que não te posso ter
mas...
Queres também proibir-me
de ter ciúmes?
Não podes!
Eu próprio me proibi
de te amar
e nada consegui...

José Pedro Cadima

sexta-feira, abril 06, 2007

Ódio que te sente

Ocasionalmente lembro-me de datar
aquilo que escrevo,
só para manter bem presente
aquilo que sinto.

Não há ódio
tão forte como o do presente,
o que te possui, o que te sente,
pois, em se tratando de ódio,
tu não sentes nada.

José Pedro Cadima

quarta-feira, abril 04, 2007

O nada

Sinto-me...
Ou até nem me sinto;
não estou em mim.
Estou longe de tudo;
estou apenas em tudo
e, como tu dizes,
”Não aconteceu nada!”
Se não aconteceu nada,
pois eu só quero que o nada
continue a acontecer!

Só sinto paixão
e enrolo sentimento.
Fico parado a olhá-los;
vejo o tempo passar.
No amor, porém,
faço eu o tempo andar...

José Pedro Cadima

segunda-feira, abril 02, 2007

Faz-me sentir alguém!

Sorri.
Abraça-me.
Faz-me sentir alguém,
alguém que te quer.
Beija-me.
Olha-me.
Faz-me sentir amado;
faz-me sentir alguém que te quer.
Beija-me e abraça-me assim...

José Pedro Cadima

sábado, março 31, 2007

Só mais um beijo

Só mais um beijo;
só mais um acariciar de lábios.
Só mais um...
Só mais um...

Como é doce beijar-te.
Como é quente abraçar-te.
Eu quero-te.
Por isso te cortejo.

Dizendo-te quanto te quero,
estou a contar-te apenas meia verdade.
Para dizer-te tudo, tinha que confessar-te
quanto anseio por mais um beijo.

José Pedro Cadima

quinta-feira, março 29, 2007

Belo dia…

Foi nesse dia que:
… enchi a cabeça de sonhos;
… entrei numa nuvem
e não caí.
Foi a partir desse dia
que nasci;
que comecei a viver.
Só a partir dele os anos
começaram a contar…

José Pedro Cadima

terça-feira, março 27, 2007

Desejos

Desejos...
São a única coisa que sinto:
o desejo
de me aconchegar a ti;
o desejo
de te beijar;
o desejo
de te acariciar;
o desejo
de partilhar contigo mimos, muitos!
Mas, acima de tudo,
desejo-te.

José Pedro Cadima

domingo, março 25, 2007

Amo!

Adoro; adoro; adoro.
Amo!
E de repente todo o sangue,
todas as lágrimas
formam lindos rios
de palavras e frases
que até então eu não conhecia.

Os mortos já não andam...
Pelo menos, os mortos com coração,
pois sem coração todos andam,
até mesmo os mortos.

José Pedro Cadima

sexta-feira, março 23, 2007

Anjo da guarda

Os anjos também choram,
e por vezes sou eu
quem os faz chorar.

Os anjos também amam,
e por vezes sou eu
quem os faz amar.

E tal como eu choro,
também eles choram
por te amar.

O meu anjo da guarda
é aquele anjo
que eu amo mais.

Dói-me cá dentro,
e por isso o meu anjo
de ti me defende.

Mas eu não quero ser defendido,
rejeito ser defendido e bato no anjo
que me prende.

Pobre anjo que me defende;
pobre anjo que me tenta salvar.
Está a incomodar-se em vão.

José Pedro Cadima

quinta-feira, março 22, 2007

Um amor a voar

Ali vai no céu um amor que se perdeu.
Vai à procura de um caçador que o abata…

José Pedro Cadima

quarta-feira, março 21, 2007

Quero ser feliz!

Quero chorar e não consigo.
Quero verter as lágrimas todas
num copo de vinho
e bebê-las como se de sangue se tratasse.

Quero libertar o que tenho cá dentro
e fortalecer meu coração.
Quero ser alguém!
Quero ser amado!
Quero ser feliz!

José Pedro Cadima

terça-feira, março 20, 2007

Posso sempre chorar

Se beijares outro que não eu,
nada terei que ver com isso.
Se amares outros que não eu,
nada poderei fazer...

Se amares outros que não eu,
nada poderei fazer,
excepto chorar tanto
que as minhas lágrimas salgadas
encham rios e campos
e afoguem toda a Terra.

José Pedro Cadima

domingo, março 18, 2007

És má!

És má, muito má
pois, quando estás triste,
mostras todo o teu
pesado sofrimento,
mas, quando estás feliz,
não és capaz de mostrar
a tua felicidade,
e compensar
quem te ajudou a conquistá-la
e, por isso, deveria merecer a tua gratidão.

José Pedro Cadima

sexta-feira, março 16, 2007

Vou...

Vou puxar-te pelos pulsos
até colar-te a mim.
Vou pôr-te as mãos na cintura
e contigo dançar.
Vou levantar-te no ar até teres a minha altura
e poder beijar esses teus lábios
tão apetecidos.
Vou rodear com meus braços o teu corpo.
Vou apertar-te contra mim
para te sentir respirar.
Vou …

José Pedro Cadima

quarta-feira, março 14, 2007

Se tu soubesses …

Todo o mundo à minha volta rodopia e estremece
como se de um relâmpado se tratasse.
Andamos à procura de um passado,
de um futuro e, talvez, de um presente.
Estaremos à procura de algo nunca procurado
ou, ao invés disso, de uma verdade que nos mente?

Se tu soubesses o quanto me perturbas
e quanto, de certa forma, meu corpo empurras
para uma sensação de liberdade
que me confunde e me enleva.
Se tu soubesses …
Todo o mundo à minha volta rodopia.

José Pedro Cadima

segunda-feira, março 12, 2007

Afogar-me em teu olhar

Leve e cuidadoso
é o arrepio na espinha.
Cheia e rápida
é a lágrima em meu olho.
Não sabes o quanto te quero!
Não sabes… o que é amar.
É de noite que mais desespero.
É de noite que mais anseio
afogar-me em teu olhar.

José Pedro Cadima

domingo, março 11, 2007

Meu anjo…

Meu anjo:
só te faltam as asas
para seres um anjo
e poderes voar até mim;
só te faltam as asas
para seres, quem sabe, até um arcanjo,
pois nunca vi poder assim.

Meu anjo:
abre as asas e voa;
serei eu o escolhido
para provar os teus céus?
Ou serei banido,
abandonado num monte de lágrimas
e desejos… só meus?

José Pedro Cadima

sábado, março 10, 2007

Descreve o amor!

– Escreve uma composição descrevendo o amor.
– Não sei!
– Tens que saber!
– Já por mais de mil vezes tentei e nunca o consegui.
Em todos os livros eu procurei e não achei o significado.
Se não existe definição, como posso eu descrevê-lo?
De todas as maneiras como foi descrito o amor,
aquela que melhor interpreta o que sinto é a dor.

José Pedro Cadima

quinta-feira, março 08, 2007

Minha Querida Helena

Quando já não o esperava, eis que dás um sinal de boa-vontade; pequeno, tardio, mas nem por isso deixou de ser um passo em frente. Como interpretá-lo então? Como o primeiro de um percurso que tem que ter um primeiro passo? Como uma breve hesitação ou desequilíbrio que ocorreu nesse sentido, podendo tê-lo sido para trás ou para qualquer um dos lados? Como um gesto de quem procura um caminho e está inseguro de ser aquele o trilho que o vai levar á meta perseguida?
Mesmo surpreso, fico contente; pouquinho, para não ser surpreendido por uns próximos dois passos atrás. Para mim, alguém que se move é um ser que está vivo e, estando-o, só pode esperar que o dia seguinte corra melhor que o dia que o antecedeu. Sabes: podendo não parecê-lo, sou eu que te digo isto, provavelmente não por força da realidade que me assiste no presente mas, antes, por tê-lo assumido como filosofia de vida no passado e, tendo como rotina o trabalho com jovens, tê-lo usado para lhes transmitir o entusiasmo, o arrojo e a iniciativa que amiúde não descortinei neles.
Vou ficar na expectativa. Vou tentar reconhecer em ti a aluna que foste, esforçada, decidida, mas insegura (Descalça vai para a fonte, Helena pela verdura; vai descalça mas não segura. Recordas-te?). Com o carinho do professor que segue os gestos hesitantes da aluna por quem desenvolveu uma empatia que nasceu de um ror de pequenos nadas, vou ficar a aguardar que passo darás depois deste primeiro; não sendo, no entanto, já capaz de dar-te lições, por me faltar convicção.
Falo disto com óbvio embaraço pois que sempre fiz por ensinar o que conheço e aquilo em que acredito. Isso levou-me a percorrer caminhos mil, ensaiar percursos que quem me dera nunca tivesse usado percorrer, tentar aprender outra vez o que soube e esqueci ou o que julgava ter aprendido mas, lá chegado, verifiquei ser uma caixa negra sem porta de entrada evidente. Falo disto com o óbvio embaraço de quem, porventura, quis mostrar-te um mundo novo e só conseguiu pôr diante de ti um território de ilusão, que se esvaneceu logo que os primeiros ventos arrastaram os fumos que davam forma às imagens que configuravam o meu mundo imaginário.
Que frustração imensa, minha querida, esta do professor que julgava saber e nada compreendia. Que calamidade esta, meu amor, de me encontrar a mirar que passos darás não tendo modo de te dizer que vais segura se seguires caminho comigo.


Braga, 19 de Setembro de 2004


José Cadima

terça-feira, março 06, 2007

Teus caracóis

Caracóis. Caracóis.
Mas que lindos eram os teus caracóis!
Fazias lembrar um conto de fadas,
onde cavaleiros trepavam por eles
para atingir a tua janela.

Por onde subir
senão mesmo pelo teu lindo cabelo?
Por onde subir,
para o céu alcançar,
senão pelos fios do teu cabelo?!

José Pedro Cadima

segunda-feira, março 05, 2007

Beijar-te

Era capaz de beijar o teu corpo todo,
e depois voltar a fazê-lo.
Era capaz de te olhar nos olhos,
e contemplar a beleza que deles irradia, durante horas.
Era capaz de te abraçar,
e sonhar que esse momento durasse para sempre…

José Pedro Cadima

sábado, março 03, 2007

Roda moinho

Roda moinho
como nunca rodaste;
nada ficou
como deixaste;
ama alguém
que nunca amaste.

Roda moinho
para o lado contrário,
tal como o lutador
vai contra o adversário,
tal como o bombeiro
entra pelas chamas.

Roda moinho
com toda a força,
faz com que o mundo
se distorça
de tanto rodares.
Roda moinho,
percorre o teu caminho.

José Pedro Cadima

sexta-feira, março 02, 2007

A tua beleza

Escrevo
poemas sobre ti
pois a tua beleza me inspira,
e dá-me força
para continuar
a sorrir e a sonhar.

Escrevo
na expectativa do teu amor,
ansiando que não me enganes
com mentiras,
mas me encantes com verdades.

Escrevo
pois tenho o dom da palavra,
tal como o dom de amar
e admirar quem ama.

Escrevo
como sinal de vida,
buscando a realidade
e almejando a imaginação libertar.

Escrevo
como rejeição de amarras
outras que não sejam as do amor.

José Pedro Cadima

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Numa árvore

Numa árvore,
a raiz é a alma
e as folhas os sonhos.

Já é Outono,
e as folhas caíram,
e a raiz está seca
do calor do Verão.

O tronco aguenta-se
encostado a outras árvores
que ainda estão na Primavera.

Na árvore que sou,
estou no Outono,
mas espero ser
a Primavera de alguém.

José Pedro Cadima

Vampiros…

Saiam vampiros
do vosso covil!
Ouçam os suspiros;
são mais de mil.

Matem, mutilem
toda, toda a gente.
Neste desesperado desdém,
entretanto bebe-se aguardente.

Ninguém se importa.
É só mais uma morta.
Noutro dia foi um morto.
Tudo parece ser desporto.

José Pedro Cadima

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Tenho medo!

Caminho pela estrada
escura e suja
para tentar chegar a algum lado.

Tenho medo de perceber
o que o futuro me reserva.
Tenho medo:
para a morte, é cedo!

Tenho medo
de ser como quem odeio,
mas quero ser quem tu amas,
para ainda mais me odiar.

José Pedro Cadima

domingo, fevereiro 25, 2007

Acordo a sentir teus beijos

Acordo a sentir teus beijos.
Adormeço a imaginar teus abraços.
Ao saudar-te, posso jurar
que sinto teus lábios.

Estremeço só de me lembrar de ti.
Sinto teus os meus cabelos pela manhã
e pareço sentir tua boca
ao beber água cristalina ao pôr-do-sol.

Vejo-te onde quer que me encontre
e chamo por ti como se chamasse pela vida.
Estou louco.
Estou louco por ti!

José Pedro Cadima

sábado, fevereiro 24, 2007

O valor dos sentimentos

Que valor
têm os sentimentos
se ninguém os respeita?

Que valor
tenho eu
se sou todo sentimento?

Que valor
tens tu
se só sinto algo por ti?

José Pedro Cadima

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Não sou o teu amor

Odeio-me!
Não sou o ser magnífico
que procuras.

Odeio-me!
Não sou o sonho
que buscas.

Odeio-me,
por não me amares!

José Pedro Cadima

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Diz-me o teu sonho

Diz-me o teu sonho.
Diz-me o teu sonho
para o tentar realizar,
talvez assim
nos possamos mutuamente ajudar.
Diz-me o teu sonho!
Diz-me algo
que não tenhas ouvido,
ainda que não tenha nada de grandioso,
nada de bíblico.
Diz-me o teu sonho!

José Pedro Cadima

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Mergulhado num poço

Salto do alto, sim senhor.
Salto do alto por amor.
Caio fundo, meu senhor;
caio fundo mergulhado em dor.

Não há escadas para subir
e cá em baixo estou.
Não consigo sorrir,
miserável eu sou!

No fundo do poço
ninguém me ouve.
No fundo do fosso
ninguém … me ouve…

José Pedro Cadima

domingo, fevereiro 18, 2007

sábado, fevereiro 17, 2007

O sabor de uma nova paixão

Em mim, já só sinto amor,
já só sinto paixão.
Em mim, sinto o sabor
de uma nova desilusão.

E como se não fosse já cruel
este invenerável mundo,
vieste tu com asas de papel,
qual fada, tocar-me bem fundo.

José Pedro Cadima

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Mais um grito

É noite e está frio.
Sinto mais um arrepio.
Faltam-me palavras para expressar
sentimentos que alguém ousou roubar.

De olhos quase vidrados,
olho lá para fora,
guardo minha alma aos bocados,
que tenta ir-se embora.

De verdade, tenho medo,
não encontro consistência nas palavras,
enquanto perco proximidade a um qualquer conto de fadas.

Então grito
até sair tudo de mim:
frio, medo e pozinhos de perlim-pim-pim.

José Pedro Cadima

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Minha Querida Helena

Espero que te encontres bem.
Após alguns poucos dias de silêncio, retomo o contacto na expectativa de não te maçar excessivamente. Aliás, com esta ausência quis evitar que as minhas cartas te cansassem como te cansou o meu amor. Infelizmente, não estou seguro de ser bem sucedido. Não me privarás dessa esperança!
Sem as tuas cartas a minha solidão foi (ainda) mais completa. Não te digo, todavia, nada que tu não saibas; não digo nada que a minha pequerrucha não conheça bem. Falo, no entanto, da minha pequerrucha e de ninguém mais... envolto num mar de saudades tão grande quanto o oceano que algumas vezes mirámos aconchegados um no outro. Por onde andará a pequerrucha que me enche de saudades?
Privar-me das tuas cartas foi também o modo que encontrei de testar a minha resistência à dor ou, se quiseres, um modo de auto-flagelação. Sigo-te nisso, de alguma forma: disse-te vezes sem conta que não entendia o gozo que parecias retirar do sofrimento que, por vezes – vezes demasiadas - te aparecia espelhado no rosto e que tanto me afligia. Pois bem, resolvi experimentar a tua receita. Dessa experiência não retirei, entretanto, mais que amargura e dor, pelo que mantenho a afirmação da falta de sentido dessa auto-penalização.
Volto ao teu contacto, meu amor, mas sinto-me muito debilitado. Daí que as minhas palavras não possam deixar de te soar arrastadas e eu seja incapaz de te assegurar por quanto tempo mais o alento me assistirá. Dá-me energia a expectativa de que as leias, mas é quase só isso que me assiste, e, concordarás, é parco para alimentar uma alma sequiosa da sua alma gémea.
Minha querida Helena, ... am...

Braga, 17 de Agosto de 2004

José Cadima

Tal como…

Tal como
árvores livres
de folhas,
são os corações vazios
de amor.
As folhas cobrem o chão
e as lágrimas as minhas almofadas.

Tal como
árvores livres
de folhas,
aqui estou eu
de almofadas encharcadas.

Está frio,
muito frio,
por dentro, no coração,
e muito frio, por fora,
na rua.

Prédios cheios de gente,
como corações
plenos de amor.

Pessoas com fome,
tal como corações
carentes de amor.

José Pedro Cadima

domingo, fevereiro 11, 2007

Era de poetas

Estamos numa era de poetas.
Não sou o único;
não sou o primeiro,
nem serei o último.
Há os que escrevem
e há os que pintam,
mas trata-se sempre
de algo ditado pelo nosso íntimo.

José Pedro Cadima

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Eclodir de dor

Escrevo para desabafar.
Sim, porque tudo o que vejo
me dá motivo para pensar,
falar e, mais que falar, gritar,
dizer o que sinto.
Escrevo para dizer o que sinto,
dizer a verdade ou, até, mentir,
mas deixar sair tudo...
Só assim sou capaz de impedir que essa dor
ou, mesmo, o desejo de felicidade
ecludam dentro de mim.

José Pedro Cadima

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Cego de tristeza…

Estou cego agora…
Não sou mais nenhum herói.
Porque incomodas tu
esta ferida que tanto me dói?

Não me peças mais
para te encontrar um caminho.
A liberdade acabou!

José Pedro Cadima

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Minha Querida Helena

Por vezes, é tão difícil falar contigo. Há ocasiões em que tenho a sensação que só te escutas a ti. Digo-o não no sentido figurado - de que o teu pensamento prevaleça sobre o de outrém (o meu) - mas no exacto sentido em que, pura e simplesmente, ignoras o que te procuro transmitir, e fico a repetir palavras, a exprimir emoções crescentemente irritado e tentando controlar a vontade de bater com o telefone. Nessas ocasiões, concluo sempre, e algumas vezes digo-to, que não devia ter telefonado. O problema é que não sou capaz de antecipar quando não te devo ligar e, uma vez entrados nessa conversa de surdos, é tarde de mais para recuar, se bem que o devêssemos fazer. Cortando, estabelecendo a ligação a partir do início, a possibilidade de sucesso da comunicação é inquestionavelmente outra.
Curiosamente, isso acontece mais em ocasiões em que procuro exprimir-te a preocupação que tenho com a tua saúde ou com a tua estética, o que configura a ideia, que já te tenho repetido, de que essas são peças da tua estratégia de auto-flagelação, sendo certo que, magoando-te, me magoas também, embora as consequências desse gesto sejam bem mais gravosas para ti.
Quando finalmente consigo que me ouças, dizes-me amiúde que sou eu que sou incapaz de julgar a ordem das prioridades: a prioridade de alguém que chega e que espera atenção sobre a prioridade de agendar uma consulta médica; a prioridade de arrumar a sala sobre a prioridade de realizar um tratamento no hospital; a antecedência absoluta de uma visita ao café da D. Felizmina, de um cigarro sobre a visita ao cabeleireiro.
Não entendes tu que essa tua ordem de prioridades me confunda e me contrarie? Porque não aceitas tu, minha querida, que eu queira ver-te fresca e bonita? Onde está a irrazoabilidade deste meu querer?
Helena querida, fico a ansiar o teu sorriso.

Braga, 14 de Julho de 2004


José Cadima

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Amar

Quando se sofre
aprende-se a amar
quem nos ama.
Nessa altura,
aprende-se também a desculpar
quem não nos amou.

José Pedro Cadima

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

O amor é…

O amor
é uma simples palavra.
Daquelas muitas
que não valem nada.

O amor
só existe como sentimento,
forte e confuso,
mas sempre sofredor.

O amor
é nada mais que uma expressão
vinda do coração.

Mas, no fim,
nem a palavra,
nem o sentimento,
nem a expressão
servirão para algo
se recebermos um não.

José Pedro Cadima

domingo, fevereiro 04, 2007

Espero um sinal de inspiração

Tempos parados;
sentidos estrangulados,
vazios de emoção.

Procuro inspiração.
Ponho o lápis na mão
e traço mais uma linha,
esperando um arrepio na espinha.

Só quero um sinal,
algo bom,
como uma bola de cristal.

José Pedro Cadima

sábado, fevereiro 03, 2007

Zonas escuras

Venham os demónios!
Nunca passei por mais;
nunca passei por menos;
apenas passo por sítios diferentes,
com zonas escuras,
que me deixam a pensar em ti.

José Pedro Cadima

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Como se fosse ódio

Sem querer, apaixono-me,
e de cada vez que isso acontece
sinto que morro.
Sempre louco, nunca sóbrio,
eu amo como se fosse
ódio.

José Pedro Cadima

Quero-te!

Não percebes o que te digo
pois já o digo sem to dizer.
Já não sei o que sinto,
nem o que mais fazer
e o desejo de ti aumenta sem o querer.

Quero-te!
Que mais há para dizer?
Que mais posso fazer?
Quero-te!
Podes tentar percebê-lo?

José Pedro Cadima

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Momentos de lágrimas

Se há momentos
em que se percebe tudo,
é no momento
em que se chora.

Se há algo a dizer
que fique por dizer
e se faça silêncio,
é ao cair de cada lágrima.

Se há algo a fazer,
fá-lo sem ninguém
realmente o perceber,
e, sobretudo, abraça
e chora com quem chora!

José Pedro Cadima