Todo o mundo à minha volta rodopia e estremece
como se de um relâmpado se tratasse.
Andamos à procura de um passado,
de um futuro e, talvez, de um presente.
Estaremos à procura de algo nunca procurado
ou, ao invés disso, de uma verdade que nos mente?
Se tu soubesses o quanto me perturbas
e quanto, de certa forma, meu corpo empurras
para uma sensação de liberdade
que me confunde e me enleva.
Se tu soubesses …
Todo o mundo à minha volta rodopia.
José Pedro Cadima
Imagina só poderes ver os meus sonhos no meu reflexo. "Jornal de Parede" de José Pedro Cadima e de José Cadima
quarta-feira, março 14, 2007
segunda-feira, março 12, 2007
Afogar-me em teu olhar
Leve e cuidadoso
é o arrepio na espinha.
Cheia e rápida
é a lágrima em meu olho.
Não sabes o quanto te quero!
Não sabes… o que é amar.
É de noite que mais desespero.
É de noite que mais anseio
afogar-me em teu olhar.
José Pedro Cadima
é o arrepio na espinha.
Cheia e rápida
é a lágrima em meu olho.
Não sabes o quanto te quero!
Não sabes… o que é amar.
É de noite que mais desespero.
É de noite que mais anseio
afogar-me em teu olhar.
José Pedro Cadima
domingo, março 11, 2007
Meu anjo…
Meu anjo:
só te faltam as asas
para seres um anjo
e poderes voar até mim;
só te faltam as asas
para seres, quem sabe, até um arcanjo,
pois nunca vi poder assim.
Meu anjo:
abre as asas e voa;
serei eu o escolhido
para provar os teus céus?
Ou serei banido,
abandonado num monte de lágrimas
e desejos… só meus?
José Pedro Cadima
só te faltam as asas
para seres um anjo
e poderes voar até mim;
só te faltam as asas
para seres, quem sabe, até um arcanjo,
pois nunca vi poder assim.
Meu anjo:
abre as asas e voa;
serei eu o escolhido
para provar os teus céus?
Ou serei banido,
abandonado num monte de lágrimas
e desejos… só meus?
José Pedro Cadima
sábado, março 10, 2007
Descreve o amor!
– Escreve uma composição descrevendo o amor.
– Não sei!
– Tens que saber!
– Já por mais de mil vezes tentei e nunca o consegui.
Em todos os livros eu procurei e não achei o significado.
Se não existe definição, como posso eu descrevê-lo?
De todas as maneiras como foi descrito o amor,
aquela que melhor interpreta o que sinto é a dor.
José Pedro Cadima
– Não sei!
– Tens que saber!
– Já por mais de mil vezes tentei e nunca o consegui.
Em todos os livros eu procurei e não achei o significado.
Se não existe definição, como posso eu descrevê-lo?
De todas as maneiras como foi descrito o amor,
aquela que melhor interpreta o que sinto é a dor.
José Pedro Cadima
quinta-feira, março 08, 2007
Minha Querida Helena
Quando já não o esperava, eis que dás um sinal de boa-vontade; pequeno, tardio, mas nem por isso deixou de ser um passo em frente. Como interpretá-lo então? Como o primeiro de um percurso que tem que ter um primeiro passo? Como uma breve hesitação ou desequilíbrio que ocorreu nesse sentido, podendo tê-lo sido para trás ou para qualquer um dos lados? Como um gesto de quem procura um caminho e está inseguro de ser aquele o trilho que o vai levar á meta perseguida?
Mesmo surpreso, fico contente; pouquinho, para não ser surpreendido por uns próximos dois passos atrás. Para mim, alguém que se move é um ser que está vivo e, estando-o, só pode esperar que o dia seguinte corra melhor que o dia que o antecedeu. Sabes: podendo não parecê-lo, sou eu que te digo isto, provavelmente não por força da realidade que me assiste no presente mas, antes, por tê-lo assumido como filosofia de vida no passado e, tendo como rotina o trabalho com jovens, tê-lo usado para lhes transmitir o entusiasmo, o arrojo e a iniciativa que amiúde não descortinei neles.
Vou ficar na expectativa. Vou tentar reconhecer em ti a aluna que foste, esforçada, decidida, mas insegura (Descalça vai para a fonte, Helena pela verdura; vai descalça mas não segura. Recordas-te?). Com o carinho do professor que segue os gestos hesitantes da aluna por quem desenvolveu uma empatia que nasceu de um ror de pequenos nadas, vou ficar a aguardar que passo darás depois deste primeiro; não sendo, no entanto, já capaz de dar-te lições, por me faltar convicção.
Falo disto com óbvio embaraço pois que sempre fiz por ensinar o que conheço e aquilo em que acredito. Isso levou-me a percorrer caminhos mil, ensaiar percursos que quem me dera nunca tivesse usado percorrer, tentar aprender outra vez o que soube e esqueci ou o que julgava ter aprendido mas, lá chegado, verifiquei ser uma caixa negra sem porta de entrada evidente. Falo disto com o óbvio embaraço de quem, porventura, quis mostrar-te um mundo novo e só conseguiu pôr diante de ti um território de ilusão, que se esvaneceu logo que os primeiros ventos arrastaram os fumos que davam forma às imagens que configuravam o meu mundo imaginário.
Que frustração imensa, minha querida, esta do professor que julgava saber e nada compreendia. Que calamidade esta, meu amor, de me encontrar a mirar que passos darás não tendo modo de te dizer que vais segura se seguires caminho comigo.
Braga, 19 de Setembro de 2004
José Cadima
Mesmo surpreso, fico contente; pouquinho, para não ser surpreendido por uns próximos dois passos atrás. Para mim, alguém que se move é um ser que está vivo e, estando-o, só pode esperar que o dia seguinte corra melhor que o dia que o antecedeu. Sabes: podendo não parecê-lo, sou eu que te digo isto, provavelmente não por força da realidade que me assiste no presente mas, antes, por tê-lo assumido como filosofia de vida no passado e, tendo como rotina o trabalho com jovens, tê-lo usado para lhes transmitir o entusiasmo, o arrojo e a iniciativa que amiúde não descortinei neles.
Vou ficar na expectativa. Vou tentar reconhecer em ti a aluna que foste, esforçada, decidida, mas insegura (Descalça vai para a fonte, Helena pela verdura; vai descalça mas não segura. Recordas-te?). Com o carinho do professor que segue os gestos hesitantes da aluna por quem desenvolveu uma empatia que nasceu de um ror de pequenos nadas, vou ficar a aguardar que passo darás depois deste primeiro; não sendo, no entanto, já capaz de dar-te lições, por me faltar convicção.
Falo disto com óbvio embaraço pois que sempre fiz por ensinar o que conheço e aquilo em que acredito. Isso levou-me a percorrer caminhos mil, ensaiar percursos que quem me dera nunca tivesse usado percorrer, tentar aprender outra vez o que soube e esqueci ou o que julgava ter aprendido mas, lá chegado, verifiquei ser uma caixa negra sem porta de entrada evidente. Falo disto com o óbvio embaraço de quem, porventura, quis mostrar-te um mundo novo e só conseguiu pôr diante de ti um território de ilusão, que se esvaneceu logo que os primeiros ventos arrastaram os fumos que davam forma às imagens que configuravam o meu mundo imaginário.
Que frustração imensa, minha querida, esta do professor que julgava saber e nada compreendia. Que calamidade esta, meu amor, de me encontrar a mirar que passos darás não tendo modo de te dizer que vais segura se seguires caminho comigo.
Braga, 19 de Setembro de 2004
José Cadima
terça-feira, março 06, 2007
Teus caracóis
Caracóis. Caracóis.
Mas que lindos eram os teus caracóis!
Fazias lembrar um conto de fadas,
onde cavaleiros trepavam por eles
para atingir a tua janela.
Por onde subir
senão mesmo pelo teu lindo cabelo?
Por onde subir,
para o céu alcançar,
senão pelos fios do teu cabelo?!
José Pedro Cadima
Mas que lindos eram os teus caracóis!
Fazias lembrar um conto de fadas,
onde cavaleiros trepavam por eles
para atingir a tua janela.
Por onde subir
senão mesmo pelo teu lindo cabelo?
Por onde subir,
para o céu alcançar,
senão pelos fios do teu cabelo?!
José Pedro Cadima
segunda-feira, março 05, 2007
Beijar-te
Era capaz de beijar o teu corpo todo,
e depois voltar a fazê-lo.
Era capaz de te olhar nos olhos,
e contemplar a beleza que deles irradia, durante horas.
Era capaz de te abraçar,
e sonhar que esse momento durasse para sempre…
José Pedro Cadima
e depois voltar a fazê-lo.
Era capaz de te olhar nos olhos,
e contemplar a beleza que deles irradia, durante horas.
Era capaz de te abraçar,
e sonhar que esse momento durasse para sempre…
José Pedro Cadima
sábado, março 03, 2007
Roda moinho
Roda moinho
como nunca rodaste;
nada ficou
como deixaste;
ama alguém
que nunca amaste.
Roda moinho
para o lado contrário,
tal como o lutador
vai contra o adversário,
tal como o bombeiro
entra pelas chamas.
Roda moinho
com toda a força,
faz com que o mundo
se distorça
de tanto rodares.
Roda moinho,
percorre o teu caminho.
José Pedro Cadima
como nunca rodaste;
nada ficou
como deixaste;
ama alguém
que nunca amaste.
Roda moinho
para o lado contrário,
tal como o lutador
vai contra o adversário,
tal como o bombeiro
entra pelas chamas.
Roda moinho
com toda a força,
faz com que o mundo
se distorça
de tanto rodares.
Roda moinho,
percorre o teu caminho.
José Pedro Cadima
sexta-feira, março 02, 2007
A tua beleza
Escrevo
poemas sobre ti
pois a tua beleza me inspira,
e dá-me força
para continuar
a sorrir e a sonhar.
Escrevo
na expectativa do teu amor,
ansiando que não me enganes
com mentiras,
mas me encantes com verdades.
Escrevo
pois tenho o dom da palavra,
tal como o dom de amar
e admirar quem ama.
Escrevo
como sinal de vida,
buscando a realidade
e almejando a imaginação libertar.
Escrevo
como rejeição de amarras
outras que não sejam as do amor.
José Pedro Cadima
poemas sobre ti
pois a tua beleza me inspira,
e dá-me força
para continuar
a sorrir e a sonhar.
Escrevo
na expectativa do teu amor,
ansiando que não me enganes
com mentiras,
mas me encantes com verdades.
Escrevo
pois tenho o dom da palavra,
tal como o dom de amar
e admirar quem ama.
Escrevo
como sinal de vida,
buscando a realidade
e almejando a imaginação libertar.
Escrevo
como rejeição de amarras
outras que não sejam as do amor.
José Pedro Cadima
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
Numa árvore
Numa árvore,
a raiz é a alma
e as folhas os sonhos.
Já é Outono,
e as folhas caíram,
e a raiz está seca
do calor do Verão.
O tronco aguenta-se
encostado a outras árvores
que ainda estão na Primavera.
Na árvore que sou,
estou no Outono,
mas espero ser
a Primavera de alguém.
José Pedro Cadima
a raiz é a alma
e as folhas os sonhos.
Já é Outono,
e as folhas caíram,
e a raiz está seca
do calor do Verão.
O tronco aguenta-se
encostado a outras árvores
que ainda estão na Primavera.
Na árvore que sou,
estou no Outono,
mas espero ser
a Primavera de alguém.
José Pedro Cadima
Vampiros…
Saiam vampiros
do vosso covil!
Ouçam os suspiros;
são mais de mil.
Matem, mutilem
toda, toda a gente.
Neste desesperado desdém,
entretanto bebe-se aguardente.
Ninguém se importa.
É só mais uma morta.
Noutro dia foi um morto.
Tudo parece ser desporto.
José Pedro Cadima
do vosso covil!
Ouçam os suspiros;
são mais de mil.
Matem, mutilem
toda, toda a gente.
Neste desesperado desdém,
entretanto bebe-se aguardente.
Ninguém se importa.
É só mais uma morta.
Noutro dia foi um morto.
Tudo parece ser desporto.
José Pedro Cadima
terça-feira, fevereiro 27, 2007
Tenho medo!
Caminho pela estrada
escura e suja
para tentar chegar a algum lado.
Tenho medo de perceber
o que o futuro me reserva.
Tenho medo:
para a morte, é cedo!
Tenho medo
de ser como quem odeio,
mas quero ser quem tu amas,
para ainda mais me odiar.
José Pedro Cadima
escura e suja
para tentar chegar a algum lado.
Tenho medo de perceber
o que o futuro me reserva.
Tenho medo:
para a morte, é cedo!
Tenho medo
de ser como quem odeio,
mas quero ser quem tu amas,
para ainda mais me odiar.
José Pedro Cadima
domingo, fevereiro 25, 2007
Acordo a sentir teus beijos
Acordo a sentir teus beijos.
Adormeço a imaginar teus abraços.
Ao saudar-te, posso jurar
que sinto teus lábios.
Estremeço só de me lembrar de ti.
Sinto teus os meus cabelos pela manhã
e pareço sentir tua boca
ao beber água cristalina ao pôr-do-sol.
Vejo-te onde quer que me encontre
e chamo por ti como se chamasse pela vida.
Estou louco.
Estou louco por ti!
José Pedro Cadima
Adormeço a imaginar teus abraços.
Ao saudar-te, posso jurar
que sinto teus lábios.
Estremeço só de me lembrar de ti.
Sinto teus os meus cabelos pela manhã
e pareço sentir tua boca
ao beber água cristalina ao pôr-do-sol.
Vejo-te onde quer que me encontre
e chamo por ti como se chamasse pela vida.
Estou louco.
Estou louco por ti!
José Pedro Cadima
sábado, fevereiro 24, 2007
O valor dos sentimentos
Que valor
têm os sentimentos
se ninguém os respeita?
Que valor
tenho eu
se sou todo sentimento?
Que valor
tens tu
se só sinto algo por ti?
José Pedro Cadima
têm os sentimentos
se ninguém os respeita?
Que valor
tenho eu
se sou todo sentimento?
Que valor
tens tu
se só sinto algo por ti?
José Pedro Cadima
quinta-feira, fevereiro 22, 2007
Não sou o teu amor
Odeio-me!
Não sou o ser magnífico
que procuras.
Odeio-me!
Não sou o sonho
que buscas.
Odeio-me,
por não me amares!
José Pedro Cadima
Não sou o ser magnífico
que procuras.
Odeio-me!
Não sou o sonho
que buscas.
Odeio-me,
por não me amares!
José Pedro Cadima
quarta-feira, fevereiro 21, 2007
Diz-me o teu sonho
Diz-me o teu sonho.
Diz-me o teu sonho
para o tentar realizar,
talvez assim
nos possamos mutuamente ajudar.
Diz-me o teu sonho!
Diz-me algo
que não tenhas ouvido,
ainda que não tenha nada de grandioso,
nada de bíblico.
Diz-me o teu sonho!
José Pedro Cadima
Diz-me o teu sonho
para o tentar realizar,
talvez assim
nos possamos mutuamente ajudar.
Diz-me o teu sonho!
Diz-me algo
que não tenhas ouvido,
ainda que não tenha nada de grandioso,
nada de bíblico.
Diz-me o teu sonho!
José Pedro Cadima
segunda-feira, fevereiro 19, 2007
Mergulhado num poço
Salto do alto, sim senhor.
Salto do alto por amor.
Caio fundo, meu senhor;
caio fundo mergulhado em dor.
Não há escadas para subir
e cá em baixo estou.
Não consigo sorrir,
miserável eu sou!
No fundo do poço
ninguém me ouve.
No fundo do fosso
ninguém … me ouve…
José Pedro Cadima
Salto do alto por amor.
Caio fundo, meu senhor;
caio fundo mergulhado em dor.
Não há escadas para subir
e cá em baixo estou.
Não consigo sorrir,
miserável eu sou!
No fundo do poço
ninguém me ouve.
No fundo do fosso
ninguém … me ouve…
José Pedro Cadima
domingo, fevereiro 18, 2007
sábado, fevereiro 17, 2007
O sabor de uma nova paixão
Em mim, já só sinto amor,
já só sinto paixão.
Em mim, sinto o sabor
de uma nova desilusão.
E como se não fosse já cruel
este invenerável mundo,
vieste tu com asas de papel,
qual fada, tocar-me bem fundo.
José Pedro Cadima
já só sinto paixão.
Em mim, sinto o sabor
de uma nova desilusão.
E como se não fosse já cruel
este invenerável mundo,
vieste tu com asas de papel,
qual fada, tocar-me bem fundo.
José Pedro Cadima
quinta-feira, fevereiro 15, 2007
Mais um grito
É noite e está frio.
Sinto mais um arrepio.
Faltam-me palavras para expressar
sentimentos que alguém ousou roubar.
De olhos quase vidrados,
olho lá para fora,
guardo minha alma aos bocados,
que tenta ir-se embora.
De verdade, tenho medo,
não encontro consistência nas palavras,
enquanto perco proximidade a um qualquer conto de fadas.
Então grito
até sair tudo de mim:
frio, medo e pozinhos de perlim-pim-pim.
José Pedro Cadima
Sinto mais um arrepio.
Faltam-me palavras para expressar
sentimentos que alguém ousou roubar.
De olhos quase vidrados,
olho lá para fora,
guardo minha alma aos bocados,
que tenta ir-se embora.
De verdade, tenho medo,
não encontro consistência nas palavras,
enquanto perco proximidade a um qualquer conto de fadas.
Então grito
até sair tudo de mim:
frio, medo e pozinhos de perlim-pim-pim.
José Pedro Cadima
quarta-feira, fevereiro 14, 2007
Minha Querida Helena
Espero que te encontres bem.
Após alguns poucos dias de silêncio, retomo o contacto na expectativa de não te maçar excessivamente. Aliás, com esta ausência quis evitar que as minhas cartas te cansassem como te cansou o meu amor. Infelizmente, não estou seguro de ser bem sucedido. Não me privarás dessa esperança!
Sem as tuas cartas a minha solidão foi (ainda) mais completa. Não te digo, todavia, nada que tu não saibas; não digo nada que a minha pequerrucha não conheça bem. Falo, no entanto, da minha pequerrucha e de ninguém mais... envolto num mar de saudades tão grande quanto o oceano que algumas vezes mirámos aconchegados um no outro. Por onde andará a pequerrucha que me enche de saudades?
Privar-me das tuas cartas foi também o modo que encontrei de testar a minha resistência à dor ou, se quiseres, um modo de auto-flagelação. Sigo-te nisso, de alguma forma: disse-te vezes sem conta que não entendia o gozo que parecias retirar do sofrimento que, por vezes – vezes demasiadas - te aparecia espelhado no rosto e que tanto me afligia. Pois bem, resolvi experimentar a tua receita. Dessa experiência não retirei, entretanto, mais que amargura e dor, pelo que mantenho a afirmação da falta de sentido dessa auto-penalização.
Volto ao teu contacto, meu amor, mas sinto-me muito debilitado. Daí que as minhas palavras não possam deixar de te soar arrastadas e eu seja incapaz de te assegurar por quanto tempo mais o alento me assistirá. Dá-me energia a expectativa de que as leias, mas é quase só isso que me assiste, e, concordarás, é parco para alimentar uma alma sequiosa da sua alma gémea.
Minha querida Helena, ... am...
Braga, 17 de Agosto de 2004
José Cadima
Após alguns poucos dias de silêncio, retomo o contacto na expectativa de não te maçar excessivamente. Aliás, com esta ausência quis evitar que as minhas cartas te cansassem como te cansou o meu amor. Infelizmente, não estou seguro de ser bem sucedido. Não me privarás dessa esperança!
Sem as tuas cartas a minha solidão foi (ainda) mais completa. Não te digo, todavia, nada que tu não saibas; não digo nada que a minha pequerrucha não conheça bem. Falo, no entanto, da minha pequerrucha e de ninguém mais... envolto num mar de saudades tão grande quanto o oceano que algumas vezes mirámos aconchegados um no outro. Por onde andará a pequerrucha que me enche de saudades?
Privar-me das tuas cartas foi também o modo que encontrei de testar a minha resistência à dor ou, se quiseres, um modo de auto-flagelação. Sigo-te nisso, de alguma forma: disse-te vezes sem conta que não entendia o gozo que parecias retirar do sofrimento que, por vezes – vezes demasiadas - te aparecia espelhado no rosto e que tanto me afligia. Pois bem, resolvi experimentar a tua receita. Dessa experiência não retirei, entretanto, mais que amargura e dor, pelo que mantenho a afirmação da falta de sentido dessa auto-penalização.
Volto ao teu contacto, meu amor, mas sinto-me muito debilitado. Daí que as minhas palavras não possam deixar de te soar arrastadas e eu seja incapaz de te assegurar por quanto tempo mais o alento me assistirá. Dá-me energia a expectativa de que as leias, mas é quase só isso que me assiste, e, concordarás, é parco para alimentar uma alma sequiosa da sua alma gémea.
Minha querida Helena, ... am...
Braga, 17 de Agosto de 2004
José Cadima
Tal como…
Tal como
árvores livres
de folhas,
são os corações vazios
de amor.
As folhas cobrem o chão
e as lágrimas as minhas almofadas.
Tal como
árvores livres
de folhas,
aqui estou eu
de almofadas encharcadas.
Está frio,
muito frio,
por dentro, no coração,
e muito frio, por fora,
na rua.
Prédios cheios de gente,
como corações
plenos de amor.
Pessoas com fome,
tal como corações
carentes de amor.
José Pedro Cadima
árvores livres
de folhas,
são os corações vazios
de amor.
As folhas cobrem o chão
e as lágrimas as minhas almofadas.
Tal como
árvores livres
de folhas,
aqui estou eu
de almofadas encharcadas.
Está frio,
muito frio,
por dentro, no coração,
e muito frio, por fora,
na rua.
Prédios cheios de gente,
como corações
plenos de amor.
Pessoas com fome,
tal como corações
carentes de amor.
José Pedro Cadima
domingo, fevereiro 11, 2007
Era de poetas
Estamos numa era de poetas.
Não sou o único;
não sou o primeiro,
nem serei o último.
Há os que escrevem
e há os que pintam,
mas trata-se sempre
de algo ditado pelo nosso íntimo.
José Pedro Cadima
Não sou o único;
não sou o primeiro,
nem serei o último.
Há os que escrevem
e há os que pintam,
mas trata-se sempre
de algo ditado pelo nosso íntimo.
José Pedro Cadima
sexta-feira, fevereiro 09, 2007
Eclodir de dor
Escrevo para desabafar.
Sim, porque tudo o que vejo
me dá motivo para pensar,
falar e, mais que falar, gritar,
dizer o que sinto.
Escrevo para dizer o que sinto,
dizer a verdade ou, até, mentir,
mas deixar sair tudo...
Só assim sou capaz de impedir que essa dor
ou, mesmo, o desejo de felicidade
ecludam dentro de mim.
José Pedro Cadima
Sim, porque tudo o que vejo
me dá motivo para pensar,
falar e, mais que falar, gritar,
dizer o que sinto.
Escrevo para dizer o que sinto,
dizer a verdade ou, até, mentir,
mas deixar sair tudo...
Só assim sou capaz de impedir que essa dor
ou, mesmo, o desejo de felicidade
ecludam dentro de mim.
José Pedro Cadima
quinta-feira, fevereiro 08, 2007
Cego de tristeza…
Estou cego agora…
Não sou mais nenhum herói.
Porque incomodas tu
esta ferida que tanto me dói?
Não me peças mais
para te encontrar um caminho.
A liberdade acabou!
José Pedro Cadima
Não sou mais nenhum herói.
Porque incomodas tu
esta ferida que tanto me dói?
Não me peças mais
para te encontrar um caminho.
A liberdade acabou!
José Pedro Cadima
quarta-feira, fevereiro 07, 2007
Minha Querida Helena
Por vezes, é tão difícil falar contigo. Há ocasiões em que tenho a sensação que só te escutas a ti. Digo-o não no sentido figurado - de que o teu pensamento prevaleça sobre o de outrém (o meu) - mas no exacto sentido em que, pura e simplesmente, ignoras o que te procuro transmitir, e fico a repetir palavras, a exprimir emoções crescentemente irritado e tentando controlar a vontade de bater com o telefone. Nessas ocasiões, concluo sempre, e algumas vezes digo-to, que não devia ter telefonado. O problema é que não sou capaz de antecipar quando não te devo ligar e, uma vez entrados nessa conversa de surdos, é tarde de mais para recuar, se bem que o devêssemos fazer. Cortando, estabelecendo a ligação a partir do início, a possibilidade de sucesso da comunicação é inquestionavelmente outra.
Curiosamente, isso acontece mais em ocasiões em que procuro exprimir-te a preocupação que tenho com a tua saúde ou com a tua estética, o que configura a ideia, que já te tenho repetido, de que essas são peças da tua estratégia de auto-flagelação, sendo certo que, magoando-te, me magoas também, embora as consequências desse gesto sejam bem mais gravosas para ti.
Quando finalmente consigo que me ouças, dizes-me amiúde que sou eu que sou incapaz de julgar a ordem das prioridades: a prioridade de alguém que chega e que espera atenção sobre a prioridade de agendar uma consulta médica; a prioridade de arrumar a sala sobre a prioridade de realizar um tratamento no hospital; a antecedência absoluta de uma visita ao café da D. Felizmina, de um cigarro sobre a visita ao cabeleireiro.
Não entendes tu que essa tua ordem de prioridades me confunda e me contrarie? Porque não aceitas tu, minha querida, que eu queira ver-te fresca e bonita? Onde está a irrazoabilidade deste meu querer?
Helena querida, fico a ansiar o teu sorriso.
Braga, 14 de Julho de 2004
José Cadima
Curiosamente, isso acontece mais em ocasiões em que procuro exprimir-te a preocupação que tenho com a tua saúde ou com a tua estética, o que configura a ideia, que já te tenho repetido, de que essas são peças da tua estratégia de auto-flagelação, sendo certo que, magoando-te, me magoas também, embora as consequências desse gesto sejam bem mais gravosas para ti.
Quando finalmente consigo que me ouças, dizes-me amiúde que sou eu que sou incapaz de julgar a ordem das prioridades: a prioridade de alguém que chega e que espera atenção sobre a prioridade de agendar uma consulta médica; a prioridade de arrumar a sala sobre a prioridade de realizar um tratamento no hospital; a antecedência absoluta de uma visita ao café da D. Felizmina, de um cigarro sobre a visita ao cabeleireiro.
Não entendes tu que essa tua ordem de prioridades me confunda e me contrarie? Porque não aceitas tu, minha querida, que eu queira ver-te fresca e bonita? Onde está a irrazoabilidade deste meu querer?
Helena querida, fico a ansiar o teu sorriso.
Braga, 14 de Julho de 2004
José Cadima
terça-feira, fevereiro 06, 2007
Amar
Quando se sofre
aprende-se a amar
quem nos ama.
Nessa altura,
aprende-se também a desculpar
quem não nos amou.
José Pedro Cadima
aprende-se a amar
quem nos ama.
Nessa altura,
aprende-se também a desculpar
quem não nos amou.
José Pedro Cadima
segunda-feira, fevereiro 05, 2007
O amor é…
O amor
é uma simples palavra.
Daquelas muitas
que não valem nada.
O amor
só existe como sentimento,
forte e confuso,
mas sempre sofredor.
O amor
é nada mais que uma expressão
vinda do coração.
Mas, no fim,
nem a palavra,
nem o sentimento,
nem a expressão
servirão para algo
se recebermos um não.
José Pedro Cadima
é uma simples palavra.
Daquelas muitas
que não valem nada.
O amor
só existe como sentimento,
forte e confuso,
mas sempre sofredor.
O amor
é nada mais que uma expressão
vinda do coração.
Mas, no fim,
nem a palavra,
nem o sentimento,
nem a expressão
servirão para algo
se recebermos um não.
José Pedro Cadima
domingo, fevereiro 04, 2007
Espero um sinal de inspiração
Tempos parados;
sentidos estrangulados,
vazios de emoção.
Procuro inspiração.
Ponho o lápis na mão
e traço mais uma linha,
esperando um arrepio na espinha.
Só quero um sinal,
algo bom,
como uma bola de cristal.
José Pedro Cadima
sentidos estrangulados,
vazios de emoção.
Procuro inspiração.
Ponho o lápis na mão
e traço mais uma linha,
esperando um arrepio na espinha.
Só quero um sinal,
algo bom,
como uma bola de cristal.
José Pedro Cadima
sábado, fevereiro 03, 2007
Zonas escuras
Venham os demónios!
Nunca passei por mais;
nunca passei por menos;
apenas passo por sítios diferentes,
com zonas escuras,
que me deixam a pensar em ti.
José Pedro Cadima
Nunca passei por mais;
nunca passei por menos;
apenas passo por sítios diferentes,
com zonas escuras,
que me deixam a pensar em ti.
José Pedro Cadima
sexta-feira, fevereiro 02, 2007
Como se fosse ódio
Sem querer, apaixono-me,
e de cada vez que isso acontece
sinto que morro.
Sempre louco, nunca sóbrio,
eu amo como se fosse
ódio.
José Pedro Cadima
e de cada vez que isso acontece
sinto que morro.
Sempre louco, nunca sóbrio,
eu amo como se fosse
ódio.
José Pedro Cadima
Quero-te!
Não percebes o que te digo
pois já o digo sem to dizer.
Já não sei o que sinto,
nem o que mais fazer
e o desejo de ti aumenta sem o querer.
Quero-te!
Que mais há para dizer?
Que mais posso fazer?
Quero-te!
Podes tentar percebê-lo?
José Pedro Cadima
pois já o digo sem to dizer.
Já não sei o que sinto,
nem o que mais fazer
e o desejo de ti aumenta sem o querer.
Quero-te!
Que mais há para dizer?
Que mais posso fazer?
Quero-te!
Podes tentar percebê-lo?
José Pedro Cadima
quinta-feira, fevereiro 01, 2007
Momentos de lágrimas
Se há momentos
em que se percebe tudo,
é no momento
em que se chora.
Se há algo a dizer
que fique por dizer
e se faça silêncio,
é ao cair de cada lágrima.
Se há algo a fazer,
fá-lo sem ninguém
realmente o perceber,
e, sobretudo, abraça
e chora com quem chora!
José Pedro Cadima
em que se percebe tudo,
é no momento
em que se chora.
Se há algo a dizer
que fique por dizer
e se faça silêncio,
é ao cair de cada lágrima.
Se há algo a fazer,
fá-lo sem ninguém
realmente o perceber,
e, sobretudo, abraça
e chora com quem chora!
José Pedro Cadima
quarta-feira, janeiro 31, 2007
Dor de amor
Tem que se ir com calma
pois apenas para o nada
eu me sinto preparado.
Para tudo o mais
eu sinto-me acabado.
Quando tudo acontece,
eu tenho que me preparar,
pois um abalo
me vai arrastar para o ódio
ou para o amor.
E a verdade é que mesmo o amor
me traz dor.
José Pedro Cadima
pois apenas para o nada
eu me sinto preparado.
Para tudo o mais
eu sinto-me acabado.
Quando tudo acontece,
eu tenho que me preparar,
pois um abalo
me vai arrastar para o ódio
ou para o amor.
E a verdade é que mesmo o amor
me traz dor.
José Pedro Cadima
domingo, janeiro 28, 2007
Questiono coisas inquestionáveis
Todos os dias questionamos
coisas sem questionamento,
até que descobrimos
que não é bem assim.
Questionamos o ar.
É possível questionar o ar?
Não é ar!
São sprays e tabaco.
Questionamos a terra.
É possível questionar a terra?
Não é terra.
É lixo! É um aterro!
Questiono os sonhos.
É possível questioná-los?
Não são sonhos,
nem pesadelos.
São a realidade.
José Pedro Cadima
coisas sem questionamento,
até que descobrimos
que não é bem assim.
Questionamos o ar.
É possível questionar o ar?
Não é ar!
São sprays e tabaco.
Questionamos a terra.
É possível questionar a terra?
Não é terra.
É lixo! É um aterro!
Questiono os sonhos.
É possível questioná-los?
Não são sonhos,
nem pesadelos.
São a realidade.
José Pedro Cadima
sexta-feira, janeiro 26, 2007
Minha Querida Helena
Nestes altos e baixos de ânimo, por razões próximas que não sou capaz de descortinar, retorno ao ponto mais baixo do ciclo. É o ânimo e é o cansaço, que em mim se apresentam associados. Se a semana decorresse mais intensa em matéria de solicitações de trabalho, não haveria espaço para estes sinais exteriores de debilidade, isto é, teriam que aguardar oportunidade. As coisas são entretanto como são e, por assim ser, volto ao estado de agonia na sua dimensão mais embaraçosa.
Não ligo esta ressaca aos telefonemas (dois) recentes que me fizeste, nem à visita que te fiz. Não digo que não me tenham afectado mas, se concorrem para este meu momento psicológico, fá-lo-ão em adição de razões mais profundas. Aliás, hoje não me telefonaste, embora eu mantivesse a expectativa que o fizesses. Porventura o questionário com que me brindaste ontem ficou então preenchido, pelo que não permanecia justificação para contacto posterior. Tens que conceder, no entanto, que a interrupção abrupta da ligação (por força do esgotamento das moedas) não permitiu que me desses conta do sucesso ou insucesso das respostas.
Neste interregno de comunicação, fui processando os dados que me havias feito chegar. Desses, talvez te surpreenda que o que me mereceu maior ponderação tenha sido o que se exprime na circunstância de me teres visto movimentar em Braga, sendo seguro que eu não te vi. Não mereceria atenção particular não fora a coincidência de tal se ter passado de modo idêntico em diversas outras ocasiões, a crer nas tuas alegações. E, confesso-te: gostaria de te ter visto desta e das outras vezes, particularmente desta vez.
Não te vi - disso não me resta dúvida – e não entendo como pudeste tu ver-me sem que eu te visse. A verdade é que, se a minha vista não é o que já foi, a tua não me parece em melhor estado. Tu mesma o dizes. Resulta então, daqui, um mistério. O mistério adensa-se quando eu sou visto por “A” ou por “B”, acompanhado, neste e naquele sítio, mesmo que não o tenha frequentado em período recente ou lá tenha estado sozinho. Tens que admitir que estes são dados fortes o bastante para me prenderem a atenção. Tanto mais quanto me sabes um cultor da ficção científica e um adepto confesso dos efeitos especiais. Aliás, como costumo afirmar, para ensaio sobre as misérias do quotidiano basta o próprio quotidiano. Disso fazem espectáculo diário os media.
Eis, Helena querida, um retrato do meu estar psicológico. Será bastante fidedigno já que o que está escrito antes foi-o ao sabor do pensamento livre (outros diriam, ao sabor da pena), não antecipando este final de divã de psiquiatra. É bom que assim seja para que o retrato surja bem autêntico, sem maquilhagem e sem acerto de cabelo. Perante ti posso expor-me despido, segundo creio.
Não tenho conselhos para dar ao psiquiatra. Também não lhos peço. De ti também não os pretendo receber. Se fossem beijos...
Braga, 9 de Setembro de 2004
José Cadima
Ps: correndo o risco de ser acusado de uma súbita simpatia pelo Ps. (com um pontinho em vez de dois pontos – o “s” pequeno é para simbolizar o estado em que está o socialismo), que declaro não ter qualquer fundamento, sou obrigado a recorrer outra vez a esta figura para reparar os efeitos de uma gralha que pousou sobre a data da carta de ontem, fazendo aparecer um seis onde, em verdade, estava um oito. Embora a culpa seja toda da gralha, por uma questão de afinidade com aquela, venho assumir a responsabilidade do erro.
Não ligo esta ressaca aos telefonemas (dois) recentes que me fizeste, nem à visita que te fiz. Não digo que não me tenham afectado mas, se concorrem para este meu momento psicológico, fá-lo-ão em adição de razões mais profundas. Aliás, hoje não me telefonaste, embora eu mantivesse a expectativa que o fizesses. Porventura o questionário com que me brindaste ontem ficou então preenchido, pelo que não permanecia justificação para contacto posterior. Tens que conceder, no entanto, que a interrupção abrupta da ligação (por força do esgotamento das moedas) não permitiu que me desses conta do sucesso ou insucesso das respostas.
Neste interregno de comunicação, fui processando os dados que me havias feito chegar. Desses, talvez te surpreenda que o que me mereceu maior ponderação tenha sido o que se exprime na circunstância de me teres visto movimentar em Braga, sendo seguro que eu não te vi. Não mereceria atenção particular não fora a coincidência de tal se ter passado de modo idêntico em diversas outras ocasiões, a crer nas tuas alegações. E, confesso-te: gostaria de te ter visto desta e das outras vezes, particularmente desta vez.
Não te vi - disso não me resta dúvida – e não entendo como pudeste tu ver-me sem que eu te visse. A verdade é que, se a minha vista não é o que já foi, a tua não me parece em melhor estado. Tu mesma o dizes. Resulta então, daqui, um mistério. O mistério adensa-se quando eu sou visto por “A” ou por “B”, acompanhado, neste e naquele sítio, mesmo que não o tenha frequentado em período recente ou lá tenha estado sozinho. Tens que admitir que estes são dados fortes o bastante para me prenderem a atenção. Tanto mais quanto me sabes um cultor da ficção científica e um adepto confesso dos efeitos especiais. Aliás, como costumo afirmar, para ensaio sobre as misérias do quotidiano basta o próprio quotidiano. Disso fazem espectáculo diário os media.
Eis, Helena querida, um retrato do meu estar psicológico. Será bastante fidedigno já que o que está escrito antes foi-o ao sabor do pensamento livre (outros diriam, ao sabor da pena), não antecipando este final de divã de psiquiatra. É bom que assim seja para que o retrato surja bem autêntico, sem maquilhagem e sem acerto de cabelo. Perante ti posso expor-me despido, segundo creio.
Não tenho conselhos para dar ao psiquiatra. Também não lhos peço. De ti também não os pretendo receber. Se fossem beijos...
Braga, 9 de Setembro de 2004
José Cadima
Ps: correndo o risco de ser acusado de uma súbita simpatia pelo Ps. (com um pontinho em vez de dois pontos – o “s” pequeno é para simbolizar o estado em que está o socialismo), que declaro não ter qualquer fundamento, sou obrigado a recorrer outra vez a esta figura para reparar os efeitos de uma gralha que pousou sobre a data da carta de ontem, fazendo aparecer um seis onde, em verdade, estava um oito. Embora a culpa seja toda da gralha, por uma questão de afinidade com aquela, venho assumir a responsabilidade do erro.
quarta-feira, janeiro 24, 2007
Afrodite
Então Afrodite,
onde estás tu
quando te invoco?
Onde estás tu
quando, sem amor,
eu sufoco?
Onde estás tu,
quando, rejeitado,
quase enlouqueço?
Afrodite!!!
Onde estás tu
quando da sorte
eu me separo?
Onde estás tu
quando com a rejeição
eu me deparo?
Afrodite! Afrodite!
Onde estás tu
quando, sem amor,
eu desespero?
Onde estás tu
quando da rejeição
eu não recupero?
Onde estás tu
quando uma amada
eu quero?
José Pedro Cadima
onde estás tu
quando te invoco?
Onde estás tu
quando, sem amor,
eu sufoco?
Onde estás tu,
quando, rejeitado,
quase enlouqueço?
Afrodite!!!
Onde estás tu
quando da sorte
eu me separo?
Onde estás tu
quando com a rejeição
eu me deparo?
Afrodite! Afrodite!
Onde estás tu
quando, sem amor,
eu desespero?
Onde estás tu
quando da rejeição
eu não recupero?
Onde estás tu
quando uma amada
eu quero?
José Pedro Cadima
terça-feira, janeiro 23, 2007
Já só acredito na inspiração
Sou um homem sem fé
nem religião.
Já só acredito no que se vê;
em mais que isso não.
Os santos
são figuras no altar
e Jesus
é um senhor
pregado na cruz.
Olhei toda a sociedade
e nela já não acredito.
Pelas coisas que tivemos,
pelas escolhas que fizemos,
pelos chefes que escolhemos
já só acredito
naquilo que escrevo.
José Pedro Cadima
nem religião.
Já só acredito no que se vê;
em mais que isso não.
Os santos
são figuras no altar
e Jesus
é um senhor
pregado na cruz.
Olhei toda a sociedade
e nela já não acredito.
Pelas coisas que tivemos,
pelas escolhas que fizemos,
pelos chefes que escolhemos
já só acredito
naquilo que escrevo.
José Pedro Cadima
domingo, janeiro 21, 2007
Choram os céus
Choram os céus.
Choram as pedras,
as casas e os animais.
Choram as árvores.
Choram as estrelas,
as flores e as pessoas.
Choro eu.
Choras tu.
Todos, choramos lagoas.
José Pedro Cadima
Choram as pedras,
as casas e os animais.
Choram as árvores.
Choram as estrelas,
as flores e as pessoas.
Choro eu.
Choras tu.
Todos, choramos lagoas.
José Pedro Cadima
sábado, janeiro 20, 2007
Porque escrevo?
Porque escrevo eu?
Não sei o que escrevo,
mas sei porque escrevo.
Tudo tem um sentido,
um objectivo.
Escrevo para tentar
apagar uma ilusão;
escrevo para desabafar uma emoção.
José Pedro Cadima
Não sei o que escrevo,
mas sei porque escrevo.
Tudo tem um sentido,
um objectivo.
Escrevo para tentar
apagar uma ilusão;
escrevo para desabafar uma emoção.
José Pedro Cadima
sexta-feira, janeiro 19, 2007
O amor
O amor
não tem sítio certo.
Pode ser numa escada,
num banco,
num passeio.
O amor
não se define.
Pode ser um beijo,
uma palavra,
um abraço.
O amor
não tem tempo.
Pode ser num dia,
numa noite
ou - quem me dera – sempre!
José Pedro Cadima
não tem sítio certo.
Pode ser numa escada,
num banco,
num passeio.
O amor
não se define.
Pode ser um beijo,
uma palavra,
um abraço.
O amor
não tem tempo.
Pode ser num dia,
numa noite
ou - quem me dera – sempre!
José Pedro Cadima
terça-feira, janeiro 16, 2007
Venha o demónio das mil lágrimas!
Venha a mim o demónio
das mil lágrimas
e me faça chorar tanto
que até oceanos encha,
me faça chorar tanto
que até a Terra inunde.
Venha a mim o demónio
das mil lágrimas
e me faça chorar tanto
que a água suba
até ao pico da montanha mais alta
e uma onda leve
o último sobrevivente,
e todos te culpem
por me fazeres chorar.
José Pedro Cadima
das mil lágrimas
e me faça chorar tanto
que até oceanos encha,
me faça chorar tanto
que até a Terra inunde.
Venha a mim o demónio
das mil lágrimas
e me faça chorar tanto
que a água suba
até ao pico da montanha mais alta
e uma onda leve
o último sobrevivente,
e todos te culpem
por me fazeres chorar.
José Pedro Cadima
segunda-feira, janeiro 15, 2007
Que sou eu?
Que sou eu
senão um eterno apaixonado,
um bêbado de amor,
um embriagado de angústia e de esperança.
Eu sou o poeta
que beijou uma bêbada
ou foi ela que me beijou a mim
(pois ela negou o meu beijo)?
Aqui, eu sou o romântico,
o antigo romântico,
o novo gótico
ou talvez seja, apenas,
o pós-caótico.
José Pedro Cadima
senão um eterno apaixonado,
um bêbado de amor,
um embriagado de angústia e de esperança.
Eu sou o poeta
que beijou uma bêbada
ou foi ela que me beijou a mim
(pois ela negou o meu beijo)?
Aqui, eu sou o romântico,
o antigo romântico,
o novo gótico
ou talvez seja, apenas,
o pós-caótico.
José Pedro Cadima
domingo, janeiro 14, 2007
Aqueles momentos
Há aqueles momentos,
sem nada que escrever,
sem nada para dizer.
Pois bem, este não é um deles,
e, mais do que nunca,
apetece-me escrever,
correr, saltar, delirar
e, sobretudo, estar
a teu lado e abraçar-te.
Apetece-me inspirar
e expirar muito lentamente,
ouvir a tua respiração
em sincronia com a minha.
E apetece-me
chegar os meus lábios
ao teu ouvido, lentamente,
e dizer-te que te amo.
José Pedro Cadima
sem nada que escrever,
sem nada para dizer.
Pois bem, este não é um deles,
e, mais do que nunca,
apetece-me escrever,
correr, saltar, delirar
e, sobretudo, estar
a teu lado e abraçar-te.
Apetece-me inspirar
e expirar muito lentamente,
ouvir a tua respiração
em sincronia com a minha.
E apetece-me
chegar os meus lábios
ao teu ouvido, lentamente,
e dizer-te que te amo.
José Pedro Cadima
sexta-feira, janeiro 12, 2007
Minha Querida Helena
A agitação da última dezena de dias retirou-me o tempo, a concentração e a sensibilidade necessários para te escrever e para que o que te quisesse transmitir fizesse sentido. Estive nesse investimento de corpo inteiro e se, por um lado, me senti vivo, por outro lado, esgotei-me num projecto em que sempre achei deverem estar outros. A intriga, a cumplicidade de medíocres, a falta de coragem e a incompetência convergiram para me tirar de cena, o que, se me traz alívio, traz-me, no mesmo passo, uma raiva enorme. Sempre me custou ver triunfar os medíocres e os incompetentes!
Depois de, durante uns poucos dias, ter-me sentido vivo, receio agora retornar à minha agonia. Até porque viver custa e as energias que nesse esforço são gastas dificilmente são repostas. A ver vamos.
Ao jeito de compensação, tive a alegria de te ver jovem outra vez, nesse teu arranjo de cabelo que demorou tanto que me pareceu uma eternidade. Ainda bem que abandonaste a tua obsessão de te apresentar infeliz para fazer bem presente aos outros - especialmente a mim - a tua insatisfação. Minha querida: a infelicidade não precisa de ser cultivada; nasce espontaneamente de qualquer solo. O que necessita de ser cuidado é o gosto de viver. Jovem outra vez, minha querida!
Esse corpo e alma rejuvenescidos não são, entretanto, é bom que tenhas isso presente, fato que se use e se pendure no guarda-roupa a aguardar a estação homóloga seguinte. São fato de todo o ano. Só assim me reconheço na minha Helena. Só assim reconheço o meu amor.
Pese embora o episódico retorno à vida de que te falo a abrir esta mensagem. Não tenho a capacidade de me renovar que tu possuis. Gostava da ter, digo-te. Gostava da ter por quanto a mereces. Não sendo assim, fico a desejar colher de ti a força que sinto que me escapa.
Braga, 2 de Outubro de 2004
José Cadima
Depois de, durante uns poucos dias, ter-me sentido vivo, receio agora retornar à minha agonia. Até porque viver custa e as energias que nesse esforço são gastas dificilmente são repostas. A ver vamos.
Ao jeito de compensação, tive a alegria de te ver jovem outra vez, nesse teu arranjo de cabelo que demorou tanto que me pareceu uma eternidade. Ainda bem que abandonaste a tua obsessão de te apresentar infeliz para fazer bem presente aos outros - especialmente a mim - a tua insatisfação. Minha querida: a infelicidade não precisa de ser cultivada; nasce espontaneamente de qualquer solo. O que necessita de ser cuidado é o gosto de viver. Jovem outra vez, minha querida!
Esse corpo e alma rejuvenescidos não são, entretanto, é bom que tenhas isso presente, fato que se use e se pendure no guarda-roupa a aguardar a estação homóloga seguinte. São fato de todo o ano. Só assim me reconheço na minha Helena. Só assim reconheço o meu amor.
Pese embora o episódico retorno à vida de que te falo a abrir esta mensagem. Não tenho a capacidade de me renovar que tu possuis. Gostava da ter, digo-te. Gostava da ter por quanto a mereces. Não sendo assim, fico a desejar colher de ti a força que sinto que me escapa.
Braga, 2 de Outubro de 2004
José Cadima
quinta-feira, janeiro 11, 2007
Coração de Cristal
Coração de cristal...
Eu tenho um coração de cristal,
tão frágil, tão leve...
Eu tenho um coração de cristal
estalado a meio...
Eu tenho … um coração de cristal...
E tenho-o partido... a meio...
José Pedro Cadima
Eu tenho um coração de cristal,
tão frágil, tão leve...
Eu tenho um coração de cristal
estalado a meio...
Eu tenho … um coração de cristal...
E tenho-o partido... a meio...
José Pedro Cadima
terça-feira, janeiro 09, 2007
Mundo de ouro
Mais um arrepio na espinha
de uma lembrança passada,
de algo que eu quis,
de algo que não tive...
Cruel mundo de ouro,
onde tudo é possível ver,
mas onde tudo é guardado
para aqueles que não precisam...
José Pedro Cadima
de uma lembrança passada,
de algo que eu quis,
de algo que não tive...
Cruel mundo de ouro,
onde tudo é possível ver,
mas onde tudo é guardado
para aqueles que não precisam...
José Pedro Cadima
segunda-feira, janeiro 08, 2007
Olhos de quem chora
Vês estes olhos?
São olhos de alguém que te ama;
são olhos de alguém que chora.
Sabes...
Sabes quanto anseio
ver o meu amor correspondido.
Sabes? Não te importa.
É por isso que estes são olhos de quem chora!
José Pedro Cadima
São olhos de alguém que te ama;
são olhos de alguém que chora.
Sabes...
Sabes quanto anseio
ver o meu amor correspondido.
Sabes? Não te importa.
É por isso que estes são olhos de quem chora!
José Pedro Cadima
sábado, janeiro 06, 2007
Chora comigo
Chora! Chora comigo!
Sente algo; sente algo por mim,
como eu sinto por ti.
Quando estou contigo...
Sim, quando eu estou contigo…
Chora! Chora comigo
ou vai-te embora,
para sempre!
José Pedro Cadima
Sente algo; sente algo por mim,
como eu sinto por ti.
Quando estou contigo...
Sim, quando eu estou contigo…
Chora! Chora comigo
ou vai-te embora,
para sempre!
José Pedro Cadima
sexta-feira, janeiro 05, 2007
Festim de rosas
Num festim de rosas,
podes encontrar coisas espantosas,
desde um amor estonteante
a um livro apaixonante
ou, até, uma dor profunda e obscura,
que te aperte tanto o coração que se assemelhe a tortura.
José Pedro Cadima
podes encontrar coisas espantosas,
desde um amor estonteante
a um livro apaixonante
ou, até, uma dor profunda e obscura,
que te aperte tanto o coração que se assemelhe a tortura.
José Pedro Cadima
quinta-feira, janeiro 04, 2007
Minha Querida Helena
Não tendo cedido perante o cansaço, estou a morrer de saudades tuas. Faltam-me as tuas palavras de conforto, falha-me o sossego da tua presença, falta-me o descanso do teu corpo, falta-me a alegria do teu sorriso, falha-me a esperança do teu amor. Poderá alguém sobreviver em condições tão extremas de carência? Não creio.
Responder-me-ás: culpa tua! Contrapor-te-ei: culpa minha que nunca soube lidar com o amor e, querendo conciliar o que hoje sei inconciliável (valores básicos de respeito pessoal, de dignidade humana, de tolerância ante expectativas de um projecto de vida mais feliz), perdi o direito a ser amado. Aprendi-o de experiência própria. Aprendi-o tardiamente por me recusar a acreditar que um sentimento como o amor não inspirava tolerância e respeito pela nobreza desse sentimento.
Aprendi-o em vésperas de me esgotar de saudades: saudades de uma pequerrucha plena de energia e a transbordar carinhos; saudades de uma poetisa que cantava o rio, os pássaros, as flores e a paixão que a embalava. Percebi-o quando o meu amor deixou que se instalasse no seu olhar uma sombra cinzenta, a poesia deu lugar a um discurso arrastado, de desapontamento, e nem o rio, nem as flores, nem o chilrear dos pássaros foram capazes de voltar a levar-lhe inspiração e sonho. Nessa altura, perdi-te. Desde essa altura, fiquei também eu condenado a esvair-me, senão em desencanto e desesperança, em saudades.
Chegados a este termo, imagino-me a recomeçar tudo de novo, desde o primeiro olhar, o primeiro beijo, e culpo-me por não ter sabido guiar-te por trilhos mais seguros e mais portadores de futuro; culpo-me por não ter sabido preservar-te a energia que usavas transportar e os carinhos de que transbordavas. Pensando em tudo isso, e muitas coisas mais, enquanto me culpo de não ter sabido preservar o teu sorriso, vou morrendo de saudades tuas.
Braga, 22 de Agosto de 2004
José Cadima
Responder-me-ás: culpa tua! Contrapor-te-ei: culpa minha que nunca soube lidar com o amor e, querendo conciliar o que hoje sei inconciliável (valores básicos de respeito pessoal, de dignidade humana, de tolerância ante expectativas de um projecto de vida mais feliz), perdi o direito a ser amado. Aprendi-o de experiência própria. Aprendi-o tardiamente por me recusar a acreditar que um sentimento como o amor não inspirava tolerância e respeito pela nobreza desse sentimento.
Aprendi-o em vésperas de me esgotar de saudades: saudades de uma pequerrucha plena de energia e a transbordar carinhos; saudades de uma poetisa que cantava o rio, os pássaros, as flores e a paixão que a embalava. Percebi-o quando o meu amor deixou que se instalasse no seu olhar uma sombra cinzenta, a poesia deu lugar a um discurso arrastado, de desapontamento, e nem o rio, nem as flores, nem o chilrear dos pássaros foram capazes de voltar a levar-lhe inspiração e sonho. Nessa altura, perdi-te. Desde essa altura, fiquei também eu condenado a esvair-me, senão em desencanto e desesperança, em saudades.
Chegados a este termo, imagino-me a recomeçar tudo de novo, desde o primeiro olhar, o primeiro beijo, e culpo-me por não ter sabido guiar-te por trilhos mais seguros e mais portadores de futuro; culpo-me por não ter sabido preservar-te a energia que usavas transportar e os carinhos de que transbordavas. Pensando em tudo isso, e muitas coisas mais, enquanto me culpo de não ter sabido preservar o teu sorriso, vou morrendo de saudades tuas.
Braga, 22 de Agosto de 2004
José Cadima
quarta-feira, janeiro 03, 2007
Felicidade...
As minhas mãos ardem-me
só da vontade de escrever
e desabafar tudo aquilo
que sinto e vejo.
...
O silêncio, o choro,
o amor, o ódio...
...
Quem sabe se um dia
serei capaz de ser feliz...
Tudo o que sinto
parece trazer-me infelicidade!
E tudo o que procuro, não encontro!
Choro. Que mais posso fazer?
Que mais farias tu no meu lugar?
Pois é, nada senão chorar.
José Pedro Cadima
só da vontade de escrever
e desabafar tudo aquilo
que sinto e vejo.
...
O silêncio, o choro,
o amor, o ódio...
...
Quem sabe se um dia
serei capaz de ser feliz...
Tudo o que sinto
parece trazer-me infelicidade!
E tudo o que procuro, não encontro!
Choro. Que mais posso fazer?
Que mais farias tu no meu lugar?
Pois é, nada senão chorar.
José Pedro Cadima
segunda-feira, janeiro 01, 2007
O que tu me transmites
Tu transmites-me
um estranho sentimento
que me acalma,
algo que me faz
sentir mais humano
e menos cadáver.
O que tu me transmites
é algo especial,
que me faz viver.
José Pedro Cadima
um estranho sentimento
que me acalma,
algo que me faz
sentir mais humano
e menos cadáver.
O que tu me transmites
é algo especial,
que me faz viver.
José Pedro Cadima
sábado, dezembro 30, 2006
Desespero
E o momento da morte funde-se com o da vida formando uma camada de desespero incompreensível.
José Pedro Cadima
José Pedro Cadima
sexta-feira, dezembro 29, 2006
Carente de ti
Em cada momento
que te abraço
sinto-me mais forte,
mais perto de ti,
mais perto até de mim.
Grito por ti
quando estás longe
porque me sinto perdido
e fraco, muito fraco,
carente de ti.
José Pedro Cadima
que te abraço
sinto-me mais forte,
mais perto de ti,
mais perto até de mim.
Grito por ti
quando estás longe
porque me sinto perdido
e fraco, muito fraco,
carente de ti.
José Pedro Cadima
quarta-feira, dezembro 27, 2006
O medo
O medo sente-se
como nada sentido:
a respiração;
os nervos aos saltos...
A consciência dos erros,
a certeza da inconsciência;
o medo de tudo;
o medo que te apanhem.
Será que o medo teme algo?
Se temer,
será o próprio medo.
José Pedro Cadima
como nada sentido:
a respiração;
os nervos aos saltos...
A consciência dos erros,
a certeza da inconsciência;
o medo de tudo;
o medo que te apanhem.
Será que o medo teme algo?
Se temer,
será o próprio medo.
José Pedro Cadima
segunda-feira, dezembro 25, 2006
O parque
Lembraste do parque?
Aquele com vista para o Tejo?
Nós os dois,
num banco sentados,
trocando beijos,
com tanto amor.
Só quero reviver
esse doce momento.
José Pedro Cadima
Aquele com vista para o Tejo?
Nós os dois,
num banco sentados,
trocando beijos,
com tanto amor.
Só quero reviver
esse doce momento.
José Pedro Cadima
sábado, dezembro 23, 2006
Coração falante
Ahahahaha!
Apanhei-te outra vez,
e neste meu poder
sempre te vou apanhar.
Não sou fraco.
Não sou como tu.
Tenho a quem fazer sofrer.
Sei matar-te sem morrer.
Sou o coração
que te prende à dor.
José Pedro Cadima (2005)
Apanhei-te outra vez,
e neste meu poder
sempre te vou apanhar.
Não sou fraco.
Não sou como tu.
Tenho a quem fazer sofrer.
Sei matar-te sem morrer.
Sou o coração
que te prende à dor.
José Pedro Cadima (2005)
Querido Pai Natal
Queria pedir-te alguma sanidade, pois é isso que mais me falta. A paz no mundo não me aquece nem me arrefece. É apenas uma utopia que muitos desejam sem sequer saber porquê. A guerra não é aqui; não vai cá chegar.
Quereria pedir-te alguma noção de tudo o que se passa. Sinto-me perdido; sinto-o de verdade. Não vejo dia em que não anoiteça, nem noite em que não veja o sol nascer. Todo o meu corpo suporta este cansaço, queixando-se apenas da saudade dos lençóis e não da cama.
Não te peço nada disso, por mais poder que tenhas. Não fui suficiente bom menino e castiguei o meu corpo com todas estas penosas noções. Em breve emergirá a verdade de tudo. Em breve perderei o resto da sanidade que me resta.
Não sei em que ano estamos. Talvez seja o ano dois mil ou o quatro mil. Pouco importa. A esperança média de vida não chega a um século e o ano faz apenas parte de uma data marcada para efeitos gerais. Também não me lembro do dia em que faço anos e já lá vão tantos que nem a minha idade sei. Pouco me importa se sou adolescente, adulto ou idoso. Continuo a ser eu. Pouco me importa se faço anos em Janeiro ou Agosto. Continuo a ter a mesma mãe.
Talvez o Pai Natal me pudesse dar a entender todas estas coisas e porque é que as marcamos. Talvez, nessas circunstâncias, também me possa dar a vontade de saber as datas que realmente importam: em que dia e mês nasci; em que ano estamos; entre outras. Talvez, quando lho perguntar, mo possa dizer.
Tamanho foi o meu desinteresse para com a vida que já não sei se isto é viver. Sei que se parece com tal: respiro, mexo-me, alimento-me, vejo, oiço e agora até escrevo à sua pessoa, que tão pouca gente sabe porque nos visita duas vezes por ano, uma vestida de velho outra de coelho.
Já lhe pedi tantas coisas. Sei que foram mais aquelas em que me deu algo. Ter tanto fez-me mal. Talvez a culpa seja sua. Mas também outros têm tanto e ainda lhes dão mais e não perdem o interesse em receber. Talvez tudo isto seja apenas fraqueza minha.
O meu desinteresse arrasta-se tanto que além das datas do meu nascimento, o ano em que estamos, a idade do senhor que ninguém conhece, não sei também identificar muitos dos feriados patrióticos que se avizinham aí. Serei por isso um traidor da pátria? E se o for? Serei traidor de mim mesmo por não me lembrar do dia em que nasci? Que importa!? Talvez não importe. Não tenho datas. Não sei o nome das pessoas que conheço, e escrevo uma carta à única pessoa que ainda me visita.
Já não sei as datas e confesso-lhe que se não tivesse ouvido um passarinho cantar que amanhã era dia vinte cinco, e feriado, nunca lhe escreveria esta carta interesseira a pedir que neste Abril me traga um pouco de sanidade.
Quereria pedir-te alguma noção de tudo o que se passa. Sinto-me perdido; sinto-o de verdade. Não vejo dia em que não anoiteça, nem noite em que não veja o sol nascer. Todo o meu corpo suporta este cansaço, queixando-se apenas da saudade dos lençóis e não da cama.
Não te peço nada disso, por mais poder que tenhas. Não fui suficiente bom menino e castiguei o meu corpo com todas estas penosas noções. Em breve emergirá a verdade de tudo. Em breve perderei o resto da sanidade que me resta.
Não sei em que ano estamos. Talvez seja o ano dois mil ou o quatro mil. Pouco importa. A esperança média de vida não chega a um século e o ano faz apenas parte de uma data marcada para efeitos gerais. Também não me lembro do dia em que faço anos e já lá vão tantos que nem a minha idade sei. Pouco me importa se sou adolescente, adulto ou idoso. Continuo a ser eu. Pouco me importa se faço anos em Janeiro ou Agosto. Continuo a ter a mesma mãe.
Talvez o Pai Natal me pudesse dar a entender todas estas coisas e porque é que as marcamos. Talvez, nessas circunstâncias, também me possa dar a vontade de saber as datas que realmente importam: em que dia e mês nasci; em que ano estamos; entre outras. Talvez, quando lho perguntar, mo possa dizer.
Tamanho foi o meu desinteresse para com a vida que já não sei se isto é viver. Sei que se parece com tal: respiro, mexo-me, alimento-me, vejo, oiço e agora até escrevo à sua pessoa, que tão pouca gente sabe porque nos visita duas vezes por ano, uma vestida de velho outra de coelho.
Já lhe pedi tantas coisas. Sei que foram mais aquelas em que me deu algo. Ter tanto fez-me mal. Talvez a culpa seja sua. Mas também outros têm tanto e ainda lhes dão mais e não perdem o interesse em receber. Talvez tudo isto seja apenas fraqueza minha.
O meu desinteresse arrasta-se tanto que além das datas do meu nascimento, o ano em que estamos, a idade do senhor que ninguém conhece, não sei também identificar muitos dos feriados patrióticos que se avizinham aí. Serei por isso um traidor da pátria? E se o for? Serei traidor de mim mesmo por não me lembrar do dia em que nasci? Que importa!? Talvez não importe. Não tenho datas. Não sei o nome das pessoas que conheço, e escrevo uma carta à única pessoa que ainda me visita.
Já não sei as datas e confesso-lhe que se não tivesse ouvido um passarinho cantar que amanhã era dia vinte cinco, e feriado, nunca lhe escreveria esta carta interesseira a pedir que neste Abril me traga um pouco de sanidade.
José Pedro Cadima (2006)
sexta-feira, dezembro 22, 2006
Sinto paixão
Sinto paixão
e enrolo sentimento.
Fico parado a olhá-los.
Vejo o tempo passar
mas, no amor,
faço eu o tempo andar.
José Pedro Cadima (2005)
e enrolo sentimento.
Fico parado a olhá-los.
Vejo o tempo passar
mas, no amor,
faço eu o tempo andar.
José Pedro Cadima (2005)
quarta-feira, dezembro 20, 2006
Silêncio
O silêncio
funde-se
com os meus ruídos:
os do papel
e do lápis,
enquanto escrevo.
E, mais tarde,
o que escrevo
é lido,
e, sendo-o, ao silêncio,
juntam-se doces
ou pálidas
emoções.
José Pedro Cadima (2004)
funde-se
com os meus ruídos:
os do papel
e do lápis,
enquanto escrevo.
E, mais tarde,
o que escrevo
é lido,
e, sendo-o, ao silêncio,
juntam-se doces
ou pálidas
emoções.
José Pedro Cadima (2004)
domingo, dezembro 17, 2006
Beijar-te
Era capaz de beijar o teu corpo todo,
e depois voltar a fazê-lo.
Era capaz de te olhar nos olhos,
e contemplar a beleza que deles irradia, durante horas.
Era capaz de te abraçar,
e sonhar que esse momento durasse para sempre…
José Pedro Cadima (2004)
e depois voltar a fazê-lo.
Era capaz de te olhar nos olhos,
e contemplar a beleza que deles irradia, durante horas.
Era capaz de te abraçar,
e sonhar que esse momento durasse para sempre…
José Pedro Cadima (2004)
sexta-feira, dezembro 15, 2006
A tua beleza
Escrevo poemas sobre ti
pois a tua beleza
me inspira,
e dá-me força
para continuar
a sorrir e a sonhar.
Escrevo
na expectativa do teu amor,
ansiando que não me enganes
com mentiras,
mas me encantes com verdades.
Escrevo pois tenho o dom da palavra,
tal como o dom de amar
e admirar
quem ama.
Escrevo como sinal de vida,
buscando a realidade
e almejando a imaginação libertar.
Escrevo como rejeição de amarras
outras que não sejam as do amor.
José Pedro Cadima (2004)
pois a tua beleza
me inspira,
e dá-me força
para continuar
a sorrir e a sonhar.
Escrevo
na expectativa do teu amor,
ansiando que não me enganes
com mentiras,
mas me encantes com verdades.
Escrevo pois tenho o dom da palavra,
tal como o dom de amar
e admirar
quem ama.
Escrevo como sinal de vida,
buscando a realidade
e almejando a imaginação libertar.
Escrevo como rejeição de amarras
outras que não sejam as do amor.
José Pedro Cadima (2004)
quinta-feira, dezembro 14, 2006
Onde se esconde o amor ?
E como um tiro
furou o meu peito
e meu coração.
Como uma lança
trespassou-me,
vazando a fonte da minha inspiração.
Como um canibal
comeu o meu sentimento,
que se esconde no último verso de cada terceto.
José Pedro Cadima (2005)
furou o meu peito
e meu coração.
Como uma lança
trespassou-me,
vazando a fonte da minha inspiração.
Como um canibal
comeu o meu sentimento,
que se esconde no último verso de cada terceto.
José Pedro Cadima (2005)
quarta-feira, dezembro 13, 2006
Minha Querida Helena
Já percebi a tua mensagem! Não precisas mais manter-te incomunicável com o mundo para não correres o risco de ouvir a minha voz do outro lado da linha. Não o queres, não o farei! Para mais, sei-te acompanhada por quem gostas muito, o qual, seguramente, te saberá dar o conforto que sei que te é necessário.
A esta distância, ganhou toda uma outra clareza a insistência que punhas na pergunta que me dirigiste na última ocasião em que estivemos juntos, em fim de jornada. O “agora, para onde é que me levas?”, que eu não percebi, não queria significar outra coisa senão a despedida que tinhas planeado e que imaginaste à medida da derradeira refeição de um condenado. Daí a tua recusa em acompanhar-me no jantar. Por isso, a tua tristeza, mesmo quando, acompanhando as pombas e as gaivotas, por alguns instantes, esvoaçaste ao longo da margem do rio.
Confesso-te que não sinto mágoa por não ter entendido o alcance do teu aceno de naufrago. Nunca gostei de despedidas. Evito-as sempre que posso. Se noutras ocasiões fui cúmplice de outros rituais de despedida, fui-o na ânsia de eternizar esses momentos de comunhão e porque, no fundo, sempre me recusei a creditar que fossem os últimos de uma entrega intima que, embora tu o recuses, foi muito profunda. Falo no passado, para invocar esses instantes, embora se apresente mais adequado usar o presente, querendo reportar-me ao amor que te tenho e que é agora alvo de expressão de recusa tão violenta da tua parte.
Com esse íntimo, questiono-me por quanto tempo mais aceitarás receber estas minhas cartas; quanto tempo passará até que, simplesmente, te recuses recebê-las ou lê-las. Aí, tens sempre a solução simples das rasgares antes de as abrires. Porventura, se isso te dá maior sossego exterior, toma as minhas cartas como correspondência de duas pessoas que cultivam o hábito e o gosto da escrita; dois velhos amigos de saudosas lides literárias.
Para mim, desde que as não tenha de volta, fica-me sempre a esperança que as tenhas lido e o conforto resultante de pensar que continuo a ter alguém com quem posso comunicar e a quem posso transmitir emoções e sensações provindas do fundo do coração.
De mim, meu amor não correspondido, terás todo o carinho e incentivo para que percorras um caminho mais feliz do que o que trilhaste comigo, e a certeza, que gostaria que désseis por certa, de um ombro onde sempre podes repousar.
Braga, 6 de Agosto de 2004
José Cadima
A esta distância, ganhou toda uma outra clareza a insistência que punhas na pergunta que me dirigiste na última ocasião em que estivemos juntos, em fim de jornada. O “agora, para onde é que me levas?”, que eu não percebi, não queria significar outra coisa senão a despedida que tinhas planeado e que imaginaste à medida da derradeira refeição de um condenado. Daí a tua recusa em acompanhar-me no jantar. Por isso, a tua tristeza, mesmo quando, acompanhando as pombas e as gaivotas, por alguns instantes, esvoaçaste ao longo da margem do rio.
Confesso-te que não sinto mágoa por não ter entendido o alcance do teu aceno de naufrago. Nunca gostei de despedidas. Evito-as sempre que posso. Se noutras ocasiões fui cúmplice de outros rituais de despedida, fui-o na ânsia de eternizar esses momentos de comunhão e porque, no fundo, sempre me recusei a creditar que fossem os últimos de uma entrega intima que, embora tu o recuses, foi muito profunda. Falo no passado, para invocar esses instantes, embora se apresente mais adequado usar o presente, querendo reportar-me ao amor que te tenho e que é agora alvo de expressão de recusa tão violenta da tua parte.
Com esse íntimo, questiono-me por quanto tempo mais aceitarás receber estas minhas cartas; quanto tempo passará até que, simplesmente, te recuses recebê-las ou lê-las. Aí, tens sempre a solução simples das rasgares antes de as abrires. Porventura, se isso te dá maior sossego exterior, toma as minhas cartas como correspondência de duas pessoas que cultivam o hábito e o gosto da escrita; dois velhos amigos de saudosas lides literárias.
Para mim, desde que as não tenha de volta, fica-me sempre a esperança que as tenhas lido e o conforto resultante de pensar que continuo a ter alguém com quem posso comunicar e a quem posso transmitir emoções e sensações provindas do fundo do coração.
De mim, meu amor não correspondido, terás todo o carinho e incentivo para que percorras um caminho mais feliz do que o que trilhaste comigo, e a certeza, que gostaria que désseis por certa, de um ombro onde sempre podes repousar.
Braga, 6 de Agosto de 2004
José Cadima
segunda-feira, dezembro 11, 2006
Felicidade...
As minhas mãos ardem
só da vontade de escrever
e desabafar tudo aquilo
que sinto e relatar tudo o que vejo.
....
(O silêncio; o choro;
o amor; o ódio...)
Quem sabe se um dia
serei capaz de ser feliz...
Tudo o que sinto parece trazer-me mais infelicidade!
E tudo o que procuro não encontro!
Alguma vez serei feliz?
(Choro. Que mais posso fazer?
Que mais farias tu no meu lugar?
Pois é, nada senão chorar...)
José Pedro Cadima (2005)
só da vontade de escrever
e desabafar tudo aquilo
que sinto e relatar tudo o que vejo.
....
(O silêncio; o choro;
o amor; o ódio...)
Quem sabe se um dia
serei capaz de ser feliz...
Tudo o que sinto parece trazer-me mais infelicidade!
E tudo o que procuro não encontro!
Alguma vez serei feliz?
(Choro. Que mais posso fazer?
Que mais farias tu no meu lugar?
Pois é, nada senão chorar...)
José Pedro Cadima (2005)
domingo, dezembro 10, 2006
Mortos…
“Eu morro;
tu morres;
ele morre;
nós morremos;
vós morreis;
eles morrem.”
A vida termina sempre assim.
E mesmo enquanto vivos,
de certa forma, não estamos senão mortos:
mortos de desejo;
mortos de vontade.
José Pedro Cadima (2005)
tu morres;
ele morre;
nós morremos;
vós morreis;
eles morrem.”
A vida termina sempre assim.
E mesmo enquanto vivos,
de certa forma, não estamos senão mortos:
mortos de desejo;
mortos de vontade.
José Pedro Cadima (2005)
sábado, dezembro 09, 2006
Cinco dias até lá
Apenas daqui a cinco dias
poderei gozar a tua companhia.
Até lá…
Serão cinco dias sem ti…
Serão cinco dias sem ver a luz,
cinco dias sem ver o sol,
cinco dias de completa escuridão.
José Pedro Cadima (2004)
poderei gozar a tua companhia.
Até lá…
Serão cinco dias sem ti…
Serão cinco dias sem ver a luz,
cinco dias sem ver o sol,
cinco dias de completa escuridão.
José Pedro Cadima (2004)
quinta-feira, dezembro 07, 2006
Amor que me prende
O teu olhar
prendeu-me,
tal como
o teu amor.
Só tu me fazes feliz.
Só o teu amor,
só o teu carinho
me fazem sorrir.
José Pedro Cadima (2004)
prendeu-me,
tal como
o teu amor.
Só tu me fazes feliz.
Só o teu amor,
só o teu carinho
me fazem sorrir.
José Pedro Cadima (2004)
terça-feira, dezembro 05, 2006
Escrevo com sangue
Escrevo com sangue
linhas nunca escritas,
coisas tão certas,
com letras tão ternas.
Na beleza do sangue
acho a beleza da vida.
José Pedro Cadima (2005)
linhas nunca escritas,
coisas tão certas,
com letras tão ternas.
Na beleza do sangue
acho a beleza da vida.
José Pedro Cadima (2005)
segunda-feira, dezembro 04, 2006
Melancolia...
Quero algo melancólico...
Não! Quero algo risonho,
para destroçar.
Quero algo espantoso,
para amedrontar.
Na melancolia desta vida,
não há ninguém a quem rezar,
não há nenhum deus
a quem os pecados contar.
Só existo eu.
Só existes tu.
Mais do que isso não há.
José Pedro Cadima (2005)
Não! Quero algo risonho,
para destroçar.
Quero algo espantoso,
para amedrontar.
Na melancolia desta vida,
não há ninguém a quem rezar,
não há nenhum deus
a quem os pecados contar.
Só existo eu.
Só existes tu.
Mais do que isso não há.
José Pedro Cadima (2005)
sábado, dezembro 02, 2006
Respirar a teu lado
Desde que te conheço,
tenho outro tipo de felicidade,
outro sorriso,
outro sofrimento,
outra tristeza,
outra dor.
O desespero é maior,
mas também o é a luz.
Até a minha forma
de respirar é diferente.
José Pedro Cadima (2005)
tenho outro tipo de felicidade,
outro sorriso,
outro sofrimento,
outra tristeza,
outra dor.
O desespero é maior,
mas também o é a luz.
Até a minha forma
de respirar é diferente.
José Pedro Cadima (2005)
sexta-feira, dezembro 01, 2006
Aliviado?
Sim, aliviado.
De certa forma, sinto-me…
Não! Não me sinto…
Oh! Não sei…
Talvez…
Talvez tivesse sido preferível
não lhe dizer,
não me expor,
e, simplesmente, olhá-la
de longe.
José Pedro Cadima (2004)
De certa forma, sinto-me…
Não! Não me sinto…
Oh! Não sei…
Talvez…
Talvez tivesse sido preferível
não lhe dizer,
não me expor,
e, simplesmente, olhá-la
de longe.
José Pedro Cadima (2004)
quinta-feira, novembro 30, 2006
Fases da vida
Na vida há muitas fases;
tantas, que nem imaginamos
que irão acontecer.
Num dia pensamos
que a nossa felicidade dura para sempre;
no outro pensamos como nos afundámos
em tanta miséria.
Estamos condenados a sofrer
e a sorrir sem grandes razões.
Estamos condenados a viver
e a padecer de muitas ilusões.
José Pedro Cadima (2004)
tantas, que nem imaginamos
que irão acontecer.
Num dia pensamos
que a nossa felicidade dura para sempre;
no outro pensamos como nos afundámos
em tanta miséria.
Estamos condenados a sofrer
e a sorrir sem grandes razões.
Estamos condenados a viver
e a padecer de muitas ilusões.
José Pedro Cadima (2004)
terça-feira, novembro 28, 2006
És má!
És má, muito má
pois, quando estás triste,
mostras todo o teu
pesado sofrimento,
mas, quando estás feliz,
não és capaz de mostrar
a tua felicidade,
e compensar
quem te ajudou a conquistá-la
e, por isso, deveria merecer a tua gratidão.
José Pedro Cadima (2004)
pois, quando estás triste,
mostras todo o teu
pesado sofrimento,
mas, quando estás feliz,
não és capaz de mostrar
a tua felicidade,
e compensar
quem te ajudou a conquistá-la
e, por isso, deveria merecer a tua gratidão.
José Pedro Cadima (2004)
segunda-feira, novembro 27, 2006
Passeio por arribas
Passeio nas bermas
das arribas,
a tentar não cair
num sítio onde não me apanhes.
Se cair,
quero que me agarres,
quero cair nos teus braços.
José Pedro Cadima (2005)
das arribas,
a tentar não cair
num sítio onde não me apanhes.
Se cair,
quero que me agarres,
quero cair nos teus braços.
José Pedro Cadima (2005)
domingo, novembro 26, 2006
A vida
Para alguns,
a vida é uma brincadeira
e deve ser vivida a brincar.
Mas neste jogo não há regras
e a brincar perde-se a vida.
Tanto se atrasa por brincar
que se perde o que se quer,
tal como eu perdi
e no coração senti
o ardor da dor.
Quem não perceber,
que não o tente,
pois estou arrependido
de o ter percebido.
José Pedro Cadima (2004)
a vida é uma brincadeira
e deve ser vivida a brincar.
Mas neste jogo não há regras
e a brincar perde-se a vida.
Tanto se atrasa por brincar
que se perde o que se quer,
tal como eu perdi
e no coração senti
o ardor da dor.
Quem não perceber,
que não o tente,
pois estou arrependido
de o ter percebido.
José Pedro Cadima (2004)
sábado, novembro 25, 2006
Conhecer-me melhor
A sede de conhecimento
leva-me a tentar conhecer-me melhor.
Mas é sempre perigoso
entrar em sítios reservados,
que nem mesmo eu conheço,
isto é, penetrar nos meus ideais,
escrutinar as minhas ideias.
José Pedro Cadima (2005)
leva-me a tentar conhecer-me melhor.
Mas é sempre perigoso
entrar em sítios reservados,
que nem mesmo eu conheço,
isto é, penetrar nos meus ideais,
escrutinar as minhas ideias.
José Pedro Cadima (2005)
sexta-feira, novembro 24, 2006
Minha Querida Helena
Depois de muita ansiedade, cedendo a um impulso, resolvi ligar-te. Procurava o conforto da tua voz, na dúvida sobre o desconforto das palavras que me dirigisses. Sinto-me reconfortado por esse gesto, pese embora as notícias de abandono que me veiculaste.
Permaneço na dúvida sobre se a tua desistência reiterada é fruto de um momento menos bom da vida (que todos temos, de quando em quando) ou a forma que encontraste de me penalizar. Nota porém que, a ser esta última a tua motivação, estás a admitir a força do laço afectivo que me prende a ti.
Gostei que tivesses admitido que me ligaste – para escutar a minha voz - disseste - se bem que pareça estranho que, querendo ouvir-me, tenhas desligado logo que atendi. Se me permites que o diga, acho isso mais auto-flagelação que qualquer outra coisa, mas talvez seja isso mesmo que pretendas. A tua recusa em cuidares da tua saúde, a tua insistência em descuidares o arranjo dos teus cabelos, o teu fecho para o mundo – que procuras activamente, embora depois, do nefasto que isso te é, reclames - vão nesse sentido.
Não precisavas ter-te posto incomunicável depois disso. Não precisas, aliás, recear denunciar a tua insegurança. Eu não receio fazê-lo. Antes, junto de ti a minha insegurança esvai-se. Tu és a minha segurança e a minha insegurança!
Amor meu, que posso eu fazer para te arrancar de novo um sorriso? Amor meu, que podemos nós fazer para que o sonho volte a ser possível?
Fala comigo, meu amor! Faz de mim o teu confidente, o teu refúgio, tanto quanto tu és o meu – quero dizer, tanto quanto eu preciso que voltes a ser o meu ... amor...
Braga, 9 de Julho de 2004
José Cadima
Permaneço na dúvida sobre se a tua desistência reiterada é fruto de um momento menos bom da vida (que todos temos, de quando em quando) ou a forma que encontraste de me penalizar. Nota porém que, a ser esta última a tua motivação, estás a admitir a força do laço afectivo que me prende a ti.
Gostei que tivesses admitido que me ligaste – para escutar a minha voz - disseste - se bem que pareça estranho que, querendo ouvir-me, tenhas desligado logo que atendi. Se me permites que o diga, acho isso mais auto-flagelação que qualquer outra coisa, mas talvez seja isso mesmo que pretendas. A tua recusa em cuidares da tua saúde, a tua insistência em descuidares o arranjo dos teus cabelos, o teu fecho para o mundo – que procuras activamente, embora depois, do nefasto que isso te é, reclames - vão nesse sentido.
Não precisavas ter-te posto incomunicável depois disso. Não precisas, aliás, recear denunciar a tua insegurança. Eu não receio fazê-lo. Antes, junto de ti a minha insegurança esvai-se. Tu és a minha segurança e a minha insegurança!
Amor meu, que posso eu fazer para te arrancar de novo um sorriso? Amor meu, que podemos nós fazer para que o sonho volte a ser possível?
Fala comigo, meu amor! Faz de mim o teu confidente, o teu refúgio, tanto quanto tu és o meu – quero dizer, tanto quanto eu preciso que voltes a ser o meu ... amor...
Braga, 9 de Julho de 2004
José Cadima
quinta-feira, novembro 23, 2006
O meu amor é...
O meu amor
é aquilo que faz arder o fogo,
é aquilo que molha o mar.
- Mas o fogo e o mar
não tinham já essas qualidades quando nasceste?
- Não. Eu desejo-te há muito mais tempo!
José Pedro Cadima (2005)
é aquilo que faz arder o fogo,
é aquilo que molha o mar.
- Mas o fogo e o mar
não tinham já essas qualidades quando nasceste?
- Não. Eu desejo-te há muito mais tempo!
José Pedro Cadima (2005)
terça-feira, novembro 21, 2006
Amo-te tanto
Olha: não durmo à noite...
Passo o tempo a olhar para o tecto branco
e a pensar como te conquistar.
Sabias que te amo tanto que até as estátuas choram?
Sabias que te amo tanto que a torneira pinga água salgada?
Sabias? Claro que não sabias!
José Pedro Cadima (2005)
Passo o tempo a olhar para o tecto branco
e a pensar como te conquistar.
Sabias que te amo tanto que até as estátuas choram?
Sabias que te amo tanto que a torneira pinga água salgada?
Sabias? Claro que não sabias!
José Pedro Cadima (2005)
segunda-feira, novembro 20, 2006
O que chorei por ti
Preciso que me batas,
me batas com toda a força;
preciso que me faças sangrar.
Necessito que a dor me possua
para dar sentido
às lágrimas que por ti derramei.
Na minha alma
não há nada mais poético
que o teu nome,
nada mais amado
que o teu ser.
Doces são os momentos
que passo contigo.
Doces são as horas
que me vejo passar a teu lado.
José Pedro Cadima (2005)
me batas com toda a força;
preciso que me faças sangrar.
Necessito que a dor me possua
para dar sentido
às lágrimas que por ti derramei.
Na minha alma
não há nada mais poético
que o teu nome,
nada mais amado
que o teu ser.
Doces são os momentos
que passo contigo.
Doces são as horas
que me vejo passar a teu lado.
José Pedro Cadima (2005)
domingo, novembro 19, 2006
Estranho
Algo feliz para variar?
Nem pensar!
É... não é... não foi, foi, nunca aconteceu…
Não sei o que hei-de pensar...
Festejar? Lamentar?
Só sei que te quero.
É estranho
o que acontece entre nós.
Estranho... mas...
Viva o estranho e o absurdo,
pois são eles que me fazem feliz!
José Pedro Cadima (2005)
Nem pensar!
É... não é... não foi, foi, nunca aconteceu…
Não sei o que hei-de pensar...
Festejar? Lamentar?
Só sei que te quero.
É estranho
o que acontece entre nós.
Estranho... mas...
Viva o estranho e o absurdo,
pois são eles que me fazem feliz!
José Pedro Cadima (2005)
sábado, novembro 18, 2006
O tempo que passo sem ti
As horas passam,
o tempo voa,
e eu continuo aqui
sem amor,
sem ti.
Só no meu coração
te vejo,
te beijo
e te abraço.
José Pedro Cadima (2004)
o tempo voa,
e eu continuo aqui
sem amor,
sem ti.
Só no meu coração
te vejo,
te beijo
e te abraço.
José Pedro Cadima (2004)
quinta-feira, novembro 16, 2006
Não durmo
Olho-te.
Passo o tempo todo a olhar-te
e depois não durmo à noite.
Toco-te.
Passo o tempo todo a desejar tocar-te
e depois não durmo à noite.
Beijo-te.
Passo o tempo todo à procura de um beijo teu
e depois não durmo à noite.
O sono é tanto,
mas não me passa o sonho
que é poder amar-te.
José Pedro Cadima (2005)
Passo o tempo todo a olhar-te
e depois não durmo à noite.
Toco-te.
Passo o tempo todo a desejar tocar-te
e depois não durmo à noite.
Beijo-te.
Passo o tempo todo à procura de um beijo teu
e depois não durmo à noite.
O sono é tanto,
mas não me passa o sonho
que é poder amar-te.
José Pedro Cadima (2005)
quarta-feira, novembro 15, 2006
Liberdade
Quero que a morte me leve
para um lugar bem longe do céu.
Quero uma viagem breve
que me leve para um mundo só meu.
Quero que as chamas
da liberdade se acendam,
num festim coberto de lendas
daqueles que ainda são livres.
Quero ser,
e não apenas existir.
Quero viver
e não apenas sorrir!
José Pedro Cadima (2005)
para um lugar bem longe do céu.
Quero uma viagem breve
que me leve para um mundo só meu.
Quero que as chamas
da liberdade se acendam,
num festim coberto de lendas
daqueles que ainda são livres.
Quero ser,
e não apenas existir.
Quero viver
e não apenas sorrir!
José Pedro Cadima (2005)
terça-feira, novembro 14, 2006
Na idade dos porquês
Estou outra vez
em mutação,
quer dizer, na idade dos porquês;
se bem que pareça questionar-me em vão.
Não acho resposta para nenhuma pergunta
que coloco a mim.
Sabes: as folhas no Outono? Eu sinto-me assim!
Nada resulta!
As perguntas ficam por responder
e eu sinto medo das respostas procurar.
Só me apetece esconder…
… e chorar.
José Pedro Cadima (2005)
em mutação,
quer dizer, na idade dos porquês;
se bem que pareça questionar-me em vão.
Não acho resposta para nenhuma pergunta
que coloco a mim.
Sabes: as folhas no Outono? Eu sinto-me assim!
Nada resulta!
As perguntas ficam por responder
e eu sinto medo das respostas procurar.
Só me apetece esconder…
… e chorar.
José Pedro Cadima (2005)
segunda-feira, novembro 13, 2006
Lua
De uma noite escura,
de um céu repleto de nuvens
nasceu um luar
tão grande, tão belo e feroz
que as nuvens mandou afastar.
Ai lua, que teu brilho
é tão bonito
que jamais poderá ser representado
por algo dito ou escrito.
É como o sorriso
que sai de um choro.
É como o beijo
de um qualquer namoro.
José Pedro Cadima (2005)
de um céu repleto de nuvens
nasceu um luar
tão grande, tão belo e feroz
que as nuvens mandou afastar.
Ai lua, que teu brilho
é tão bonito
que jamais poderá ser representado
por algo dito ou escrito.
É como o sorriso
que sai de um choro.
É como o beijo
de um qualquer namoro.
José Pedro Cadima (2005)
domingo, novembro 12, 2006
A carícia
Ele e ela encontravam-se no mesmo quarto: o quarto dela. Ela tinha-o convidado para ir lá a casa ver onde passava grande parte da sua vida; onde ela se escondia, onde ela se refugiava e, assim, ficava em grande medida protegida de tudo que se passava lá fora.
Eles eram velhos conhecidos. Tinham andado nas mesmas escolas e, mais tarde, integrado a mesma turma. De facto, estiveram até sentados apenas a uns metros um do outro por um certo número de anos e, mesmo vendo-se todos os dias, não trocavam palavras. Certo dia aconteceu trocarem; aconteceu verem que estavam diferentes e que precisavam de alguém com quem conversar. Nessa ocasião, acabaram por conversar, brevemente. Ficaram amigos, até.
A amizade é uma daquelas coisas que não se pode definir com explicações simples. É um gesto de carinho para quem gostamos ou simpatizamos. É o convívio diário. É o acto de apoiar; é sentir falta de alguém; é fazer alguém rir-se, divertir-se, até. Eles tinham isso tudo. Até tinham mais, se calhar, amor.
Eles tinham-se amado. Tinham mostrado esse amor mas, depois, ficou tudo mais complicado e a relação desfez-se. Agora tentavam ser amigos, apenas. De certa maneira, ainda se amavam, mas tinha sido tão difícil chegar ao ponto a que chegaram que havia neles também o medo de que tudo voltasse a repetir-se.
Coitados, forçados a rejeitar o que sentiam, em vez de serem rejeitados um pelo outro. Dá-se valor aos sacrifícios das pessoas. Devia, talvez, dar-se mais valor a estas ... Ou, talvez, devêssemos aprender a dar valor a toda a gente. Mas parece impossível. Talvez o seja mesmo.
Ambos sabiam que era complicado aquele encontro. Ambos sabiam que ia ser um momento. Mas fingiram-se desentendidos do que realmente queriam. Vi-os até fechar a caixinha de desejos para se sentarem e conversarem apenas como coitados.
Ambos sabiam que era complicado aquele encontro. Ambos sabiam que ia ser um momento. Mas fingiram-se desentendidos do que realmente queriam. Vi-os até fechar a caixinha de desejos para se sentarem e conversarem apenas como coitados.
- E este é o meu quarto…
- É maior que o meu…
- Tem um ar confortável…
- Pois é, vieste quando eu estava quase a adormecer. Estou cheia de sono.
- Tu é que me mandaste vir aqui ter.
- Pois foi… Vou dormir! – deitou-se e sorriu.
Como ela é bela; como é espantosa. Pudesse uma deusa vê-la deitar-se e sentiria tanta inveja que a amaldiçoaria.
Como ela é bela; como é espantosa. Pudesse uma deusa vê-la deitar-se e sentiria tanta inveja que a amaldiçoaria.
Ele olhou-a. Desfez-se em amor. Para além do que sentia agora, relembrou-se do que tinha sentido anteriormente; não nestes dias, mas na altura em que lho declarava abertamente. O pobre pasmava, parecia hipnotizado. “Diz-lhe o que sentes” - gritava eu aos seus ouvidos. Mas parecia não querer ouvir. Aproximou-se dela, encostou-se a ela, beijou-lhe o pescoço, deixou-se cair encostado a ela, abraçando-a, sentindo-a, como já tinha feito antes de lhe declarar o amor, mesmo que ela já o soubesse. “Não o queres?” - perguntava-lhe a ela, que nunca parecia responder aos seus apelos carinhosos.
De repente, sem dar aviso, ela circundou-o com seus braços e apertou-o contra si. Pensei estar a assistir ao retorno do amor deles. Não estava. Ela virou-se ao de leve para ele e ele para ela, parcialmente; noutra parte, ficou virado para o tecto, vendo e sonhando com as estrelas que lá estavam coladas. Rezava para que uma caísse e, ao ver a sua estrela cadente, pedir-lhe, talvez, que lhe atendesse um desejo ou, melhor: o desejo.
De repente, sem dar aviso, ela circundou-o com seus braços e apertou-o contra si. Pensei estar a assistir ao retorno do amor deles. Não estava. Ela virou-se ao de leve para ele e ele para ela, parcialmente; noutra parte, ficou virado para o tecto, vendo e sonhando com as estrelas que lá estavam coladas. Rezava para que uma caísse e, ao ver a sua estrela cadente, pedir-lhe, talvez, que lhe atendesse um desejo ou, melhor: o desejo.
Ele acariciava-a. Ela fingia-se calma, serena da sua decisão de apenas serem amigos; fingia concordar que tudo aquilo seria o melhor. Ele mexia-lhe no cabelo, fazia-lhe como que festas, beijava-lhe o pescoço e o cabelo, admirava-a. Eu gritava ao ouvido de ambos. A ele dizia: “vais ter medo de avançar? Vais ter medo de lhe mostrar o que sentes?”. A ela aconselhava: “serás mais feliz se o tentares do que se ficares com medo”. Não valia a pena. Nenhum se mexia; nenhum avançava. Sentia-me inútil, confontado com o que estava a acontecer. “Sente o desejo” - murmurava, por fim, ao ouvido de cada um deles.
Ela levantou-se. Deu uma pequena volta pelo quarto; balbucionou algumas palavras, que não percebi. Há demasiado tensão naquele quarto. Os meus sentidos estão distorcidos e baralhados. Por isso, não percebo as palavras que me chegam, e não lhes dou importância.
Ele, depois de se ter inclinado um pouco para a ver e seguir atentamente a conversa dela, deitou-se e ficou de novo a pedir algo às estrelas. Ela deitou-se de novo na cama e pôs a cabeça sobre o seu peito. Riu-se de algo que ele disse, algo pensado, porque se saísse tudo o que ele queria dizer não teria saído um sorriso mas sim um choro, dos dois.
Ele tocou-a; acariciou-a levemente. Sentiu amá-la intensamente, porque amar nunca é demais. Concentrou-se em senti-la; pareceu-lhe não haver outro prazer assim. “Vai em frente rapaz. Tens que lutar…”. Ela levantou-se novamente. Queria mostrar-lhe algo; algo não sentimental, apenas uma futilidade material. Ele interessou-se apenas por ela se interessar. Para ele passou a ser uma das coisas mais importantes de todo o universo, apesar de ser a ela que ele queria e não ao objecto. “Mostra-lhe o que tens dentro de ti.” – implorei-lhe.
Voltaram para a cama. Deitou-se ele, e ela a seu lado. Deitou-se de costas para cima e ele acarinhou a sua espinha e, devagar, desceu, meteu as mãos por dentro da camisola e foi acariciando as suas costas. Quando ela se virou de costas para ele e, também, a ele se encostou, suas mãos acariciaram sua anca e sua barriga.
O toque, o simples toque estava a remexê-lo por dentro. A sua barriga sentia cócegas, como se borboletas o roçassem. O seu corpo sentia arrepios ao tocar-lhe. Ela era uma doença para ele. As voltas da barriga, os apertos no peito, tal como quando algo estava mal, as tonturas de quando estava confuso, era o que experimentava naquela altura. O toque, o simples toque estava a fazê-lo mais feliz do que algum dia tinham feito os seus beijos.
A felicidade pode ou não derivar do amor. Ele não assistia à felicidade, apenas se sentia bem; sentia-se meio feliz mas, quando o momento acabasse, não o seria mais. Sentiria vontade de ter feito mais, de ter ido mais longe. “Avança, senão vais arrepender-te” - gritei-lhe, a ele, que já tinha ido tão longe.
Ela deixava-se estar, deixava-o acarinhá-la, deixava-o mostrar o seu amor, não por palavras ou declarações, mas apenas pelo simples toque. De certa forma, até parecia que ela estava a ser cobarde ou, mesmo, que ela o estava a gozar; deixava-o ir tão longe e, agora, não fazia nada; não parecia querer que fizesse.
“Age… por favor” - implorei-lhe. Ela tinha que agir…“Rapaz, filho, irmão, Romeu, seja qual for o título que te der, vais finalmente actuar? Vais dizer-lhe que a amas? Ou só a vais continuar a amar, em silêncio?”. “ Rapariga, moça, deusa de Romeu, Julieta…, vais algum dia voltar para os braços de teu Romeu? Vais sujeitá-lo a amar-te tanto sem lho dizer? Ele bem to mostra mas tu não queres ver. E tens medo de ouvir… Saboreia-o, pelo menos, que na tua vida poucas vezes irás ter quem te dedique tanto amor.”
José Pedro Cadima (2006)
sábado, novembro 11, 2006
O Decreto
Um cabelo liso e brilhante
no cimo de minha secretária.
É, certamente, de minha amante,
minha face contrária.
Teu cabelo, meu amor,
é mais que loiro ou preto;
é algo que funciona como um decreto:
“Não me amarás;
não me beijarás;
não me tocarás;
nem sequer me verás!”
Mas o teu cabelo, como tudo o que é teu,
invoca amor, invoca paixão.
É como um drama, cheio de emoção:
tu és Julieta; eu sou Romeu!
José Pedro Cadima (2005)
no cimo de minha secretária.
É, certamente, de minha amante,
minha face contrária.
Teu cabelo, meu amor,
é mais que loiro ou preto;
é algo que funciona como um decreto:
“Não me amarás;
não me beijarás;
não me tocarás;
nem sequer me verás!”
Mas o teu cabelo, como tudo o que é teu,
invoca amor, invoca paixão.
É como um drama, cheio de emoção:
tu és Julieta; eu sou Romeu!
José Pedro Cadima (2005)
sexta-feira, novembro 10, 2006
Diz-me que choro melhor
Diz-me que escrevo bem.
Diz-me que sou o melhor.
Chama a Camões e Torga amadores.
Faz isso por mim.
Faz de mim o teu herói.
Diz-me que choro bem.
Diz-me que sou o melhor.
Sempre que alguém chora,
chama-lhe amador.
Diz-me que choro,
que escrevo,
que abraço,
que amo,
que me lamento
melhor que toda a gente.
Diz-me que sou alguém!
José Pedro Cadima (2005)
Diz-me que sou o melhor.
Chama a Camões e Torga amadores.
Faz isso por mim.
Faz de mim o teu herói.
Diz-me que choro bem.
Diz-me que sou o melhor.
Sempre que alguém chora,
chama-lhe amador.
Diz-me que choro,
que escrevo,
que abraço,
que amo,
que me lamento
melhor que toda a gente.
Diz-me que sou alguém!
José Pedro Cadima (2005)
quarta-feira, novembro 08, 2006
Até à maldita curva
Desci para me despedir. Cheguei contigo à rua e olhei-te. Ias-te embora; ias para longe de mim. Os meus braços circundaram-te e puxaram-te para mim. A minha cabeça inclinou-se e meus lábios foram ao encontro aos teus. Belo este momento; bela a despedida.
Acreditamos que apenas na morte temos milhões de momentos da nossa vida a passar à nossa frente. Acreditamos, realmente, que isso acontece quando morremos? Poderá ser apenas um aproximar da morte que depois negamos… Será? Será que cada momento que vemos nessa hora é mais um momento que iremos reviver? Ou morre de facto uma parte da nossa vida? Uma parte nós? Se morremos… Quantas vezes se pode morrer numa vida?
Se morri, não era a primeira vez, já me tinham passado inúmeras imagens pela frente em questão de segundos em múltiplas outras ocasiões. Já me tinham passado tantas que até desacreditava que fossem minhas e, em razão dessa repetição, começava a acreditar, até, que a vida era nada mais nada menos que uma repetição por ciclos, isto é, que tudo, tudo voltava a acontecer, e a cada ciclo juntava-se algo novo.
Morri uma primeira vez num momento em que te vi com outro da mesma espécie; com o mesmo olhar; com o mesmo sexo que o meu, mas que não era eu. Vi cada momento que te tinha cortejado, cada um mais infinitamente pequeno que o outro, cada um mais infinitamente inacreditável. Até com o meu respirar eu te parecia cortejar.
Morri uma segunda quando soube, pelas tuas próprias palavras, que, um dia, tiveste a coragem de te entregar não a mim mas a outro. Nessa ocasião, passaram à minha frente milhares de milhões de porquês, milhares de milhões de lamentações, milhares e milhões de choros meus.
Morri cada vez que me rejeitaste, cada vez que o teu olhar me reprovou, cada vez que me viraste as costas e, sem perceberes que, apesar de tudo isso, te amava, fugiste. Passaram biliões de imagens, triliões de momentos, quatriliões de ideias que foram minhas, tantas que nelas me reconheci.
Agora, voltava para trás. Tu seguias em frente, determinada em ir para longe. Sei que não era pelo desejo de te veres livre de mim. Tinhas algo a fazer, mas teria que ser hoje? Teria que ser no momento que eu estava mais embalado no amor? Pois parecia que sim. Teria que me embalar no amor que deixei hoje, a chorar por mais, noutra altura.
Fechei o portão atrás de mim e enquanto tu te distanciavas eu decidi parar e encostar-me ao portão. Ainda te via. Foi essa a última vez que me senti morrer. As imagens começaram a passar, sentia-te minha mais do que tudo, sentia-te tanto. As imagens eram de nós os dois, abraçados, aos beijos, a trocar um monte de carícias. E se já tinha tido momentos destes, momentos em que vejo muitas imagens, em que relembro muitos momentos, este tinha ultrapassado todos e duplicava, triplicava, quadruplicava, todo esse número de momentos que tinha visto da última vez.
Os teus beijos eram sinceros, os teus olhos fechavam-se, a tua boca abria-se lentamente, a tua língua molhava os meus lábios, os teus braços agarravam o meu cabelo. Eu, eu limitava-me a imitar, a tentar ser tão sincero quanto tu, apenas porque acreditava que, se os teus beijos eram tão bons por serem sinceros, então eu seria mais sincero ainda por retribuir todo o carinho que recebia.
O teu corpo era como um altar, aquele local belo a que todos desejariam chegar. Vejo momentos em que lhe chego, sinto-os até. Empurro mais o portão para trás. Ele não mexe. Já está fechado. Vejo-te ao longe, a distanciares-te ainda mais. Na verdade, estarás apenas a alguns passos de distância. Eu é que sinto, vejo, saboreio, oiço, tudo tão rápido que parece que passou tanto tempo.
Se a morte é ver todas os momentos da nossa vida a passar à nossa frente, então o que é o ouvir cada momento? O saborear, o sentir…. Atrever-me-ia, talvez, a pensar que estaria a renascer. Atrever-me-ia, ainda, a admitir que nem Cristo sentiu tanto ao renascer.
Que sentia eu? Que via eu? Que saboreava eu? Que tocava eu? Porque sim, eu tocava, eu parecia tocar-te, eu pedia que me deixasses tocar-te. Era o relembrar integral de cada momento da minha vida, de cada momento em que a partilhei contigo.
Empurrava o portão, ele parecia ganhar vida e responder na mesma moeda. Parecia mais forte e resistente do que o costume. Eu fazia mais força e com mais força parecia ele resistir. Tu? Tu ias-te afastando, ao de leve, com um pé à frente do outro, a mexeres-te exactamente como uma rapariga se deve mexer, mas de uma maneira que fazia com que tu fosses a única que realmente eu apreciava ver. Afastavas-te com determinação e eu, encostado ao portão, ainda só tinha visto metade das imagens, saboreado metade dos momentos, ouvido metade das palavras.
A rua era longa, o teu percurso ainda era grande, mas não maior do que a quantidade de imagens que eu tinha pela frente. Quem me visse, diria coisas perversas sobre mim pela forma como te olhava ou faria pior: dar-me-ia como apaixonado o suficiente para cometer loucura. Todos ficariam com a ideia que te observava, que te contemplava; e talvez até o fizesse, mas era nos momentos em que a minha cabeça relembrava e não neste em que te via ir embora. Relembrar não. Reviver, porque quando algo é tão intenso uma lembrança passa a ser uma vida.
A razão pela qual podemos morrer tantas vezes é porque revivemos tanto que, aos poucos, alguns sentidos, de alguma vida, acabam por morrer, e assim morre uma vida para nos deixar com aquela que realmente temos. Porque é feio chorar por algo que já não faz sentido. Porque é horrível lamentarmo-nos por momentos já substituídos. Porque, depois de muita asneira, depois de muitos erros, acabamos por crescer e ser algo mais que a vida que temos.
É certo que neste momento passo de novo as cenas em reflexão. É verdade que em muitos momentos não soube amar-te. Mais verídico é ainda que, mesmo naquelas ocasiões em que soube, sinto que podia ter feito mais e podia, a cada momento que revivo, esforçar-me mais. Aliás, de cada vez vou mais além daquilo que fui da última e, mesmo que não o notes, eu sei que aquele beijo, aquele toque, foi mais verdadeiro…
Estás a três passos de me fazer perder-te de vista. Três passos de realmente estares longe de mim. Sinto o sabor dos teus lábios, começo a sentir a palavra “finalmente” e vejo-me encostado a ti a dar-te aquele beijo de, mais do que tudo, saudade…
Dois passos… As cenas passam tão rápido que não as consigo acompanhar. Sinto-me numa orgia de sentimentos, visões, palavras. Os meus lábios distanciam-se dos teus trazendo um sorriso. Dizes que te vais embora. Amuo; faço-te a vontade; dou-te outro beijo.
Último passo… Desci para me despedir. Cheguei contigo à rua e olhei-te. Ias-te embora, ias para longe de mim. Os meus braços circundaram-te e puxaram-te para mim. A minha cabeça inclinou-se e meus lábios foram ao encontro dos teus. Belo este momento, bela a despedida.
Morri. Renasci. Completei mais um ciclo.
Desapareceste da minha vista naquela maldita curva.
Acreditamos que apenas na morte temos milhões de momentos da nossa vida a passar à nossa frente. Acreditamos, realmente, que isso acontece quando morremos? Poderá ser apenas um aproximar da morte que depois negamos… Será? Será que cada momento que vemos nessa hora é mais um momento que iremos reviver? Ou morre de facto uma parte da nossa vida? Uma parte nós? Se morremos… Quantas vezes se pode morrer numa vida?
Se morri, não era a primeira vez, já me tinham passado inúmeras imagens pela frente em questão de segundos em múltiplas outras ocasiões. Já me tinham passado tantas que até desacreditava que fossem minhas e, em razão dessa repetição, começava a acreditar, até, que a vida era nada mais nada menos que uma repetição por ciclos, isto é, que tudo, tudo voltava a acontecer, e a cada ciclo juntava-se algo novo.
Morri uma primeira vez num momento em que te vi com outro da mesma espécie; com o mesmo olhar; com o mesmo sexo que o meu, mas que não era eu. Vi cada momento que te tinha cortejado, cada um mais infinitamente pequeno que o outro, cada um mais infinitamente inacreditável. Até com o meu respirar eu te parecia cortejar.
Morri uma segunda quando soube, pelas tuas próprias palavras, que, um dia, tiveste a coragem de te entregar não a mim mas a outro. Nessa ocasião, passaram à minha frente milhares de milhões de porquês, milhares de milhões de lamentações, milhares e milhões de choros meus.
Morri cada vez que me rejeitaste, cada vez que o teu olhar me reprovou, cada vez que me viraste as costas e, sem perceberes que, apesar de tudo isso, te amava, fugiste. Passaram biliões de imagens, triliões de momentos, quatriliões de ideias que foram minhas, tantas que nelas me reconheci.
Agora, voltava para trás. Tu seguias em frente, determinada em ir para longe. Sei que não era pelo desejo de te veres livre de mim. Tinhas algo a fazer, mas teria que ser hoje? Teria que ser no momento que eu estava mais embalado no amor? Pois parecia que sim. Teria que me embalar no amor que deixei hoje, a chorar por mais, noutra altura.
Fechei o portão atrás de mim e enquanto tu te distanciavas eu decidi parar e encostar-me ao portão. Ainda te via. Foi essa a última vez que me senti morrer. As imagens começaram a passar, sentia-te minha mais do que tudo, sentia-te tanto. As imagens eram de nós os dois, abraçados, aos beijos, a trocar um monte de carícias. E se já tinha tido momentos destes, momentos em que vejo muitas imagens, em que relembro muitos momentos, este tinha ultrapassado todos e duplicava, triplicava, quadruplicava, todo esse número de momentos que tinha visto da última vez.
Os teus beijos eram sinceros, os teus olhos fechavam-se, a tua boca abria-se lentamente, a tua língua molhava os meus lábios, os teus braços agarravam o meu cabelo. Eu, eu limitava-me a imitar, a tentar ser tão sincero quanto tu, apenas porque acreditava que, se os teus beijos eram tão bons por serem sinceros, então eu seria mais sincero ainda por retribuir todo o carinho que recebia.
O teu corpo era como um altar, aquele local belo a que todos desejariam chegar. Vejo momentos em que lhe chego, sinto-os até. Empurro mais o portão para trás. Ele não mexe. Já está fechado. Vejo-te ao longe, a distanciares-te ainda mais. Na verdade, estarás apenas a alguns passos de distância. Eu é que sinto, vejo, saboreio, oiço, tudo tão rápido que parece que passou tanto tempo.
Se a morte é ver todas os momentos da nossa vida a passar à nossa frente, então o que é o ouvir cada momento? O saborear, o sentir…. Atrever-me-ia, talvez, a pensar que estaria a renascer. Atrever-me-ia, ainda, a admitir que nem Cristo sentiu tanto ao renascer.
Que sentia eu? Que via eu? Que saboreava eu? Que tocava eu? Porque sim, eu tocava, eu parecia tocar-te, eu pedia que me deixasses tocar-te. Era o relembrar integral de cada momento da minha vida, de cada momento em que a partilhei contigo.
Empurrava o portão, ele parecia ganhar vida e responder na mesma moeda. Parecia mais forte e resistente do que o costume. Eu fazia mais força e com mais força parecia ele resistir. Tu? Tu ias-te afastando, ao de leve, com um pé à frente do outro, a mexeres-te exactamente como uma rapariga se deve mexer, mas de uma maneira que fazia com que tu fosses a única que realmente eu apreciava ver. Afastavas-te com determinação e eu, encostado ao portão, ainda só tinha visto metade das imagens, saboreado metade dos momentos, ouvido metade das palavras.
A rua era longa, o teu percurso ainda era grande, mas não maior do que a quantidade de imagens que eu tinha pela frente. Quem me visse, diria coisas perversas sobre mim pela forma como te olhava ou faria pior: dar-me-ia como apaixonado o suficiente para cometer loucura. Todos ficariam com a ideia que te observava, que te contemplava; e talvez até o fizesse, mas era nos momentos em que a minha cabeça relembrava e não neste em que te via ir embora. Relembrar não. Reviver, porque quando algo é tão intenso uma lembrança passa a ser uma vida.
A razão pela qual podemos morrer tantas vezes é porque revivemos tanto que, aos poucos, alguns sentidos, de alguma vida, acabam por morrer, e assim morre uma vida para nos deixar com aquela que realmente temos. Porque é feio chorar por algo que já não faz sentido. Porque é horrível lamentarmo-nos por momentos já substituídos. Porque, depois de muita asneira, depois de muitos erros, acabamos por crescer e ser algo mais que a vida que temos.
É certo que neste momento passo de novo as cenas em reflexão. É verdade que em muitos momentos não soube amar-te. Mais verídico é ainda que, mesmo naquelas ocasiões em que soube, sinto que podia ter feito mais e podia, a cada momento que revivo, esforçar-me mais. Aliás, de cada vez vou mais além daquilo que fui da última e, mesmo que não o notes, eu sei que aquele beijo, aquele toque, foi mais verdadeiro…
Estás a três passos de me fazer perder-te de vista. Três passos de realmente estares longe de mim. Sinto o sabor dos teus lábios, começo a sentir a palavra “finalmente” e vejo-me encostado a ti a dar-te aquele beijo de, mais do que tudo, saudade…
Dois passos… As cenas passam tão rápido que não as consigo acompanhar. Sinto-me numa orgia de sentimentos, visões, palavras. Os meus lábios distanciam-se dos teus trazendo um sorriso. Dizes que te vais embora. Amuo; faço-te a vontade; dou-te outro beijo.
Último passo… Desci para me despedir. Cheguei contigo à rua e olhei-te. Ias-te embora, ias para longe de mim. Os meus braços circundaram-te e puxaram-te para mim. A minha cabeça inclinou-se e meus lábios foram ao encontro dos teus. Belo este momento, bela a despedida.
Morri. Renasci. Completei mais um ciclo.
Desapareceste da minha vista naquela maldita curva.
José Pedro Cadima (2006)
Algo que só tu sabes
Quando estamos juntos,
sinto que dançamos,
sinto algo no ar,
sinto que algo nos junta.
Quando estamos juntos,
sinto algo que me faz assim,
algo que te faz assim,
algo que...
Sinto algo que só tu sabes.
José Pedro Cadima (2005)
sinto que dançamos,
sinto algo no ar,
sinto que algo nos junta.
Quando estamos juntos,
sinto algo que me faz assim,
algo que te faz assim,
algo que...
Sinto algo que só tu sabes.
José Pedro Cadima (2005)
Minha Querida Helena
Não encontrando outra forma de comunicar contigo, virei-me para a escrita desta carta. No desespero da tua ausência, a possibilidade de te ter ao telefone converteu-se para mim num refúgio seguro, por mais efémero e etéreo que se ofereça. Quando mesmo isso me escapa, resta-me esta pobre consolação do desabafo, na incerteza de alguma vez ser lido.
Dirás tu que tudo podia ser diferente. Digo eu que sim, se soubéramos conviver na sociabilidade quotidiana da mesma forma que convivem os nossos olhos, as nossas mãos entrelaçadas... Se soubéramos estar, digo, para além das amarras que a vida nos tece, chamem-se elas filhos, parentes, colegas ou conveniências e convenções.
E o amor? Questionarás tu. Minha querida, o amor é a componente mais frágil da relação humana dos nossos tempos. Tão frágil que nos faz definhar em cada dia que não estamos juntos – e cada vez são mais dias - mas não sensibiliza os que assistem ao nosso esgotamento.
Quisera estar contigo. Quisera alcançar a paz que a tua voz me trás. Quisera... Meu amor! Meu amor.
Braga, 24 de Junho de 2004
José Cadima
Dirás tu que tudo podia ser diferente. Digo eu que sim, se soubéramos conviver na sociabilidade quotidiana da mesma forma que convivem os nossos olhos, as nossas mãos entrelaçadas... Se soubéramos estar, digo, para além das amarras que a vida nos tece, chamem-se elas filhos, parentes, colegas ou conveniências e convenções.
E o amor? Questionarás tu. Minha querida, o amor é a componente mais frágil da relação humana dos nossos tempos. Tão frágil que nos faz definhar em cada dia que não estamos juntos – e cada vez são mais dias - mas não sensibiliza os que assistem ao nosso esgotamento.
Quisera estar contigo. Quisera alcançar a paz que a tua voz me trás. Quisera... Meu amor! Meu amor.
Braga, 24 de Junho de 2004
José Cadima
segunda-feira, novembro 06, 2006
Estranho
Estranho ser assim contigo.
Estranho seres assim comigo.
Estranho, muito estranho
sermos assim um
para o outro,
como estranhos que somos.
José Pedro Cadima (2005)
Estranho seres assim comigo.
Estranho, muito estranho
sermos assim um
para o outro,
como estranhos que somos.
José Pedro Cadima (2005)
domingo, novembro 05, 2006
Um sitio distante de mim
Desejaria partir
em busca de isolamento
num lugar bem longe daqui,
num sitio distante de mim,
onde pudesse encontrar
resposta para tudo,
no relativismo absoluto
dos teus e dos meus sentimentos.
Nem em tudo eu meto sentimentos.
Eles é que se metem em mim!
Queria encontrar resposta para problema assim.
José Pedro Cadima (2005)
em busca de isolamento
num lugar bem longe daqui,
num sitio distante de mim,
onde pudesse encontrar
resposta para tudo,
no relativismo absoluto
dos teus e dos meus sentimentos.
Nem em tudo eu meto sentimentos.
Eles é que se metem em mim!
Queria encontrar resposta para problema assim.
José Pedro Cadima (2005)
sábado, novembro 04, 2006
Amputo os sonhos
Amputo os sonhos
e com eles toda a imaginação;
paro de ser criador,
passo a ser criação.
E procurando por eles,
não os acho;
o carrasco já levou
todos os meus sonhos.
Maldita guilhotina esta
que é crescer.
No fim de tudo,
amputa os nossos sonhos,
faz-nos sofrer!
José Pedro Cadima (2005)
e com eles toda a imaginação;
paro de ser criador,
passo a ser criação.
E procurando por eles,
não os acho;
o carrasco já levou
todos os meus sonhos.
Maldita guilhotina esta
que é crescer.
No fim de tudo,
amputa os nossos sonhos,
faz-nos sofrer!
José Pedro Cadima (2005)
sexta-feira, novembro 03, 2006
Meu peixe...
As aventuras são uma monotonia.
Só as tem quem não as queria!
Em parte, estão já despedaçadas as imagens
de meu último momento heróico:
subi montanhas, saltei vales,
nadei com piranhas e outros males.
Um peixe quase me comeu!
Era grande, era forte, era meu!
A minha vontade de amar,
até os ossos me roeu.
Nem bocado quis deixar…
José Pedro Cadima (2005)
Só as tem quem não as queria!
Em parte, estão já despedaçadas as imagens
de meu último momento heróico:
subi montanhas, saltei vales,
nadei com piranhas e outros males.
Um peixe quase me comeu!
Era grande, era forte, era meu!
A minha vontade de amar,
até os ossos me roeu.
Nem bocado quis deixar…
José Pedro Cadima (2005)
quinta-feira, novembro 02, 2006
Que nos resta?
Por vezes, mais do que as que gostaria, vejo tudo perdido. Visualizo, ainda que na minha cabeça, cenas de destruição, a destruição do que me é mais querido: a nossa relação.
Se nos zangarmos, se um de nós vir algo no outro que lhe seja tão perturbador que derrube toda a “nossa” magia, que nos restará?
Se nos zangarmos, se um de nós vir algo no outro que lhe seja tão perturbador que derrube toda a “nossa” magia, que nos restará?
Restar-nos-á aquela flor que um dia te ofereci, que nela levou alguma da minha devoção, uma prova de que a nossa magia seria eterna. Mas a verdade é que nada é eterno. A flor murchou e com ela murchou uma parte da minha devoção. Não é que me não me devote; é só que que fica a faltar uma razão.
Poderá, então, restar-nos aquele poema que um dia te escrevi, e que chorei e sorri ao escrevê-lo. Pela minha parte, talvez nunca nada tinha sido feito com tanta entrega, nunca nada teria sido feito para durar tanto tempo. O poema até inteiro está e aposto que repousa. Mas mais nada faz a não ser repousar. Será que te lembras dele, sequer? Será que ainda te diz alguma coisa? Que nos resta?
Nossos beijos são quentes. As línguas entrelaçam-se tal qual o sentimento que temos um pelo outro, chegando ao pontos até de se ser só um, o único e o mesmo. A gentileza dos nossos toques chega até a transmitir preocupação pelo bem-estar do nosso único ser. Se algo nos separasse; se a saliva secasse e nossas línguas não se pudessem unir; se algo nos provocasse o contrário da preocupação e todo o contacto fosse inexistente; que nos restaria?
Hoje algo correu mal e a magia não apareceu para nos salvar. Eu disse uma frase. Tu disseste duas. Eu tive que dizer mais uma para igualar-te, e de ti saíram tantas que lhe perdi a conta. Viraste-me as costas. Eu caí sobre os meus joelhos. Correste para longe; não vi para onde foste. Encostei a cabeça baixa aos meus joelhos e chorei. Sei que foste em busca de refúgio para chorares. Que nos resta?
Restam-nos os nossos corações, mas já partidos.
José Pedro Cadima (2006)
Poderá, então, restar-nos aquele poema que um dia te escrevi, e que chorei e sorri ao escrevê-lo. Pela minha parte, talvez nunca nada tinha sido feito com tanta entrega, nunca nada teria sido feito para durar tanto tempo. O poema até inteiro está e aposto que repousa. Mas mais nada faz a não ser repousar. Será que te lembras dele, sequer? Será que ainda te diz alguma coisa? Que nos resta?
Nossos beijos são quentes. As línguas entrelaçam-se tal qual o sentimento que temos um pelo outro, chegando ao pontos até de se ser só um, o único e o mesmo. A gentileza dos nossos toques chega até a transmitir preocupação pelo bem-estar do nosso único ser. Se algo nos separasse; se a saliva secasse e nossas línguas não se pudessem unir; se algo nos provocasse o contrário da preocupação e todo o contacto fosse inexistente; que nos restaria?
Hoje algo correu mal e a magia não apareceu para nos salvar. Eu disse uma frase. Tu disseste duas. Eu tive que dizer mais uma para igualar-te, e de ti saíram tantas que lhe perdi a conta. Viraste-me as costas. Eu caí sobre os meus joelhos. Correste para longe; não vi para onde foste. Encostei a cabeça baixa aos meus joelhos e chorei. Sei que foste em busca de refúgio para chorares. Que nos resta?
Restam-nos os nossos corações, mas já partidos.
José Pedro Cadima (2006)
quarta-feira, novembro 01, 2006
Não sou o teu amor
Odeio-me!
Não sou o ser magnífico
que procuras.
Odeio-me!
Não sou o sonho
que buscas!
Odeio-me,
por não me amares.
José Pedro Cadima (2005)
Não sou o ser magnífico
que procuras.
Odeio-me!
Não sou o sonho
que buscas!
Odeio-me,
por não me amares.
José Pedro Cadima (2005)
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