sábado, maio 05, 2007

O homenzinho cor-de-rosa

Existia um homenzinho cor-de-rosa
que reflectia uma luz esplendorosa.
Na medicina, do cancro achou a cura.
Na pastelaria, deu nome à doçura.

Um dia, encontrou o amor.
Ela era comparável à mais bela flor.
Então, a mais bela flor ele foi procurar;
no bosque mais escuro foi penetrar.

Enfrentou árvores monstruosas,
esquivou-se do maior gigante,
enganou bruxas horrorosas,
e saiu de lá com a flor, triunfante.

A ela lhe deu a flor, única e bela.
A flor era quase tão deslumbrante quanto ela.
Mas ela rejeitou-a, e no chão a flor caiu
e, desse gesto, o coração do homem se partiu…

José Pedro Cadima

quinta-feira, maio 03, 2007

Os deuses

Chorei toda a noite,
e hoje chove.

Incrível o que fazem os deuses
para que não me sinta só!

José Pedro Cadima

segunda-feira, abril 30, 2007

Momentos rosa

Momentos rosa,
pores-do-sol amarelos
e arco-íris brancos…
Onde se escondem?

As abelhas nas flores os procuram,
as toupeiras no solo
e as baleias no fundo do oceano.
O homem? Esse procura-os na lua…

José Pedro Cadima

sábado, abril 28, 2007

Não te sou nada

Eu a ti, não te sou nada;
nem amor, nem desconhecido,
nem ódio, nem amigo…
Eu a ti, não te faço chorar;
não sou chuva, nem neve,
não sou o dia, nem a noite.
Eu a ti, não te faço feliz;
não sou hábito, nem vicio,
não sou encontrado, nem procurado.
Eu a ti, não te sou nada,
nem o mais suave tocar de teus lábios…

José Pedro Cadima

quinta-feira, abril 26, 2007

Havia algo

Havia algo de errado:
era apenas o erro…
Havia algo de certo:
era apenas o sentimento…
Havia algo de fantástico:
eras tu!

José Pedro Cadima

terça-feira, abril 24, 2007

Estrelas no céu

Olha as estrelas no céu!
Parecem-me ser cada vez menos.

Serão elas os nossos sonhos?

José Pedro Cadima

Um certo mundo

Num mundo descoberto
por todos nós,
cada um descobre-o
à sua maneira.

Para uma honra
pouco vista,
com papel ou guitarra,
é necessária alma de artista.

Paradoxal que pareça,
se uma beleza
nos deixa quase sem fala,
é por ela que se chora e grita.

José Pedro Cadima

domingo, abril 22, 2007

Somos todos o mesmo

Somos todos o mesmo:
o mesmo sangue,
a mesma ideia.

Somos todos o mesmo:
o que aprende,
o que ensina.

Somos todos o mesmo:
o que sofre, o que chora;
o que desilude, o que ignora.
Somos todos o mesmo!

José Pedro Cadima

sexta-feira, abril 20, 2007

Exercício de escrita: o raiar do Sol

Em muitos momentos da minha vida fui levado a fazer “exercícios de escrita”. Primeiramente, para aprender a escrever; mais tarde, para dar sentido àquilo que escrevia. Depois do primeiro passo, aprende-se a andar, e na escrita acontece o mesmo. Fiz exercícios de escrita para me corrigir e aperfeiçoar; fi-los no sentido de me divertir. Cheguei a escrever para não deixar crescer desespero em mim.
Chegou a Primavera. Está sem sol e depressa o excesso de tempo livre da Páscoa me deu tempo para pensar e gerar ideias que, por sua vez, me fizeram desesperar. Recorri ao meu exterior, reordenei as ideias e continuei apoiado por algo que não era eu. Precisava de um exercício de escrita, mas algo novo. Fartara-me daquilo que eu no passado fazia: das desculpas momentâneas; das soluções temporárias.
Deu-se-me um furo no hórario escolar e aproveitei para ler (de novo o exterior). Fiz, então, um intervalo para o pensamento, o mesmo que me tinha feito desesperar, e fui para a rua. O sol raiava-me na cara. Sentindo assim os raios, veio-me à cabeça um novo impulso, ainda que narcisista.O sol transmitia-me paz, desejo de paz. O presente é de agora para a frente. O agora é tudo o mais que se possa controlar. O passado é o incontrolável. O futuro, aquilo que não deixamos escapar.
A mensagem só me chegou a mim. Provavelmente, não terá chegado aos outros em razão de simples falta de atenção. Sim, à minha volta ou do outro lado do mundo, estavam todos agarrados a circunstâncias fortuítas. Em nenhum caso, com a excepção do meu, a atenção se dirigiu para o imenso e belo sol que se decidiu a raiar-me com a sua mensagem.
Proponho então a todos os leitores (se, porventura, houver algum), que sigam o meu exercício de escrita, lendo, olhando, ouvindo, cheirando, tocando. Ficam também a saber que este exercício não está destinado a ter um fim (nem todos os textos precisam de um), pois só publicarei um quando tiver o seguinte completo, e assim sucessivamente.
O leitor terá de se ficar pelo penúltimo e fechá-lo com a própria visão de tudo o que ler. Eu farei o mesmo.

José Pedro Cadima

quarta-feira, abril 18, 2007

Odeio-te!

O mais belo poema que alguma vez fiz
procurava a perfeição.
Este que escrevo agora
foi inspirado na tua rejeição.

Uma vez (ou mesmo muitas)
disseram-me (como toda a gente costuma dizer)
que um poema é algo
para mostrar os sentimentos...
Pois bem, aqui está o meu poema:
odeio-te!

José Pedro Cadima

segunda-feira, abril 16, 2007

Lábios no cabelo

No cabelo estão as mãos;
nos olhares, os olhares;
nos lábios, os lábios.
Há beijos para dar.

É assim que deve ser.
É assim que se deve conservar.
Arde em mim
uma paixão.

Arde em mim uma paixão
que me faz beijar teus olhares,
que me faz com os lábios tocar teu cabelo;
uma paixão que me faz ter medo
de aproximar as minhas mãos do teu corpo.

José Pedro Cadima

domingo, abril 15, 2007

Onde se esconde o amor?

Como um tiro,
furou meu peito
e meu coração.

Como uma lança,
trespassou-me,
decepando a fonte da minha inspiração.

Como um machado,
cortou uma artéria
que bombeia o meu sangue.

Como um canibal,
comeu o sentimento
que se esconde no último verso de cada terceto.

José Pedro Cadima

quinta-feira, abril 12, 2007

Chamam-lhes histórias

Dizem eles que são histórias,
mas eu vi-a gerar uma luz na tempestade.
No solo, essa luz criou vida;
no céu, essa luz criou liberdade.

Dizem eles que são histórias,
mas eu vi-a! Como vejo escrever,
eu vi-a! Olhei para ela até doer.
Ainda dói, mas são saudades.

Dizem eles que são histórias,
e ninguém em mim acredita.
Fundam-se em velhas glórias.
Seja a sorte maldita!

Teimam eles serem histórias,
mas aquela luz era bela
e com ela vinha a mais bela donzela,
que até a lua fazia derreter.

Não! Não são histórias.
São desejos… São fantasias.
Mas havia luz.
Eram meus olhos a brilhar!

José Pedro Cadima

terça-feira, abril 10, 2007

Proibi-me de te amar

Sei que não te posso ter
mas...
Queres também proibir-me
de ter ciúmes?
Não podes!
Eu próprio me proibi
de te amar
e nada consegui...

José Pedro Cadima

sexta-feira, abril 06, 2007

Ódio que te sente

Ocasionalmente lembro-me de datar
aquilo que escrevo,
só para manter bem presente
aquilo que sinto.

Não há ódio
tão forte como o do presente,
o que te possui, o que te sente,
pois, em se tratando de ódio,
tu não sentes nada.

José Pedro Cadima

quarta-feira, abril 04, 2007

O nada

Sinto-me...
Ou até nem me sinto;
não estou em mim.
Estou longe de tudo;
estou apenas em tudo
e, como tu dizes,
”Não aconteceu nada!”
Se não aconteceu nada,
pois eu só quero que o nada
continue a acontecer!

Só sinto paixão
e enrolo sentimento.
Fico parado a olhá-los;
vejo o tempo passar.
No amor, porém,
faço eu o tempo andar...

José Pedro Cadima

segunda-feira, abril 02, 2007

Faz-me sentir alguém!

Sorri.
Abraça-me.
Faz-me sentir alguém,
alguém que te quer.
Beija-me.
Olha-me.
Faz-me sentir amado;
faz-me sentir alguém que te quer.
Beija-me e abraça-me assim...

José Pedro Cadima

sábado, março 31, 2007

Só mais um beijo

Só mais um beijo;
só mais um acariciar de lábios.
Só mais um...
Só mais um...

Como é doce beijar-te.
Como é quente abraçar-te.
Eu quero-te.
Por isso te cortejo.

Dizendo-te quanto te quero,
estou a contar-te apenas meia verdade.
Para dizer-te tudo, tinha que confessar-te
quanto anseio por mais um beijo.

José Pedro Cadima

quinta-feira, março 29, 2007

Belo dia…

Foi nesse dia que:
… enchi a cabeça de sonhos;
… entrei numa nuvem
e não caí.
Foi a partir desse dia
que nasci;
que comecei a viver.
Só a partir dele os anos
começaram a contar…

José Pedro Cadima

terça-feira, março 27, 2007

Desejos

Desejos...
São a única coisa que sinto:
o desejo
de me aconchegar a ti;
o desejo
de te beijar;
o desejo
de te acariciar;
o desejo
de partilhar contigo mimos, muitos!
Mas, acima de tudo,
desejo-te.

José Pedro Cadima

domingo, março 25, 2007

Amo!

Adoro; adoro; adoro.
Amo!
E de repente todo o sangue,
todas as lágrimas
formam lindos rios
de palavras e frases
que até então eu não conhecia.

Os mortos já não andam...
Pelo menos, os mortos com coração,
pois sem coração todos andam,
até mesmo os mortos.

José Pedro Cadima

sexta-feira, março 23, 2007

Anjo da guarda

Os anjos também choram,
e por vezes sou eu
quem os faz chorar.

Os anjos também amam,
e por vezes sou eu
quem os faz amar.

E tal como eu choro,
também eles choram
por te amar.

O meu anjo da guarda
é aquele anjo
que eu amo mais.

Dói-me cá dentro,
e por isso o meu anjo
de ti me defende.

Mas eu não quero ser defendido,
rejeito ser defendido e bato no anjo
que me prende.

Pobre anjo que me defende;
pobre anjo que me tenta salvar.
Está a incomodar-se em vão.

José Pedro Cadima

quinta-feira, março 22, 2007

Um amor a voar

Ali vai no céu um amor que se perdeu.
Vai à procura de um caçador que o abata…

José Pedro Cadima

quarta-feira, março 21, 2007

Quero ser feliz!

Quero chorar e não consigo.
Quero verter as lágrimas todas
num copo de vinho
e bebê-las como se de sangue se tratasse.

Quero libertar o que tenho cá dentro
e fortalecer meu coração.
Quero ser alguém!
Quero ser amado!
Quero ser feliz!

José Pedro Cadima

terça-feira, março 20, 2007

Posso sempre chorar

Se beijares outro que não eu,
nada terei que ver com isso.
Se amares outros que não eu,
nada poderei fazer...

Se amares outros que não eu,
nada poderei fazer,
excepto chorar tanto
que as minhas lágrimas salgadas
encham rios e campos
e afoguem toda a Terra.

José Pedro Cadima

domingo, março 18, 2007

És má!

És má, muito má
pois, quando estás triste,
mostras todo o teu
pesado sofrimento,
mas, quando estás feliz,
não és capaz de mostrar
a tua felicidade,
e compensar
quem te ajudou a conquistá-la
e, por isso, deveria merecer a tua gratidão.

José Pedro Cadima

sexta-feira, março 16, 2007

Vou...

Vou puxar-te pelos pulsos
até colar-te a mim.
Vou pôr-te as mãos na cintura
e contigo dançar.
Vou levantar-te no ar até teres a minha altura
e poder beijar esses teus lábios
tão apetecidos.
Vou rodear com meus braços o teu corpo.
Vou apertar-te contra mim
para te sentir respirar.
Vou …

José Pedro Cadima

quarta-feira, março 14, 2007

Se tu soubesses …

Todo o mundo à minha volta rodopia e estremece
como se de um relâmpado se tratasse.
Andamos à procura de um passado,
de um futuro e, talvez, de um presente.
Estaremos à procura de algo nunca procurado
ou, ao invés disso, de uma verdade que nos mente?

Se tu soubesses o quanto me perturbas
e quanto, de certa forma, meu corpo empurras
para uma sensação de liberdade
que me confunde e me enleva.
Se tu soubesses …
Todo o mundo à minha volta rodopia.

José Pedro Cadima

segunda-feira, março 12, 2007

Afogar-me em teu olhar

Leve e cuidadoso
é o arrepio na espinha.
Cheia e rápida
é a lágrima em meu olho.
Não sabes o quanto te quero!
Não sabes… o que é amar.
É de noite que mais desespero.
É de noite que mais anseio
afogar-me em teu olhar.

José Pedro Cadima

domingo, março 11, 2007

Meu anjo…

Meu anjo:
só te faltam as asas
para seres um anjo
e poderes voar até mim;
só te faltam as asas
para seres, quem sabe, até um arcanjo,
pois nunca vi poder assim.

Meu anjo:
abre as asas e voa;
serei eu o escolhido
para provar os teus céus?
Ou serei banido,
abandonado num monte de lágrimas
e desejos… só meus?

José Pedro Cadima

sábado, março 10, 2007

Descreve o amor!

– Escreve uma composição descrevendo o amor.
– Não sei!
– Tens que saber!
– Já por mais de mil vezes tentei e nunca o consegui.
Em todos os livros eu procurei e não achei o significado.
Se não existe definição, como posso eu descrevê-lo?
De todas as maneiras como foi descrito o amor,
aquela que melhor interpreta o que sinto é a dor.

José Pedro Cadima

quinta-feira, março 08, 2007

Minha Querida Helena

Quando já não o esperava, eis que dás um sinal de boa-vontade; pequeno, tardio, mas nem por isso deixou de ser um passo em frente. Como interpretá-lo então? Como o primeiro de um percurso que tem que ter um primeiro passo? Como uma breve hesitação ou desequilíbrio que ocorreu nesse sentido, podendo tê-lo sido para trás ou para qualquer um dos lados? Como um gesto de quem procura um caminho e está inseguro de ser aquele o trilho que o vai levar á meta perseguida?
Mesmo surpreso, fico contente; pouquinho, para não ser surpreendido por uns próximos dois passos atrás. Para mim, alguém que se move é um ser que está vivo e, estando-o, só pode esperar que o dia seguinte corra melhor que o dia que o antecedeu. Sabes: podendo não parecê-lo, sou eu que te digo isto, provavelmente não por força da realidade que me assiste no presente mas, antes, por tê-lo assumido como filosofia de vida no passado e, tendo como rotina o trabalho com jovens, tê-lo usado para lhes transmitir o entusiasmo, o arrojo e a iniciativa que amiúde não descortinei neles.
Vou ficar na expectativa. Vou tentar reconhecer em ti a aluna que foste, esforçada, decidida, mas insegura (Descalça vai para a fonte, Helena pela verdura; vai descalça mas não segura. Recordas-te?). Com o carinho do professor que segue os gestos hesitantes da aluna por quem desenvolveu uma empatia que nasceu de um ror de pequenos nadas, vou ficar a aguardar que passo darás depois deste primeiro; não sendo, no entanto, já capaz de dar-te lições, por me faltar convicção.
Falo disto com óbvio embaraço pois que sempre fiz por ensinar o que conheço e aquilo em que acredito. Isso levou-me a percorrer caminhos mil, ensaiar percursos que quem me dera nunca tivesse usado percorrer, tentar aprender outra vez o que soube e esqueci ou o que julgava ter aprendido mas, lá chegado, verifiquei ser uma caixa negra sem porta de entrada evidente. Falo disto com o óbvio embaraço de quem, porventura, quis mostrar-te um mundo novo e só conseguiu pôr diante de ti um território de ilusão, que se esvaneceu logo que os primeiros ventos arrastaram os fumos que davam forma às imagens que configuravam o meu mundo imaginário.
Que frustração imensa, minha querida, esta do professor que julgava saber e nada compreendia. Que calamidade esta, meu amor, de me encontrar a mirar que passos darás não tendo modo de te dizer que vais segura se seguires caminho comigo.


Braga, 19 de Setembro de 2004


José Cadima

terça-feira, março 06, 2007

Teus caracóis

Caracóis. Caracóis.
Mas que lindos eram os teus caracóis!
Fazias lembrar um conto de fadas,
onde cavaleiros trepavam por eles
para atingir a tua janela.

Por onde subir
senão mesmo pelo teu lindo cabelo?
Por onde subir,
para o céu alcançar,
senão pelos fios do teu cabelo?!

José Pedro Cadima

segunda-feira, março 05, 2007

Beijar-te

Era capaz de beijar o teu corpo todo,
e depois voltar a fazê-lo.
Era capaz de te olhar nos olhos,
e contemplar a beleza que deles irradia, durante horas.
Era capaz de te abraçar,
e sonhar que esse momento durasse para sempre…

José Pedro Cadima

sábado, março 03, 2007

Roda moinho

Roda moinho
como nunca rodaste;
nada ficou
como deixaste;
ama alguém
que nunca amaste.

Roda moinho
para o lado contrário,
tal como o lutador
vai contra o adversário,
tal como o bombeiro
entra pelas chamas.

Roda moinho
com toda a força,
faz com que o mundo
se distorça
de tanto rodares.
Roda moinho,
percorre o teu caminho.

José Pedro Cadima

sexta-feira, março 02, 2007

A tua beleza

Escrevo
poemas sobre ti
pois a tua beleza me inspira,
e dá-me força
para continuar
a sorrir e a sonhar.

Escrevo
na expectativa do teu amor,
ansiando que não me enganes
com mentiras,
mas me encantes com verdades.

Escrevo
pois tenho o dom da palavra,
tal como o dom de amar
e admirar quem ama.

Escrevo
como sinal de vida,
buscando a realidade
e almejando a imaginação libertar.

Escrevo
como rejeição de amarras
outras que não sejam as do amor.

José Pedro Cadima

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Numa árvore

Numa árvore,
a raiz é a alma
e as folhas os sonhos.

Já é Outono,
e as folhas caíram,
e a raiz está seca
do calor do Verão.

O tronco aguenta-se
encostado a outras árvores
que ainda estão na Primavera.

Na árvore que sou,
estou no Outono,
mas espero ser
a Primavera de alguém.

José Pedro Cadima

Vampiros…

Saiam vampiros
do vosso covil!
Ouçam os suspiros;
são mais de mil.

Matem, mutilem
toda, toda a gente.
Neste desesperado desdém,
entretanto bebe-se aguardente.

Ninguém se importa.
É só mais uma morta.
Noutro dia foi um morto.
Tudo parece ser desporto.

José Pedro Cadima

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Tenho medo!

Caminho pela estrada
escura e suja
para tentar chegar a algum lado.

Tenho medo de perceber
o que o futuro me reserva.
Tenho medo:
para a morte, é cedo!

Tenho medo
de ser como quem odeio,
mas quero ser quem tu amas,
para ainda mais me odiar.

José Pedro Cadima

domingo, fevereiro 25, 2007

Acordo a sentir teus beijos

Acordo a sentir teus beijos.
Adormeço a imaginar teus abraços.
Ao saudar-te, posso jurar
que sinto teus lábios.

Estremeço só de me lembrar de ti.
Sinto teus os meus cabelos pela manhã
e pareço sentir tua boca
ao beber água cristalina ao pôr-do-sol.

Vejo-te onde quer que me encontre
e chamo por ti como se chamasse pela vida.
Estou louco.
Estou louco por ti!

José Pedro Cadima

sábado, fevereiro 24, 2007

O valor dos sentimentos

Que valor
têm os sentimentos
se ninguém os respeita?

Que valor
tenho eu
se sou todo sentimento?

Que valor
tens tu
se só sinto algo por ti?

José Pedro Cadima

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Não sou o teu amor

Odeio-me!
Não sou o ser magnífico
que procuras.

Odeio-me!
Não sou o sonho
que buscas.

Odeio-me,
por não me amares!

José Pedro Cadima

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Diz-me o teu sonho

Diz-me o teu sonho.
Diz-me o teu sonho
para o tentar realizar,
talvez assim
nos possamos mutuamente ajudar.
Diz-me o teu sonho!
Diz-me algo
que não tenhas ouvido,
ainda que não tenha nada de grandioso,
nada de bíblico.
Diz-me o teu sonho!

José Pedro Cadima

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Mergulhado num poço

Salto do alto, sim senhor.
Salto do alto por amor.
Caio fundo, meu senhor;
caio fundo mergulhado em dor.

Não há escadas para subir
e cá em baixo estou.
Não consigo sorrir,
miserável eu sou!

No fundo do poço
ninguém me ouve.
No fundo do fosso
ninguém … me ouve…

José Pedro Cadima

domingo, fevereiro 18, 2007

sábado, fevereiro 17, 2007

O sabor de uma nova paixão

Em mim, já só sinto amor,
já só sinto paixão.
Em mim, sinto o sabor
de uma nova desilusão.

E como se não fosse já cruel
este invenerável mundo,
vieste tu com asas de papel,
qual fada, tocar-me bem fundo.

José Pedro Cadima

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Mais um grito

É noite e está frio.
Sinto mais um arrepio.
Faltam-me palavras para expressar
sentimentos que alguém ousou roubar.

De olhos quase vidrados,
olho lá para fora,
guardo minha alma aos bocados,
que tenta ir-se embora.

De verdade, tenho medo,
não encontro consistência nas palavras,
enquanto perco proximidade a um qualquer conto de fadas.

Então grito
até sair tudo de mim:
frio, medo e pozinhos de perlim-pim-pim.

José Pedro Cadima

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Minha Querida Helena

Espero que te encontres bem.
Após alguns poucos dias de silêncio, retomo o contacto na expectativa de não te maçar excessivamente. Aliás, com esta ausência quis evitar que as minhas cartas te cansassem como te cansou o meu amor. Infelizmente, não estou seguro de ser bem sucedido. Não me privarás dessa esperança!
Sem as tuas cartas a minha solidão foi (ainda) mais completa. Não te digo, todavia, nada que tu não saibas; não digo nada que a minha pequerrucha não conheça bem. Falo, no entanto, da minha pequerrucha e de ninguém mais... envolto num mar de saudades tão grande quanto o oceano que algumas vezes mirámos aconchegados um no outro. Por onde andará a pequerrucha que me enche de saudades?
Privar-me das tuas cartas foi também o modo que encontrei de testar a minha resistência à dor ou, se quiseres, um modo de auto-flagelação. Sigo-te nisso, de alguma forma: disse-te vezes sem conta que não entendia o gozo que parecias retirar do sofrimento que, por vezes – vezes demasiadas - te aparecia espelhado no rosto e que tanto me afligia. Pois bem, resolvi experimentar a tua receita. Dessa experiência não retirei, entretanto, mais que amargura e dor, pelo que mantenho a afirmação da falta de sentido dessa auto-penalização.
Volto ao teu contacto, meu amor, mas sinto-me muito debilitado. Daí que as minhas palavras não possam deixar de te soar arrastadas e eu seja incapaz de te assegurar por quanto tempo mais o alento me assistirá. Dá-me energia a expectativa de que as leias, mas é quase só isso que me assiste, e, concordarás, é parco para alimentar uma alma sequiosa da sua alma gémea.
Minha querida Helena, ... am...

Braga, 17 de Agosto de 2004

José Cadima

Tal como…

Tal como
árvores livres
de folhas,
são os corações vazios
de amor.
As folhas cobrem o chão
e as lágrimas as minhas almofadas.

Tal como
árvores livres
de folhas,
aqui estou eu
de almofadas encharcadas.

Está frio,
muito frio,
por dentro, no coração,
e muito frio, por fora,
na rua.

Prédios cheios de gente,
como corações
plenos de amor.

Pessoas com fome,
tal como corações
carentes de amor.

José Pedro Cadima

domingo, fevereiro 11, 2007

Era de poetas

Estamos numa era de poetas.
Não sou o único;
não sou o primeiro,
nem serei o último.
Há os que escrevem
e há os que pintam,
mas trata-se sempre
de algo ditado pelo nosso íntimo.

José Pedro Cadima

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Eclodir de dor

Escrevo para desabafar.
Sim, porque tudo o que vejo
me dá motivo para pensar,
falar e, mais que falar, gritar,
dizer o que sinto.
Escrevo para dizer o que sinto,
dizer a verdade ou, até, mentir,
mas deixar sair tudo...
Só assim sou capaz de impedir que essa dor
ou, mesmo, o desejo de felicidade
ecludam dentro de mim.

José Pedro Cadima

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Cego de tristeza…

Estou cego agora…
Não sou mais nenhum herói.
Porque incomodas tu
esta ferida que tanto me dói?

Não me peças mais
para te encontrar um caminho.
A liberdade acabou!

José Pedro Cadima

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Minha Querida Helena

Por vezes, é tão difícil falar contigo. Há ocasiões em que tenho a sensação que só te escutas a ti. Digo-o não no sentido figurado - de que o teu pensamento prevaleça sobre o de outrém (o meu) - mas no exacto sentido em que, pura e simplesmente, ignoras o que te procuro transmitir, e fico a repetir palavras, a exprimir emoções crescentemente irritado e tentando controlar a vontade de bater com o telefone. Nessas ocasiões, concluo sempre, e algumas vezes digo-to, que não devia ter telefonado. O problema é que não sou capaz de antecipar quando não te devo ligar e, uma vez entrados nessa conversa de surdos, é tarde de mais para recuar, se bem que o devêssemos fazer. Cortando, estabelecendo a ligação a partir do início, a possibilidade de sucesso da comunicação é inquestionavelmente outra.
Curiosamente, isso acontece mais em ocasiões em que procuro exprimir-te a preocupação que tenho com a tua saúde ou com a tua estética, o que configura a ideia, que já te tenho repetido, de que essas são peças da tua estratégia de auto-flagelação, sendo certo que, magoando-te, me magoas também, embora as consequências desse gesto sejam bem mais gravosas para ti.
Quando finalmente consigo que me ouças, dizes-me amiúde que sou eu que sou incapaz de julgar a ordem das prioridades: a prioridade de alguém que chega e que espera atenção sobre a prioridade de agendar uma consulta médica; a prioridade de arrumar a sala sobre a prioridade de realizar um tratamento no hospital; a antecedência absoluta de uma visita ao café da D. Felizmina, de um cigarro sobre a visita ao cabeleireiro.
Não entendes tu que essa tua ordem de prioridades me confunda e me contrarie? Porque não aceitas tu, minha querida, que eu queira ver-te fresca e bonita? Onde está a irrazoabilidade deste meu querer?
Helena querida, fico a ansiar o teu sorriso.

Braga, 14 de Julho de 2004


José Cadima

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Amar

Quando se sofre
aprende-se a amar
quem nos ama.
Nessa altura,
aprende-se também a desculpar
quem não nos amou.

José Pedro Cadima

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

O amor é…

O amor
é uma simples palavra.
Daquelas muitas
que não valem nada.

O amor
só existe como sentimento,
forte e confuso,
mas sempre sofredor.

O amor
é nada mais que uma expressão
vinda do coração.

Mas, no fim,
nem a palavra,
nem o sentimento,
nem a expressão
servirão para algo
se recebermos um não.

José Pedro Cadima

domingo, fevereiro 04, 2007

Espero um sinal de inspiração

Tempos parados;
sentidos estrangulados,
vazios de emoção.

Procuro inspiração.
Ponho o lápis na mão
e traço mais uma linha,
esperando um arrepio na espinha.

Só quero um sinal,
algo bom,
como uma bola de cristal.

José Pedro Cadima

sábado, fevereiro 03, 2007

Zonas escuras

Venham os demónios!
Nunca passei por mais;
nunca passei por menos;
apenas passo por sítios diferentes,
com zonas escuras,
que me deixam a pensar em ti.

José Pedro Cadima

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Como se fosse ódio

Sem querer, apaixono-me,
e de cada vez que isso acontece
sinto que morro.
Sempre louco, nunca sóbrio,
eu amo como se fosse
ódio.

José Pedro Cadima

Quero-te!

Não percebes o que te digo
pois já o digo sem to dizer.
Já não sei o que sinto,
nem o que mais fazer
e o desejo de ti aumenta sem o querer.

Quero-te!
Que mais há para dizer?
Que mais posso fazer?
Quero-te!
Podes tentar percebê-lo?

José Pedro Cadima

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Momentos de lágrimas

Se há momentos
em que se percebe tudo,
é no momento
em que se chora.

Se há algo a dizer
que fique por dizer
e se faça silêncio,
é ao cair de cada lágrima.

Se há algo a fazer,
fá-lo sem ninguém
realmente o perceber,
e, sobretudo, abraça
e chora com quem chora!

José Pedro Cadima

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Dor de amor

Tem que se ir com calma
pois apenas para o nada
eu me sinto preparado.
Para tudo o mais
eu sinto-me acabado.

Quando tudo acontece,
eu tenho que me preparar,
pois um abalo
me vai arrastar para o ódio
ou para o amor.
E a verdade é que mesmo o amor
me traz dor.

José Pedro Cadima

domingo, janeiro 28, 2007

Questiono coisas inquestionáveis

Todos os dias questionamos
coisas sem questionamento,
até que descobrimos
que não é bem assim.
Questionamos o ar.
É possível questionar o ar?
Não é ar!
São sprays e tabaco.
Questionamos a terra.
É possível questionar a terra?
Não é terra.
É lixo! É um aterro!
Questiono os sonhos.
É possível questioná-los?
Não são sonhos,
nem pesadelos.
São a realidade.

José Pedro Cadima

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Minha Querida Helena

Nestes altos e baixos de ânimo, por razões próximas que não sou capaz de descortinar, retorno ao ponto mais baixo do ciclo. É o ânimo e é o cansaço, que em mim se apresentam associados. Se a semana decorresse mais intensa em matéria de solicitações de trabalho, não haveria espaço para estes sinais exteriores de debilidade, isto é, teriam que aguardar oportunidade. As coisas são entretanto como são e, por assim ser, volto ao estado de agonia na sua dimensão mais embaraçosa.

Não ligo esta ressaca aos telefonemas (dois) recentes que me fizeste, nem à visita que te fiz. Não digo que não me tenham afectado mas, se concorrem para este meu momento psicológico, fá-lo-ão em adição de razões mais profundas. Aliás, hoje não me telefonaste, embora eu mantivesse a expectativa que o fizesses. Porventura o questionário com que me brindaste ontem ficou então preenchido, pelo que não permanecia justificação para contacto posterior. Tens que conceder, no entanto, que a interrupção abrupta da ligação (por força do esgotamento das moedas) não permitiu que me desses conta do sucesso ou insucesso das respostas.

Neste interregno de comunicação, fui processando os dados que me havias feito chegar. Desses, talvez te surpreenda que o que me mereceu maior ponderação tenha sido o que se exprime na circunstância de me teres visto movimentar em Braga, sendo seguro que eu não te vi. Não mereceria atenção particular não fora a coincidência de tal se ter passado de modo idêntico em diversas outras ocasiões, a crer nas tuas alegações. E, confesso-te: gostaria de te ter visto desta e das outras vezes, particularmente desta vez.

Não te vi - disso não me resta dúvida – e não entendo como pudeste tu ver-me sem que eu te visse. A verdade é que, se a minha vista não é o que já foi, a tua não me parece em melhor estado. Tu mesma o dizes. Resulta então, daqui, um mistério. O mistério adensa-se quando eu sou visto por “A” ou por “B”, acompanhado, neste e naquele sítio, mesmo que não o tenha frequentado em período recente ou lá tenha estado sozinho. Tens que admitir que estes são dados fortes o bastante para me prenderem a atenção. Tanto mais quanto me sabes um cultor da ficção científica e um adepto confesso dos efeitos especiais. Aliás, como costumo afirmar, para ensaio sobre as misérias do quotidiano basta o próprio quotidiano. Disso fazem espectáculo diário os media.


Eis, Helena querida, um retrato do meu estar psicológico. Será bastante fidedigno já que o que está escrito antes foi-o ao sabor do pensamento livre (outros diriam, ao sabor da pena), não antecipando este final de divã de psiquiatra. É bom que assim seja para que o retrato surja bem autêntico, sem maquilhagem e sem acerto de cabelo. Perante ti posso expor-me despido, segundo creio.

Não tenho conselhos para dar ao psiquiatra. Também não lhos peço. De ti também não os pretendo receber. Se fossem beijos...


Braga, 9 de Setembro de 2004



José Cadima


Ps: correndo o risco de ser acusado de uma súbita simpatia pelo Ps. (com um pontinho em vez de dois pontos – o “s” pequeno é para simbolizar o estado em que está o socialismo), que declaro não ter qualquer fundamento, sou obrigado a recorrer outra vez a esta figura para reparar os efeitos de uma gralha que pousou sobre a data da carta de ontem, fazendo aparecer um seis onde, em verdade, estava um oito. Embora a culpa seja toda da gralha, por uma questão de afinidade com aquela, venho assumir a responsabilidade do erro.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Afrodite

Então Afrodite,
onde estás tu
quando te invoco?
Onde estás tu
quando, sem amor,
eu sufoco?
Onde estás tu,
quando, rejeitado,
quase enlouqueço?

Afrodite!!!
Onde estás tu
quando da sorte
eu me separo?
Onde estás tu
quando com a rejeição
eu me deparo?

Afrodite! Afrodite!
Onde estás tu
quando, sem amor,
eu desespero?
Onde estás tu
quando da rejeição
eu não recupero?
Onde estás tu
quando uma amada
eu quero?

José Pedro Cadima

terça-feira, janeiro 23, 2007

Já só acredito na inspiração

Sou um homem sem fé
nem religião.
Já só acredito no que se vê;
em mais que isso não.
Os santos
são figuras no altar
e Jesus
é um senhor
pregado na cruz.
Olhei toda a sociedade
e nela já não acredito.
Pelas coisas que tivemos,
pelas escolhas que fizemos,
pelos chefes que escolhemos
já só acredito
naquilo que escrevo.

José Pedro Cadima

domingo, janeiro 21, 2007

Choram os céus

Choram os céus.
Choram as pedras,
as casas e os animais.
Choram as árvores.
Choram as estrelas,
as flores e as pessoas.
Choro eu.
Choras tu.
Todos, choramos lagoas.

José Pedro Cadima

sábado, janeiro 20, 2007

Porque escrevo?

Porque escrevo eu?
Não sei o que escrevo,
mas sei porque escrevo.
Tudo tem um sentido,
um objectivo.
Escrevo para tentar
apagar uma ilusão;
escrevo para desabafar uma emoção.

José Pedro Cadima

sexta-feira, janeiro 19, 2007

O amor

O amor
não tem sítio certo.
Pode ser numa escada,
num banco,
num passeio.

O amor
não se define.
Pode ser um beijo,
uma palavra,
um abraço.

O amor
não tem tempo.
Pode ser num dia,
numa noite
ou - quem me dera – sempre!

José Pedro Cadima

terça-feira, janeiro 16, 2007

Venha o demónio das mil lágrimas!

Venha a mim o demónio
das mil lágrimas
e me faça chorar tanto
que até oceanos encha,
me faça chorar tanto
que até a Terra inunde.

Venha a mim o demónio
das mil lágrimas
e me faça chorar tanto
que a água suba
até ao pico da montanha mais alta
e uma onda leve
o último sobrevivente,
e todos te culpem
por me fazeres chorar.

José Pedro Cadima

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Que sou eu?

Que sou eu
senão um eterno apaixonado,
um bêbado de amor,
um embriagado de angústia e de esperança.
Eu sou o poeta
que beijou uma bêbada
ou foi ela que me beijou a mim
(pois ela negou o meu beijo)?
Aqui, eu sou o romântico,
o antigo romântico,
o novo gótico
ou talvez seja, apenas,
o pós-caótico.

José Pedro Cadima

domingo, janeiro 14, 2007

Aqueles momentos

Há aqueles momentos,
sem nada que escrever,
sem nada para dizer.
Pois bem, este não é um deles,
e, mais do que nunca,
apetece-me escrever,
correr, saltar, delirar
e, sobretudo, estar
a teu lado e abraçar-te.
Apetece-me inspirar
e expirar muito lentamente,
ouvir a tua respiração
em sincronia com a minha.
E apetece-me
chegar os meus lábios
ao teu ouvido, lentamente,
e dizer-te que te amo.

José Pedro Cadima

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Minha Querida Helena

A agitação da última dezena de dias retirou-me o tempo, a concentração e a sensibilidade necessários para te escrever e para que o que te quisesse transmitir fizesse sentido. Estive nesse investimento de corpo inteiro e se, por um lado, me senti vivo, por outro lado, esgotei-me num projecto em que sempre achei deverem estar outros. A intriga, a cumplicidade de medíocres, a falta de coragem e a incompetência convergiram para me tirar de cena, o que, se me traz alívio, traz-me, no mesmo passo, uma raiva enorme. Sempre me custou ver triunfar os medíocres e os incompetentes!
Depois de, durante uns poucos dias, ter-me sentido vivo, receio agora retornar à minha agonia. Até porque viver custa e as energias que nesse esforço são gastas dificilmente são repostas. A ver vamos.
Ao jeito de compensação, tive a alegria de te ver jovem outra vez, nesse teu arranjo de cabelo que demorou tanto que me pareceu uma eternidade. Ainda bem que abandonaste a tua obsessão de te apresentar infeliz para fazer bem presente aos outros - especialmente a mim - a tua insatisfação. Minha querida: a infelicidade não precisa de ser cultivada; nasce espontaneamente de qualquer solo. O que necessita de ser cuidado é o gosto de viver. Jovem outra vez, minha querida!
Esse corpo e alma rejuvenescidos não são, entretanto, é bom que tenhas isso presente, fato que se use e se pendure no guarda-roupa a aguardar a estação homóloga seguinte. São fato de todo o ano. Só assim me reconheço na minha Helena. Só assim reconheço o meu amor.
Pese embora o episódico retorno à vida de que te falo a abrir esta mensagem. Não tenho a capacidade de me renovar que tu possuis. Gostava da ter, digo-te. Gostava da ter por quanto a mereces. Não sendo assim, fico a desejar colher de ti a força que sinto que me escapa.

Braga, 2 de Outubro de 2004


José Cadima

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Coração de Cristal

Coração de cristal...
Eu tenho um coração de cristal,
tão frágil, tão leve...

Eu tenho um coração de cristal
estalado a meio...
Eu tenho … um coração de cristal...
E tenho-o partido... a meio...

José Pedro Cadima

terça-feira, janeiro 09, 2007

Mundo de ouro

Mais um arrepio na espinha
de uma lembrança passada,
de algo que eu quis,
de algo que não tive...

Cruel mundo de ouro,
onde tudo é possível ver,
mas onde tudo é guardado
para aqueles que não precisam...

José Pedro Cadima

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Olhos de quem chora

Vês estes olhos?
São olhos de alguém que te ama;
são olhos de alguém que chora.

Sabes...
Sabes quanto anseio
ver o meu amor correspondido.
Sabes? Não te importa.
É por isso que estes são olhos de quem chora!

José Pedro Cadima

sábado, janeiro 06, 2007

Chora comigo

Chora! Chora comigo!
Sente algo; sente algo por mim,
como eu sinto por ti.

Quando estou contigo...
Sim, quando eu estou contigo…

Chora! Chora comigo
ou vai-te embora,
para sempre!

José Pedro Cadima

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Festim de rosas

Num festim de rosas,
podes encontrar coisas espantosas,
desde um amor estonteante
a um livro apaixonante
ou, até, uma dor profunda e obscura,
que te aperte tanto o coração que se assemelhe a tortura.

José Pedro Cadima

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Minha Querida Helena

Não tendo cedido perante o cansaço, estou a morrer de saudades tuas. Faltam-me as tuas palavras de conforto, falha-me o sossego da tua presença, falta-me o descanso do teu corpo, falta-me a alegria do teu sorriso, falha-me a esperança do teu amor. Poderá alguém sobreviver em condições tão extremas de carência? Não creio.

Responder-me-ás: culpa tua! Contrapor-te-ei: culpa minha que nunca soube lidar com o amor e, querendo conciliar o que hoje sei inconciliável (valores básicos de respeito pessoal, de dignidade humana, de tolerância ante expectativas de um projecto de vida mais feliz), perdi o direito a ser amado. Aprendi-o de experiência própria. Aprendi-o tardiamente por me recusar a acreditar que um sentimento como o amor não inspirava tolerância e respeito pela nobreza desse sentimento.

Aprendi-o em vésperas de me esgotar de saudades: saudades de uma pequerrucha plena de energia e a transbordar carinhos; saudades de uma poetisa que cantava o rio, os pássaros, as flores e a paixão que a embalava. Percebi-o quando o meu amor deixou que se instalasse no seu olhar uma sombra cinzenta, a poesia deu lugar a um discurso arrastado, de desapontamento, e nem o rio, nem as flores, nem o chilrear dos pássaros foram capazes de voltar a levar-lhe inspiração e sonho. Nessa altura, perdi-te. Desde essa altura, fiquei também eu condenado a esvair-me, senão em desencanto e desesperança, em saudades.

Chegados a este termo, imagino-me a recomeçar tudo de novo, desde o primeiro olhar, o primeiro beijo, e culpo-me por não ter sabido guiar-te por trilhos mais seguros e mais portadores de futuro; culpo-me por não ter sabido preservar-te a energia que usavas transportar e os carinhos de que transbordavas. Pensando em tudo isso, e muitas coisas mais, enquanto me culpo de não ter sabido preservar o teu sorriso, vou morrendo de saudades tuas.

Braga, 22 de Agosto de 2004


José Cadima

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Felicidade...

As minhas mãos ardem-me
só da vontade de escrever
e desabafar tudo aquilo
que sinto e vejo.
...
O silêncio, o choro,
o amor, o ódio...
...
Quem sabe se um dia
serei capaz de ser feliz...
Tudo o que sinto
parece trazer-me infelicidade!
E tudo o que procuro, não encontro!
Choro. Que mais posso fazer?
Que mais farias tu no meu lugar?
Pois é, nada senão chorar.

José Pedro Cadima

segunda-feira, janeiro 01, 2007

O que tu me transmites

Tu transmites-me
um estranho sentimento
que me acalma,
algo que me faz
sentir mais humano
e menos cadáver.
O que tu me transmites
é algo especial,
que me faz viver.

José Pedro Cadima

sábado, dezembro 30, 2006

Desespero

E o momento da morte funde-se com o da vida formando uma camada de desespero incompreensível.

José Pedro Cadima

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Carente de ti

Em cada momento
que te abraço
sinto-me mais forte,
mais perto de ti,
mais perto até de mim.
Grito por ti
quando estás longe
porque me sinto perdido
e fraco, muito fraco,
carente de ti.

José Pedro Cadima

quarta-feira, dezembro 27, 2006

O medo

O medo sente-se
como nada sentido:
a respiração;
os nervos aos saltos...

A consciência dos erros,
a certeza da inconsciência;
o medo de tudo;
o medo que te apanhem.

Será que o medo teme algo?
Se temer,
será o próprio medo.

José Pedro Cadima

segunda-feira, dezembro 25, 2006

O parque

Lembraste do parque?
Aquele com vista para o Tejo?
Nós os dois,
num banco sentados,
trocando beijos,
com tanto amor.
Só quero reviver
esse doce momento.

José Pedro Cadima

sábado, dezembro 23, 2006

Coração falante

Ahahahaha!
Apanhei-te outra vez,
e neste meu poder
sempre te vou apanhar.
Não sou fraco.
Não sou como tu.
Tenho a quem fazer sofrer.
Sei matar-te sem morrer.
Sou o coração
que te prende à dor.

José Pedro Cadima (2005)

Querido Pai Natal

Queria pedir-te alguma sanidade, pois é isso que mais me falta. A paz no mundo não me aquece nem me arrefece. É apenas uma utopia que muitos desejam sem sequer saber porquê. A guerra não é aqui; não vai cá chegar.
Quereria pedir-te alguma noção de tudo o que se passa. Sinto-me perdido; sinto-o de verdade. Não vejo dia em que não anoiteça, nem noite em que não veja o sol nascer. Todo o meu corpo suporta este cansaço, queixando-se apenas da saudade dos lençóis e não da cama.
Não te peço nada disso, por mais poder que tenhas. Não fui suficiente bom menino e castiguei o meu corpo com todas estas penosas noções. Em breve emergirá a verdade de tudo. Em breve perderei o resto da sanidade que me resta.
Não sei em que ano estamos. Talvez seja o ano dois mil ou o quatro mil. Pouco importa. A esperança média de vida não chega a um século e o ano faz apenas parte de uma data marcada para efeitos gerais. Também não me lembro do dia em que faço anos e já lá vão tantos que nem a minha idade sei. Pouco me importa se sou adolescente, adulto ou idoso. Continuo a ser eu. Pouco me importa se faço anos em Janeiro ou Agosto. Continuo a ter a mesma mãe.
Talvez o Pai Natal me pudesse dar a entender todas estas coisas e porque é que as marcamos. Talvez, nessas circunstâncias, também me possa dar a vontade de saber as datas que realmente importam: em que dia e mês nasci; em que ano estamos; entre outras. Talvez, quando lho perguntar, mo possa dizer.
Tamanho foi o meu desinteresse para com a vida que já não sei se isto é viver. Sei que se parece com tal: respiro, mexo-me, alimento-me, vejo, oiço e agora até escrevo à sua pessoa, que tão pouca gente sabe porque nos visita duas vezes por ano, uma vestida de velho outra de coelho.
Já lhe pedi tantas coisas. Sei que foram mais aquelas em que me deu algo. Ter tanto fez-me mal. Talvez a culpa seja sua. Mas também outros têm tanto e ainda lhes dão mais e não perdem o interesse em receber. Talvez tudo isto seja apenas fraqueza minha.
O meu desinteresse arrasta-se tanto que além das datas do meu nascimento, o ano em que estamos, a idade do senhor que ninguém conhece, não sei também identificar muitos dos feriados patrióticos que se avizinham aí. Serei por isso um traidor da pátria? E se o for? Serei traidor de mim mesmo por não me lembrar do dia em que nasci? Que importa!? Talvez não importe. Não tenho datas. Não sei o nome das pessoas que conheço, e escrevo uma carta à única pessoa que ainda me visita.
Já não sei as datas e confesso-lhe que se não tivesse ouvido um passarinho cantar que amanhã era dia vinte cinco, e feriado, nunca lhe escreveria esta carta interesseira a pedir que neste Abril me traga um pouco de sanidade.

José Pedro Cadima (2006)

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Sinto paixão

Sinto paixão
e enrolo sentimento.
Fico parado a olhá-los.
Vejo o tempo passar
mas, no amor,
faço eu o tempo andar.

José Pedro Cadima (2005)

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Silêncio

O silêncio
funde-se
com os meus ruídos:
os do papel
e do lápis,
enquanto escrevo.
E, mais tarde,
o que escrevo
é lido,
e, sendo-o, ao silêncio,
juntam-se doces
ou pálidas
emoções.

José Pedro Cadima (2004)

domingo, dezembro 17, 2006

Beijar-te

Era capaz de beijar o teu corpo todo,
e depois voltar a fazê-lo.
Era capaz de te olhar nos olhos,
e contemplar a beleza que deles irradia, durante horas.
Era capaz de te abraçar,
e sonhar que esse momento durasse para sempre…

José Pedro Cadima (2004)

sexta-feira, dezembro 15, 2006

A tua beleza

Escrevo poemas sobre ti
pois a tua beleza
me inspira,
e dá-me força
para continuar
a sorrir e a sonhar.

Escrevo
na expectativa do teu amor,
ansiando que não me enganes
com mentiras,
mas me encantes com verdades.

Escrevo pois tenho o dom da palavra,
tal como o dom de amar
e admirar
quem ama.

Escrevo como sinal de vida,
buscando a realidade
e almejando a imaginação libertar.
Escrevo como rejeição de amarras
outras que não sejam as do amor.

José Pedro Cadima (2004)

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Onde se esconde o amor ?

E como um tiro
furou o meu peito
e meu coração.

Como uma lança
trespassou-me,
vazando a fonte da minha inspiração.

Como um canibal
comeu o meu sentimento,
que se esconde no último verso de cada terceto.

José Pedro Cadima (2005)

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Minha Querida Helena

Já percebi a tua mensagem! Não precisas mais manter-te incomunicável com o mundo para não correres o risco de ouvir a minha voz do outro lado da linha. Não o queres, não o farei! Para mais, sei-te acompanhada por quem gostas muito, o qual, seguramente, te saberá dar o conforto que sei que te é necessário.
A esta distância, ganhou toda uma outra clareza a insistência que punhas na pergunta que me dirigiste na última ocasião em que estivemos juntos, em fim de jornada. O “agora, para onde é que me levas?”, que eu não percebi, não queria significar outra coisa senão a despedida que tinhas planeado e que imaginaste à medida da derradeira refeição de um condenado. Daí a tua recusa em acompanhar-me no jantar. Por isso, a tua tristeza, mesmo quando, acompanhando as pombas e as gaivotas, por alguns instantes, esvoaçaste ao longo da margem do rio.
Confesso-te que não sinto mágoa por não ter entendido o alcance do teu aceno de naufrago. Nunca gostei de despedidas. Evito-as sempre que posso. Se noutras ocasiões fui cúmplice de outros rituais de despedida, fui-o na ânsia de eternizar esses momentos de comunhão e porque, no fundo, sempre me recusei a creditar que fossem os últimos de uma entrega intima que, embora tu o recuses, foi muito profunda. Falo no passado, para invocar esses instantes, embora se apresente mais adequado usar o presente, querendo reportar-me ao amor que te tenho e que é agora alvo de expressão de recusa tão violenta da tua parte.
Com esse íntimo, questiono-me por quanto tempo mais aceitarás receber estas minhas cartas; quanto tempo passará até que, simplesmente, te recuses recebê-las ou lê-las. Aí, tens sempre a solução simples das rasgares antes de as abrires. Porventura, se isso te dá maior sossego exterior, toma as minhas cartas como correspondência de duas pessoas que cultivam o hábito e o gosto da escrita; dois velhos amigos de saudosas lides literárias.
Para mim, desde que as não tenha de volta, fica-me sempre a esperança que as tenhas lido e o conforto resultante de pensar que continuo a ter alguém com quem posso comunicar e a quem posso transmitir emoções e sensações provindas do fundo do coração.
De mim, meu amor não correspondido, terás todo o carinho e incentivo para que percorras um caminho mais feliz do que o que trilhaste comigo, e a certeza, que gostaria que désseis por certa, de um ombro onde sempre podes repousar.

Braga, 6 de Agosto de 2004


José Cadima

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Felicidade...

As minhas mãos ardem
só da vontade de escrever
e desabafar tudo aquilo
que sinto e relatar tudo o que vejo.
....
(O silêncio; o choro;
o amor; o ódio...)
Quem sabe se um dia
serei capaz de ser feliz...
Tudo o que sinto parece trazer-me mais infelicidade!
E tudo o que procuro não encontro!
Alguma vez serei feliz?
(Choro. Que mais posso fazer?
Que mais farias tu no meu lugar?
Pois é, nada senão chorar...)

José Pedro Cadima (2005)

domingo, dezembro 10, 2006

Mortos…

“Eu morro;
tu morres;
ele morre;
nós morremos;
vós morreis;
eles morrem.”
A vida termina sempre assim.
E mesmo enquanto vivos,
de certa forma, não estamos senão mortos:
mortos de desejo;
mortos de vontade.

José Pedro Cadima (2005)

sábado, dezembro 09, 2006

Cinco dias até lá

Apenas daqui a cinco dias
poderei gozar a tua companhia.
Até lá…
Serão cinco dias sem ti…
Serão cinco dias sem ver a luz,
cinco dias sem ver o sol,
cinco dias de completa escuridão.

José Pedro Cadima (2004)

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Amor que me prende

O teu olhar
prendeu-me,
tal como
o teu amor.

Só tu me fazes feliz.
Só o teu amor,
só o teu carinho
me fazem sorrir.

José Pedro Cadima (2004)

terça-feira, dezembro 05, 2006

Escrevo com sangue

Escrevo com sangue
linhas nunca escritas,
coisas tão certas,
com letras tão ternas.
Na beleza do sangue
acho a beleza da vida.

José Pedro Cadima (2005)

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Melancolia...

Quero algo melancólico...
Não! Quero algo risonho,
para destroçar.
Quero algo espantoso,
para amedrontar.
Na melancolia desta vida,
não há ninguém a quem rezar,
não há nenhum deus
a quem os pecados contar.
Só existo eu.
Só existes tu.
Mais do que isso não há.

José Pedro Cadima (2005)

sábado, dezembro 02, 2006

Respirar a teu lado

Desde que te conheço,
tenho outro tipo de felicidade,
outro sorriso,
outro sofrimento,
outra tristeza,
outra dor.
O desespero é maior,
mas também o é a luz.
Até a minha forma
de respirar é diferente.

José Pedro Cadima (2005)

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Aliviado?

Sim, aliviado.
De certa forma, sinto-me…
Não! Não me sinto…
Oh! Não sei…
Talvez…
Talvez tivesse sido preferível
não lhe dizer,
não me expor,
e, simplesmente, olhá-la
de longe.

José Pedro Cadima (2004)